CAPÍTULO 3 – OS CORRESPONDENTES INTERNACIONAIS BRASILEIROS
3.8. Os correspondentes internacionais da TV Globo
Quando o principal telejornal da TV Globo estreou, em 1969, o principal objetivo da emissora era competir e ultrapassar as audiências da concorrência, a TV Tupi. Para que isso acontecesse de forma rápida, os editores do Jornal Nacional decidiram investir pesado no noticiário internacional como elemento diferenciador do concorrente e consagrado Repórter Esso.
Já em sua primeira edição, no dia 1º de setembro, o noticiário internacional registrava as mortes do campeão de pesos-pesados Rocky Marciano e do comentarista norte-americano Drew Pearson, conhecido no Brasil pela coluna que assinava na revista O Cruzeiro. Na Líbia, um golpe militar derrubou o príncipe Hassan Al Rida.
Imagens da agência Visnews mostravam a chegada ao Paquistão de uma caravana de chineses, montados em camelos, comemorando a reabertura da Rota da Seda, fechada desde 1949. No Japão, mulheres de mais de 50 países se preparavam para disputar o título de Miss Beleza Internacional. Pilotos de Linhas aéreas ameaçavam greve geral se a ONU não tomasse medidas efetivas em relação ao sequestro de um avião norte- americano.
Para os diretores editoriais da casa, a necessidade de ter uma equipe de repórteres fora do Brasil não era um discurso meramente corporativo. E, por isso, já na década de 1970, a TV Globo escalava a repórter Sandra Passarinho para ser a primeira correspondente da emissora na Europa, a partir de um marco na história de Portugal: A Revolução dos Cravos.
No mesmo dia em que aconteceu o golpe, 25 de abril, a repórter Sandra Passarinho e o cinegrafista Orlando Moreira foram enviados para Madri. Assim que chegaram à capital espanhola, os dois já enviaram via satélite matérias sobre a repercussão dos acontecimentos. No dia 27, alugaram um carro e foram para Lisboa. Nos 15 dias seguintes, fizeram gerações diárias de Portugal. Eles produziam as reportagens, revelavam o filme e ainda editavam o material para ser transmitido para o Brasil. A cobertura da Revolução dos Cravos teve boa repercussão, e a viagem dos profissionais foi estendida. Os dois ficaram cinco meses na Europa, cobrindo fatos importantes como as eleições na França, o referendo sobre o aborto na Itália, a morte do general Franco na Espanha e outros acontecimentos em Portugal. A intensificação da cobertura no continente europeu levou à criação do escritório em Londres (MEMÓRIA GLOBO, 2004).
Além da nova base na Europa, a emissora logo inaugurou um escritório em Nova York, nos Estados Unidos, para trazer, com mais autoria, os fatos jornalísticos mais importantes do país norte-americano. De acordo com Bonner (2009), ao longo dos anos, em muitas ocasiões, a TV Globo conseguiu “chegar à frente” de emissoras internacionais como a BBC e a CNN.
Na TV Globo, os profissionais designados a trabalhar como correspondentes no exterior são aqueles que se destacam nas principais regiões político-econômicas e, por
consequência, noticiosas do país: Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília. O posto, na maioria dos casos, é temporário e tende a ser preenchido, em média, de dois em dois anos. Os repórteres não escolhem ser correspondentes internacionais. Pelo contrário, são escolhidos. Segundo Carlos Henrique Schroder, ex-diretor-geral de Jornalismo e Esportes da Rede Globo e atual diretor geral da empresa, a nomeação de um profissional como correspondente é um prêmio pelos serviços prestados à emissora. “É ter o seu trabalho reconhecido e respeitado, motivo de consagração entre seus pares. Carlos Henrique Schroder (cit. in BONNER, 2009) explica que é preciso o profissional estar credenciado para um voo dos mais altos.
