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Os desafios que permeiam o trabalho educativo

No documento 2012JulianaCarlaGirotto (páginas 49-53)

3 CONCEPÇÕES TEÓRICAS E METODOLÓGICAS DO CENTRO DE

3.3 Os desafios que permeiam o trabalho educativo

Nas experiências de Educação Popular, assim como, nos empreendimentos de economia solidária, estabelece-se uma relação muito próxima entre educadores/educadoras populares (sujeitos que compõem entidades e engajam-se na assessoria e no acompanhamento aos projetos sociais) e público alvo destes projetos. Esta relação proporciona o aprendizado constante de ambos, conforme aponta Forster (2010, p. 143), comentando Paulo Freire, “essa (re) educação é processual, lenta e construída na cotidianidade [...] que, por sua vez, está inserida em um contexto sociocultural particular, que é condicionador, mas não determinante dela. O educador já não é o que apenas educa, mas o que, enquanto educa, é educado, em diálogo com o educando que, ao ser educado, também educa”.

Martins (2012, p. 26) enfoca a sensibilidade necessária do educador e da educadora no seu fazer cotidiano para identificar a percepção que os sujeitos dos problemas sociais têm sobre a realidade que eles vivenciam. Ao investigar a percepção dos sujeitos frente às situações de exclusão, é preciso partir do princípio apontado por Freire (2010b, p.30) de “reconhecer os saberes socialmente construídos na prática comunitária”, dar voz aos sujeitos, partindo da realidade e das representações que eles fazem sobre o mundo que enfrentam, com suas dificuldades, aspirações e esperanças.

Martins (2012, p. 27) expõe que ainda parece haver um desencontro entre o modo como os sujeitos que enfrentam dificuldades compreendem-se e definem-se e o modo como os acadêmicos/acadêmicas, militantes, religiosos/religiosas, enfim, visualizam esta situação de adversidade. É necessário entender esta categoria de excluído, de exclusão, apontado pelo autor como uma “metamorfose de conceitos” que busca explicar a ordenação social, resultado do desenvolvimento capitalista.

A preocupação com ‘o que fazer com os excluídos’ sempre sugere que os próprios ‘excluídos’ não sabem o que fazer consigo mesmos. Precisam, por isso, da ajuda, da orientação e da intervenção daqueles que se incomodam com a situação em que eles se encontram. Porque os pobres são excluídos do ponto de vista de certas categorias sociais que, de fato, não vivem a experiência social da exclusão com a qual se preocupam. A designação ‘exclusão’ não conecta o destino de quem a usa ao destino de quem ela designa. Ao contrário, separa-os. (2012, p. 40)

Neste sentido, o autor denuncia que se atua de forma autoritária e intolerante, mascarada, muitas vezes, pela generosa preocupação com a exclusão social, mas, mesmo assim, usando um direito proclamado de decidir a forma de integração e participação social. Há uma “meia-verdade” nesta vontade de ajudar os excluídos: “a necessidade de ampliar e modificar o modo e forma de inclusão espontânea” e também “que o modo espontâneo da inclusão é insatisfatório não para os ‘excluídos’, mas para o imaginário da classe média, para os valores que ela proclama e para a sociedade que ela deseja”. (MARTINS 2012, p. 41)

Não se pretende criticar a ação dos educadores e educadoras populares, militantes e demais pessoas que se engajam nos projetos sociais, Martins (2012, p. 41) assegura que o objetivo é denunciar a impressão superficial que existe sobre o outro, uma vez que nos consideramos “incluídos” e não somos, pois “a própria ordem capitalista é desumana com todos”.

Na prepotência de querer libertá-lo, o que queremos é nos libertar, num certo sentido, nos libertar dele, nos livrar dele. Por que não estamos propondo a construção do novo – apenas a extensão a ele do que já é velho, dos mecanismos de reprodução das relações sociais e não de produção de novas relações (2012, p. 45)

Ao lutar pela inclusão, busca-se integrar o excluído numa sociedade de consumo, sendo, neste sentido, a crítica da concepção de “exclusão” que Martins refere, uma vez que esta inclusão nega à vítima a possibilidade de construir o novo, incorporando se a uma sociedade desigual.

