i ntrodução
A
Igreja presente na Amazônia desde o século XVII, quando começa sistematicamente sua missão evangelizadora, sempre en-frentou grandes desafios:• grandes distâncias, que não são somente geográficas, mas entre as pessoas, pois os lugares onde vivem (vilas, povoa-dos, aldeias, cidades, estradas, travessões, rios, igarapés...) estão espalhados pela “região-continente”, onde o aces-so, apesar de toda modernidade, é difícil, lento, precário, deficiente;
• os meios de transporte (barcos, carros) e comunicação (rádio, jornal, tv) que a Igreja possui têm altíssimos custos de ma-nutenção e são insuficientes ou precários para uma atuação eficaz e próxima da realidade do povo amazônida;
• o número de padres, religiosos/as, agentes de pastoral, ca-tequistas é insuficiente e há muita dificuldade para a sua formação e reciclagem periódica;
• é altíssimo o custo para a formação dos sacerdotes, pois os seminaristas têm que estudar nos grandes centros (Belém, Manaus, Porto Velho, Santarém) com enormes despesas de manutenção da casa de formação (transporte, biblioteca, alimentação etc.);
• a atuação dos leigos e leigas é importantíssima na Ama-zônia, pois são elas e eles que estão continuamente pe-sentes nas comunidades e as organizam e animam no dia a dia, preparam as liturgias e assumem a catequese. Sua dedicação é voluntária, não remumerada. Por isso têm que
trabalhar para sustentar a família. Não dispõem de recursos próprios para sua formação, que fica a cargo das dioceses e prelazias;
• os recursos financeiros próprios são parcos por causa da pobreza do povo católico, sobretudo nas regiões mais afastadas e de difícil acesso onde há maior necessidade de meios de transporte e infraestrutura adequada e o povo vive do extrativismo, da agricultura para a subsistência ou da pesca ou então do trabalho informal ou sazonal;
• as ajudas de instituições ou agências internacionais só subsidiam em geral projetos ou iniciativas com tempo li-mitado; acabando o recurso, acaba o projeto ou a missão!
Muitas vezes a sustentação de um trabalho missionário ou pastoral depende de um padre, de um bispo oriundo de outro país. Com sua transferência, aposentadoria ou morte desaparecem também os recursos.
Essas são algumas dificuldades que a Igreja enfrenta na Ama-zônia. Os problemas e as necessidades aumentaram drasticamente nos últimos tempos por causa das mudanças rápidas que ocorrem na região, sobretudo devido ao processo de valorização, de ex-ploração de suas riquezas naturais, que tem atraído para a região todo tipo de gente, desde os aventureiros de sempre, que só che-gam para usufruir e depois vão embora, até a chegada de pessoas que se migram para esta região com ou sem família, em busca de melhores condições de vida. A Amazônia é uma área de frontei-ra, cobiçada pelo mundo todo, e isso a torna vulnerável, cada vez mais explorada, ameaçada de ser destruída. Muitas famílias que aqui chegam são vítimas de expulsão da terra, pela mobilização, pela violência, pela precariedade urbana e ausência de políticas públicas que estabeleçam o mínimo necessário para garantir uma vida digna.
Temos diante dos olhos e do trabalho evangelizador e pastoral grandes massas desprovidas de quase tudo, andando de um lado para o outro em busca de melhores condições de vida, sem cidada-nia e afastadas da Igreja, porque a realidade social e pessoal frag-mentada leva as pessoas a procurarem novos grupos religiosos que oferecem salvação (no plano religioso) e solução de seus problemas (no plano social e econômico) como algo imediato, para o hoje de sua existência, transformando a dimensão religiosa em um grande mercado, onde Deus se torna solução para tudo e seus “agenciadores--pastores-bispos” os grandes intermediários dessa salvação.
1ª PaRTe
amazônia: Realidade SÓCiO-POlÍTiCa, eCOnômiCa e CUlTURal O Parauassu do indígena, o Grão-Pará do colonizador, a Ama-zônia dos nossos dias continua um enigma a ser decifrado e é uma permanente fonte de equívocos.
OS miTOS
Com maior ou menor insistência e grau de pertinência decli-nante, a Amazônia ainda é vista como:
• Vastos espaços predominantemente desertos de seres hu-manos.
• Populações indígenas e caboclas rarefeitas, esparsas, viven-do viven-do extrativismo vegetal e animal.
• Frentes de penetração provindas de outras regiões – “ho-mens sem terra” ocupando “terras sem ho“ho-mens”.
