CAPÍTULO II – MIGRAÇÕES E DESENVOLVIMENTO
2.4 O N EXO ENTRE M IGRAÇÕES E D ESENVOLVIMENTO
2.4.1 Os Debates em Curso: Claridades e Penumbras
Os actuais debates sobre migração e desenvolvimento emergem nos anos 50 e 60 no seio das correntes desenvolvimentistas optimistas e nos anos 70 e 80 pelos neomarxistas pessimistas, tendo sido seguidos por defensores de uma pluralidade de pontos de vista já nos anos 1990 (Haas, 2010). Ainda de acordo com Haas (2010) autores como Jones (1998), Kapur (2003) e Ratha (2003) sublinham que, depois de décadas de pessimismo, sobretudo em relação à fuga de cérebros, os governos têm apostado na transnacionalidade orientada de migrantes e diásporas dos países emissores como potenciais investidores e agentes de desenvolvimento (Haas, 2010).
Na visão de Abreu (2006), estas percepções optimistas e pessimistas têm a ver com a evolução diferencial dos impactos negativos e positivos aliados à emigração proveniente dos países em desenvolvimento. Para o autor, o optimismo intelectual e ideológico repousa na contribuição feita pelas diásporas e comunidades emigrantes, que se encontram afastadas das suas comunidades e regiões de origem. Organismos internacionais da ONU como a OIM (2006) consideram haver uma mudança na percepção do nexo migração e desenvolvimento em que se procura substituir o pensamento negativo, assente na necessidade de atacar as raízes dos males das migrações (brain drain, esgotamento da mão- de-obra e êxodo rural) com uma visão mais optimista do potencial da migração sobre o desenvolvimento, ancorada na contribuição socioeconómica e cultural e na mitigação das pressões demográficas e laborais, tanto dos países emissores como receptores.
Partindo do contexto da restruturação económica e precarização da força de trabalho em que se registam os movimentos migratórios na actualidade, Wise et al. (2009: 29) sugerem que os fluxos migratórios são importantes para o desenvolvimento, baseando-se nos seguintes pressupostos: “ i) para o país emissor, os emigrantes são o agente e as remessas a alavanca para o desenvolvimento; ii) a migração tem uma dinâmica própria, que não depende de causas estruturais; iii) a migração constitui uma carga e as remessas uma fuga de recursos para o país de acolhimento; iv) os migrantes são a causa da deterioração laboral e da qualidade de vida no país receptor; v) a migração tornou-se uma estratégia que reveste de poder económico aos pobres na luta contra a pobreza”. Para estes autores, este tipo de análise da migração versus desenvolvimento é unilateral e contraproducente, pois é
68
precisamente o processo de reestruturação neoliberal que precipita a nova dinâmica migratória e aprofunda o subdesenvolvimento, ao que se somam as assimetrias existentes entre os países desenvolvidos e em desenvolvimento. Esta visão, no seu entender, distorce a realidade, pois cria a ilusão de que os imigrantes e as remessas (vistos como fontes de recursos financeiros) podem, e devem, contribuir para o desenvolvimento dos países receptores.
Na concepção de Mármora (2002), a relação existente entre migrações e desenvolvimento está igualmente rodeada de aspectos positivos e negativos apontados em diferentes momentos históricos e por diferentes perspectivas teóricas. Segundo o autor, a relação entre fluxos migratórios e desenvolvimento é estabelecida usualmente em três níveis analíticos distintos: i) uma análise global, em que os fluxos se explicam a partir das desigualdades de desenvolvimento entre os países de expulsão e atracção; ii) uma análise da génese dos movimento migratórios, em que a carência de desenvolvimento das regiões de origem ou o maior desenvolvimento das regiões de acolhimento são os factores básicos da mobilidade; e iii) uma análise das consequências das migrações no crescimento das sociedades de partida e receptoras. Kerney (1986), citado por Figueiredo, 2005) toma em linha de conta, além de outros factores, a evolução da conjuntura económica internacional, sendo a migração resultante do impacto do desenvolvimento de acordo com uma análise temporal. Este autor sublinha ainda que os estímulos aos movimentos migratórios podem suceder a curto prazo, enquanto a longo prazo pode ocorrer o contrário, sobretudo quando se verifica uma maior liberalização da política comercial e práticas de investimento nas regiões ou países afectados.
Wise & Covarrubias (2007) argumentam que o relevo dado às migrações faz parecer que estas são uma variável independente e que as premissas do desenvolvimento, ou da sua ausência, estão circunscritas aos recursos e iniciativas dos migrantes. Na óptica dos autores, deve-se sim enquadrar as premissas explicativas do problema do desenvolvimento no âmbito da dinâmica migratória.
Autores como King & Mateos (2005) e Cohen (2005) interligam os movimentos migratórios de forma mais ampla com a globalização, considerando esta tanto uma causa
69
como uma consequência da migração. Estes autores argumentam que a restrição da imigração imposta pelos países é um paradoxo da própria globalização. Segundo Castles & Midller (1998), referidos por King & Mateos,( 2005), admitem que, na actualidade pode-se falar de uma globalização migratória, pois existem cada vez mais regiões que são afectadas pelos fluxos migratórios simultaneamente.
É dentro deste contexto que os países receptores procuram gerir não só uma amálgama de antecedentes económicos, sociais e culturais trazidos pelos emigrantes, mas também a multiplicação e diversificação dos fluxos migratórios. Ainda King & Mateos (2005) vislumbram na migração uma força dinâmica na constituição das sociedades modernas e consideram que a globalização, citando Papastergiadis (2000:86) carrega com ela, “agentes turbulentos de pessoas com padrões de circulação que contrariam e atravessam as necessidades económicas e medidas públicas”.