O discurso sobre a exclusão pretende ser um discurso militante em favor das transformações sociais, quando é na verdade um discurso militante em favor das relações sociais existentes, mas inacessíveis a uma parte da sociedade. A concepção de exclusão é útil, portanto, para expor à consciência social as contradições de suas boas intenções e expor a necessidade histórica e política de reconhecer os involuntários limites sociais e as condições sociais do justo afã de mudar. (2012, p. 47)

A exclusão acaba existindo de forma vaga e indefinida, como um “jargão”, um rótulo que acaba envolvendo o sujeito na condição de reprodutor do sistema que marginaliza. Ela é mais abrangente do que demonstra, por isso Martins (2003, p. 15) constata que há “processos de exclusão”, o modelo de sociedade capitalista produz “vítimas de processos sociais, políticos e econômicos excludentes”.

Benincá (2006, p. 67) explica que a exclusão trata-se de uma designação genérica para um fenômeno concreto, sendo que “este espectro social tem se acentuado muito nas últimas duas décadas como decorrência de um capitalismo perverso”. Ele identifica dois problemas relacionados a este fenômeno: um é entendido como a “produção da exclusão”, sendo o núcleo estruturante e mecanismo do sistema capitalista, o outro está ligado às formas de “reprodução da exclusão”, que se manifesta através dos modos de inclusão social, os quais podem não transcender a meros paliativos.

Lousada (2011, p.28) pondera que

Estamos diante de uma sociedade que exclui para incluir precariamente em configurações materiais desumanas de produção e participação consumistas, privilégios para poucos ‘esforçados’, descartando-se a conquista de direitos sociais outrora pensados como pauta de lutas dos grupos sociais marginalizados.

Ao pautar esta abordagem com relação aos catadores/catadoras, Benincá (2006, p. 69) cita que seria mais apropriado afirmar que se trata de indivíduos em processos de exclusão, visto que estariam “desagregados e sem um projeto coletivo”, e a exclusão, dá-se a partir de vários fatores “– econômico, social, étnico-cultural, de gênero e outros – pelos quais são discriminados, marginalizados e excluídos. A exclusão é um processo amplo que define a própria dinâmica do capitalismo”.

Martins (2012, p.12) afirma que a pobreza multiplicou-se em pobrezas, “contaminando até mesmo âmbitos da vida que nunca reconheceríamos como expressões de carências vitais”, estenderam-se a outros aspectos da vida humana. Como cita Lousada (2011, p.28), “as privações não são somente de recursos econômicos, há o empobrecimento da leitura

de mundo, da semeadura de sonhos”. A “nova pobreza” condena os pobres, uma vez que não há alternativa para superar esta condição, não há esperança (Martins, 2003, p.19).

Frente a este cenário de incertezas com relação à sociedade em que se vive é fundamental assumir uma postura crítica, consciente das situações de exclusão que se denuncia.

Neste sentido, as situações, que inquietam, devem contribuir para a reflexão sobre o limite de nossa atuação na condição de educadores/educadoras, pois, até que ponto nossas ações são refletidas? Identifica-se e respeita-se a concepção de sociedade dos sujeitos com quem se trabalha? Caberia aprofundar este estudo, a partir desta perspectiva: como os educadores/educadoras do CEPO refletem sobre a sua atuação ao identificar a percepção dos catadores/catadoras sobre o trabalho desenvolvido e o contexto em que estão inseridos, assim como investigar a visão dos catadores/catadoras sobre como percebem a sociedade em que vivem e a sua atuação, compreendidos como trabalhadores/trabalhadoras e cidadãos/cidadãs, “incluídos” nela. Frente aos limites de investigação desta pesquisa, o tema fica como sugestão para ser aprofundado como objeto de investigação para um estudo futuro.

4 O SURGIMENTO DAS ASSOCIAÇÕES DE CATADORES/CATADORAS DE

No documento 2012JulianaCarlaGirotto (páginas 49-53)