2 Os “anos de espera”
2.3 Os movimentos sociais no “meio negro”
2.3.1 Os desafios da “fase pioneira” (1931-1937)
A partir da segunda década do século XX, algumas mudanças e processos iniciados na esfera da própria ordem social operaram como uma espécie de
regulador da emergência de aspirações igualitárias e contribuíram para a mudança do padrão de reação societária do “negro” aos desafios colocados por sua situação social. Em primeiro lugar, Florestan destaca processos desencadeados pela urbanização acelerada da cidade neste período e típicos do amadurecimento de uma sociedade de classes:
[...] a urbanização intensa e rápida iria desencadear mudanças profundas [...], convertendo a cidade de São Paulo no principal centro de modernização tecnológica e institucional, de secularização do pensamento, de propagação de novas ideologias, de agitação social e de democratização gradativa dos comportamentos políticos. [...] O conflito passa a ser usado regularmente [...] como atestam as reivindicações e as greves operárias dessa época [início do século XX]. (FERNANDES, 2008b, p. 13-14)
Segundo o sociólogo, “o meio negro não permaneceu imune e indiferente a tais acontecimentos. Ligou-se como podia ao clima geral de fermentação de ideias, de ebulição social e de renovação política” (FERNANDES, 2008b, p. 14). Dentro deste contexto, formaram-se “[...] pequenos núcleos de equacionamento autônomo e crítico do ‘problema do negro’ [...]”; um “pugilo de pioneiros” que “[...] empenh[ou-se] em projetar o negro e o mulato nessas tendências globais [...]” e conseguiu criar um novo “estado de espírito” no negro e colocar o “problema do negro” no contexto daquelas transformações sociais. A ação deste grupo criou uma nova situação, em que as aspirações adquirem caráter de reivindicação, as reações canalizam-se em direções produtivas e a discussão sobre a questão racial passou a contar com o interesse pelo conhecimento objetivo da “realidade racial brasileira” e com a voz ativa do “negro” (FERNANDES, 2008b, p. 14).
Contribuíram para isto alguns elementos específicos daqueles processos globais, entre eles o abalo do tipo de dominação tradicionalista baseado no paternalismo, o que Florestan caracteriza como o advento de um “vazio histórico” que incentivou a conquista de uma “autonomia moral” do negro. O controle direto do comportamento e a subordinação irracional ao branco, típicos das relações paternalistas, foram abalados na medida em que se destacava uma pequena elite com condições materiais de vida que proporcionavam autonomia. As migrações
internas e a mobilidade da “população de cor” também contribuíram para cortar as relações de caráter paternalista com o “meio branco”; já não se esperava dos “brancos” a solução do “problema do negro” e se compreendia que os interesses do “negro” eram independentes das avaliações íntimas dos daqueles.
Ao mesmo tempo, a estrutura de poder da sociedade mudava, com o aparecimento dos descendentes de imigrantes em posição econômica capaz de competir com as “famílias tradicionais” pelas posições sociais estratégicas no terreno político e afetando assim as relações daquele círculo com o restante da sociedade, em especial com o “meio negro”:
Os núcleos que procediam à defesa monolítica e impenitente das velhas formas de dominação racial haviam perdido vasta parcela de sua influência direta e pessoal no "meio negro", estando por sua vez empenhados em se resguardar de concorrentes bem mais temíveis. [...] já não possuíam condições eficientes para paralisar, divertir ou perverter as manifestações coletivas que abalavam a ‘população de cor’ e a encaminhavam na luta por reivindicações próprias. (FERNANDES, 2008b, p. 20)
Do ponto de vista do “meio negro”, estas alterações eram recebidas com “júbilo”, como indica a caracterização feita por José Correia Leite e Renato Jardim Moreira das reações dos “negros mais conscientes” aos acontecimentos:
Essas alterações de conjunto eram acompanhadas conjugadamente, pelos aspectos por assim dizer exteriores, pela “população de cor”. Em muitos de seus círculos, sentia-se um secreto júbilo pela derrocada daquelas famílias. Como nos adiantou um dos informantes: “Só depois da Grande Guerra, com o surto de industrialização verificado, que os negros mais conscientes observaram o aparecimento da pequena burguesia de imigrantes produzir uma transformação nas camadas dirigentes, pois começavam os imigrantes a substituir uma suposta aristocracia rural, sem iniciativas na indústria e no comércio, os quais ficavam nas mãos de italianos e turcos.” A própria revolução de 1930 foi por ela recebida e saudada como um “golpe de morte” e como o “desmantelamento da oligarquia que domina o país”. (FERNANDES, 2008b, p. 20; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 118)
Com este pano de fundo, se inicia uma escalada da inquietação larval que subsistia no “meio negro” a um inconformismo sistemático e a uma ação coletiva organizada, movimento que Florestan descreve acompanhando de perto a
narrativa de José Correia Leite na monografia “Movimentos sociais no meio negro”.
