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3 REGIME GLOBAL EMERGENTE DE POLÍTICA DE INFORMAÇÃO, REGIME DE INFORMAÇÃO E AS AÇÕES DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS

3.4 OS CONTRADITÓRIOS ENTRE MATERNIDADE E ABORTO

Concernente à natureza da mulher, função feminina por excelência, a maternidade implica sentimentos divergentes desde a antiguidade, nas primeiras sociedades. Inicialmente relacionada “as vontades da natureza” como aduz Badinter. “Plutarco, ao que parece, foi o iniciador do primeiro movimento moral em favor do aleitamento materno. Isso tende a provar que, desde essa época, pelo menos uma parte das mulheres relutava em cumprir seu dever” (BADINTER, 1985, p. 182).

Já na Idade Média, deu-se ênfase ao poder paterno que acompanhava a autoridade marital. O homem era visto como superior à mulher e à criança, diferença essa concebida como inerente à natureza humana, que o dotaria de uma autoridade natural sobre a esposa e os filhos (BADINTER, 1985).

No século XVIII, Wollstonecraft (2016a, 2016b) considera centrais os valores do casamento e da maternidade, mas ao mesmo tempo, como esposa e mãe ilustrada, defende que a mulher também poderia desempenhar seu dever de “cidadã ativa”. Para a autora, as atitudes da mãe são a base fundamental para o crescimento e a educação de seus filhos. Entretanto, se não houvesse modificações nos valores que giravam em torno da maternidade, não haveria melhorias nas condições da mulher nos campos social e político.

Além de que, a maternidade passa a ser considerada não só como uma função biológica da mulher, mas também como uma situação influenciada pelos diversos campos existentes, além de instituições, de ferramentas políticas do Estado e comportamentos da sociedade.

Wollstonecraft (2016b, p. 216) destaca que a maternidade centrada na figura da mulher a constrange ao confinamento do lar, fazendo com que os devaneios do confinamento a façam, por vezes, abandonar seus deveres com relação ao nascituro. “É a falta de gosto doméstico, e não a aquisição de conhecimento, que tira as mulheres da família e separa o sorridente bebê do seio que deveria fornecer-lhe o alimento”

Apesar de defender a maternidade, Wollstonecraft, (2016b, p. 75) alerta que mesmo as mulheres tendo diferentes obrigações a cumprir, são “obrigações humanas”, mantendo com firmeza “que os princípios a regular seu desempenho devem ser os mesmos”.

No Brasil, Nísia Floresta, um século mais tarde, também participa do debate sobre maternidade, escrevendo a obra “Conselhos à minha filha”, dedicado à filha Lívia, na qual

explica que, se por um lado, em determinada época, a presença da mulher era ocultada em consequência da rígida estratificação social que engrandecia os homens, por outro, a imagem da mulher se transformava no centro das atenções, devido ao reconhecimento de sua função biológica exclusiva: a maternidade (SCHUMAHER, 2000).

Mais adiante, além da valorização do sacrifício e do devotamento da mulher em benefício dos filhos e da família, tais comportamentos surgem também no discurso médico como inerentes à natureza da mulher. A responsabilidade da maternidade, que confere à mulher o status de valorização perante a família e a sociedade, termina, ao mesmo tempo, por afastá-la de ambas. Caso se recusasse a exercê-la, via-se envolvida pelo sentimento de culpa e suspeita de patologia como desvio sexual ou desequilíbrio mental.

Dando seguimento à polêmica, Beauvoir elucida que:

Quanto às servidões da maternidade, elas assumem, segundo os costumes, uma importância muito variável: são esmagadoras se se impõem à mulher muitas procriações e se ela deve alimentar e cuidar dos filhos sem mais ajuda; se procria livremente, se a sociedade a auxilia durante a gravidez e se se ocupa da criança, os encargos maternais são leves e podem ser facilmente compensados no campo do trabalho (BEAUVOIR, 2009, p. 88).

