3.2 O que dizem as gramáticas
3.2.2 Os demonstrativos na gramática funcional
Uma abordagem descritiva da Língua Portuguesa busca levar o aprendiz a conhecer os fatos de uso da linguagem, através de reflexões sobre usos reais da língua, sem ditar um modelo exemplar. Passaremos a analisar nosso objeto de estudo sob a perspectiva de uma visão descritiva/funcional nas gramáticas de Castilho (2016), Neves (2011) e Perini (2010).
A Gramática de usos do português, de Maria Helena Moura Neves, tem como objetivo
promover uma descrição do uso efetivo dos itens da língua, compondo uma gramática referencial do português. É um produto prático, mas de orientação teórica definida, que visa a permitir a recuperação da investigação não apenas como conjunto de análises, mas também como conjunto de proposições. [...] Pretende-se que haja uma apropriação dos resultados por parte de toda a comunidade de usuários da língua. (NEVES, 2011, p. 15). Nesse instrumento de pesquisa, Neves (2011) dedica uma seção aos pronomes demonstrativos, na qual os define como palavras fóricas que sempre fazem referenciação, “seja ao contexto, como em: „Quando me davam um texto, eu já sabia como ia fazê-lo. Aí, AQUELE texto não me interessava(AMI)‟, seja à situação do discurso, como em: „Eu lhe agradeço a presença nESTA mesa, nESTA ceia (CP)‟” (NEVES, 2011, p. 491, grifos da autora).
Um quadro do sistema ternário dos pronomes demonstrativos, apresentado pela autora, mostra as formas variáveis (em gênero e número) e as invariáveis, relacionadas às pessoas três pessoas do discurso.
Seguindo-se a esse quadro, são apresentadas diversas formas desses pronomes, e seus usos são descritos por meio de extensa variedade de textos escritos, de diversos gêneros textuais/discursivos, o que garante a abrangência de diferentes situações de interação, das mais às menos formais, promovendo, assim, uma descrição real e atual das funções dos pronomes demonstrativos no Português Brasileiro Contemporâneo.
As descrições de usos dos pronomes demonstrativos são feitas detalhadamente, apontando suas possíveis (e diversas) funções nos enunciados, tais como: referenciador textual, referenciador temporal, referenciador situacional, entre outras.
Nas descrições que tratam do pronome demonstrativo como referenciador situacional, são apresentadas situações em que “este” refere-se “mais diretamente ao falante” (NEVES, 2011, p. 499), contudo, na página seguinte, a autora explica que “a vinculação de ESTE com o falante, entretanto, muitas vezes se afrouxa; falante e ouvinte podem ficar envolvidos na relação” (NEVES, 2011, p. 500). A mesma afirmação é feita a respeito da vinculação de “esse” com a segunda pessoa do singular.
Observamos, então, que, na Gramática de usos do português (NEVES, 2011), não aparecem prescrições ou recomendações de como utilizar os pronomes demonstrativos, e as
descrições feitas evidenciam que não há rigor entre os usos dos demonstrativos de primeira ou segunda pessoa, conforme apontam as pesquisas linguísticas.
Na Gramática do português brasileiro, Perini (2010) se propõe a descrever como é o Português Brasileiro, a não prescrever formas certas e proibir formas erradas. Os pronomes demonstrativos (como vários outros tópicos linguísticos) não recebem uma seção separada, exclusiva: eles são apresentados em sentenças produzidas nas práticas cotidianas de uso da linguagem.
Os pronomes, nessa gramática, são classificados em uma categoria denominada “Nominais”, na qual o autor inclui, ainda, outras palavras que, por meio de análises de seu comportamento sintático, podem ser constituintes imediatos de um sintagma nominal (PERINI, 2010). Essa nova classificação proposta por Perini (2010) se deve fato de a tradição gramatical propor uma distinção incapaz de classificar adequadamente todas as palavras da língua.
Segundo esse autor, há alguns traços gramaticais que distinguem os nominais das outras palavras, a saber: “a) Somente os nominais podem ter gênero (inerente ou governado);b) Somente os nominais podem ter número marcado pelo sufixo -s; c) Somente os nominais podem ter potencial referencial” (PERINI, 2010, p. 298).