Segundo o sociólogo, subsistia uma “revolta reprimida” no “meio negro” desde a Abolição, que “[...] trabalhava de forma latente os espíritos, constituindo uma base natural para a emergência de solidariedade, de consenso e de comportamento coletivo inconformista [...]” (FERNANDES, 2008b, p. 21). Se antes ela era sufocada pela apatia ou equacionada de maneira negativa, na forma de reações prejudiciais, o desenvolvimento de certos requisitos psicossociais, após determinado tempo, funcionou como ponte entre os sentimentos negativos de humilhação e desespero e os incentivos histórico-sociais acima citados, criando uma predisposição à adesão a formas coletivas de reação societária inconformista, que surpreendeu a minoria envolvida nos movimentos reivindicatórios, conforme aponta José Correia Leite:
A acuidade do "meio negro" a tais intenções era tão grande, que o êxito logrado chegou a surpreender e desorientar os próprios fomentadores e os líderes de semelhantes iniciativas. Eles pensavam que os vários obstáculos inerentes ao estado do "meio negro" e à organização da sociedade inclusiva iriam dificultar o recrutamento, a retenção e a animosidade dos prosélitos. No entanto, quando se fundou a Frente Negra, por exemplo, mostrou-se uma realidade diversa, com o afluxo em massa de aderentes entusiastas: “O conhecimento dessa conjuntura não permitia que fossemos otimistas com relação ao êxito da Frente Negra. Por este motivo, o seu extraordinário sucesso deixou os elementos de sua direção abalados e sem saber que orientação tomar.” (FERNANDES, 2008b, p. 22-23; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 146)
O que havia possibilitado esta acuidade aos movimentos coletivos foi um processo de ressocialização, vivido pelo “negro” pela sua própria experiência com os efeitos negativos das formas de vida social imperantes no “meio negro”:
A liberdade funcionou como uma armadilha que o "negro" só logrou perceber e enfrentar, completamente, quase meio século depois da Abolição. Nesse interregno, a sua aprendizagem raramente se deu através da participação e da ação. Ele aprendeu graças à exclusão, à provação e à frustração. [...] O fato mais importante de todo o background psicossocial e sociocultural que nos interessa, diz respeito a essa aprendizagem tosca, dolorosa e, por excelência, vicária. [...] Apenas podemos identificá-la exteriormente, pelos efeitos que dão testemunha de
sua existência, do seu alcance e do seu significado. (FERNANDES, 2008b, p. 33)
O “negro” rompeu com o isolamento provocado por sua situação social e absorveu, pela experiência, certos requisitos psicossociais e socioculturais mínimos e fundamentais, pelo menos no que toca o domínio dos ajustamentos e técnicas sociais básicas da vida social na ordem social competitiva. Passou a ter acesso, portanto, a condições mínimas de organização do comportamento social inteligente, se não para o comportamento inconformista em escala coletiva, pelo menos para integrar-se à ordem social competitiva. Os movimentos reivindicatórios irão promover a generalização destes requisitos e a diferenciação do comportamento social em direção ao inconformismo sistemático, como veremos.
Florestan dá grande ênfase ao fator do contato com o êxito do imigrante, especialmente do italiano. Por meio deste, o “negro” teria tomado consciência de que precisava alterar seus padrões de comportamento e formas de vida, caso pretendesse lograr algum sucesso no contexto da nova ordem social. Segundo Florestan, foi “[...] graças à vizinhança e, principalmente, à convivência íntima no seio de algumas famílias que abrigavam ‘menores de cor’, [que] formou-se uma compreensão madura das ‘fontes de sucesso do italiano’” (FERNANDES, 2008b, p. 16).
