Capítulo 1 O projeto de comunicação publica: a EBC se apresenta
1.3 Os debates que antecedem a criação da EBC
A Carta de Brasília serviu como documento de referência para a elaboração da lei de criação de EBC e parte dos princípios listados no documento foi incorporada ao projeto. O processo intenso de discussão e disputas merece ser recuperado por ajudar a compreender as forças que atuaram para a construção do projeto que resultou na EBC e que definiu seu modelo institucional.
Foi no Ministério da Cultura, quanto Gilberto Gil era o ministro titular da pasta, que ganhou lastro a proposta de criar um sistema público de comunicação. Durante o primeiro governo Lula, o Ministério da Cultura já havia dado sinais de querer interferir na organização do sistema comunicacional brasileiro. Esse movimento se tornou explícito em 2004 com a frustrada proposta de transformar a Agência Nacional de Cinema (Ancine) na Agência Nacional de Cinema e Audiovisual (Ancinav). O projeto que ampliava a abrangência da agência que administra a política do setor de produção audiovisual – restrita ao cinema – para os serviços de radiodifusão e comunicação de massa, TV a cabo, telefonia celular, internet e jogos eletrônicos enfrentou forte reação das empresas de radiodifusão e dos produtores de cinema que consideraram a ideia intervencionista. O projeto alimentou um tumultuado debate público. Ao final, o Ministério da Cultura recuou e engavetou a proposta.
Mas antes mesmo do projeto de criação da Ancinav, ainda em 2003, o então Secretário de Audiovisual, Orlando Senna, já havia deixado clara a importância que a comunicação de massa passaria a ter para a pasta. Em seu discurso no IV Fórum Brasil de Programação, ao defender uma política que facilitasse o acesso da sociedade
26 FÓRUM NACIONAL DE TVS PÚBLICAS. Carta de Brasília (Manifesto pela TV Pública independente e democrática). Carta Maior, 11 mai. 2007. Disponível em:
<www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Direitos-Humanos/Leia-na-integra-a-Carta-de-Brasilia/5/13076>.Acesso em: 27 fev. 2015.
brasileira à produção cinematográfica nacional, Orlando Senna coloca a importância de uma reorganização do sistema público de comunicação (SENNA, 2003)27:
“o veículo exponencial desse vasto plano, desse enorme desejo, será a televisão e, neste sentido, a ideia é redimensionar a rede pública de TV.
Projeta-se a instalação e operação de uma Rede Pública de Televisão lastreada em cerca de mil canais culturais, educativos, universitários e comunitários existentes no país, a ser operada com participação e corresponsabilidade da sociedade”.
A discussão do projeto de reorganização do sistema, no âmbito do governo, ficou, durante todo o primeiro mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, restrita ao Ministério da Cultura. A discussão começou a ganhar corpo apenas a partir do segundo semestre de 2006 quando começou a ser organizado o Fórum Nacional de TV Pública, espaço onde seria discutida uma nova organização para o sistema público de radiodifusão. O manifesto que convidava representantes de emissoras de televisão, intelectuais e a sociedade civil a discutir o futuro da comunicação pública – e que foi assinado pelo Ministro da Cultura, Gilberto Gil, pelo Secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, e pelos presidentes das duas emissoras estatais ligadas ao governo federal, a Radiobrás e a TVE do Rio de Janeiro, respectivamente Eugênio Bucci e Beth Carmona, – expressava o desejo de construção de uma "televisão pública forte e criativa" aberta à diversidade de opiniões. O texto também fazia um diagnóstico do campo público no Brasil, marcado por uma fragmentação histórica (MILANI, 2006)28:
A nossa televisão pública existe, mas é dispersa e fragmentada ao nível da exaustão, num grau em que as partes não se reconhecem integrantes de um todo comum. Emissoras universitárias, comunitárias, legislativas, às ligadas a governos estaduais e aquelas vinculadas a órgãos federais não tiveram a chance de se identificar em laços de irmandade. Elas compõem um sistema de comunicação pública - porque se somam num esforço de comunicação não-comercial, que não têm a audiência como obsessão e nem o anunciante como objetivo. Existem para prestar serviços ao público, levando a ele informação, cultura e educação - e não mero entretenimento. A TV pública não quer, não pode e não precisa mais viver dispersa, oculta de si mesma, apartada do público.