• Conflitos sociais, bandidos e mártires.
• Cultura ‘atrasada’ uniforme e arredia aos benefícios do pro-gresso material e espiritual.
• Predadora do vasto capital natural que caracteriza a região.
• Empecilho, para alguns, ao projeto de sacralização da
“Gaia”, em que o ser humano é apenas um detalhe ínfimo.
• Imenso almoxarifado, para outros, a ser explorado até a exaustão sem levar em conta o futuro resultante.
• Uma região dilacerada entre o ecologismo ‘profundo’ por-que extremado e o economicismo exasperado.
• Paisagem física homogênea e monótona – a Planície chata, o Rio oceânico, a Mata uniforme.
• Um Norte distante, selvagem “pela natura e pela cultura”, violento, à margem de qualquer lei humana ou divina.
Estereótipos, em suma, sustentados por inércia interna e inte-resses externos, a serviço de objetivos anamazônicos, quase sem-pre antiamazônicos.
OS mOTeS
Alguns motes vigentes precisam, porém, ser identificados para rever essa imagem defasada, distorcida:
• A Amazônia, na verdade, não é una, nem unívoca, ou se-quer uniforme.
• Coexistem nela numerosas sub-regiões naturais, populacio-nais e organizaciopopulacio-nais.
• A Planície, por exemplo, está encravada entre maciços que contêm os pontos mais elevados do território nacional.
• A floresta é extremamente heterogênea e entremeada de campos naturais.
• A diversidade biológica é a mais rica e menos conhecida do planeta.
• A população total está beirando os 30 milhões de habitantes, com regiões metropolitanas do porte de Belém e Manaus.
• Hoje é uma região predominantemente urbana, baseada em atividades secundárias e terciárias – até quaternárias.
• Mesmo no setor rural, o extrativismo está perdendo peso para extensas lavouras de grãos e criatórios.
• O garimpo é substituído por grandes projetos com tecnolo-gia de ponta, de mineração para exportação.
• A Zona Franca de Manaus é um polo industrial de grande porte e tecnologia intensiva.
• Para delineamento de políticas públicas e demarcação de interesses, a Amazônia foi dividida em Ocidental e Oriental.
• Cresce a expansão de extensas redes de transportes, comu-nicações, C&T.
• O crescimento do seu Produto Interno Bruto revela-se, nos últimos anos, superior à média nacional.
• Trata-se basicamente de um crescimento ‘espontâneo’, não gerado por ações diretas do poder público, em maioria ausente.
• Preso a movimentos de expansão de capitais, muitas vezes apátridas, em busca de novas aplicações.
• As aplicações, todavia, são amparadas e beneficiadas por estímulos e induções do setor público.
Amazônia é uma região, ou melhor, um feixe de regiões unido pela natureza, pela história, pela identidade espiritual, mesmo as-sim em profunda transformação.
aS meTaS
Como influir no curso das ações? Destacamos algumas pistas de ação:
• Aperfeiçoar procedimentos e instrumentos impeditivos da depredação do patrimônio natural.
• (Re)introduzir, do mesmo passo, comportamentos promo-tores do pleno desenvolvimento dos amazônidas.
• Mais do que a mera sustentação da ecologia ou da econo-mia, a do “ecúmeno” – uma sociedade sustentável.
• Baseada, por isso, nos insumos materiais e culturais autóctones.
• O mapa econômico da Amazônia deixando de ser uma col-cha de retalho de enclaves – atrasados ou avançados.
• Tornando-se, ao invés, um imenso tecido de arranjos pro-dutivos locais – um mega arranjo produtivo regional.
• A renda e o emprego gerados pelos empreendimentos mul-tiplicando-se na própria região.
• Consolidando empresas economicamente produtivas, mas, sobretudo, empreendimentos humanos criativos.
• Alicerçando esperanças e assim alavancando iniciativas e apropriando resultados.
O cenário dos nossos desejos pressupõe, sem dúvida, requisi-tos nem sempre existentes ou fáceis. É preciso assegurá-los.
