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Os “costumes e usos brutaes” e os meios “convenientes”

CAPÍTULO 5 Catequisar, comerciar e instruir em Guarapuava

5.1 Os “costumes e usos brutaes” e os meios “convenientes”

Em julho de 1825, os membros do Conselho de Presidência da Província de São Paulo se reuniram extraordinariamente para examinar o conteúdo de alguns requerimentos enviados ao órgão. Um desses documentos foi enviado pelo vigário da freguesia de Guarapuava, Francisco das Chagas Lima, que informou o governo provincial sobre um atentado ao aldeamento Atalaia que ocorrera em 26 de abril daquele ano e que envolvera grupos indígenas daquela região. Não houve discussões ou parecer sobre o caso: a situação demandava providências urgentes e os conselheiros paulistas se mostraram unânimes em recomendar algumas “cautellas e providencias” para auxiliar as vítimas e para evitar que um “funesto acontecimento” como aquele ocorresse novamente: o reforço do destacamento militar na região do aldeamento; o envio de mantimentos e vestimentas aos indígenas que sobreviveram ao atentado; e a reconstrução das casas destruídas, que deveriam ser recobertas com telhas e não palha.486 Dias depois, o Imperador sancionou uma portaria aprovando a execução dessas recomendações.487

As poucas informações extraídas dessas recomendações do Conselho de Presidência paulista e da portaria Imperial poderiam sugerir que o atentado ao aldeamento de Atalaia fora um caso pontual envolvendo conflitos entre grupos indígenas do sul da província. Entretanto, como veremos ao longo deste capítulo, o episódio acima estava relacionado à situação de “atraso” dos indígenas “selvagens” dos campos de Guarapuava, problema que foi identificado e discutido com frequência pelos membros do Conselho de Presidência e do Conselho Geral da província de São Paulo durante a segunda e a terceira década do século XIX. O conflito de 25 de abril e a situação dos índios de Guarapuava também foram assuntos abordados, nesse mesmo período, pelo mencionado vigário da freguesia de Guarapuava, Francisco das Chagas Lima, que escreveu, entre 1827 e 1828, sua “Memoria sobre o descobrimento e colonia de Guarapuava”488. Antes de expormos o que a “memória” desse religioso tem a nos dizer sobre

486Sessão de 30 de julho de 1825. Deliberação do Conselho – Estradas, Sesmeiros e atentado na aldeia de Atalaia. DOCUMENTOS INTERESSANTES PARA A HISTÓRIA E OS COSTUMES DE SÃO PAULO. v. 86. Atas do Conselho da Presidência da Província de São Paulo (1824-1829). São Paulo, Secretaria da Educação/Arquivo do Estado, 1961. p. 45-47.

487Portaria de 26 de agosto de 1825. Aprova providências no aldeamento de Atalaia em São Paulo por ocasião

da agressão cometida pelos índios Cayerés contra os Camés e Votorons. CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). Textos de leis. In: _____. Legislação indigenista no século XIX: uma compilação (1808-1889). São Paulo: USP: Comissão Pró-Índio, 1992a. p. 123.

488 A “Memoria sobre o descobrimento e a colonia de Guarapuava” foi entregue aos membros do IHGB em maio

de 1840 por meio de uma doação do sócio honorário Daniel Pedro Müller e foi publicada na revista desse Instituto em 1842. Esse documento provavelmente foi concluído por Francisco das Chagas Lima em 1828, quando ele encerrou seu trabalho clerical nos campos e na freguesia de Guarapuava devido à sua idade avançada, a qual que exigia, segundo o próprio religioso, “alívio” e “descanso”. No documento, há uma tabela com o número de nativos que, entre 1812 e 1827, passaram pelo aldeamento de Atalaia e/ou foram batizados

esse “funesto acontecimento”, precisamos entender de que modo Chagas Lima chegou aos “sertões” da região sul de São Paulo e porque os conflitos entre os índios dessa região interessavam às autoridades provinciais.

