5.3 Pontos Convergentes e Divergentes dos Agentes Promotores do
5.3.3 Os Desafios da Hélice Universidade em relação ao Desenvolvimento
Este tópico discorre acerca dos desafios da hélice universidade em relação ao desenvolvimento tecnológico, inovação e empreendedorismo, resultantes da discussão entre a proposta do referencial teórico com a perspectiva dos integrantes da hélice tríplice entrevistados no estudo.
Sendo assim, convêm retomar a concepção de universidade interativa proposto por Audy (2006 apud Gomes e Pereira, 2015), ao destacar que a sociedade sendo mais baseada no conhecimento, espera-se das universidades uma maior contribuição ao desenvolvimento econômico e social, como também as empresas necessitam de um novo tipo de profissional, devido ao mercado de trabalho mais competitivo em diferenciais tecnológicos e conhecimento.
Esta proposta de Audy alinha-se com a percepção do entrevistado Universidade A, que salienta a necessidade da universidade extrapolar o parâmetro apenas da formação acadêmica profissional, que é sua atividade fim. Compreende que deve se proporcionar “uma formação transformadora, que possibilite o surgimento de um sujeito inovador, que retorna a sua cidade ou comunidade sendo uma referência que consegue intervir no seu emprego, na sua empresa, no negócio da família de forma positiva e agregadora”, tornando-se um agente de modificação.
Neste sentido, posiciona a pesquisa e a extensão como propulsores deste diferencial, pois possibilitam maior aproximação da realidade regional, visto que a construção do conhecimento não se limita apenas ao estudo em sala de aula, o conhecimento deve ser compreendido como ferramenta de desenvolvimento e melhoria dos parâmetros de uma região e o diploma apenas o símbolo da conquista.
Seguindo nesta linha da pesquisa, o entrevistado Universidade D salienta a importância de “sair a campo para se construir um diálogo junto com a comunidade de maneira qualificada”, uma vez que essa ação deve ser feita de forma articulada e estratégica, pensando na linha da inovação e desenvolvimento da tecnologia para dar um salto de qualidade, visto que os projetos de extensão e desenvolvimento através da pesquisa são processos primordiais para o desenvolvimento de uma região.
No entanto, observa que os professores estão muito focados no ensino e não conseguem desenvolver a pesquisa e extensão, e alia essa dificuldade a ausência de uma quantidade razoável de tempo para as pessoas trabalharem, como também por faltarem recursos, para o qual o Estado não está presente com o aporte necessário, tão pouco o aporte pelas empresas que poderiam ser beneficiadas, ressaltando novamente a falta de integração entre os principais agentes, assim uma engrenagem não engata na outra e os processos não evoluem.
Esta percepção alinha-se com o entrevistado Universidade B, ao descrever que a universidade tem como um dos principais focos o desenvolvimento regional, porém ao mesmo tempo em que se almeja isso, “os docentes necessitam cumprir questões legais, retirando o foco para outras atividades afastando-se da realidade regional”.
Deste modo, um dos desafios da hélice universidade está na interlocução mais próxima e presente com o meio externo, ou seja, a sua região de atuação, para assim conhecer os principais pontos negativos e positivos existentes, e fazer uma leitura mais precisa das necessidades e potencialidades que podem ser trabalhadas, permitindo intervenções com qualidade que possibilitam mudanças no sentido de inovação, empreendedorismo e desenvolvimento tecnológico.
Esse desafio de interagir com proximidade da região de atuação interliga- se com o entendimento de Etzkowitz (2013, p.41) afirmando que “a universidade está atualmente assumindo um papel mais fundamental na sociedade, um que a torna crucial para a inovação do futuro, a criação de empregos, o crescimento econômico e a sustentabilidade”, confirmando que as
universidades devem se tornar instituições cada vez mais dinâmicas, abertas e proativas.
E neste contexto de universidade proativa, torna-se conveniente resgatar a compreensão de Gonçalo; Zanluchi (2011 apud Gomes e Pereira, 2015), que o desenvolvimento tecnológico é o resultado da cooperação universidade- empresa, na capacidade de reunir recursos, potencializar oportunidades e incentivar os projetos de inovação. De modo, que reafirma a importância da proximidade e do trabalho em conjunto deste elo para obter-se resultados consideráveis.
Já, a Indústria B percebe que a universidade cumpre um papel importante localmente, “na identificação de parcerias estratégicas, no estabelecimento de conexões com outras regiões, com o setor público e com o meio empresarial”, observando as iniciativas desenvolvidas por esta hélice. Igualmente, o entrevistado Universidade C constata que a universidade “vem investindo e trabalhando o empreendedorismo, de modo a modificar a cultura dos alunos”, apontando para opções que transcendem a formação stricto sensu, a sequência em uma carreira acadêmica ou a estabilidade dos concursos.
Desta forma, estas ações da universidade em torno do empreendedorismo tem propagado uma cultura voltada ao conhecimento na região, que ainda é incipiente, mas que está em constante evolução e pode criar um ciclo que com o tempo traga resultados positivos e uma melhoria significativa na realidade atual.
No entanto, esta perspectiva diverge do entrevistado Universidade E, que menciona uma necessidade de inserção nos projetos políticos pedagógicos dos cursos de mais disciplinas obrigatórias sobre empreendedorismo, ampliando assim o interesse e conhecimento do que representa neste contexto atual ser um aluno crítico, reflexivo, inovador e empreendedor. Assim, desafia a universidade atuar de forma mais incisiva na formação do acadêmico, propondo uma evolução nos aspectos da inovação, desenvolvimento tecnológico e empreendedorismo, pela transformação do aluno.
Essa abordagem apresentada associa-se com Schumpeter (1949, apud Dornelas, 2014, p.28), ao descrever que “o empreendedor é aquele que destrói
a ordem econômica existente pela introdução de novos produtos e serviços, pela criação de novas formas de organização ou pela exploração de novos recursos e materiais”, ou seja, é um agente que transforma a realidade que o cerca, identificando as oportunidades disponíveis, e agindo de forma a modificar positivamente o cotidiano, ressaltando assim a importância da universidade despertar o lado empreendedor dos acadêmicos.
Do mesmo modo que as hélices governo e indústria, a universidade também apresenta desafios a serem superados para desempenhar seu melhor papel no desenvolvimento tecnológico, inovação e empreendedorismo. Assim, precisa aproximar-se da realidade regional, com projetos de pesquisa e extensão que consigam realizar uma interlocução eficiente e promotora do desenvolvimento. Além disso, atuar de forma mais incisiva na formação dos acadêmicos, pautando-se no empreendedorismo e inovação como propulsores de uma transformação de qualidade.