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UMA VARIEDADE DE TEMAS SUBJACENTES AO ESTUDO DA HUMANIDADE

6. Alguns dos principais argumentos de Mendes Correia

6.3. Raciologia não é racismo:

6.3.1. Os contributos científicos da antropobiologia

Não obstante as incertezas e suposições, Mendes Correia vai encontrando segurança para afirmar a existência de distintas raças humanas, assim como a desigualdade entre elas. Por exemplo, no livro Raça e Nacionalidade considera que entre os grupos humanos existentes, que denomina por raças, existia uma hierarquia mental e social (1919b: 14). Porém, esta hierarquia sustentada numa análise antropológica, baseada em medições e classificações, levantou ao antropólogo algumas questões. Para o autor, uma das dificuldades quase insuperáveis na «análise antropológica das populações» era a das classificações, sendo que as classificações «naturais» da biologia eram fundadas em dois critérios: o da associação e o da hierarquia dos caracteres. (1933a: 11). Reconhece que em antropologia existiam várias classificações e que a de Blumenbach133 já não se podia adoptar. Além disso, segundo os autores seus contemporâneos existiriam entre 3 e 12, ou mais, «raças» europeias (idem, p. 12).

Para além das classificações, era «precário» o resultado dos esforços para estabelecer uma hierarquia dos caracteres antropológicos: cor da pele, índice cefálico, hereditariedade, caracteres morfológicos ou grupos sanguíneos, por exemplo. Segundo o professor da FCUP, vulgarmente dava-se mais importância à cor da pele, já que era «um dos caracteres mais

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Johann Friedrich Blumenbach (1752-1840), professor de medicina na Universidade de Gottingen, realizou os primeiros estudos de craniologia e pôs em causa o critério de hibridação de Buffon, embora se tenha inspirado na sua obra. Para este autor, todos os grupos humanos pertenciam à mesma espécie e a variação física era devida às circunstâncias climáticas. Defendeu ainda que a face seria tanto mais bonita quanto mais moderado fosse o clima. Assim, como os negros estavam mais longe do clima temperado, seriam necessariamente menos bonitos (Mosse, 1992; Stocking, 1988). A sua divisão da humanidade em cinco variedades humanas - caucasiana, mongolóide, etíope, americana e malaia - em 1781 (Augstein, 1996) que viria a ser muito influente no século seguinte, teve como critérios o tamanho do crânio e as formas do nariz e do queixo.

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aparentes», e muitos antropólogos perfilhavam esse critério, embora a maioria preferisse o índice cefálico (Correia, 1933a: 12). Não obstante, e como observa, «são dolicocéfalos muitos Europeus, os Negros, os Australianos, como são braquicéfalos outros Europeus, raros Negros, muito Índios da América, os Mongóis» (idem, p. 12). Ou seja, o índice cefálico parecia aproximar grupos muito distintos e afastar outros, à partida, muito próximos. Embora tivesse um grande valor, não tinha uma importância exclusiva. Assim, numa comunicação à Société de Biologie, o autor sugeriu que a minoria de crânios braquicéfalos entre a população portuguesa (maioritariamente dolicocéfala) seria apenas representativa de «casos extremos de variação individual dos tipos dolicocéfalos» (Correia, 1933a: 13). Para o professor, era difícil indicar com segurança «se esses caracteres são atribuíveis a raças puras, a cruzamentos ou influências de vários elementos étnicos, a variações individuais» ou à «influência morfogenética do meio» (idem, ibidem).

No âmbito da análise antropológica, outro estudo fundamental era o da hereditariedade, embora este lhe colocasse várias questões. Por exemplo, os estudos de Davenport, Hurst, Danielson, Fischer, Frets, Hilden, entre outros, ilustravam várias dificuldades134 (Correia, 1933a: 16). O professor aborda ainda o modo como a morfologia e a fisiologia estavam relacionadas, já que a forma se podia traduzir num fenómeno funcional. Estes aspectos, anteriormente referidos, servem para recordar que a antropologia, até então sobretudo uma antropomorfologia135, se tinha orientado num sentido «mais racional e prático» – o da antropobiologia (na expressão do alemão Eugen Fischer) (Correia, 1933a: 17). Ora, também o estudo da «raça», vista por Mendes Correia como uma «entidade morfobiológica e não puramente morfológica» e «estática» (idem, ibidem), vem contribuir para esta deslocação no sentido de uma antropobiologia, considerada pelo autor mais científica do que as anteriormente referidas antropossociologia e antropomorfologia. Essa mudança vai também no sentido de estudar mais os elementos internos e não apenas os externos, ou mais facilmente visíveis, do corpo humano. Para esta nova ciência, apresenta a seguinte definição:

A Antropobiologia ocupa-se de investigações sobre a hereditariedade normal e patológica no homem, dos estudos eugénicos, da fisiologia das raças, dos grupos sanguíneos e outros assuntos de bioquímica humana, das constituições e temperamentos, da determinação da base biológica da mentalidade e actividade das diferentes raças, etc. (Correia, 1993a: 18).