A trama que ligou esse religioso, os indígenas de Guarapuava e as discussões dos conselheiros provinciais a respeito do estado de “civilização” desses indivíduos nas primeiras décadas do oitocentos teve seu fio inicial em 1º de abril de 1809, quando D. João aprovou o “plano de povoar os Campos de Guarapuava e de civilisar os indios barbaros que infestam aquelle territorio”.489 Embora algumas expedições ordenadas pela Coroa lusitana já tivessem percorrido essa região em fins do século XVIII490, tais campos eram considerados não- ocupados em princípios do século XIX e, como mencionamos no capítulo 3, essa lei joanina complementava a Carta Régia de 05 de novembro de 1808491 e buscava orientar as autoridades da então capitania de São Paulo no sentido de, através do povoamento e da “civilização” dos bugres, consolidar tais territórios, além de facilitar os caminhos que ligavam São Paulo à capitania de São Pedro do Rio Grande do Sul. A execução desse projeto coube a uma “Expedição” formada por militares, funcionários civis e dois religiosos da capitania paulista492, os quais foram nomeados ainda em 1809. É na composição desse grupo que encontramos o nome de Francisco das Chagas Lima. Padre secular, Chagas Lima tinha um bom histórico de trabalho com a catequese dos indígenas de São Paulo493, o que certamente o

pelo pároco. Sessão de 25 de maio de 1840. Informação sobre o recebimento de um manuscrito enviado pelo Sr. Daniel Pedro Müller, sócio honorário do Instituto. Revista Trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto Historico e Geographico Brasileiro, Rio de Janeiro, Typographia de João Ignacio da Silva, tomo II, n. 5, abril de 1840, p. 263; LIMA, Francisco das Chagas. Memoria sobre o descobrimento e colonia de Guarapuava. [1827-1828]. Revista Trimensal de Historia e Geographia..., tomo IV, n. 13, p. 43-64, 1842.

489 Carta Régia de 1º de Abril de 1809. Approva o plano de povoar os Campos de Guarapuava e de civilisar os

indios barbaros que infestam aquelle territorio. CUNHA, 1992a, op. cit., Textos de leis, p. 71-72.

490 Sobre a política expansionista e as expedições enviadas ao sul do Brasil nesse período, conferir: KOK, Glória. O sertão itinerante: expedições da Capitania de São Paulo no Século XVIII. São Paulo: Hucitec, 2004; BELLOTTO, Heloísa Liberalli. Autoridade e conflito no Brasil Colonial: o governo do Morgado de Mateus em São Paulo (1765-1775). 2. ed. São Paulo: Secretaria da Cultura, 2007.

491Carta Régia de 5 de novembro de 1808. Sobre os indios Botocudos, cultura e povoacão dos campos geraes de

Coritiba e Guarapuava. CUNHA, 1992a, op. cit., Textos de leis, p. 62.

492Carta Régia de 1º de abril de 1809, op. cit.

493 Francisco das Chagas Lima (1757-1832) nasceu na região de Curitiba, sudeste da então capitania/província

de São Paulo. Antes de atuar em Guarapuava, este religioso foi responsável, em fins do século XVIII, pela catequese dos índios Puris do aldeamento de São João de Queluz, localizado na região nordeste da então capitania de São Paulo. Sobre a trajetória de Chagas Lima na capitania/província paulista e, em especial, sobre seu trabalho catequético nos campos de Guarapuava, conferir os trabalhos de: PONTAROLO, Luizangela Padilha. Francisco das Chagas Lima: a atuação de um padre secular no povoamento dos campos de Guarapuava (1809-1828). 112 f. Dissertação (mestrado em História) – Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná, UFPR, Curitiba, 2012; DURAT, Cristiano Augusto. Os processos incorporativos do indígena Kaingang de Atalaia à sociedade luso-brasileira: o papel do Catolicismo. 156 f. Dissertação (mestrado em História) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade de Passo Fundo, Passo Fundo, 2006; TAKATUZI, Tatiana. Vivências em Atalaia: alguns aspectos da catequese. In: ______. Águas batismais e santos óleos: uma trajetória do aldeamento de Atalaia. 158 f. Dissertação (mestrado em Antropologia Social) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, Campinas, 2005; JEHA, Silvana Cassab. O padre, o comandante e os índios. Chagas Lima e Guido Malière: civilizadores de botocudos e kaingangs nos sertões de Minas Gerais e São Paulo, século

