III. Televisão e imprensa escrita: especificidades e influências
1. A caixa que mudou o mundo: aproximações ao caso português
1.1 Os debates sobre o modelo público e o modelo privado de televisão
Quando falamos em televisão, a distinção entre o modelo público de televisão e o modelo privado emerge como uma questão primordial.
De acordo com Carvalho, Cardoso e Figueiredo (2012), a radiodifusão emerge na década de 20 do século passado, quer nos EUA, quer na Europa, como resultado do interesse do setor empresarial da área do material radioelétrico em expandir o seu negócio. Enquanto os EUA se pautavam por um panorama de livre concorrência, os países europeus estavam sujeitos ao monopólio estatal, modelo que é também transposto para a televisão aquando do seu surgimento, uma década mais tarde. Em países como a Grã-Bretanha, a França, a União Soviética e a Itália, as emissões de televisão têm início antes da Segunda Guerra Mundial, sendo que, na maior parte destes casos, as empresas públicas de televisão têm a sua origem nas experiências levadas a cabo pelos operadores de rádio. O monopólio estatal na rádio e na televisão acaba por perdurar até aos anos 80, altura em que são abertas as portas à iniciativa privada, através da criação do sistema dual, que permite a existência conjunta de operadores de natureza privada e de “um influente serviço público, que ainda hoje caracteriza a Europa” (Carvalho, Cardoso e Figueiredo, 2012: 302).
Analisando o surgimento e a expansão da televisão na Europa, Wolton (1994) destaca o domínio do panorama audiovisual pelo modelo público de televisão, entre 1950 e 1970, altura em que a programação dos operadores públicos era dominada por conteúdos de cariz popular e educativo. Porém, a partir do momento em que o poder político passa a procurar capitalizar o dispositivo televisivo em proveito próprio, dá-se o ponto de viragem, com a ideologia do serviço público de televisão a ser ofuscada por esta tendência, situação que foi minando a confiança que as pessoas depositavam na televisão pública. A partir da década de 70, os dois modelos de televisão começam a entrar em
confronto, como consequência de uma mutação na conceção da televisão privada. Até esta altura, a regulamentação da atividade da televisão privada era feita pelo Estado, uma vez que se entendia os meios de comunicação de massas como potencialmente perigosos para a sociedade, situação que muda radicalmente nos anos 70. A televisão pública acaba por acusar algum desgaste, devido à sua resistência face à renovação dos conteúdos, o que favorece a televisão privada, que passa a assumir o protagonismo no seio do universo audiovisual. A partir dos anos 80, o modelo privado de televisão passa a ser dominante “menos devido às próprias virtudes do que às repetidas insuficiências da televisão pública, a qual, aliás, começa a imitá-la muito para além daquilo que teria sido necessário” (Wolton, 1994: 29), verificando-se uma preocupação em captar audiências, uma homogeneidade de conteúdos, uma menor aposta em documentários e uma espectacularização da política. Neste quadro, o autor considera que, ao passo que o modelo privado passa do “mal de ontem” ao “bem de hoje”, a televisão pública segue a tendência oposta, como se “tivesse sido ‘necessária’ no início da televisão e fosse hoje inútil” (Wolton, 1994: 14).
Na mesma esteira, Bustamante (2003) analisa a crise que passa a afetar o modelo de televisão pública em 1980, considerando que esta se fez sentir a três níveis: a nível político, devido ao recuo do financiamento estatal às televisões públicas e ao decréscimo da regulamentação do Estado; a nível económico-financeiro, fruto da quebra em termos de receitas e do enorme aumento dos gastos, o que tem um impacto profundo na capacidade concorrencial face às televisões privadas e conduz as televisões públicas a mimetizarem os conteúdos das privadas e a recorrerem à publicidade como forma de gerar receitas; a nível sociocultural, como consequência da fragmentação dos públicos potenciada pela diversificação da oferta no mercado televisivo, da expansão do número de aparelhos televisivos em cada lar e da generalização do vídeo doméstico. De acordo com Bustamante, neste cenário, a televisão pública viu-se numa encruzilhada. Ou apostava na conservação das suas especificidades e garantia a prossecução do serviço público de televisão ou passava a concorrer diretamente com os operadores privados. Na generalidade dos casos, a estratégia seguida foi precisamente esta última. Para além disso, com vista à superação da crise que sobre ela se abateu, a televisão pública passa a procurar: desenvolver recursos próprios, através do controlo de todos os conteúdos produzidos, da reorganização dos ativos imobiliários e da informatização dos arquivos; reduzir os gastos, recorrendo à externalização da produção e à redução dos recursos
humanos; aumentar as receitas, por via de uma aposta na publicidade, na procura de novos mercados e na regionalização da programação.