2ª PaRTe
a iGReJa na amazônia: HiSTÓRia de SUa PReSenÇa e OS deSaFiOS de HOJe
1 – a FORmaÇÃO SOCial amazôniCa nO PeRÍOdO COlOnial As cidades da Amazônia de hoje remontam às Missões ou Aldeamentos estabelecidos pelos missionários que evangeliza-ram as populações da Amazônia a partir o século XVI. Esses al-deamentos eram dirigidos pelos missionários religiosos: Francis-canos, Carmelitas, Mercedários e Jesuítas. Os aldeamentos foram
formados a partir dos descimentos dos índios trazidos à força de diversas partes de uma determinada região e, localizados ini-cialmente na faixa litorânea ou na foz do rio Amazonas, foram penetrando o interior da floresta. Santa Maria de Belém do Grão Pará é o primeiro núcleo populacional ou a primeira cidade. Esse processo chegou até o Alto Solimões, ou Alto Rio Negro a 3000 quilômetros de distância para o oeste. Quase não se encontram cidades na direção Norte-Sul.
Ao lado das missões havia uma fortaleza. Foi essa a maneira que os portugueses acharam para “ocupar” a Amazônia no período colonial. Muitos desses aldeamentos mais tarde foram transforma-dos em povoações e no tempo do Marquês de Pombal, que modifi-cou o processo de colonização da Amazônia, esses foram elevados à condição de vilas, por volta de 1755.
No final do século XVII Portugal já havia consolidado seu domínio no norte do Brasil, dentro de um território que perten-cia à Espanha pelo Tratado de Tordesilhas (1494). Por conta desse privilégio dado pelo papa, os espanhóis já haviam estabelecido 5 missões religiosas por volta de 1689 sob a responsabilidade dos Jesuítas espanhóis, que depois foram tomadas pelos portugueses e entregues aos carmelitas oriundos de Portugal.
Desde o início de sua colonização, a Amazônia vai conhecer os conflitos por causa da posse da terra. Desta feita, quem “lutava”
pela posse da terra eram os religiosos das duas nações. As frontei-ras atuais do Bfrontei-rasil no norte consolidaram-se no formato em que se encontram hoje graças à presença e à atuação desses missio-nários. Essa atuação foi muito significativa para a formação dos primeiros núcleos populacionais da Amazônia, estabelecendo um modelo urbano que se consolidou em todo o interior amazônico:
a igrejinha com sua torre visível à distância, o cruzeiro, a pracinha e as casas ao redor, os locais de aprendizado, as roças, as fazendas ou engenhos (onde foi possível), formando um todo harmônico de convivência social, controlado pelos missionários.
A Amazônia pode se considerar um território católico por causa dessa marcante atuação. A maioria dos missionários era de fora, portugueses em geral, ou, em bem menor número vindo de outras partes do Brasil. Abandonaram sua terra-pátria e se embre-nharam pelos rios nessas matas, deixando marcas profundas de um grande trabalho missionário, de uma mística missionária assinala-da, sobretudo pela dedicação total à causa da evangelização e pela entrega da vida. A maioria dos missionários jamais voltou à sua terra de origem. Deixaram aqui suas vidas.
Nos meados do século XVIII aconteceu uma intervenção polí-tica econômica e cultural no Estado do Maranhão e Grão Pará per-petrada pelo Marquês de Pombal, primeiro ministro de Portugal, que enviou seu meio-irmão Francisco Xavier de Mendonça Furtado à região para resolver os problemas das fronteiras com a Espanha e outros problemas. Naquela época a relação entre os religiosos e suas missões e os comerciantes portugueses tinha alcançado tão grande proporção que ocasionou a expulsão dos Jesuítas (1a vez em 1661, depois em 1684 e definitivamente em 1759/60). Os Fran-ciscanos (da Piedade e da Conceição) e mais tarde (1794) os Merce-dários abandonaram a região. As missões foram transformadas em vilas e paróquias.1 Os religiosos que ficaram perderam sua autono-mia para a autoridade episcopal. O clero diocesano passou a tomar conta das paróquias, porém, com muitas dificuldades, pois havia poucos padres. Entre 1760 e 1870, a situação da Igreja na Amazô-nia tornou-se crítica, pela ausência de quadros eclesiásticos.
A intervenção pombalina na Amazônia foi desastrosa não só pelos prejuízos causados à catequese, mas também pela marginali-zação dos nativos da região. Pombal, ao lado da política econômica implantada na região, concretizou uma reforma pedagógica basea-da na cultura iluminista basea-da época, que enfatizava o valor basea-da razão
1 Essa intervenção geopolítica provocou a mudança dos nomes das antigas mis-sões, geralmente batizadas com o nome de um santo ou Nossa Senhora, para o nome de cidades portuguesas: Santarém, Óbidos, Bragança, Porto de Moz.
e da consciência, da ética, da ordem e da dedicação, que tirou a educação das mãos dos padres e colocou nas mãos dos leigos, dessacralizando, dessa forma, o ensino nas escolas de ler e escre-ver. Foi uma espécie de penetração forçada de elementos culturais significativos na Europa que entre a população da Amazônia não alcançou seus objetivos ou então só valeu para as elites da cidade, deixando o povo do interior à margem desses benefícios. Na verda-de, a cultura nativa interiorizou-se na floresta, aumentando ainda mais os preconceitos entre o povo da cidade e do interior, mazelas sociais e culturais encontradas até hoje na Amazônia.