levou a ser nomeado para o cargo de 1º capelão da “Expedição de Guarapuava”. Ele tornou- se, a partir daí, o principal responsável pela “civilização”, via religião católica, dos denominados bugres – índios “barbaros”/ “selvagens” – que habitavam os territórios sulistas de São Paulo.

Foram esses indígenas os protagonistas do “atentado” de abril de 1825, segundo Chagas Lima. Em sua “Memória”, ele contou que o episódio fora causado por um conflito entre duas das principais “hordas de gentios” de Guarapuava: os Votorões e os Dorins – índios da etnia kaingang494. Esses grupos eram rivais entre si, segundo o religioso, e haviam seguido trajetórias distintas naquela região durante o período em que Chagas Lima esteve por lá: os índios Votorões, considerados por esse pároco “semi-bárbaros”, se estabelecerem no então “Fortim Atalaia”, o primeiro povoado de Guarapuava, pouco depois que este local foi fundado, em meados de 1810; já os Dorins, considerados “selvagens” e, ao mesmo tempo, “dóceis”, não se fixaram em Atalaia e viviam nos “sertões” dessa região, embora tenham feito “visitas amigáveis” ao local e até tenham sido batizados pelo pároco. A rivalidade entre esses dois grupos, “aldeados” e “não aldeados”, se acirrou em meados de 1820495, época em que o

XIX. Dissertação (mestrado em História) – Departamento de História, Universidade Federal Fluminense, UFF, Niterói, 2005.

494 Nos últimos anos, a historiografia brasileira vem tratando dos Kaingang e de outros povos indígenas sob

perspectivas consideradas interdisciplinares; tais abordagens, que se multiplicaram no Brasil no final do século XX, se valem de áreas como a etnologia e a antropologia para (re) compor as interações entre indígenas e não indígenas ao longo da história. Para uma discussão mais aprofundada sobre a presença e a emergência dessas abordagens interdisciplinares nos estudos atuais de história indígena e do indigenismo, conferir: MONTEIRO, John Manuel. Tupis, Tapuias e historiadores. Estudos de História Indígena e do Indigenismo. Departamento de Antropologia: UNICAMP. Tese de Livre docência, 2001. ALMEIDA, Maria Regina Celestino de. Metamorfoses indígenas: identidade e cultura nas aldeias coloniais do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 2003; ______. Os índios na história do Brasil. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2010; CUNHA, Manuela Carneiro da. Cultura com Aspas. São Paulo: Cosac Naify, 2009. Além das pesquisas já referenciadas aqui, outros estudos trazem perspectivas interdisciplinares ao tratarem dos Kaingang que habitavam os campos de Guarapuava durante as primeiras décadas do século XIX, conferir: BONETTI, Marcos Francisco. Indígenas, Cotidiano e Conflitos em Guarapuava no século XIX (1839-1885). Dissertação (mestrado em História) – Universidade Estadual de Maringá, UEM, Maringá, 2013; ______; MOTA, Lúcio Tadeu. Conflitos inter‐ étnicos e táticas indígenas: um diálogo entre história e antropologia (Guarapuava, 1830‐1888). Vôos, Guarapuava, Paraná, v. 4, p. 4-17, 2012; TOMMASINO, Kimiye; MOTA, Lúcio Tadeu; NOELLI, Francisco Silva (Org.). Novas contribuições aos estudos interdisciplinares dos Kaingang. Londrina: Eduel, 2004. Alguns portais eletrônicos oferecem referências sobre os Kaingang e outros povos indígenas brasileiros, bem como apresentam os projetos e as pesquisas interdisciplinares que vem sendo produzidos atualmente: Portal “Indígenas no Brasil” e do Centro Ecumênico de Documentação e Informação (CEDI). Conferir em: http://pib.socioambiental.org/pt/c/quadro-geral. Acesso em: 23 jan. 2013. Portal do Núcleo de História Indígena e do Indigenismo (NHII) e portal do Centro de Estudos Ameríndios (CEstA) – ambos da Universidade de São Paulo (USP). Conferir em: http://www.usp.br/nhii/?page_id=6 e http://200.144.182.130/cesta/index.php/apresentacao/historico. Acesso em: 04 mai. 2014.

