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Os desdobramentos políticos da ordem privada.

Se Portugal na leitura de Duarte não logrou efetivar sua diferenciação política, ou seja, não conseguiu construir a instituição Estado em uma acepção propriamente moderna, e se os portugueses permanecem um povo fundamentalmente particularista e avessos aos ditames da política moderna, é com estas características que se dá início a organização social e política no Brasil. Para Duarte, “o Estado, como idéia, representação e poder, viria a enfraquecer-se e padecer de inelutáveis vicissitudes no Brasil, ao passar para o território colonial a organização social portuguesa”.247

Segundo o autor, todos os elementos negativos que informam a cultura apolítica portuguesa se radicalizam no novo território, isto por conta de alguns fatores pontuais, aos quais ele atribui a responsabilidade pelo caráter mais agudo que vai assumir este espírito privado. De acordo com o autor de Gado Humano “dois fatores transmigrados com essa organização [portuguesa] e de logo exaltados pelas novas condições do meio, iam agravar de óbices e tropeços o curso normal da atividade funcional do Estado – o feudalismo (...) e a família...”248

O primeiro destes fatores, o feudalismo, Duarte sustenta, com já fizemos referência, sinalizando que a forma de ocupação do território colonial com o sistema das Capitanias é tipicamente feudal. Segundo o autor, “as capitanias são, por tendência e

247 Idem. p. 18.

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desdobramentos de seus fins, uma organização feudal.”249

Ainda que tal tese da existência de um período feudal no Brasil seja contestada já em 1939250, o que importa para Duarte são dois pontos que ele considera cruciais e que o autorizam a sustentar seu ponto de vista. Primeiro, aquilo que seria a “transmissão da propriedade plena e hereditária”; e, em segundo lugar, a “fusão da soberania e da propriedade”.

Recorrendo mais uma vez a Capistrano de Abreu, o autor diz que na Colônia cabia ao donatário tanto a posse da terra quanto sua “governança”. Desta forma, conclui Duarte, “está demonstrada a existência daqueles requisitos que caracterizam teoricamente a organização feudal na propriedade plena e hereditária da capitania em face do Rei e na fusão da soberania na propriedade mesma”.251

Se o sistema das capitanias no período colonial é, como coloca Duarte, a primeira forma pela qual se estabelece uma “sociedade constante e demorada” no Brasil, é a ele que todo e qualquer estudo deve voltar-se, no sentido de apreender as “determinações históricas” que explicariam a problemática do privatismo e do “atraso” brasileiros nos anos 1930-1940. Isto porque, seria preciso lembrar mais uma vez, que tal regime que funde “propriedade e soberania” – ou seja, posse da terra e exercício do poder “político”- não é propenso ao desenvolvimento daquilo que o autor chama de “espírito político” – ou seja, de uma cultura “verdadeiramente” política e de instituições que representam o político, como o Estado.

Neste sentido, é esta organização social com raízes na Colônia, mas que também se prolonga na história do país chegando à atualidade do autor, que explicaria as “irredutibilidades” da organização política do Brasil, seu “atraso” e sua inscrição no pré-moderno. Como coloca Duarte, “o sistema de donatarias nos transmitiu o estilo e a forma de uma ocupação do solo que é uma das constantes de nossa sociedade e a própria condição de suas lindes territoriais que ainda hoje perduram na configuração de muitos dos nossos estados federados”.252 É esta perspectiva de uma longa continuidade que autoriza Duarte a falar em feudalismo mesmo após 1930. E a persistência deste

249 Idem. p. 18. 250

Como pontuamos no primeiro capítulo, tanto Caio Prado Júnior quanto Roberto Simonsen, que é com quem Duarte trava o debate, investe na negação da existência de tal período e na inadequação de tal categoria para explicar questões relativas à história política e econômica do país. Para Caio Prado só se poderia falar em feudalismo enquanto uma figura de retórica. Duarte ainda dirá que se trata de um “feudalismo atípico”, mas o “atípico” de Duarte é que é mera figura de retórica. Para ele não há dúvidas que o Brasil não só viveu como vive, ainda em 1930, um regime tipicamente feudal. Neste aspecto vale observar a constatação de Luiz Guilherme Piva com relação a uma sensível desatualização de Duarte em relação a diversos aspectos sustentado em seu texto de 1939.

251 Nestor Duarte. A ordem privada e a organização política nacional. Op. cit. p. 19. 252

regime privado é que também permite que Duarte fale tanto da ausência de protagonismo dos sujeitos subalternos quanto da necessidade inadiável do moderno.