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Mendes Correia refere as seguintes: «o pequeno número de filhos, relativamente a outras espécies vivas; a impossibilidade de promover cruzamentos à vontade do investigador; a longa duração da infância, que não permite a cada investigador o estudo de muitas gerações» (1933a: 16).

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Outro aspecto a ter em conta era o dos grupos sanguíneos. Mendes Correia cita, entre outros, os trabalhos de Dungern, Hirszfeld, F. Bernstein (professor de estatística na Universidade de Göttingen) e Tanemoto Furuhata (professor de medicina legal na Universidade de Kanazawa). Segundo alguns autores, era possível relacionar grupo sanguíneo e constituição e/ ou grupo sanguíneo e «raça». Em Portugal só em 1926 tinha surgido um trabalho sobre os grupos sanguíneos dos portugueses com a tese de doutoramento de Adélia Seirós da Cunha, no IAUP. E em 1928 foi publicado um estudo sobre os grupos hemáticos nos portugueses, realizado por Waldemar Teixeira, no Instituto Bacteriológico Câmara Pestana de Lisboa. O próprio Mendes Correia escreveu artigos sobre o sangue, onde se opôs a Bernstein (Correia, 1926d, 1927), embora tenha ficado impressionado com os seus resultados, como mostrou numa comunicação à ACL em 1930 (Correia, 1933a: 27). No seu entender, dos «estudos de soroantropologia136 portuguesa» há dois factos a reter. O primeiro é que «os Portugueses não têm afinidades hemáticas com os negros africanos» (1933a: 36), que, ao contrário dos primeiros, tinham baixos índices bioquímicos e proporções elevadas do grupo B (gráfico n.º 2). O segundo é que «o povo português é o de menor índice cefálico médio na Europa», o que, segundo o autor, «atesta antiguidade e relativa pureza étnica». Além disso, «as diferenças de médias provinciais ou distritais em vários caracteres não são tão elevadas como noutros países, o que atesta maior homogeneidade» (idem, p. 40).

Gráfico n.º 2. Comparação entre grupos sanguíneos (Correia, 1933a: 37).

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As conclusões a que chega, baseado nos seus próprios estudos e nos de outros autores, levam-no a lamentar que, apesar destes resultados, «não falta ainda, nalguns países cultos, quem pretenda que o povo português é um povo de pretos ou mulatos, ou que, pelo menos nele existe uma forte influência das raças negras africanas» (1933a: 36). Por exemplo, o professor alemão Hans Günther escreveu que Portugal «apresenta, em consequência da importação antiga de escravos africanos, uma influência especialmente significativa» e criticou a política francesa que promovia um «aumento do perigo negro» ao conceder «direitos civis» e «postos de oficiais aos negros» (citado em Correia, 1933a: 36-38). Para Günther, o nórdico existe em fraca proporção e apenas nas cidades do litoral e uma «influência forte de sangue de negros» parece separar etnicamente os portugueses dos espanhóis. Mais, questiona se esse sangue viria da idade paleolítica, da invasão árabe ou dos escravos. Para ele, a influência negra em Portugal é de tal modo forte que os «indígenas da África Ocidental consideram os Portugueses quase como seus iguais e os respeitam muito menos do que aos outros Europeus» (Correia, 1933a: 38). De acordo com a análise de Mendes Correia, o professor alemão ignorava que tinham sido os portugueses os primeiros europeus a travar relações com os povos africanos. Além disso, o seu livro «pretensamente científico» era um «manifesto de propaganda pangermanista», que incluía «deformações tendenciosas da verdade científica» (idem, p. 39). Acresce que, para ele, «o estudo dos índices e ângulos de prognatismo, da cor, do índice nasal, das proporções do corpo e doutros caracteres antropomorfológicos nos portugueses» (idem, ibidem) já eram suficientes para protestar contra as formulações de Günther. Todavia, os resultados da antroposorologia também permitiam «individualizar no ponto de vista bioquímico os portugueses» (idem, p. 40). Estas formulações de Mendes Correia podem ser vistas, em parte, como uma reacção aos ataques dos autores pangermanistas. Porém, as questões acerca da pureza racial, e dos efeitos nefastos que a miscigenação poderia ter, foram por ele discutidas em outros locais, no que respeita a Portugal, e aos seus espaços ultramarinos de então, como desenvolverei adiante.

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