Nesse período foi grande a influência de leigos e leigas, das irmandades e confrarias que sustentaram um catolicismo devocio-nal e familiar em torno de Nossa Senhora, dos Santos e Santas, capelas, procissões, festividades, folias etc., o que caracteriza um catolicismo leigo, autônomo em relação à Igreja oficial, com gra-ves consequências para o crescimento da fé. A devoção à Nossa Senhora de Nazaré e o Círio de Nazaré que surgiram dentro desse contexto são a mais completa síntese da religiosidade amazônica.
2 – a iGReJa nOS SÉCUlOS XiX e inÍCiOS dO XX
Pela metade do século XIX alguns fatos provocam mudanças significativas na realidade urbana da Amazônia: a Revolução dos Cabanos (1835-1840), a elevação de Manaus à Província (1850), a entrada da navegação a vapor nos rios da região (1853) e a explora-ção da borracha. Essa provocou uma marcha para a Amazônia, so-bretudo de nordestinos, que foram se estabelecendo ao longo dos rios chegando até o vale dos rios Madeira, Juruá e Purus. Muitos povoados surgiram neste período, que mais tarde vão se transfor-mar em vilas e cidades.
Nem toda população amazônica vivia nas vilas. Muita gente embrenhou-se na floresta. Com a exploração da borracha, as ci-dades de Belém e Manaus foram as que mais se desenvolveram,
pois além do aparato de poder público e de abrigarem as sedes das missões e constituirem-se locais obrigatórios para o comércio com as pequenas cidades, ali circulavam os produtos extrativistas, o látex para exportação e a dinheirama gerada por comércio da borracha. Belém e Manaus firmaram-se como dois grandes centros urbanos mais bem ordenados de todo o país. As vilas e povoados não conseguiram alcançar o mesmo grau de desenvolvimento e estagnaram no tempo.
Com a queda da venda e da produção da borracha, as duas cidades também vão conhecer um período de estagnação, gerando uma crise acentuada de empobrecimento. Muitos migrantes retor-naram para o seu lugar de origem. Caiu vertiginosamente o nível de renda das populações que dependiam da borracha.
Entre 1910 e os anos 50 do século passado, surgiram outras fren-tes de extrativismo, como a castanha-do-pará e a madeira, além da agricultura de várzea e a pecuária que vão absorver a mão de obra ociosa. Daí vão surgindo novos núcleos populacionais como Marabá e Conceição do Araguaia. Por causa da produção de juta, outras cidades vão desenvolver-se: Santarém (Pará), Manacapuru, Parintins e Itacoa-tiara (Amazonas). A população amazônica, formada por índios e cabo-clos, e os migrantes nordestinos já adaptados à região conseguiram estabelecer novas formas de sobrevivência. Criaram mecanismos para superar a inércia e a estagnação provocadas pela crise da borracha.
Na década de 40, houve uma divisão territorial na Amazônia com a criação dos Territórios Federais do Guaporé (Rondônia), Rio Branco (Roraima) e Amapá.
A crise ou decadência que caracterizou a situação eclesial no fim da era colonial2 vai desaparecendo a partir do momento em
2 Havia à época 90 paróquias, 37 delas sem párocos! As missões entre os índios haviam desaparecido, pois os poucos religiosos que ainda viviam na região estavam alquebrados pela doença ou idade, ou cuidando do patrimônio que lhes restava do período anterior.
que a Igreja no Brasil se afasta lentamente do governo brasileiro (monarquia), enfraquecendo e desestabilizando o secular regime regalista do Padroado que submetia quase totalmente a Instituição eclesiástica à monarquia brasileira, e se aproxima mais de Roma, seguindo suas orientações.
A partir de 1840 a Santa Sé começa, a pedido do governo, a enviar missionários para o Brasil, para as missões indígenas do Norte, Nordeste e Centro-Oeste. As missões tinham sido trans-formadas em colônias agrícola-militares. Pelo Regimento das Missões (1845), o índio virou soldado e continuou a ser explo-rado e morto. Muitos morreram também por causa da Cabana-gem e mais tarde no ciclo da borracha: os caucheiros vão invadir as terras indígenas e o índio vai tornar-se também seringueiro.
