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Os debates em torno da noção de documento/monumento

No documento Discurso, Lingüística e História (páginas 122-126)

3. O sentido e o discurso nos debates em torno da noção de documento no

3.3. Os debates em torno da noção de documento/monumento

Para compreendermos o tipo de mudança ocorrida na noção de documento a partir da década de 60 e que estimulou outras mudanças no campo da história, devemos entender sua relação com a noção de monumento.

Segundo Le Goff (1996, p. 535), os “materiais da memória podem apresentar-se sob duas formas principais: monumentos, herança do passado, e os documentos,

escolha do historiador”. O monumento tem como características estar quase sempre ligado “ao poder de perpetuação, voluntária ou involuntária, das sociedades históricas (é um legado à memória coletiva) e o reenviar a testemunhos que só numa parcela mínima são testemunhos escritos” (LE GOFF, 1996, p.536). O documento, por sua vez, “que, para a escola histórica positivista do fim do século XIX e do início do século XX, será o fundamento do fato histórico, ainda que resulte da escolha do historiador, parece apresentar-se por si mesmo como prova histórica. A sua objetividade parece opor-se à intencionalidade do monumento. Além do mais, afirma-se esafirma-sencialmente como um testemunho escrito” (LE GOFF, 1996, p. 536).

O termo documento, com o sentido de ‘prova’, era amplamente usado no vocabulário legislativo desde o século XVII, quando se difunde, na linguagem jurídica francesa, “a expressão titres et documents e o sentido moderno de testemunho histórico data apenas do início do século XIX” (LE GOFF, 1996, p.536). Portanto, o termo documento não era comumente usado pelos historiadores antes de 1800, mas foi lentamente se sobrepondo ao monumento. Até então, o termo monumento era correntemente usado principalmente para referir-se a grandes coleções de documentos.

O triunfo do termo documento coincide com o triunfo positivista, por isso a necessidade de usar apenas documentos encontrados em arquivos confiáveis. Na primeira metade do século XX, o documento ainda tinha o sentido de ‘prova’. O historiador G. Lefebvre, por exemplo, ainda afirmava em 1940, que “não há notícia sem documentos[...]”, pois “se dos fatos históricos não foram registrados documentos, ou gravados ou escritos, aqueles fatos perderam-se” (LEFEBVRE,1971, p. 17 apud LE GOFF, 1996, p. 539).

Na mesma época, tanto Marc Bloch quanto L. Febvre criticavam o sonho positivista dos historiadores de assistir passivamente a história feita através dos documentos e o fato de que colocassem em questão apenas o documento enquanto tal.

Bloch chamava a atenção dos historiadores para o fato de que

os documentos não surgem aqui ou acolá, por artes mágicas. A sua presença ou sua ausência em determinado fundo de arquivo, em determinada biblioteca, em determinado terreno, dependem de causas humanas que de maneira alguma escapam à análise, e os problemas que sua transmissão levanta, longe de se encontrarem somente ao alcance de exercícios de técnicos, respeitam, eles mesmos, ao mais íntimo da vida

do passado, porque aquilo que se encontra afinal em jogo não é nem mais nem menos do que a passagem da memória das coisas através das gerações. (BLOCH, 1997, p.

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No entanto, se essas críticas e observações de Bloch e Febvre ampliaram a noção de documento, não chegaram a provocar mudanças nos procedimentos de crítica e de análise das fontes. Para Le Goff (1996, p. 547), ainda faltava ao historiador compreender que o sentido histórico dos textos estava na sua intervenção, “que escolhe o documento, extraindo-o do conjunto dos dados do passado, preferindo-o a outros, atribuindo-lhe um valor de testemunho que, pelo menos em parte, depende da sua própria posição na sociedade da sua época e da sua organização mental, insere-se numa situação inicial que é ainda menos ‘neutra’ do que a sua intervenção”. Algumas mudanças começaram a surgir a partir do momento em que os historiadores passaram a perceber uma outra forma possível de organização, seleção e leitura dos documentos.

Para Le Goff (1996, p. 541), o alargamento do termo documento, promovido pelo fundadores dos Annales, de acordo com Glénisson, foi apenas uma etapa na produção, a partir dos anos 60, de uma verdadeira revolução documental. Essa revolução teria ocorrido de forma qualitativa e quantitativa ao mesmo tempo, já que os pesquisadores passaram a interessar-se pela história de todos os homens, e por isso foram recuperados tipos de documentos que antes eram descartados. Por outro lado, a informatização trouxe para o debate sobre o documento a questão do seu valor relativo que deu origem à história serial. Segundo Foucault (2005b, p. 291), na história serial,

O historiador [...] não interpreta mais o documento para apreender por trás dele uma espécie de realidade social ou espiritual que nele se esconderia; seu trabalho consiste em manipular e tratar uma série de documentos homogêneos concernindo a um objeto particular e a uma época determinadas, e são as relações internas ou externas desse corpus de documentos que constituem o resultado do trabalho do historiador. Graças a esse método, [...] o historiador pode fazer emergir acontecimentos que, de outra forma, não teriam aparecido.