495Chagas Lima também lembrou em sua “Memória” que, nessa época, em meio aos problemas relacionados à

catequese desses índios, à deserção de membros da Expedição, e à migração de moradores para a capitania do Rio Grande, um decreto régio de agosto de 1818 determinou que se fundasse uma paróquia em Guarapuava. A fundação da paróquia e freguesia de N. S. do Belém de Guarapuava ocorreu por volta de 1820 e coube a Chagas Lima, que tornou-se vigário do novo povoado, e ao então comandante da Expedição, Antonio da Rocha Loures (1781-1849). Essa fundação indica que o número de moradores não-indígenas havia aumentado consideravelmente nesse período – sobretudo a partir de 1816, segundo Chagas Lima – e que a consolidação desses territórios continuava um empreendimento importante para “El-Rei”. LIMA, [1827-1828], op. cit.

indígena Luiz Tigre Gacon, tido como “capitão” dos Votorões aldeados, passou a convocá- los com frequência para atacarem os Dorins que estavam nos “sertões”: “[Gacon] sahia frequentes vezes com escoltas armadas, com pretexto de caçada, e ia dar assaltos mortíferos áqueles que provocavam o odio”.496 Esses ataques culminaram no “funesto acontecimento” que chegou ao conhecimento das autoridades provinciais e que motivou as recomendações apresentadas anteriormente. Chagas Lima explicou em sua “Memória” que, nessa ocasião, os Dorins estavam se vingando das recorrentes “perseguições” dos Votorões e descreveu como teria sido o confronto de 26 de abril de 1825:

[...]O assalto nos aldeados [Votorões] foi feito por 60 a 70 Dorins, os quaes chegaram depois da meia noite, e puzeram fogo a uma das casas, e depois ás outras. Os moradores alvoroçados pela novidade, em logar de fugirem e se salvarem, ignorando a força, se puzeram em resistencia porêm cahindo os Dorins com força, matando com flexadas os que fugiam, assim se travou á peleja, que, sendo favoravel àqueles, fizeram, durante as duas horas que durou, bastante estrago morrendo 28 pessoas, algumas queimadas, a saber: 14 homens, 8 mulheres e 6 crianças [...]497

Tal episódio “embaraçou” a catequese nessa época, mas não foi o último conflito entre Votorões e Dorins. Após esse atentado, Chagas Lima teria alojado os indígenas sobreviventes num local dentro da então freguesia de Guarapuava até a reconstrução das habitações destes, conforme o que fora recomendado pelo governo provincial de São Paulo. Pouco tempo depois, um novo ataque dos Dorins foi visto dessa freguesia pelo religioso: desta vez, esses índios não-aldeados incendiaram tudo o que sobrara do aldeamento de Atalaia, inclusive a capela.498 A reconstrução das casas e do aldeamento foi realizada, dessa forma, em outro lugar, o qual foi denominado “Nova Atalaia” e se situava a légua e meia da freguesia499 – a mesma distância que tinha o antigo aldeamento, mas, se supõe, em outra posição no entorno desse mesmo local. Os confrontos entre as duas hordas rivais continuaram nesse local e Chagas Lima contou que outro ataque entre esses grupos ocorrera em 1827, quando, ironicamente, ele e o então comandante da Expedição de Guarapuava, Antonio da Rocha Loures500, haviam tentado

496LIMA, [1827-1828], op. cit., p. 50. 497 Ibid., p. 49-50.