No entanto, não é apenas a televisão pública que se debate com problemas. Lançando um enfoque sobre a televisão privada, Bustamante alude aos desafios que esta enfrenta na atualidade, com destaque para: a instabilidade dos investimentos publicitários; a supremacia da oferta sobre a procura; a ampliação dos custos com a produção de programas e a redução dos lucros deles advindos; a indefinição quanto aos níveis de audiência; e a longevidade e o custo elevado do ciclo financeiro.
Neste cenário, o autor defende a ideia de que a televisão privada deverá procurar equilibrar a sua capacidade de produção interna e o nível de procura publicitária estimado, ao mesmo tempo que a televisão pública deverá “continuar a dar resposta às solicitações de uma programação de qualidade, promover a inovação criativa, reflectir a diversidade cultural, social e regional de cada país, garantir uma informação equilibrada, plural e autónoma” (Bustamante, 2003: 69-70).
Em Portugal, o serviço público de televisão emerge a 7 de março de 1957 com o nascimento da RTP. De acordo com Cádima (1995, 1999), numa fase inicial, o canal público de televisão começa por ser um dos principais instrumentos de propaganda do Estado Novo, apesar de o Estado português deter apenas um terço do capital da RTP, ficando os restantes a cargo de subscritores privados e aos emissores particulares de radiodifusão. Em meados da década de 60, as emissões são alargadas a todo o país e, em 1968, surge o segundo canal. Com o 25 de Abril de 1974, a RTP é nacionalizada e passa a constituir-se como uma empresa pública, sendo gerida na totalidade pelo Estado português. Em 1980, assiste-se a evoluções importantes, como o surgimento da emissão a cores e a internacionalização crescente das emissões, mas é com a década de 90 e com a abertura do mercado à iniciativa privada que se verificam “as transformações mais profundas no projecto RTP e no próprio panorama audiovisual português” (Martins, 2006: 92).
O monopólio detido pela RTP mantém-se até ao dia 6 de outubro de 1992, data em que o panorama do audiovisual português assiste ao surgimento do primeiro canal privado: a SIC. De acordo com Lopes (2012), ainda antes do início das suas emissões, a SIC já assumia uma estratégia de “confronto” com a RTP1, que entendia como um concorrente e um “verdadeiro adversário”. Inaugurando as suas emissões com a frase “estudantes de luto contra as propinas”, a SIC assume, desde logo, o seu posicionamento em matéria jornalística – “um jornalismo irreverente, de contrapoder, feito à revelia das
fontes oficiais, mais preocupado com a plateia do que com aqueles que punham o poder em cena” (Lopes, 2012: 18). De acordo com Santos (2002), progressivamente os objetivos concorrenciais da SIC foram sendo concretizados, atingindo a liderança do mercado três anos depois da sua primeira emissão. Na perspetiva de Lopes (1995), este sucesso fica a dever-se à grelha programática apresentada pela SIC, pautada por uma enorme multiplicidade de conteúdos, não só ao nível da informação, como também no plano do entretenimento, com uma aposta clara em programas de entretenimento geral, filmes, programas infantojuvenis, documentários, reportagens e séries.
Na esfera informativa, o canal privado constitui-se como uma verdadeira alternativa à proposta apresentada pela RTP, “desprendida das fontes oficiais para privilegiar o cidadão comum” (Lopes, 2012: 19). À primazia da SIC no horário nobre, fruto da transmissão das novelas da Rede Globo, a RTP1 responde com o alargamento do horário de emissão do Telejornal, “o programa mais antigo da televisão portuguesa” que se constituía como “um trunfo que parecia inabalável” (Lopes, 2012: 19). A SIC adotou a mesma estratégia com o Jornal da Noite, mas até maio de 2005 a RTP conseguiu manter- se no primeiro lugar. De acordo com a autora, o ponto de viragem dá-se precisamente nesta altura, quando o operador público compra os direitos de transmissão do casamento de D. Duarte de Bragança e se vê obrigado a conceder longos minutos de emissão ao assunto, relegando para segundo plano o Telejornal, que nesta altura passa a ter apenas dez minutos de duração. O público começa a transferir-se para a SIC e, em setembro, o Jornal da Noite ultrapassa o Telejornal em termos de audiência, mantendo-se na posição cimeira durante longos anos. Os últimos cinco anos da década de 90 no panorama audiovisual nacional ficam, assim, marcados por uma “supremacia inabalável da SIC, traduzida na estabilidade dos responsáveis da estação, no êxito generalizado dos produtos colocados em grelha e, consequentemente, numa situação financeira relativamente confortável” e por “crises sucessivas na RTP, que se mostra vulnerável às mudanças dos responsáveis políticos a quem é entregue a tutela do serviço público de televisão, entrando numa espiral de dívidas incontroláveis, parecendo não saber encontrar uma oferta televisiva em consonância com a natureza do operador” (Lopes, 2012: 20).