Considera-se, contudo, o cotidiano atual das mulheres que não comporta mais o imperativo da maternidade ser o ideal de realização de todas as mulheres. A disponibilidade, outras possibilidades além do casamento e o maior acesso às informações refletiram sobre o querer ou não ‘ser mãe’. Assim, Beauvoir (2009, p. 93) adverte “Não seria possível obrigar diretamente uma mulher a parir: tudo o que se pode fazer é encerrá-la dentro de situações em que a maternidade é a única saída; a lei ou os costumes impõem-lhe o casamento, proíbem as medidas anticoncepcionais, o aborto e o divórcio”.

Neste contexto, o Regime de Informação que estabelece os sujeitos, as organizações e as regras que envolvem o ato de abortar, configuram-se de acordo com as relações de poder.

Cabe ressaltar que a informação e a contrainformação referentes ao aborto acompanham os campos social, cultural, religioso, econômico e que ao longo dos anos agregaram particularidades ao habitus da mulher de gerar ou não um filho concebido.

Como observa Beauvoir:

O direito romano não concedia proteção especial à vida embrionária; não encarava o

nasciturus como um ser humano, e sim como parte do corpo materno. [...] o aborto apresentava-se como prática normal e, quando o legislador quis incentivar os nascimentos, não ousou proibi-lo. Se a mulher recusava o filho contra a vontade do marido, este podia mandar puni-la; mas era a desobediência que constituía o delito. No conjunto da civilização oriental e greco-romana, o aborto era permitido por lei. [...] Foi o cristianismo que, nesse ponto, revolucionou as ideias morais, dotando o embrião de uma alma; então o aborto tornou-se um crime contra o próprio feto.

(BEAUVOIR, 2009, p. 179).

Com efeito, foi entre determinismos e adversidades que a crença e o consenso se estabeleceram a respeito da organização do mundo, permitindo que a Igreja exercesse um papel de legitimadora e sancionadora da ordem vigente, influenciando diretamente na manutenção das normativas proibitivas existentes.

De acordo com Bourdieu:

Os esquemas de pensamento de percepção constitutivas da problemática religiosa podem produzir a objetividade que produzem somente ao produzirem o desconhecimento dos limites do conhecimento que tornam possível (isto é, a adesão imediata, sob a modalidade da crença, ao mundo da tradição vivido como o “mundo natural” e do arbitrário da problemática, um verdadeiro sistema de questões que não é questionado (BOURDIEU, 2015, p. 47).

Predominando o consenso que efetiva o desconhecimento das implicações sociais e econômicas e todo o contexto da maternidade, inclusive a maternidade indesejada, resta à bancada religiosa do Congresso Nacional manter os dogmas instituídos, tentando evitar questionamentos por militantes contrários à sua proibição.

Ressalta-se que apesar das opiniões emanadas sobre o aborto no campo político se encontrarem em consonância com a normativa jurídica, que preceitua o direito fundamental à vida, estão inarticuladas com a vontade da mulher sobre seu corpo. Este fato resulta em ambiguidades no que tange à afetação da maternidade. Ademais, entre informações e ruídos, as implicações que rodeiam o nascimento de uma criança e o aborto não se estancam na mulher, como bem adverte Beauvoir:

Cabe observar, aliás, que a sociedade tão encarniçada na defesa dos direitos do embrião se desinteressa da criança a partir do nascimento; perseguem as praticantes do aborto em vez de procurarem reformar essa escandalosa instituição que chamam Assistência Pública; deixam em liberdade os responsáveis que entregam os pupilos a verdugos; fecham os olhos à horrível tirania que exercem “em casas de educação” ou em residências privadas os carrascos de crianças; se recusam a admitir que o feto pertence à mulher que o traz no ventre, e asseguram por outro lado que o filho é coisa dos pais [...] (BEAUVOIR, 2009, p. 646).

Verdadeiramente, é a informação qualitativa que deveria influenciar os campos social e econômico e não os resultados de pesquisas quantitativas. Atenta-se que o aborto reflete eventos relacionados aos capitais cultural e religioso; nas esferas pessoal e coletiva, feminina e masculina. Quer no casamento, ou fora dele, são informações complexas que abrangem a decisão de ser ou não ser mãe.

