• Nenhum resultado encontrado

4 UNDERGROUND, UDIGRUDI E O UDIGRUDI

4.1 Os desbundados e os censores

Sob o pretexto de barrar a ameaça comunista, em 1964 as forças armadas depõem o presidente democraticamente eleito João Goulart, instaurando desde então o governo militar. Período marcado pela perseguição e forte repressão aos comunistas, opositores e supostos subversivos, cerceando a liberdade de expressão, os órgãos de vigilância buscavam controlar toda a produção cultural que versavam sobre as atitudes do governo ou que atingiam às morais e bons costumes brasileira. eram mandatórios.

Por meio do Departamento de Ordem Política e Social e da Divisão de Censura e Diversões Públicas, a Polícia Federal analisava e controlava o que seria publicado. Como afirma o historiador Carlos Fico (2004), apesar de semelhantes, inicialmente os dois órgãos atuavam de maneiras distintas, onde o primeiro não era regulamentado por normas ostensivas; o segundo já existia desde 1945, no governo Vargas, apoiado pelos defensores dos bons costumes. Contudo, em seguida, Fico percebe a introdução das dimensões políticas dentro do DCDP. Dessa maneira, várias expressões culturais, antes mesmo de sua publicação, deveriam passar por um censor que avaliava, sem critérios muito bem definidos, a viabilidade de lançamento daquela obra. Logo, diante de tal panorama repressivo, músicos como Chico Buarque, Geraldo Vandré, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de perseguidos e exilados, tiveram suas obras censuradas. Embora alguns de fato estivessem ligados à esquerda, muitos outros foram censurados por pressuposições políticas ou por atentarem contra o bom gosto, e, obviamente, a imaculada moral e os bons costumes. Alguns artistas, mesmo não consentindo com o governo militar, também permaneciam-se céticos em relação à ortodoxia da esquerda, e por isso eram chamados de imaturos, individualistas e alienados. Nem à esquerda revolucionária, tampouco à direita; pois, visto que esses artistas tocados por sensibilidades juvenis que questionavam tradicionalismos dos comportamentos socioculturais, tentavam sobreviver à margem do sistema de valores e comportamentos destes dois eixos políticos, de modo que recorriam ao desbunde como estratégia de fuga. Como apontou Silviano Santiago:

O desbunde não pode ser definido como se fosse um conceito e muito menos como se tratasse de uma regra de comportamento. É

antes um espetáculo em que irmanam uma atitude artística de vida e uma atitude existencial de arte, confundindo-se. Levar a arte para o palco da vida. Levar a vida para a realidade do palco. Representar no palco a realidade da vida. Representar na vida a realidade do palco. (SANTIAGO, 2000, p. 149).

Contudo, mesmo não participando da luta armada ou de algo que o valesse, eram perseguidos, presos e até torturados por acreditarem em valores diferentes dos costumes tradicionais. Nesse elenco de bandas de desbundados temos o Terço, Joelho de Porco, Ave Sangria, Mutantes, Liverpool os Novos Baianos, Lula Côrtes, O Bando, A Bolha, entre tantas outras espalhadas pelos grandes centros do território brasileiro.

No caso de Pernambuco, os artistas desbundados também constituíram uma cena udigrudi que partilhava as transformações sensíveis dos movimentos contraculturais. Como vimos anteriormente, o udigrudi está ligado a uma lógica que abrangia a música, o cinema, a literatura, o teatro, os quadrinhos, o jornalismo e as artes plásticas; porém, em Pernambuco, quando se fala em udigrudi, logo relaciona- se o termo a uma cena musical, apesar de manifestações udigrudi em outras áreas artísticas, como no teatro do grupo Vivencial Diversiones ou nas artes plásticas de Paulo Bruscky e Kátia Mesel. O que desperta atenção é que essa referência do udigrudi como uma cena musical pernambucana não se dá nos anos 70, período de existência da cena, sequer dez anos depois. Essas vinculações tem suas primeiras manifestações já no fim dos anos 90, no documentário Rosa de Sangue, da diretora Melina Hickson. O documentário que aborda a história da gravadora Rozenblit e sua importância para a música pernambucana e brasileira, fala, superficialmente da cena, pois Lula Côrtes fazia parte do selo Solar, pertencente à Rozenblit. Na película temos a menção: “Entrando na década de 70, com o mesmo espírito inovador, a Rozenblit investiu no movimento musical que ficou conhecido como Udigrudi” (HICKSON, 1998). Somando-se ao documentário de Melina, acredito que um dos principais responsáveis por essa consolidação do nome udigrudi como uma cena musical tenha o sido o jornalista e crítico musical José Teles, autor do livro Do Frevo Ao Manguebeat. A publicação, por muito tempo esgotada, fez bastante sucesso e serviu de inspiração para os blogs e futuras matérias de jornais e revistas, que terminam por contribuir, através da repetição, na fortalecimento e sedimentação de uma narrativa do udigrudi como cena musical. Em seu livro, de início, Teles, ao tratar das relações das gravadoras com o rock no Brasil do início da década de 70, ele

aborda o udigrudi como uma tendência estética que se dava no plano nacional, como ele fala aqui: Portanto, nada a estranhar quanto ao descaso das gravadoras para o rock udigrudi nacional. “No Rio e em São Paulo, com mais facilidade geográfica de acesso às gravadoras, alguns grupos chegaram ao disco - A Bolha, O Peso -, mas nas periferias, nem pensar”. (TELES, 2000, p. 165). Contudo, em outro momento, trata como cena quando discorre sobre a I Feira Experimental de Música Experimental do Nordeste:

A feira serviu para unir músicos que trabalhavam cada um na sua, dispersos, poucos profissionalmente, muitos deles nem se conheciam. A partir daí, o Recife começou a viver a cena mais udigrudi (e pouquíssimo documentada) surgida no Brasil durante a fase mais plúmbea militar. (ibidem, p. 150)

Ao passar das páginas, Teles sugere o termo como um movimento local quando trata da produção do disco do cantor Flaviola e o Bando do Sol, pois escreve:

O Bando do Sol na verdade era formado por músicos do movimento udigrudi: lá estão Lula Côrtes e o seu inseparável tricórdio, Paulo Lampião Rafael, Icinho, Zé da Flauta, Dicinho, Robertinho e sua guitarra muito louca, Kátia Mesel e Marco Montenegro, no coro. (op cit, p. 200).

No que tange esse direcionamento à produção musical, o historiador João Luna destaca:

O termo „udigrudi‟ – de algum modo – repercutiu consideravelmente no cenário nacional, pois há uma reutilização do „udigrudi‟ no livro, „Do Frevo ao MangueBeat‟, escrito pelo jornalista paraibano José Teles. Depois de ressignificado pelo jornalista, foi evocado sob elucidação da produção de artistas e grupos da música experimental e pop do Recife dos anos 70. (LUNA, 2010, p. 62).

A cena formada pelos desbundados da Ave Sangria, Lula Côrtes, Phetus, Flaviola, Aratanha Azul, Flaviola e o Bando do Sol e tantos outros ainda hoje, apesar de algum reconhecimento da cena musical udigrudi em Pernambuco no cenário psicodélico nacional, tem seu consumo ainda é bastante segmentado.