Nem todos os nominais apresentam todos esses traços, mas o autor afirma que nenhuma das três propriedades se aplica aos não nominais, reforçando, então, a hipótese de que essa classe (nominais) é válida para descrever a língua. Por outro lado, é tida pelo próprio autor como uma classe heterogênea, devido à perspectiva adotada de classificação por traços gramaticais (PERINI, 2010). De acordo com esse autor, os nominais seriam os nomes, os pronomes pessoais, os artigos e predeterminantes, os quantificadores e os possessivos.
Em uma sentença usada como exemplo – “Essa blusa branca de Patrícia” –,o pronome “essa” é classificado como um “nominal” que não pode ser núcleo do sintagma nominal, não pode ocorrer depois do núcleo, não pode coocorrer com um artigo ou outro determinante, não pode ter gênero inerente, nem ocorrer em função adverbial.
Atribuídos à classe dos nominais, devido ao fato de possuírem esses traços, os demonstrativos são considerados por Perini (2010) como “determinantes”, pois aparecem antes do núcleo do sintagma nominal. Assim, são determinantes “esse”, “aquele” e seus femininos e plurais. Segundo o autor, “este” não se usa no Português Brasileiro, e suas funções são assumidas por “esse” (PERINI, 2010, p.260), o que aponta para uma configuração binária dos pronomes demonstrativos, e não ternária, como indicado pelas gramáticas normativas.
Há uma subseção dedicada aos pronomes pessoais, porém, sobre os demonstrativos, não há outras referências. Trata-se, de fato, de uma gramática que descreve os usos da língua portuguesa no Brasil, sem o interesse em prescrever regras ou seguir os usos modelares das gramáticas tradicionais. Todavia, cabe ressaltar, consideramos que as descrições acerca dos pronomes demonstrativos são bastante restritas, não contemplando a diversidade de usos dessas formas gramaticais.
Castilho (2016) também traz, em sua Nova gramática do português brasileiro, uma descrição de como a língua é usada, nas mais diversas circunstâncias, nos dias atuais. Para esse autor, os demonstrativos, juntamente com os artigos e os pronomes pessoais, fazem parte de uma mesma classe, a que denomina mostrativos. Ele afirma que “as classes mostrativas compartilham as propriedades semânticas de verificação de identidade, foricidade e dêixis, sendo de notar que não coocorrem, o que demonstra sua integração na mesma classe gramatical” (CASTILHO, 2016, p. 497).
Castilho apresenta, ainda, um quadro com o esquema ternário dos pronomes demonstrativos. Contudo, menciona pesquisas que mostram ocorrer uma
Redução dos pronomes demonstrativos a dois tipos, este/esse vs. aquele, perdendo-se a distinção lexicalmente marcada entre primeira e segunda pessoa. Este/esse ocorrem para indicar objetos próximos ou para retomar informações próximas, mantendo-se aquele para indiciar objetos e informações remotas. (CASTILHO, 2016, p. 207, destaques do autor). O autor salienta, entretanto, que “decretar que o sistema ternário dessa subclasse tenha desaparecido é um pouco precipitado, pois na língua escrita, quando se configuram algumas necessidades dêiticas, esse sistema reaparece claramente” (CASTILHO, 2016, p. 498).
Ousamos propor que o sistema ternário dos demonstrativos ocorre, atualmente, somente em textos escritos mais monitorados, como em alguns gêneros acadêmicos, por exemplo.
Castilho (2016) afirma ainda que, por meio da apuração de dados de pesquisas, o demonstrativo sagrou-se campeão na retomada de ideias já mencionadas, assumindo, assim, um papel que ultrapassa os limites da sentença, contribuindo poderosamente para a articulação do texto.
Pudemos observar que as gramáticas descritivas trazem um olhar muito mais concatenado com as pesquisas linguísticas, possibilitando ao pesquisador ter acesso a análises dos usos correntes e atuais dos pronomes demonstrativos. Os exemplos apresentados incluem alguns poucos trechos de obras literárias, a densa maioria é de usos cotidianos, de situações
em que o falante/escritor emprega as variedades cultas da língua. Percebemos, por meio dessa breve descrição de como nosso objeto de pesquisa é abordado em diferentes gramáticas funcionais/descritivas, que há uma gama extensa de empregos dos pronomes demonstrativos que não são sequer mencionados nas aulas de Língua Portuguesa.
A seguir, faremos uma exposição de como esse tópico linguístico é tratado na gramática histórica.