Outra mudança importante no tratamento do documento, foi o passo dado, em 1960, por Paul Zumthor, que formulou a hipótese de que o que transforma um documento em monumento é o seu uso pelo poder. No entanto, apesar de sua grande contribuição na problematização dessa relação, ele “hesitava em transpor o fosso que

consistia em reconhecer em todo documento um monumento” (LE GOFF, 1996, p.

545). O historiador precisava compreender que “não existe documento objetivo, inócuo, primário”, pois “o documento é um produto da sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder” (LE GOFF, 1996, p.545).

Portanto, é preciso “não isolar os documentos do conjunto de monumentos do qual fazem parte” (LE GOFF, 1996, p. 548). Se antes a crítica do documento consistia na busca de autenticidade, a partir da segunda metade do século XX entendeu-se que a utilização do documento pelo poder, como forma de fazer perpetuar alguma coisa do passado, transformou-o num monumento, daí a necessidade de se aprimorar a crítica ao documento/monumento.

Para Foucault (2002a, p. 8), “o documento não é o feliz instrumento de uma história que seria em si mesma, e de pleno direito, memória; a história é, para uma sociedade, uma certa maneira de dar status e elaboração à massa documental de que ela não se separa”. A memória é algo com que nos habituamos e aceitamos sem questionar, ela é um produto de nossas relações sociais em que se cristalizaram idéias, fatos e crenças. Por isso, o sentido da memória precisa ser reconhecido, revelado. O sentido na história, ao contrário, é objeto de lutas, apropriações, rejeições. Segundo Foucault, a história tradicional dedicava-se a memorizar os monumentos do passado, ou seja, a transformar os monumentos em documentos, em provas confiáveis do que foi ou do que se disse, e torná-los parte da memória coletiva. Ao contrário, “em nossos dias, a história é o que transforma os documentos em monumentos e que desdobra, onde se decifravam rastros deixados pelos homens, onde se tentava reconhecer em profundidade o que tinham sido, uma massa de elementos que deviam ser isolados, agrupados, tornados pertinentes, inter-relacionados, organizados em conjuntos”

(FOUCAULT, 2002a, p. 8).

Para Le GOFF (1996, p.548), “no limite, não existe documento-verdade. Todo documento é mentira. Cabe ao historiador não fazer o papel de ingênuo” e “analisar as condições de produção dos documento-monumentos”. Enfim, é preciso fazer a crítica ao documento considerando que a ‘sensação’ de que o texto histórico corresponde a uma ‘realidade’ vem dos procedimentos discursivos das instituições sociais que legitimam o documento e levam a sociedade a interpretar-se e a compreender-se

através dessa interpretação. Os documentos escolhidos e monumentalizados pelo historiador são aqueles que dão legitimidade e autenticam esses gestos de interpretação que a sociedade realiza sobre si mesma. O sentido, a partir dessa concepção de discurso, não está na palavra nem nos textos, mas no conjunto das práticas discursivas, pois são elas que produzem documentos/monumentos e o ‘efeito de realidade’ que eles criam. A mudança na noção de documento vai transformá-lo, com a ajuda da inovação tecnológica da informatização, em um novo objeto teórico.

Essa mudança, segundo Foucault, tem várias conseqüências para a história, como o aparecimento da longa duração, da história serial e da noção de descontinuidade. Com essas mudanças surge a possibilidade de uma história geral em substituição ao projeto de uma história global que “cinge todos os fenômenos em torno de um centro único” (FOUCAULT, 2002a, p. 12). Além disso, serão várias as conseqüências e os problemas metodológicos a serem enfrentados como o da definição dos corpus de documentos, de princípios de escolha, dos níveis de análise, da especificação do método, da delimitação dos conjuntos e sub-conjuntos que articulam o material estudado e a determinação das relações que permitem caracterizar um conjunto.

Acreditamos que a partir da crítica que Foucault faz à história tradicional e à história das idéias é possível compreender como a questão do sentido passou a ser pensada após o impacto que o pensamento foucaultiano causou na história e na análise do discurso (principalmente a que se fazia na França, no final da década de 1960, e que veremos no próximo capítulo).

3.4. A noção foucaultiana de enunciado e formação discursiva: um debate com a

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