27 SENNA, Orlando. Perspectivas da política audiovisual. Pronunciamento do secretário Orlando Senna no IV Fórum Brasil de Programação e Produção, em São Paulo, 06 mai. 2003. Ministério da Cultura.
Disponível em: <www.cultura.gov.br/discursos>. [p. 21] Acessado em: 26 fev. 2015.
28 MILANI, A. Manifesto destaca reconhecimento do campo público das TVs. Agência Brasil, 13 nov.
2006. Disponível em: <http://memoria.ebc.com.br/agenciabrasil/noticia/2006-11-13/manifesto-destaca-reconhecimento-do-campo-publico-das-tvs>. Acesso em: 10 jul. 2016.
O Fórum de TVs Públicas foi lançado oficialmente no dia 27 de novembro de 2006 em uma cerimônia no Rio de Janeiro. A partir daí as atividades foram divididas em três etapas:
1. O diagnóstico do campo público da comunicação no Brasil;
2. A elaboração de uma proposta de política para a implantação da televisão pública a partir do diagnóstico realizado; e
3. A discussão da proposta em um seminário nacional, aberto à participação da sociedade, o I Fórum Nacional de TVs Públicas, que aconteceria em maio de 2007, em Brasília.
Na etapa de diagnóstico, conduzido pelo Ministério da Cultura, Radiobrás e TVE do Rio de Janeiro, foram consultados os representantes das emissoras não comerciais: das TVs universitárias (Associação Brasileira de Televisão Universitária-ABTU), Comunitárias (Associação Brasileira de Canais Comunitários-ABCCom), Legislativas (Associação Brasileira de Televisões e Rádios Legislativas-ASTRAL) e as emissoras ligadas aos governos estaduais e federais (Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais-ABEPEC). Os grupos representavam: 19 emissoras estaduais de caráter educativo/cultural de canal aberto, 19 emissoras legislativas estaduais e 37 municipais, todas em canal fechado; ao menos 15 emissoras universitárias abertas; e cerca de 70 canais comunitários em sinal fechado (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2006)29. A partir desse diagnóstico é elaborada a proposta inicial para a formação de um projeto de televisão pública. A sistematização dessa proposta foi apresentada no 1º Fórum Nacional de TVs Públicas, que aconteceu em maio de 2007, a terceira e última etapa de consulta para a elaboração do projeto que lançaria as bases que deram origem à EBC.
Concomitante aos quase nove meses que separam o anúncio do Ministro da Cultura propondo a discussão da nova emissora, em setembro de 2006, e o Fórum Nacional, em maio de 2007, o Brasil passou por um conturbado processo eleitoral turbinado pelas denúncias de corrupção envolvendo os desvio de recursos de empresas estatais, como a Empresa Brasileira de Correios, para partidos políticos da base aliada do governo Lula, com vistas ao financiamento partidário e o apoio político no Congresso Nacional, às propostas do governo. O escândalo, que passou a ser chamado pela mídia como Mensalão, numa alusão à “mesada” recebida pelos parlamentares,
29 MINISTÉRIO DA CULTURA. Caderno de Debates. 1o Fórum Nacional de TVs Públicas. Diagnóstico do Campo Público de Televisão. Ministério da Cultura: Brasília, 2006.
