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Os corpos femininos de Diamela Eltit

No documento JULIANA DE JESUS AMORIM PÁDUA (páginas 47-50)

Parte I- As margens

1.3 O código marginal do feminino

1.3.3 Os corpos femininos de Diamela Eltit

Para além da denúncia social de corpos marginalizados, especialmente dos corpos femininos, Diamela Eltit consegue fazer uma importante análise sobre a política de dependência dos países latinos. A questão para a autora não é apenas a ausência da mulher na tradição literária, mas todo silenciamento das vozes populacionais; o corpo marginal é o representante das diversas formas de exclusão, que nasce principalmente na divisão das classes.

A construção feminina de Eltit foge à caracterização de uma heroína da classe burguesa ou de uma representante da miséria humana, a exemplo do que encontramos em diversas personagens da literatura universal, popularizadas em renomados textos como A Dama das Camélias, Madame Bovary e o Primo Basílio, obras que representam a visão masculina sobre a história das mulheres. Distantes da clausura paradoxal de um corpo apenas santo ou delinquente, as personagens eltitianas são construídas no eixo das figuras populares, principalmente o da mulher pobre e trabalhadora da América Latina; pessoas que ocupam um lugar marginal na sociedade e na literatura, mas que diferente do tratamento literário oficial ou canônico, não representam a visão reducionista de vítima social nos papéis seculares de prostituta, adúltera, beata ou louca.

Com a escrita e os olhos voltados para a realidade subalterna do Chile, Diamela Eltit destaca-se pelo gesto de resistência às normas mercadológicas do cânone literário e pela ruptura com a descrição essencialista do corpo feminino. “Eltit atualiza a discussão sobre a diferença, reivindicando para si própria um lugar à margem, um lugar de relativa autonomia diante do mercado, que nos últimos tempos tem transformado a literatura de mulheres em mais um produto à venda” (VIDAL, 2006: 143). Segundo a autora chilena, a escrita é um instrumento social e não pode ser sexualizada. Sua grande meta é

verificar como se comportam os corpos na escrita, independente do sexo do autor. Um romance, por exemplo, feminino ou feminista não será transgressor em função apenas da referencialidade, é preciso atingir o poder central. Assim diz a autora: “Não acredito que basta ser mulher para garantir uma literatura propositiva, da mesma maneira me resulta ser tangível que parte da literatura produzida por homens é apenas uma complacência, por exemplo, ao mercado” (ELTIT, 2000: 185). Segundo Eltit, a dialética do gênero que determina os lugares sociais e espaços público e privado, encontra-se hoje cada vez mais fragilizado. O que a autora persegue são os aspectos políticos e discursivos na narrativa. Julio Ortega sintetiza bem o projeto literário narrativo de Diamela Eltit com vistas ao projeto de uma literatura feminista:

Trata-se mais de uma escrita que narra o deslocamento dos opostos, não para abolir os contrários (como fazia a escritura vanguardista), nem sequer para demonstrar seu caráter construído, ideológico, (como o faz a contra-cultura feminista), e sim (mais radicalmente) para assumir a dualidade historicamente dada, culturalmente sancionada, socialmente inscrita entre o homem e a mulher em um sistema de oposição de toda ordem de desigualdades. [...] Desconstruir o discurso da representação para construir a fala de um sujeito feminino plural, feito por seu desejo e sua rebeldia, por suas carências históricas e suas promessas atuantes, é o projeto que a escrita de Diamela Eltit antecipa como um drama (desgarrado, novelesco) e um programa (crítico, radical). (ORTEGA, 1993, in: LÉRTORA, 1993: 54-55)

Em torno das políticas de gênero, Diamela constrói corpos, que são eros e

thanatos e transitam pela erótica e pelas estruturas da violência. Entretanto, longe de uma descrição simplista, essas representações escapam à dicotomia masculino/feminino. A personagem Lumpérica, por exemplo, é um ser inominável, que tem apenas um “pseudo-nome”, L. Iluminada, para assim contradizer um conhecimento prévio sobre esse sujeito supostamente “mulher”.

Diamela Eltit acopla ao corpo das personagens diversas nominações sociais pejorativas, provenientes do mundo animal (vaca, égua, cadela, mula) e converte alguns desses predicativos em divindades; a modelo de Vaca sagrada. O livro, além de incorporar as diversas dimensões do feminino, localiza esses tropos na geografia da globalização e um elemento resultante das políticas neoliberais.

Em outras obras, esse projeto se repete. A personagem Coya/Coa, de Por la

patria, não tem um passado definido e está em constantes transformações; é um ser que vive no trânsito livre da sexualidade ao romper com a construção edipiana; alimenta

uma relação lésbica com a mãe e imagina-se amante do pai. O incesto37 representa nas obras de Eltit uma ruptura na linguagem predominantemente elaborada na linguística masculina; é o recurso subversivo, com vistas à alteridade. Além disso, a escritora chilena dilui as categorias sexuais em diversas manifestações sem, no entanto, reproduzir o conjunto de classificações e nominações que tentam regular a sexualidade. Na obra El infarto del alma, algumas fotos de casais do hospital psiquiátrico de Putaendo não apresentam uma clara distinção entre o sujeito “homem” e o sujeito “mulher”. Igualmente ocorre no livro El cuarto mundo, no qual um dos irmãos gêmeos, detentor de características associadas ao “masculino”, representa um duplo sexual masculino/feminino ou um outro inominável.

O projeto de Diamela Eltit não é a busca por uma identidade singular e sim comunitária. As teorias feministas buscam na escrita feminina uma fissura no patriarcado. Com a linguagem-código, a autora procura penetrar o poder subvertendo os referentes da marginalidade. “Essa é a sua utopia: a que aposta por outra linguagem que possibilite outro modelo de ser [...] um corpo outro que vive o processo de descolonização” (BRITO, 2009: 20).

37 O incesto nas teorias de Lacan é uma imagem mítica, alcance de uma felicidade impossível, entre elas o

No documento JULIANA DE JESUS AMORIM PÁDUA (páginas 47-50)