Esta natureza dialética das informações sobre nascimento e aborto fica atestada na colocação de Beauvoir (2009, p. 656), quando aduz que “o controle de natalidade e o aborto

legal permitiriam à mulher assumir livremente suas maternidades” e que se, por vezes, a mulher deseja a maternidade sem ter condições de obtê-la, outras, muitas vezes, é obrigada a gerar contra a sua vontade. Fica evidente que “gravidez e maternidade são vividas de maneira muito diferente, caso se desenvolvam na revolta, na resignação, na satisfação, no entusiasmo”.

A maternidade reflete, na mulher, modificações físicas e psicológicas que acontecem antes, durante e depois do parto. Apesar de toda a gama de novas informações e possibilidades que envolvem a medicina e a biologia, de todas as descobertas e os avanços no campo da genética, a legislação brasileira ainda não contempla a vontade da mulher em relação ao seu corpo.

O Código Penal brasileiro prescreve os ditames sobre o aborto nos artigos 124 a 127, prescrevendo que a mulher que provocar aborto em si mesma ou consentir que outrem lhe provoque, ficará detida de um a três anos. No que se refere ao aborto provocado por terceiro, quando sem o consentimento da gestante, ficará o terceiro recluso de três a dez anos e com o consentimento, ficará recluso de um a quatro anos, podendo a pena ser aumentada em um terço, se, em consequência do aborto ou dos meios empregados para provocá-lo, a gestante sofrer lesão corporal de natureza grave; e duplicada, se, por qualquer destas causas, a mulher vier a falecer (BRASIL, 1940).

Só existem três casos em que o aborto provocado é legal: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. As duas primeiras previstas no Código Penal e a última autorizada pela Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 54, de 2012, (BRASIL, 1940; BRASIL, Supremo Tribunal Federal, 2012).

Cabe ressaltar parte do conteúdo desta ADPF, por estar em consonância com os ideais defendidos neste trabalho:

Simone de Beauvoir já exclamava ser o mais escandaloso dos escândalos aquele a que nos habituamos. Sem dúvida. Mostra-se inadmissível fechar os olhos e o coração ao que vivenciado diuturnamente por essas mulheres, seus companheiros e suas famílias. Compete ao Supremo assegurar o exercício pleno da liberdade de escolha situada na esfera privada, em resguardo à vida e à saúde total da gestante, de forma a aliviá-la de sofrimento maior, porque evitável e infrutífero. Se alguns setores da sociedade reputam moralmente reprovável a antecipação terapêutica da gravidez de fetos anencéfalos, relembro-lhes de que essa crença não pode conduzir à incriminação de eventual conduta das mulheres que optarem em não levar a gravidez a termo. O Estado brasileiro é laico e ações de cunho meramente imorais não merecem a glosa do Direito Penal (BRASIL, STF, 2012).

Também merece destaque o julgamento do Habeas Corpus nº 124.306, pela Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que ocorreu no dia 29 de novembro de 2016, de

relatoria do ministro Barroso, em que ele afirma que “a criminalização da interrupção voluntária da gestação atinge gravemente diversos direitos fundamentais das mulheres, com reflexos inevitáveis sobre a dignidade humana” e que é preciso compreender que “a mulher que se encontre diante desta decisão trágica – ninguém em sã consciência suporá que se faça um aborto por prazer ou diletantismo – não precisa que o Estado torne a sua vida ainda pior, processando-a criminprocessando-almente” (BRASIL, Supremo Tribunprocessando-al Federprocessando-al, 2016).

Acrescenta-se a esta polêmica os resultados sobre abortos espontâneos e provocados evidenciados pelas últimas pesquisas realizadas pelo IBGE, em 2013. Os números revelam que mais de 8,7 milhões de brasileiras, com idade entre 18 e 49 anos, já fizeram ao menos um aborto na vida. Destes, 1,1 milhão de abortos foram provocados.