atingiu nomes importantes do governo ao longo de 2005 e 2006. O período foi marcado por uma "relação difícil com a imprensa" (AMARAL, 2006)30 que, alinhada ao discurso de oposição, realizou uma cobertura acrítica do sistema político brasileiro e de suas Governo para a disputa eleitoral de 2006. O tópico "Ampliação da democracia" trouxe um parágrafo em que foi firmado o compromisso do governo com a democratização da comunicação (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2006, p. 13)32: "Será garantida a democratização dos meios de comunicação, permitindo a todos o mais amplo acesso à informação, que deve ser entendida como um direito do cidadão". O detalhamento da proposta aparece no item Comunicação, que prevê (PARTIDO DOS TRABALHADORES, 2006, p. 17)33:
Construir um novo modelo institucional para as comunicações, com caráter democratizante voltado ao processo de convergência tecnológica; incentivar a criação de sistemas democráticos de comunicação, favorecendo a democratização da produção, da circulação e do acesso aos conteúdos pela população; fortalecer a radiodifusão pública e comunitária, a inclusão digital, as produções regional e independente e a competição no setor.
Logo após a reeleição do presidente Lula, o ministro das Comunicações desde julho de 2005, Hélio Costa, se apresentou como o interlocutor do projeto da TV Pública.
Em janeiro de 2006, “o ministro anunciou que o governo estudava criar uma nova rede pública de TV e de rádio, formada a partir dos canais cuja exploração pela União foi
30 AMARAL, R. Lula promete conversar mais com imprensa e congresso em 2007. G1.Globo.com. 22 dez. 2006. Disponível em:
<http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,AA1397783-5601,00-LULA+PROMETE+CONVERSAR+MAIS+COM+IMPRENSA+E+CONGRESSO+EM.html> Acesso em: 10 jul. 2016.
31 O Programa de Governo de 2002 abordava o problema apenas no item 9 (de um total de 13 itens) da Introdução argumentando que: “A radicalização do processo democrático no Brasil deve ser entendida como um grande movimento cultural que vai além da adoção de medidas de democracia econômica e social e da realização de reformas políticas. [...] Esse movimento de democratização cultural da sociedade brasileira só estará completo se for acompanhado da democratização dos meios de comunicação.”
PARTIDO DOS TRABALHADORES. Programa de Governo 2002. São Paulo: Partido dos Trabalhadores/Fundação Perseu Abramo, 2002, p. 4. Disponível em: <
http://novo.fpabramo.org.br/uploads/programagoverno.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2016.
32 PARTIDO DOS TRABALHADORES. Programa de Governo Lula Presidente. 2007/2010. São Paulo: Partido dos Trabalhadores/Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 13. Disponível em:
<http://novo.fpabramo.org.br/uploads/Programa_de_governo_2007-2010.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2016.
33 PARTIDO DOS TRABALHADORES. Programa de Governo Lula Presidente. 2007/2010. São Paulo: Partido dos Trabalhadores/Fundação Perseu Abramo, 2006, p. 17. Disponível em:
<http://novo.fpabramo.org.br/uploads/Programa_de_governo_2007-2010.pdf>. Acesso em: 10 jul. 2016.
prevista no Decreto 5.820/2006” (VALENTE, 2009, p. 120)34. O decreto em questão definiu as diretrizes para a implantação do Sistema Brasileiro de Televisão Digital Terrestre (SBTVD-T) e destinou, em seu Artigo 12, quatro canais digitais com largura de banda de 6 mega-hertz para exploração direta pela União Federal (BRASIL, 2006)35.