A 20 de fevereiro de 1993, a TVI vem completar o leque de canais e a televisão generalista portuguesa passa então a ter quatro canais (dois públicos e dois privados), situação que se mantém até aos nossos dias. De acordo com Sousa e Santos (2005), tal como se havia verificado aquando do surgimento da rádio, “esta transformação no sector televisivo não foi precedida de um estudo cuidado sobre as implicações da reforma”
(Sousa e Santos, 2005: 69), pelo facto de as atenções estarem todas direcionadas para os atores que passariam a deter a propriedade dos canais de natureza privada e as consequências políticas da decisão sobre essa escolha. Neste quadro, os autores frisam que questões importantes como as fontes de financiamento, a dimensão do mercado da publicidade, a elucidação das regras da concorrência ou os limites e as obrigações de cada canal, quer no plano da informação, quer no plano da programação, acabaram por ser relegadas para segundo plano.
Como projeto da Igreja Católica, a TVI aposta inicialmente numa programação amplamente direcionada para as áreas da cultura e da educação, estratégia que acaba por pautar-se pelo insucesso. De acordo com Traquina (1997), à exceção da programação infantil, a TVI não consegue assumir-se como uma alternativa aos outros dois operadores. No final de 1994, após várias mudanças na grelha de programas, a TVI adota uma postura marcadamente comercial, apostando em concursos e telenovelas, rotuladas por Traquina como o “petisco” predileto do “grande público”. No entanto, esta aposta acaba por não ter os resultados pretendidos, o que fez com que a TVI mudasse de estratégia e se concentrasse exclusivamente em sobreviver. Segundo Martins (2006), é em 1997-1998 que podemos situar a verdadeira mudança no seio da TVI. Com a sua aquisição pela Media Capital, “a estratégia para este canal sofreu uma reorientação radical e conduziu definitivamente a TVI no mesmo sentido da SIC, ou seja, para uma programação fortemente comercial” (Martins, 2006: 94).
Na opinião de Traquina (1997), neste panorama, a RTP acabou por manter-se longe do valor do serviço público, optando por estruturar a sua programação em torno de concursos, do futebol e das telenovelas. Princípios basilares do serviço público, como a universalidade, a independência, a diversidade, a inovação, o pluralismo, a qualidade, a valorização da cultura e da identidade nacionais, a indivisibilidade e a proteção de minorias, tal como são identificados por Carvalho, Cardoso e Figueiredo (2012), acabam por ser preteridos, em prol de uma aposta na captação do interesse do público e dos anunciantes.
No quadro atual, Carvalho, Cardoso e Figueiredo (2012) consideram que a evolução social e política, o panorama concorrencial com as televisões privadas e a diversidade de canais temáticos – fruto não só da expansão do cabo e do satélite, como da própria consolidação das tecnologias digitais – conduziram o modelo público de televisão a uma crise em muitos países. Por outro lado, a ampliação do esforço pedido aos contribuintes ou aos Estados, decorrentes do decréscimo registado ao nível das receitas
publicitárias e do aumento dos custos (inerentes à dilatação dos horários de emissão e à aposta em determinados tipos de programas, particularmente na área do desporto, cujos direitos de transmissão têm vindo a ser inflacionados), emerge como um desafio que se coloca ao serviço público de televisão, ao qual acrescem os desafios decorrentes da expansão dos novos media. Neste quadro, os autores consideram que o modelo público poderá enfrentar uma perda a vários níveis, nomeadamente no que concerne ao seu poder de influência em termos sociais, ao seu espaço no mercado audiovisual e à sua legitimidade enquanto modelo alternativo à oferta proposta pelos operadores privados (Carvalho, Cardoso e Figueiredo, 2012).