498Ilmo. e Exmo. Snr. Lucas Antonio Monteiro de Barros. Correspondência de 08/01/1826. Arquivo do Estado

de São Paulo, Caixa 192, Ordem 987 apud DURAT, 2006, op. cit., p. 136.

499 TAKATUZI, 2005, op. cit., p. 125.

500Antônio da Rocha Loures (1781-1849) nasceu na região de Curitiba. Exerceu os cargos de capitão, tenente e

brigadeiro nessa região e foi nomeado membro da Expedição de Guarapuava. Com a saída de Diogo Pinto de Azevedo Portugal do comando dessa Expedição, Loures o substituiu em 1818. Em 1817, foi padrinho de batismo de Francisco, filho do cacique Luiz Tigre Gacon, índio que comandou os índios aldeados em Atalaia até 1825, quando foi morto pela tribo dos Dorins. Nessa época foi designado comandante da recém-fundada freguesia de Guarapuava e permaneceu nesse povoado até meados do século XIX. Foi casado com Joana Maria de Lima, sobrinha do pároco Francisco das Chagas Lima. FAMÍLIA WÜNSCH: genealogia, história, cultura

reconciliá-los. De acordo com sua “Memória”, os Dorins fizeram “visitas amigáveis” no ano de 1826: desculparam-se pelos atentados anteriores e disseram a Chagas Lima e ao comandante Loures que desejavam se reconciliar com os Votorões e se fixar no novo aldeamento. Provavelmente contribuíra para essa postura “pacífica” o fato do líder dos aldeados, Luiz Tigre Gacon, ter sido morto no confronto de abril de 1825 e o interesse dos Dorins em se apropriarem de vez das “ferramentas” que lhes eram dadas quando visitavam o aldeamento – “presentes” que, como indicou Chagas Lima, tinham o objetivo de convencê- los a permanecerem na região por mais tempo. De outro lado, os índios Votorões de Atalaia não pareciam estar à vontade com a presença desses Dorins no aldeamento, muito menos dispostos à se reconciliarem com eles, pois, segundo Chagas Lima, “se mostraram mui bruscos e desejosos de vingança” em uma das visitas dos rivais. Tais desejos vingativos foram levados a cabo em 1827, quando os aldeados “surpreenderam” um grupo de Dorins que passava por Atalaia, atacando-os. Tal conflito fora o derradeiro, segundo o vigário; depois dele, os Dorins não voltaram mais ao aldeamento.501

Chagas Lima indicou que a continuidade desses ataques violentos protagonizados por Votorões e Dorins nos campos de Guarapuava envolvia a “difficuldade em os desaraigar de seus vicios antigos” 502. Entretanto, a rivalidade entre esses indivíduos pode ter tido a contribuição das próprias estratégias utilizadas pelas autoridades locais para contê-las. Os conflitos entre os grupos kaingang de Guarapuava envolviam disputas cuja posse dos objetos oferecidos pelos brancos ou mesmo as alianças feitas com estes, entre outros aspectos, eram símbolos de status e poder de determinada “horda” diante de outras.503 Chagas Lima teria percebido esse aspecto das rivalidades indígenas, ao comentar em sua “Memória” que os Votorões sentiam-se “invejosos” em todas as ocasiões que os Dorins eram “beneficiados” – como ocorria, segundo ele, quando estes saíam do aldeamento escoltados por soldados da Expedição.504 Dessa forma, ao usarem “ferramentas” para atrair a confiança dos grupos

http://www.wunsch.com.br/getperson.php?personID=I000510&tree=wunsch. Acesso em 27 fev. 2015; PONTAROLO, 2012, op. cit., p. 73-94; TAKATUZI, 2005, op. cit.; DURAT, 2006, op. cit.; ______. Francisco Luiz Tigre Gacon, índio: um personagem na vila de Guarapuava (século XIX). Anais do 4º Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional de 13 a 15 de maio de 2009. Disponível em: http://www.escravidaoeliberdade.com.br/site/images/Textos4/cristianodurat.pdf. Acesso em 24 jun. 2014.