Uma pesquisa feita por Stephen Hess, em 1992, com correspondentes norte- americanos que trabalham no exterior como correspondentes, confirma essa política de promoção. Os jornalistas que se dedicavam à atividade eram a “elite da elite” da imprensa, por serem poucos dentro de um grupo maior já considerado como elite (os jornalistas), terem educação formal e salários superiores aos de seus colegas, usufruírem de um estilo de vida que os leva a ter contato frequente com gente de muita fama e poder, desfrutarem de uma autonomia maior do que a da maioria dos demais jornalistas e, por tudo isso, terem a oportunidade de eles próprios se sobressaírem socialmente (SILVA, 2011).
Nenhum correspondente da TV Globo é vinculado a um telejornal exclusivo. O repórter tem um compromisso com a estação de forma geral, podendo, até participar de outros produtos não jornalísticos desde que justifique sua colaboração.
Na primeira década de 2000, o departamento de jornalismo da Globo fez um dos maiores investimentos em grandes coberturas no Brasil e no mundo. Sem dúvida um dos motivos para essa nova estratégia surgiu após uma das maiores coberturas da emissora no novo século: os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos. Para aumentar a presença e trazer mais informações internacionais para seus noticiários, a emissora ampliou o número de escritórios e passou a contar com correspondentes na Argentina, em Israel e no Japão.
No cenário mais ideal proporcionado pelos executivos da emissora, a TV Globo chegou a contar, em 2010, com profissionais baseados em Buenos Aires, Washington, Nova Iorque, Londres, Paris, Roma, Berlim, Lisboa, Jerusalém e Tóquio. Em situações mais específicas, conforme a necessidade do momento histórico-econômico que justificasse a presença de um repórter, outras regiões como China e África do Sul, por exemplo, também já tiveram correspondentes fixos do canal.
No entanto, assim como diversos importantes órgãos de comunicação do mundo, a TV Globo fez, em dezembro de 2015, uma restruturação no seu quadro de correspondentes internacionais. Devido à crise econômica que o Brasil passa, desde então, a emissora se viu obrigada a reduzir custos de produção jornalística. E, como vimos em vários exemplos, o noticiário internacional acaba sendo um dos primeiros em uma lista de cortes.
Em muitos casos, houve uma substituição de profissionais experientes, consagrados e caríssimos por um grupo de jovens talentosos, menos experientes e com salários muito menos onerosos. Em outras situações, a direção de jornalismo da emissora decidiu por extinguir os postos. Portugal foi um desses casos.
Em Lisboa, a TV Globo manteve oficialmente o cargo de correspondente por seis anos. Entre 2010 e 2015, dois experientes jornalistas estiveram à frente do posto no país (anexo I). Neste período, participaram da cobertura dos 35 anos da Revolução dos Cravos, a visita do Papa Bento XVI a Portugal, e a participação do ex-presidente Lula da Silva na cúpula Ibero-Americana, a crise econômica, a repercussão na Europa do sorteio das chaves da Copa do Mundo de 2014, a renúncia do Rei Juan Carlos da Espanha após 39 anos de reinado e os ataques ao jornal Charlie Hebdo e a um supermercado judaico, na França.
Desde março de 2016, a solução para a cobertura dos assuntos de interesse jornalístico é utilizar, quando possível, o profissional que atua como correspondente no país para a GloboNews TV, o canal de notícias 24 horas do Grupo Globo.
Após a última reformulação, o time de correspondentes da TV Globo é composto, atualmente, por onze jornalistas, baseados nas cidades de Nova York, Washington, Londres, Roma, Berlim e Tóquio, como vemos abaixo.
Correspondentes internacionais – TV Globo
CIDADE PAÍS JORNALISTA CIDADE PAÍS JORNALISTA
Nova York Sandra Coutinho Londres Pedro Vedova
Nova York Alan Serveriano Londres Cecília Malan
Nova York Fábio Turci Roma Ilze Scamparini
Nova York Jorge Pontual Berlim Rodrigo Alvarez
Nova York Felipe Santana Tóquio Márcio Gomes
Washington Luís Fernando Silva Pinto Figura 1 – Mapa de correspondentes internacionais da TV Globo