A partir de uma abordagem diferente da dos autores acima mencionados – conquanto apresente algumas intersecções – George (1977) vê o mundo como um espaço compartimentado, de subtilezas jurídicas, onde os movimentos migratórios são regidos por regulamentações e contractos adaptados aos interesses meramente económicos. Para o autor, os migrantes já não são detentores de poderes decisórios, cabendo sim aos governos e organizações internacionais orientar os fluxos migratórios de acordo com as necessidades económicas. As escolhas feitas pelos agentes fazem-se dentro dum quadro institucional que lhe impõem restrições, obrigando-o a partir ou limitando-lhe as possibilidades de movimentação.
Embora existam diferentes perspectivas acerca da positividade ou negatividade dos processos migratórios sobre o desenvolvimento, não deixa de haver, também, alguns consensos sobre o seu impacto nas sociedades em geral. Considera-se que as migrações internacionais e o desenvolvimento estão fortemente interligados e afectam os países social, económica, política e culturalmente. O desenvolvimento influencia e condiciona os movimentos migratórios e, por sua vez, a migração também influencia e contribui para o desenvolvimento (Gonçalves, 2009). Para Skeldon, 2008), a migração não está
70
desassociada do processo de desenvolvimento pois este cria e intensifica as desigualdades espaciais que, por sua vez, geram fluxos migratórios.
Na visão de Jackson (1991) e Castles (2005), as migrações continuam a ser um dos factores de mudança social. Contudo, algumas correntes intelectuais e políticas têm argumentado que os fluxos migratórios aumentam o desemprego e pressionam os serviços públicos de saúde e de educação. Segundo Skeldon (2008), o vínculo entre migrações e desenvolvimento é por vezes contestado, pois considera-se que a chegada de emigrantes pode provocar erosão na identidade das nações. Mármora (2002) defende ainda que pode trazer um impacto negativo nos mercados de trabalho, na segurança e nos serviços sociais dos países receptores.
Para Gonçalves (2009) autores tais como Weiner (1995), Davidson (1999) e Sassen (1996)28, argumentam que os fluxos migratórios internacionais simbolizam uma ameaça à estabilidade e segurança nacionais, sobretudo naqueles Estados mais frágeis. Esta ameaça é extensiva às democracias ocidentais que se podem ver desestabilizadas politicamente pela entrada massiva de imigrantes indesejados. A visibilidade das ameaças aos Estados é também patente em Castles (2005:8)29 quando afirma que “os fluxos migratórios questionam a soberania nacional enquanto emergência de populações multiculturais, surge como uma ameaça as identidades nacionais”.
O Relatório da Comissão Mundial sobre as Migrações Internacionais (RCMMI, 2005) também reforça que as migrações podem resultar na fuga de cérebros, geralmente os melhor preparados e os mais empreendedores de um país. Esta realidade priva o Estado de rendimentos e faz com que os países emissores não obtenham o retorno do investimento feito na educação e formação desses quadros. Acrescenta o Relatório que quando a emigração envolve os sectores da saúde e da educação afecta a qualidade desses serviços. Borjas (2000) remete-nos para a selecção positiva dos migrantes, isto é, os mais
28 Os autores referem ainda que a soberania assenta no controle das fronteiras. Se os Estados não forem
capazes de controlar os fluxos migratórios, considera-se que as instituições de soberania e de cidadania estão ameaçadas.
29 Castles vai mais longe ao acrescentar que as identidades nacionais e as tradições culturais podem ser
afectadas pela erosão das fronteiras tradicionais entre línguas, grupos étnicos e Estados-Nação (Castles, 2005).
71
qualificados são os que efectivamente migram, privando os países emissores de recursos humanos capacitados.
A visão por vezes defensiva com que se olha a contribuição das migrações para o desenvolvimento sucumbe diante de evidências empíricas constatadas nas diferentes pesquisas realizadas em vários países. Mármora (2002), citando Stalker (1994), Rose (1969) e Domenache & Piconet (1995), sustenta que os estudos desenvolvidos por estes autores, entre outros, demonstram que os emigrantes não constituem uma ameaça competitiva aos nativos no mercado de trabalho, nem um fardo para os serviços sociais. Pelo contrário, estes participam na produção de novos bens e serviços e, por ainda auferirem salários inferiores (ao valor total desses bens e serviços), no cômputo geral quem sai a ganhar são os trabalhadores locais. Ferreira & Rato (2000) sublinham que os trabalhadores migrantes não competem no mercado de trabalho com os nacionais, pelo facto destes preencherem os vazios que surgem pela ascensão profissional e social dos trabalhadores nacionais.
Por sua vez, Simon (1980) não vê na questão da migração nenhuma ameaça para quaisquer das sociedades, quer a receptora quer a emissora. Ela fornece remessas para a sociedade de origem e um fluxo de capital humano e de talento empresarial para a sociedade receptora (Gonçalves, 2009). A OIM (2006) destaca que a migração e o desenvolvimento têm de ser vistos como uma moeda de duas faces, neste caso com um lado positivo e outro negativo, podendo-se considerar que as migrações tanto podem ser causa como efeito do desenvolvimento. Os fluxos migratórios não podem ser percebidos como fenómenos que, à partida, constituem um obstáculo ao desenvolvimento, nem tão-pouco uma estratégia para o atingir, embora na globalidade se reconheça, e os factos o demonstrarem, que as migrações incidem de forma positiva nas sociedades.