Se no início, “[...] viam com ansiedade e ressentimento as transições quase mágicas que se operavam no destino de antigos vizinhos nos porões e nos cortiços” (FERNANDES, 2008b, p. 16), mas daí logo saíram avaliações construtivas a respeito do estilo de vida do italiano, em comparação com o imperante no “meio negro”, e as energias voltaram-se para a absorção das formas de vida social organizada e padrões de comportamento postos em prática pelo imigrante, especialmente com relação ao trabalho e à poupança.!
! Este processo era, ao mesmo tempo, um requisito para o surgimento de movimentos reivindicatórios e algo estimulado e levado adiante por estes; trata-se
de um processo de ressocialização pela experiência, que permitiu o surgimento de um empenho de ressocializacão consciente pela comunicação e ação, no “terreno das ideias”. A atuação de uma minoria consciente fazia um trabalho de promover a diferenciação das novas disposições em direção a uma consciência crítica do “problema do negro”.
A inspiração da narrativa do sociólogo nas experiências de José Correia Leite é evidente e, embora Florestan não cite diretamente a história de vida do informante neste capítulo, o fato de sabermos que a monografia foi, em realidade, uma derivação da primeira, indica a apropriação que Florestan faz de uma narrativa coerente previamente construída em conjunto por José Correia Leite e Renato Jardim Moreira, a partir das experiências daquele.
Como apontamos, essa narrativa presente no material empírico original encadeia as experiências de José Correia Leite, apresentadas em sua história de vida, como parte de um processo social mais amplo, que culmina no surgimento dos movimentos reivindicatórios; a continuidade entre ambos os documentos é Renato Jardim Moreira quem aponta, ao encerrar a história de vida do informante. Na monografia, o pesquisador não retoma as experiências formativas de José Correia Leite diretamente, a não ser por uma nota de rodapé, não citada por Florestan, em que faz uma associação justamente entre a convivência próxima do “negro” com os imigrantes e a ideia de fundar a FNB:
Talvez o sucesso econômico dos imigrantes moradores do Bexiga, que viviam ao lado dos negros, também tenha um papel importante no despertar da ideia de uma organização [FNB] para patrocinar o levantamento social, econômico e cultural do negro, assim como na de defesa de suas reivindicações. Não tenho elementos para esta afirmação, mas me parecem sugestivos dois fatos: um, o de terem, os movimentos de negros, surgido no Bexiga e não na Barra Funda, zona também de população negra densa, outro, o do depoente, tendo passado sua adolescência em casa de família italiana, fazer referências ao “erro que o negro estava percebendo em 27-28, de não ter imitado o imigrante, ao ter este último passado necessidades e se alimentado mal – fato de que o negro caçoava. Nessa época os italianos era donos de todo o Bexiga e seus filhos, quando não doutores, eram guarda livros, alfaiates, marceneiros, ou tinham pequenas casa de comércio, enquanto os negros ainda viviam em porões e sofriam as mesmas picadas da desigualdade
econômica. O Clarim chamou a atenção para este fato muitas vezes.” (LEITE, MOREIRA, [1951], p. 142)102
Assim, substituíram-se as aspirações irrealistas ou a inércia alimentada pela desilusão e compreendeu-se que o trabalho era uma fonte de classificação e um ponto de partida para a ascensão, ajustando as aspirações da “população de cor” a fins realistas e aos meios adequados. O aprendizado pela experiência negativa e pela observação do imigrante bem sucedido teve uma influência importante e positiva na orientação dos movimentos reivindicatórios, que os impulsionou na direção já apontada, de estimular e desenvolver as novas disposições e promover de maneira consciente a ressocialização do “negro”:
Essa percepção, alcançada mais ou menos quando os movimentos sociais começaram a germinar, teve enorme significação dinâmica. Ela concentrou a atenção dos lideres desses movimentos naquilo que era essencial: a absorção, pelo negro e pelo mulato, de novas técnicas e instituições sociais. Entenderam, enfim, que a classificação na ordem social competitiva dependia de certos requisitos psicossociais [...]. A essa complexa aprendizagem se prendem as palavras de ordem que se formaram, que insistiam no valor da vida familiar integrada, na solidariedade doméstica, no respeito pela mulher, na importância da educação dos filhos etc. que lançaram a “população de cor” em uma autêntica política cultural de assimilação em bloco de complexos socioculturais a que se mantivera, antes, mais ou menos indiferente. (FERNANDES, 2008b, p. 17)
A diferenciação deste processo de ressocialização em direção à formação de uma consciência crítica do “problema do negro” se deu no seio dos movimentos reivindicatórios. As novas disposições adequadas à ordem social competitiva (classificar-se socialmente pela aquisição de uma ocupação fixa, participar de certas formas de vida social, desfrutar dos mesmos direitos e
!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
102 Florestan não cita integralmente esta nota de Renato Jardim Moreira, apenas a parte referente ao depoimento direto de José Correia Leite, em que este nota o “erro” do negro não ter “imitado” o imigrante. Já destacamos esta citação na primeira seção deste capítulo – ela encerra algumas considerações do sociólogo sobre evolução da “consciência histórica” de uma minoria a respeito da “espoliação racial” que foi produto da Abolição; aos poucos, teriam percebido que o único sujeito que poderia corrigir tal espoliação era o próprio negro, abandonando formulações anacrônicas que projetavam a solução do problema nos ex-senhores ou camadas dirigentes do passado.