Essa é uma outra estação da “via crucis” dos povos indígenas da Amazônia.
O ESPISCOPADO brasileiro assume seu papel de vanguarda eclesiástica que antes era exercido pelos religiosos que deti-nham a força pastoral. Alguns começam a abandonar o “rega-lismo” (submissão ao rei) e estão mais ligados ao papa, através da Nunciatura Apostólica (1831), pelas visitas ad limina apostolo-rum, pelo Concílio Vaticano I (1869-70) e pelo Concílio (Sínodo) Plenário Latino-americano (1899). Em Roma foi fundado um Co-légio Pio Latino-americano (1858) para a formação dos futuros padres e bispos latino-americanos. Havia outros seminários ou colégios na Europa frequentados pelos brasileiros, como o São Sulpício de Paris.
OS PADRES no Brasil estudam em seminários que aos pou-cos vão sendo reformados de acordo com a nova situação. Na Amazônia, além da reforma do Seminário de Belém (fundado em 1754, pelo padre Malagrida SJ), foram fundados outros dois por D. José Afonso de Moraes Torres em Óbidos (1846) e em Manaus (1848). A meta era formar padres no estilo tridentino, intelectualmente e espiritualmente preparados, celibatários,
distantes das questões políticas, dentro da paróquia: um ver-dadeiro pastor das almas.3
A nomeação de Bispos, como D. José Afonso e D. Antonio de Macedo Costa, entre outros, marca essa nova fase em que a Igreja católica passa a se organizar a partir das orientações de Roma. Es-ses bispos empreenderam uma verdadeira reforma e reorganização da Igreja, enfrentando acirradas batalhas para libertar a Igreja das amarras de uma viciada tradição colonialista e que deu origem a muitos conflitos com a maçonaria, com a população católica e com os protestantes que estavam se estabelecendo no Norte do Brasil.4 Esse novo modo de proceder alcança sua plena forma com a criação da Diocese de Manaus em 1892, a elevação da Diocese de Belém à Arquidiocese (1906) e a criação das diversas Prelazias nullius ou Pre-feituras Apostólicas entregues aos cuidados dos religiosos5 que pou-co a poupou-co vão chegando à região, vindos de diversas partes da Eu-ropa para atuar sobretudo nas áreas de maior carência da presença da Igreja, inicialmente para as missões indígenas,6 para o seminário
3 cf. JOÃO SANTOS, A romanização da Igreja católica na Amazônia (1840-1880) in CEHILA, História da Igreja na Amazônia, Vozes 1992, p. 296-320; CEPEHIB, Dom Antonio de Macedo Costa, in Cadernos de História da Igreja 1, Loyola 1982.
RIOLANDO AZZI é especialista neste período e tem inúmeras obras escritas sobre o tema.
4 Um dos mais célebres episódios deste confronto foi a conhecida “Questão Religiosa” (1872-1875) como também os conflitos entre o clero romanizado e o catolicismo popular
5 Com a restauração da Igreja na Europa as antigas ordens se renovam, surgem novas congregações masculinas e congregações femininas de vida ativa que, como os religiosos, partiram também em missão. Há uma revitalização do ardor missionário, motivada pela “recolonização” da África, da Ásia e da Amé-rica Latina.
A Amazônia vai conhecer esses novos missionários, não mais portugueses, mas italianos, belgas, franceses, alemães, holandeses, espanhóis, austríacos, norte-americanos etc., como também as religiosas de várias nacionalidades.
6 Devido à situação degradante dos índios da pan-amazônia, o Papa Pio X en-viou à região o padre Giovanni Genocchi para constatar denúncias chegadas à Europa, de maus tratos aos índios. O seu relato gerou a encíclica LACRIMABILI STATU INDORUM, do papa Pio X, publicada em 7 de junho de 1912.
e para as antigas missões transformadas em paróquias. Chegaram à região os frades Capuchinhos (1843), os Franciscanos retornam em 1870, os Espiritanos (1885), Dominicanos (1897), Agostinianos Re-coletos, Barnabitas, Maristas, Beneditinos, Salesianos, Jesuítas,
e para as antigas missões transformadas em paróquias. Chegaram à região os frades Capuchinhos (1843), os Franciscanos retornam em 1870, os Espiritanos (1885), Dominicanos (1897), Agostinianos Re-coletos, Barnabitas, Maristas, Beneditinos, Salesianos, Jesuítas,