A entrada de Hélio Costa nas negociações por meio do programa de implantação da TV digital ganhou repercussão em março quando ele entregou ao Palácio do Planalto um projeto que desconsiderava as discussões capitaneadas até aquele momento pelo Ministério da Cultura. O projeto do ministro das Comunicações previa um orçamento de R$ 250 milhões para a elaboração da nova “TV do Executivo” (FNDC, 2007)36. A proposta de Costa devolvia à estaca zero a discussão conceitual entre os diferentes sistemas de comunicação previstos na Constituição. A justificativa da “TV do Executivo” mantinha o padrão de radiodifusão pública como uma estrutura vinculada aos interesses governamentais: “Fomos observando as dificuldades que o governo tem de mostrar suas ideias, de discutir diversos assuntos” (LOBATO, 2007)37. A entrada atabalhoada do novo protagonista surpreendeu a todos que participavam das discussões sobre a TV pública, incluindo o próprio Ministério da Cultura (FNDC, 2007)38:
A proposta do ministro das Comunicações, Hélio Costa, de criar uma rede de TV do Executivo, já apelidada pela oposição de TV Lula, tem mais críticos dentro do próprio governo do que se imaginava. Para técnicos do Ministério da Cultura, ao lançar a ideia, Costa acabou atropelando uma discussão ampla, que a Cultura desenvolve desde o ano passado, sobre a criação de uma rede pública de televisão. O presidente da Radiobrás, Eugênio Bucci, já havia reagido com surpresa ao projeto do ministro das Comunicações.
O debate público travado naquele momento explicitou as diferentes compreensões sobre a comunicação pública, ora negando a estrutura dos sistemas já existentes, ora apresentando-os como base para a construção da nova TV Pública:
34 VALENTE, J. TV Pública no Brasil. A criação da TV Brasil e sua inserção no modo de regulação setorial da televisão brasileira (2009). Dissertação de Mestrado. Programa de Pós-Graduação em Counicaçao. Faculdade de Comunicação. Universidade de Brasília, Brasília, 2009, p. 120.
35 BRASIL. Decreto 5.820 de 29 de junho de 2006. Dispõe sobre a implantação do SBTVD-T, estabelece diretrizes para a transição do sistema de transmissão analógica para o sistema de transmissão digital do serviço de radiodifusão de sons e imagens e do serviço de transmissão de televisão, e dá outras providências. Brasília: Presidência da República/Casa Civil, 2006. Disponível em:
<www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2006/Decreto/D5820.htm>. Acesso em: 27 fev. 2015.
36 FNDC. Costa entrega ao Planalto projeto de R$ 250 mi para rede de TV do Executivo. Clipping. 13 mar. 2007. Disponível em: <http://fndc.org.br/clipping/costa-entrega-ao-planalto-projeto-de-r-250-mi-para-rede-de-tv-do-executivo-140362/>. Acesso em: 10 jul. 2016.
37 LOBATO, Elvira. Governo defende TV estatal para “mostrar suas ideias”. Folha de S. Paulo, 14 mar.
2007. Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1403200702.htm>. Acesso em: 10 jul. 2016.
38 FNDC. Ministério da Cultura quer rede pública, não estatal. Clipping, 29 mar. 2007. Disponível em:
<http://fndc.org.br/clipping/ministerio-da-cultura-quer-rede-publica-nao-estatal-145222/>. Acesso em: 10 jul. 2016.
O secretário do Audiovisual do Ministério da Cultura, Orlando Senna, disse que foi feita uma confusão entre TV estatal e pública [...] E o que Costa está propondo é uma ampliação da TV estatal, da Radiobrás. “A TV estatal é o ponto de vista do governo. É, entre aspas, a Voz do Brasil. A TV pública é televisão das sociedades, não do governo” – afirmou Senna.
(VASCONCELOS, 2007)39
As TVEs existentes já formam um “embrião” do que pode se tornar uma rede de TV pública no Brasil, sem necessidade de partir do zero, como cogita o governo federal. “Falta definir exatamente o que é uma TV pública”, diz a jornalista Beth Carmona, diretora-presidente da Associação de Comunicação Educativa Roquette Pinto (Acerp), que comanda a TV Educativa Brasil [...].
(G1.GLOBO.COM, 2007)40.