No Nordeste, por exemplo, o percentual de mulheres sem instrução que fizeram aborto provocado (37% do total de abortos) é sete vezes maior do que o de mulheres com superior completo (5%). Entre as mulheres negras, o índice de aborto provocado (3,5% das mulheres) é o dobro daquele verificado entre as brancas (1,7% das mulheres) (IBGE, 2013).

Quanto mais pesquisas quantitativas são apresentadas, menos avaliações e ações representativas são realizadas e quase nenhuma solução é efetivada para a população de baixa renda. As políticas públicas deveriam ser ampliadas e as campanhas publicitárias, com informações relevantes a saúde gestacional, deveriam ser constantes nas mídias governamentais.

Soma-se a isso a tramitação de proposições no Congresso Nacional que complicam e limitam o atendimento às vítimas de violência sexual, apoiada pela bancada religiosa que deseja dificultar ainda mais casos em que o aborto é legal no Brasil.

O Projeto de Lei (PL) nº 5069, de 27 de fevereiro de 2013, de autoria do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), e outros 12 deputados prevê que uma vítima de abuso sexual ou estupro terá que realizar um boletim de ocorrência e fazer um exame de corpo de delito para, só então, ser atendida em uma unidade de saúde. Medidas incompatíveis com o temor que a mulher sente de denunciar seu agressor (BRASIL, Congresso, Câmara dos Deputados, 2013).

O texto também modifica o tipo de atendimento que essa vítima receberá no hospital, vetando, por exemplo, que ela receba orientações sobre aborto legal, contudo, não define o que é abortivo, deixando a critério do julgamento do médico. A última ação legislativa deste PL ocorreu em 21 de outubro de 2015, quando foi aprovado o parecer, com complementação de voto, mantidos os textos destacados pelas Bancadas do PT (1 de 2), do PSOL, do PSDB, do PT (2 de 2) e do PCdoB, na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) (BRASIL, Congresso, Câmara dos Deputados, 2013d).

Outras proposições, também de autoria do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), estão na contramão da liberdade da mulher com relação ao seu corpo. O PL nº 7443, de 05 de setembro de 2006, que dispõe sobre a inclusão do tipo penal de aborto como modalidade de quando foi recebido pela Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher (CMULHER) e apensado ao PL nº 4917/2001 (BRASIL, Congresso, Câmara dos Deputados, 2006b).

E ainda, o PL nº 1545, de 08 de junho de 2011, que impõe ao médico que praticar o aborto, fora das hipóteses previstas em lei, uma pena de prisão que vai de 6 (seis) a 20 anos. A última ação legislativa deste PL ocorreu em 27 de junho de 2011 e estava na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania estando pronta para pauta no plenário (PLEN) para apreciação do mérito (BRASIL, Congresso, Câmara dos Deputados, 2011e).

Outra proposição é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 164, de 02 de maio de 2012, que estabelece a inviolabilidade do direito à vida desde a concepção, incluindo, portanto, o feto. A última ação legislativa deste PL ocorreu em 18 de março de 2015 está na Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) e houve a designação de Relator, o Dep. Rodrigo Pacheco (PMDB-MG) (BRASIL, Congresso, Câmara dos Deputados, 2012).

Todas essas iniciativas visam conservar o habitus do campo religioso vigente. A estes dissabores, congrega-se a sociedade sexista brasileira com todos os seus fetiches e alegorias que não fornece benefícios, nem oportunidades para que a mulher se torne a protagonista da história. Os homens sempre são impulsionados à transcendência por se considerarem donos de seus corpos e suas mentes, enquanto as mulheres são condenadas a ficar em situação de imanência aguardando que o Congresso Nacional brasileiro, com integrantes predominantemente do sexo masculino, decida o que elas vão fazer com seus corpos e suas mentes.

3.5 CONCEPÇÕES SOBRE A ENTRADA NO MERCADO DE TRABALHO E A BUSCA