3 A PRIMAZIA DO JULGAMENTO COM MÉRITO: POSTULADO NORMATIVO,
3.2 Os Contornos que Envolvem a Busca de uma Classificação
Com a direção empregada pelo novo Código de Processo Civil ao comportamento dos atores processuais na busca por resultado efetivo e resolutório do que fora tido como controverso dentro do processo, logo debruçou-se, os processualistas, nos instrumentos de concretização desta ideologia, explicando o reforço que trouxe o Código ao objetivo primordial da construção ou formação de uma relação jurídica processual, qual seja, resolver o conflito de interesses e pacificar de vez o seio social, estabelecendo condições de todas as pessoas conviverem com tranquilidade. Ficou para trás a indagação sobre no que realmente se traduz o direcionamento legal trazido pelo Código. Percebe-se que ao tratarem do tema, alguns autores partem da certeza de que estão se referindo a um princípio processual, sem discutir sua natureza jurídica perante a teoria do direito. É exemplo desses autores o Professor Fredie Didier Júnior52.
Há muita importância em se delimitar qual a espécie normativa que se configura a primazia do julgamento com análise do mérito, notadamente quando se identifica as consequências práticas da distinção entre princípios, normas-regras e postulados normativos. Dentre essas consequências estão o grau de abrangência destas normas para com a interpretação dos casos concretos, bem como a possibilidade de serem suscetíveis ou não a conflitos normativos em busca de uma melhor aplicação do direito. Nem todas as normas se aplicam num mesmo grau e, por isso, é de extrema valia a individualização de cada uma delas, para que se possa traçar um caminho lógico de resolução de conflitos, a partir de devida interpretação. A citada individualização há de ser feita, sempre, em consonância com o estudo da Teoria do Direito.
52 DIDIER JÚNIOR, Fredie. Curso de direito processual civil: introdução ao direito processual civil, parte geral e processo de conhecimento 17. ed. Jus Podivm, 2015, p. 136.
O questionamento que se pretende fazer é: será a primazia do julgamento com análise do mérito realmente um princípio, ou seria um postulado normativo ou até mesmo uma regra de especificidade comportamental? Antecede-se o esclarecimento de tal natureza jurídica a qualquer outra cientificidade sobre a matéria, porém, ressalvas são importantes para o tratamento do tema.
Com efeito, não se deve buscar a definição e encaixe de uma norma dentro da classificação de princípios jurídicos como se esta categoria somente tivesse, ao longo do tempo, assumido uma única modelagem conceitual. Há várias maneiras de se definir princípios e há várias formas de distingui-los das regras, dependendo sempre do critério em função do qual tais distinções são construídas.
Somente a partir da fixação do critério que se pretende utilizar é que será possível o correto encaixe, da norma em análise, ao grupo normativo ideal53.
O critério distintivo, deste modo, assumido neste trabalho, para o encaixe da primazia do julgamento do mérito numa das classificações normativas é, e não poderia ser diferente, o da função na interpretação e aplicação do Direito que teria tal norma a partir do momento que a reconhecesse como integrante deste ou daquele grupo normativo. A finalidade, portanto, em estabelecer a natureza jurídica da citada norma, é aplicativa, com relevância prática, não se limitando apenas a uma finalidade meramente descritiva.
A partir desta finalidade, a construção teórica jurídica sobre o assunto exige-se que se entenda a diferença na estrutura das normas que estão hoje presentes na regulamentação dos casos em concretos, sob pena de conferir maior ou menor grau devido, de incidência normativa, a questões que venham a ser objeto de litigio perante a jurisdição, bem como assumir um descontrole na densidade de aplicação destas mesmas normas perante a existência do direito material querido.
No sentido de construção teórica, portanto, imprescindível se torna o reconhecimento de que o grau de abstração de uma norma, não é, em todos os casos, o elemento diferenciador dos princípios para com as regras. Em análise crítica aos conceitos empregados na teoria do direito, corretamente se lembra que há, principalmente no campo civil, regras cujos preceitos empregados são razoavelmente vagos e/ou indeterminados, donde não se consegue a
53 ÁVILA. 2001, loc. Cit. p. 5
implementação imediata do preceito normativo à situação concreta. Nesse sentindo estão os ensinamentos de Humberto Ávila54
[...] a afirmação segundo a qual as regras são aplicadas do modo “tudo ou nada” só tem sentido quando todas as questões relacionadas à validade, ao sentido e à subsunção final dos fatos já estiverem superadas. Mesmo no caso de regras, essas questões não são facilmente solucionadas. Isso porque a vagueza não é traço distintivo dos princípios, mas elemento comum de qualquer enunciado prescritivo, seja ele um princípio, seja ele uma regra.
Faz-se obrigatório, assim, a investigação teórica de qual elemento seria capaz, unicamente, de estabelecer um ponto diferenciador entre os citados grupos normativos; perseguição que será feita em outro tópico no presente trabalho.
Há que se reconhecer que não é relativamente simples o enquadramento da primazia do mérito à categoria de princípio jurídico. Neste jaez, outros diversos pontos de identificação dos contornos que envolvem a busca por uma classificação normativa devem ser citados. Se de um lado tem-se o reconhecimento de que até mesmo as regras, em alguns casos, dependem de complementação para incidirem na esfera jurídica das pessoas, também se tem a percepção que nem todos os princípios jurídicos são incapazes de trazer, isoladamente, consequências ao cotidiano das mesmas. Assevera, mais uma vez, Humberto Ávila55 que “a razão (fim, tarefa) à qual o princípio se refere deve ser julgada relevante diante do caso em concreto”.
É neste caminhar que diversos pontos de reflexão sobre a determinação da natureza das normas são estudados. O exemplo marcante em relação a isso está na ocupação que fez Ávila na afirmação de que “valores, meros estabelecimentos de fins, axiomas, postulados normativos ou critérios” não se confundem nem se assemelham com princípios56.
Percebe-se, até aqui, que embora a afirmação do Autor se refira também aos postulados normativos, estes, com surpresa, são os que menos se assemelham aos princípios e regras, até mesmo porque fácil se torna a
54 ÁVILA, 2001, loc. Cit.
55 ÁVILA. 2001, loc. Cit. p. 15.
56 ÁVILA. 2001, loc. Cit. p. 18.
compreensão dos mesmos quando se tem a afirmação de que sempre deverão estar presentes, em qualquer julgamento de causa ou, que não são suscetíveis de conflitos com outras modalidades de normas.
Dado o contorno suficiente aos precipícios possíveis do estudo da matéria, passemos então à tentativa de enquadramento da primazia do julgamento de mérito à unicidade das estruturas normativas.
3.3 Tentativa de Encaixe da Primazia do Mérito nos Grupos de Normas do