501LIMA, [1827-1828], op. cit., p. 51-52. 502 Ibid., p. 52.

503Sobre as rivalidades dos Kaingang e a relação entre a mudança de seus costumes e a interação com os não-

indígenas durante o século XIX, conferir: AMOROSO, Marta Rosa. Catequese e Evasão: Etnografia do aldeamento Indígena São Pedro de Alcântara, Paraná (1855-1895). Tese (Doutorado em. USP, 1998. p. 99- 101. TOMMASINO, Kimiye. A História dos Kaingang da Bacia do Tibagi: uma sociedade Jê Meridional em Movimento. Tese de doutorado, USP-Antropologia social, São Paulo, 1995; ________. “Território e territorialidade Kaingang. Resistência cultural e historicidade de um grupo Jê” In: MOTA, NOELI e TOMMASINO (Org.) Uri e Wãxi. Estudos Interdisciplinares dos Kaingang. Londrina: Ed. UEL, 2000.

indígenas ou ao tentarem “protegê-los” dos ataques de seus inimigos, as autoridades locais alimentavam “vícios antigos” através de “novos” elementos, ou seja, acabavam estimulando, por meio das estratégias e das recomendações que lhes eram determinadas nessa época, situações de tensão já existentes entre os grupos indígenas daqueles territórios.

Enquanto isso, na sede do governo de São Paulo, o conselheiro Manoel da Cunha de Azeredo Chichorro indicava uma proposta aos membros do Conselho de Presidência para a formação de intérpretes da língua indígena. Para justificar a criação de uma “Cadeira de Língua Índia”, esse conselheiro retomou diversos momentos da catequese indígena realizada pelos jesuítas entre os séculos XVI e XVII, destacando sobretudo o trabalho catequético de José Anchieta e de Antônio Vieira, que teriam tido sucesso, segundo Chichorro, ao usar o conhecimento da língua indígena para “domesticar” e instruir os nativos do país. De acordo com sua proposta, faltavam pessoas com as qualidades e a formação destes religiosos em São Paulo, pois até aquele momento somente o vigário Chagas Lima realizava a catequese indígena na província paulista e mesmo este trabalho catequético em Guarapuava passava por problemas, pois aquele vigário

[...] ja não é de pouca idade; eu sei, que elle tem pedido um coadjutor, á quem até se possa confessar por não haver alli outro Sacerdote; pois o deminuto ordenado, que por todo o Bispado tem os coadjutores não convida á Sacerdote algum de instrucção, e probidade; a que vá para alli, se elle não tiver o Spirito Evangelico, que orna aquelle respeitavel Vigario; eu sei que alguns tem sido mandados como por castigo de suas faltas; mas estes a dizer a verdade não são capazes de serem mestres, juizes, e medicos do Povo, principalmente de Neophitos, e barbaros, que mais aprendem pelo exemplo da vida dos mestres, do que pelas palavras [...]505.

Prosseguindo a exposição de sua proposta, Chichorro indicou que Chagas Lima poderia ser mestre dessa “Cadeira de Língua Índia”, que deveria ser criada no Bispado da capital de São Paulo para instruir todos os eclesiásticos da província. O vigário de Guarapuava ensinaria, segundo ele, “menoristas pobres”, cuja formação em “língua índia” seria uma premissa para que eles se tornassem diáconos. Dessa forma, segundo Chichorro, aqueles que se formassem poderiam tanto ficar na capital, instruindo outros religiosos, quanto poderiam ser enviados à Guarapuava ou a outras regiões da província em que se precisasse instruir indígenas506. Essa proposta parece não ter ido à frente: não encontramos discussões ou