Durante quase 15 dias o tema esteve na agenda dos jornais e revistas de circulação nacional. Editorias, artigos e manchetes amplificaram a discussão e tornaram públicos os desentendimentos dentro do governo:
Prossegue a novela da TV pública que não é pública. Na quinta-feira (15/3) quem se insurgiu foi o Ministério da Cultura, por intermédio do Secretário do Audiovisual, Orlando Senna. E disse o que dele se esperava: o projeto está errado a partir do nome e, muito mais grave do que isso, vai atrapalhar a política do ministro Gilberto Gil de promover o fortalecimento da verdadeira rede pública de TV, aquela que vai oferecer à sociedade brasileira uma programação verdadeiramente alternativa. (DINES, 2007)41
O poder executivo não deve ter, sob seu comando, uma rede pública de TV.
Essa rede só pode ser viável se não tiver compromisso com a promoção de governos, políticas partidárias e, sobretudo, com ideologias (...) Por outro lado, o Poder Executivo já tem em suas mãos poderosas e onerosas máquinas de propaganda que servem, de sobra, aos seus interesses. (ZARUR, 2007)42.
Em meio às manifestações de ativistas e especialistas, o projeto de Hélio Costa recebeu o apoio da Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) (FNDC, 2007)43:
A Associação Brasileira das Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), entidade que representa o setor privado, saiu ontem em defesa da proposta do
39 VASCONCELOS, A. Senna: ‘TV pública não é do governo’. O Globo, 15 mar. 2007. Disponível em:
<www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/405614/complemento_2.htm?sequence=3>. Acesso em:
10 jul. 2016.
40 G1.GLOBO.COM. Para chefe da TVE, Rede Pública já existe. G1. Globo.com, 18 mar. 2007.
Disponível em http://g1.globo.com/Noticias/Politica/0,,AA1492131-5601,00.html>. Acesso em: 10 jul.
2016.
41 DINES, Alberto. A novela da falsa TV pública. Observatório da Imprensa, ed. 424, 15 mar. 2007.
Disponível em: <http://observatoriodaimprensa.com.br/interesse-publico/a-novela-da-falsa-tv-publica/>.
Acesso em: 10 jul. 2016.
42 ZARUR, C. O Poder Executivo deve ter uma rede de TV?. O Estado de S. Paulo, 14 mar. 2007.
Disponível em: <www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/326150/noticia.htm?sequence=1>. Acesso em: 10 jul. 2016.
43 FNDC. Abert apoia iniciativa do ministro. Clipping, 14 mar. 2007. Disponível em:
<http://fndc.org.br/clipping/abert-apoia-iniciativa-do-ministro-140752/>. Acesso em: 10 jul. 2016.
ministro das Comunicações, Hélio Costa, de criar uma rede de televisão pública de alcance nacional. “Apoiamos a iniciativa do governo porque ela não traz antagonismo com o setor privado e atende ao princípio da complementariedade”, afirmou o presidente da entidade, Daniel Slaviero.
O apoio das emissoras de radiodifusão privadas – entre as representadas da Abert, está o Grupo Globo – não deveria causar estranhamento. A própria nomeação de Hélio Costa como Ministro das Comunicações já tinha sido apoiada pelo setor que, na prática, conseguiu colocar um aliado em cargo estratégico e, precisamente, em um momento decisivo de escolha do modelo de sistema de televisão digital implantado no Brasil44. O currículo de Costa, então senador pelo PMDB de Minas Gerais, deixava claro seu vínculo com os monopólios da comunicação: antes de se tornar apresentador do Grupo Globo, ele tinha sido radialista e repórter do jornal O Estado de Minas. Até 2006, foi sócio majoritário da rádio Sucesso FM, em Barbacena (MG)45.
O posicionamento da Abert a favor do projeto de televisão pública de Hélio Costa ajudou a alimentar a desconfiança entre os defensores do processo de democratização da comunicação, como foi o caso do professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, Laurindo Leal Filho (FILGUEIRAS, 2007)46:
“Tenho um pé atrás com esse projeto. O que me parece é que o resultado dele deverá ser uma grande rede com uma pequena audiência”. Essa possibilidade, em sua opinião, é que explica o apoio dado ao ministro pela Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert). “Eles deram apoio porque já percebem que a tal rede pública não vai ter audiência”.