prestígio que os outros etc.) e as frustrações que derivavam da não satisfação daqueles impulsos, encontram um espaço para seu amadurecimento nos pequenos círculos inconformistas do “meio negro” da época, as “[...] claques de companheiros, que se reuniam nos bares, nas esquinas e nos terrenos baldios, canais de livre expressão verbalizada” (FERNANDES, 2008b, p. 21).!!
! Pela sua verbalização e representação diante do grupo, a inquietação difusa transformava-se em um “novo estado de espírito” e se chegava, coletivamente, a uma consciência dos “problemas específicos do negro” (portanto, a uma compreensão da natureza histórica e social das inconsistências da ordem social na esfera racial, para além do sentimento imediato de que a cor impunha certas barreiras aos indivíduos). Este processo, Florestan acompanha pela monografia:!
As seguintes indicações sugerem como se formou e se difundiu o novo estado de espírito:
“Em 1924 já havia consciência formada, do idealismo do negro. [...] Começou-se a sentir a revolta que causavam os negros capangas de políticos, bajuladores, e a necessidade de formar-se um grupo consciente para lutar contra esses que tinham sentimento de inferioridade. Esclarece bem esta situação o jornal – O Clarim da Alvorada – que Jaime de Aguiar teve a ideia de fundar, fazendo-o em companhia de José Correia Leite. Aparecendo em janeiro de 1924 com pretensões puramente literárias, tornou-se um ano depois um jornal doutrinário e de luta, por força da colaboração que recebia. A orientação que se imprimiu ao jornal, neste início, foi de aproximação ao branco e recuperação do negro, além da ideia constante da necessidade de união de classe (de homens de cor, porque o termo só mais tarde foi aceito). Ao lado desta situação, pela qual se percebia que os negros começavam a tomar consciência de sua existência como grupo aparte e com problemas específicos dentro da nossa sociedade, permanecia ainda, imperando de fato, a situação passada.” (FERNANDES, 2008b, p. 22; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 120 e 122)
!
Para Florestan, ao tomar consciência dos “problemas específicos do negro”, o setor minoritário e conscientemente inconformista do “meio negro” se preparava para inserir-se como ator no processo mais amplo de mudança social pelo qual a sociedade passava; o esforço de ressocialização consciente atingia o patamar de uma verdadeira aprendizagem política. Sob a influência do contexto
de mobilizações políticas, o “negro” passou por uma “aprendizagem” e passou a ver-se como agente da democratização da ordem social competitiva em formação (FERNANDES, 2008b, p. 23). Novamente, o sociólogo lança mão da monografia para caracterizar o processo a que se refere:
Eis como o documento citado descreve esse aspecto da “reação do negro”:
“À estas transformações de estrutura social, corresponde uma série de outros sucessos que influíram na tomada de consciência por parte dos negros, de seus problemas específicos. A partir da guerra de 14-18, começou a efervescência dos negócios de ismos (socialismo, comunismo). Freqüentei reuniões da U.T.G, onde se embaralhava a revolta do negro com reivindicações do proletariado. Nas nossas rodas de conversa apareciam negros e brancos envolvidos nas teorias marxistas. Estes diziam que a posição verdadeira do homem negro era lutar contra a ordem social pois a culpada da situação era a exploração do regime capitalista. Falavam de um famoso pintor mexicano que tinha feito um mural onde aparecia Lenine no meio de dois trabalhadores: um branco e um negro com as mãos entrelaçadas, tendo Lenine as mãos sobre eles.” (FERNANDES, 2008b, p. 23-24; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 118)
O evento que teria estimulado propriamente a criação de uma entidade e o esforço de arregimentação do “negro” por estes atores, dando encaminhamento propriamente político àquele “novo estado de espírito” e consciência, foi a revolução de 1930 ou, mais precisamente, a decepção com que o “meio negro” recebeu seus resultados. Tendo depositado grandes esperanças na revolução que desalojava as “famílias tradicionais” do poder, a indiferença da nova camada política com relação aos “problemas específicos do negro” incentivou a criação de uma entidade capaz de promover a efetivação das soluções imaginadas e levar a cabo as reivindicações:
“Os movimentos adquirem, na década de 30, um conteúdo novo. De fato, se já podiam ser notadas, na ação do Clarim da Alvorada, no Palmares, na tentativa de realização de um Congresso da Mocidade Negra,
intenções de reivindicação de um grupo que até então vivera a margem da sociedade, é só na referida década que procuraram os negros arregimentar sua massa para conseguir maior eficiência na efetivação dessas reivindicações. Para isto concorreu, ao lado das transformações
expressas nos fatos apontados na parte anterior, ‘a não concretização
‘Antevendo a possibilidade de ter a sua situação mudada com a revolução de 30, os negros entusiasmaram-se e passaram a encará-la como a solução de todos os seus males. Na fase revolucionária os negros estavam contentes... podia mesmo ser observado, entre eles, um espírito vingativo: a satisfação de ver aqueles velhos homens da política
perderem a posição dominante. A revolução, feita para liquidar um estado
de cousas que predominava desde o início da República, serviu, na realidade, para satisfazer a ânsia, dos que estavam por baixo, em ocupar
uma posição de destaque na vida nacional – pelo menos, aos que
viverem a situação revolucionária, assim se apresentava’.” (FERNANDES, 2008b, p. 24; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 140 e 142)
!
! A combinação destes acontecimentos foi uma influência dinâmica que impulsionou a inquietação e inconformismo em direção a uma racionalização estratégica do comportamento, “originando uma radicalização imprevisível das manifestações coletivas do ‘protesto negro’” (FERNANDES, 2008b, p. 24). Rapidamente a “decisão para a luta” tornou-se a principal orientação, substituindo a oposição discreta pela “preparação do negro para enfrentar e se opor, pessoal e diretamente, contra as manifestações e os efeitos do preconceito de cor” (FERNANDES, 2008b, p. 24-25).
Florestan cita dois casos, extraídos da monografia, que exemplificam esta nova orientação combativa; um deles se refere ao surgimento do Centro Cívico Palmares, conforme descrito por José Correia Leite e contextualizado por Renato Jardim Moreira como um momento decisivo:
“[...] em que o negro começava a tomar consciência (uma consciência ainda nublada, confusa, toda cheia de contradições) de sua situação social, ‘aparece um negro, Antonio Carlos, hoje major em Barbacena, com a ideia de formar uma biblioteca exclusivamente para negros. Surgiu, desta ideia, uma instituição com o nome de Centro Cívico Palmares, que assumiu logo um papel sui-generis entre os movimentos de negros. A finalidade nitidamente cultural com que surgiu – organização de uma biblioteca – foi superada por força das condições em que vivíamos, passando essa sociedade a ter papel na defesa dos negros e dos seus direitos. É esclarecedora, nesse sentido, a campanha que fez contra uma portaria do chefe de polícia dr. Bastos Cruz, que impunha a condição de branco para a aceitação na Guarda-Civil. Conseguiu o Palmares, que o deputado Orlando de Almeida Prado fizesse um discurso de grande repercussão, o qual provocou a queda dessa determinação (...)’.” (FERNANDES, 2008b, p. 25; LEITE; MOREIRA, [1951], p. 128 e 130)
Florestan acompanha a radicalização do setor inconformista do “meio