A repercussão negativa irritou o ministro Hélio Costa, que acabou criando uma crise que teve repercussões internacionais ao tentar esclarecer que sua proposta dizia
44 A implantação do sistema de televisão digital no Brasil também foi cenário de embates entre a sociedade civil organizada, as empresas de comunicação e, mais recentemente, as empresas de telefonia.
Com a presença de Hélio Costa no Ministério das Comunicações, os radiodifusores conseguiram um aliado fundamental que resultou na escolha do chamado “padrão nipo-brasileiro”, uma tecnologia mais interessante para as emissoras de televisão que para as grandes empresas de telefonia. A inauguração do sistema digital no Brasil foi concomitante à estreia da TV Brasil. No dia 2 de dezembro, uma faixa do coletivo Intervozes, movimento social ligado à agenda da democratização da mídia, colocada em frente à Sala São Paulo, no centro da capital paulista, onde foi anunciada a estreia da TV digital no Brasil, resumiu bem o cenário de manutenção do padrão hegemônico: “O padrão é digital, mas continua tudo igual” dizia a faixa.
45 Ao assumir o Ministério das Comunicações, a Comissão de Ética Pública, ligada à Presidência da República, apontou conflito de interesses entre a nova função assumida por Hélio Costa e sua condição de empresário das comunicações. A emissora foi transferida para o chefe-de-gabinete do ministro, José Arthur Filardi, que pagou o valor de R$ 70 mil pela rádio Sucesso FM. A operação gerou suspeitas, uma vez que o valor estimado da emissora poderia chegar a R$ 1,2 milhão (VALENTE, 2008).
46 FILGUEIRAS, S. Para estudioso, educativas devem ter 4 fontes de verba. O Estado de S. Paulo, 15 mar. 2007. Disponível em:
<www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/326031/complemento_2.htm?sequence=3>. Acesso em 10 jul. 2016.
respeito a uma TV pública, e não estatal. Na tentativa de explicar a diferença entre uma e outra, o ministro aumentou ainda mais a confusão entre os conceitos de comunicação estatal, pública e governamental. Argumentou que comunicação estatal seria aquela produzida pelos sistemas comunicacionais dos países socialistas, incluindo no bojo a emissora pública venezuelana, Telesur (ZIMMERMANN, 2007)47:
“TV estatal é o que [Hugo] Chávez [presidente da Venezuela] faz, TV estatal é o que se faz em Cuba. TV estatal é o que se fazia na Polônia, TV estatal se fazia na antiga União Soviética. E eu estive em todos esses lugares para saber perfeitamente qual é a diferença entre estatal e pública”.
As declarações foram classificadas pela Embaixada da Venezuela como
“insultantes e perigosas” (JUNGBLUT e VASCONCELOS, 2007)48 e foi preciso a intervenção do Ministério das Relações Exteriores para contornar a crise. Mas a essa altura a repercussão negativa já tinha ajudado a colocar de lado o projeto de televisão de Hélio Costa, o que se deu logo após a posse da equipe de ministros que iria compor o segundo mandato do presidente Lula. A ampla reforma ministerial incluiu a mudança de gestão na Secretaria da Comunicação Social. O ex-comentarista político da TV Globo e da TV Bandeirantes, Franklin Martins, foi convidado a assumir a pasta, que voltou a ter status de Ministério49.
No discurso de posse dos novos ministros, o presidente Lula fez uma (não tão breve) explanação do tema que já vinha sendo nomeado como uma "das principais
No discurso de posse dos novos ministros, o presidente Lula fez uma (não tão breve) explanação do tema que já vinha sendo nomeado como uma "das principais