O outro fator que Duarte diz obstruir a atividade do Estado e que o enfraquece como “idéia, representação e poder” é a família, a grande família patriarcal que, de acordo com o autor, “é no ocidente, na idade Moderna e contemporânea, a maior reminiscência, talvez, da antiga família dos rudes tempos romanos”.253

O que está em jogo é justamente a agência de um grupo intermediário que se opõe ao pleno desenvolvimento da ordem pública. Como insiste Duarte, dizer que a sociedade Colonial é desorganizada por conta da ação de grupos intermediários e concorrentes ao poder do Estado como a família não traduz a realidade mais palpável e nem desvela por completo o problema, já que a agência privatista gera uma forma de organização social que não pode ser confundida com mera desorganização.

Neste sentido, o papel da família patriarcal assume grande importância na leitura que Duarte faz do Brasil. Para o autor, a família representa “a única ordem perfeita e integra” que a sociedade portuguesa conheceu. Transplantada para as novas possessões coloniais encontraria no Brasil um terreno propício para a “revivência dos tempos heróicos ou, se quiserem, dos tempos feudais”.254

Para o autor, três fatores explicam a centralidade da organização familiar na sociedade colonial: a própria “índole” privatista do português; a economia feudal e o extenso território, que acaba influindo tanto na forma de ocupação do solo (as grandes e isoladas propriedades) quanto na forma de produção (o latifúndio monocultor). Assim, as características do novo território colonial são mais propício ao fortalecimento do poder familiar trazido pelos colonizadores. Essa força do familialismo aponta para a preocupação fundamenta do autor que é com o poder “propriamente político”, definição oposta daquilo que representa a família e que, de acordo com o autor, além de ser aquilo que mais nega o Estado é a organização que está na base da organização feudal.

Segundo Duarte, família, propriedade e feudalismo componentes de um mesmo processo e

é precisamente na fase feudal que a família revela a sua índole institucional contrária ao espírito institucional político diferenciado. Dê-se força de governo e mando à instituição familiar e ela não desdobrará até a fase posterior do Estado puro, desvia-se antes,

253 Idem. p. 18.

254

desviando também o processo político, para uma forma de deformação...255

Negação mesmo do Estado e por conseguinte da dimensão pública e do poder político, a família quando logra exercer este último não o faz senão desviando-o. É toda a história deste fenômeno de apropriação do público pelo privado que Duarte constrõe em sua obra – fenômeno que impede justamente a emergência da modernidade política pretendida pelo autor.

Para o autor, se na Colônia a família patriarcal tem um papel central, seus resquícios e os desdobramentos a-políticos que disso decorrem não se extinguem com a emergência do Império ou da República. Se na Colônia Duarte vê a família patriarcal com uma tripla atribuição256, não será um quadro muito diferente que ele pinta no que diz respeito à configuração política e social dos anos 1930-1940. As questões da extensão territorial, da ausência de cidades e do isolamento dão as cores da continuidade de uma “tradição de 400 anos”. Pois se a família patriarcal exercia as funções procriadora, econômica e política na Colônia, devido ao extenso território não ocupado e livre de presença do poder propriamente político, serão estas mesmas questões que Duarte coloca como sendo as principais a serem sanadas.

A questão central que se depreende do diagnóstico é a de que forma a ordem privada se institui aqui no Brasil; como ela se perpetua e de que maneira ainda persiste na configuração política e social das décadas de 1930 e 1940 impedindo o país de adentrar na ordem do moderno. Como bem colocou Paulo Silva, a preocupação de Duarte é com o presente. É o problema da apropriação da esfera pública pela ordem privada que se constitui como o principal impedimento para a modernização do país, já que por “moderno” nosso autor entende fundamentalmente o repertório da política moderna – o “Estado puro”, “fenômeno político diferenciado” atuando no sentido de inspirar o espírito público na população.

Nesta perspectiva Nestor Duarte mobiliza toda sua intervenção para demonstrar de que maneira grupos intermediários e concorrentes atuaram e continuavam a atuar no sentido de impossibilitar a plena expansão e o pleno exercício da dimensão pública e do poder político. Assim, coloca o autor,

255

Idem. p. 66-67.

256 Segundo Duarte, “o território extenso, inocupado, determinando intensa atividade rural e a exigir povoamento e mando, dera ensejo a que a instituição familiar no Brasil pudesse desempenhar plenamente a tríplice função necessária ao seu prestígio e à sua fôrça no organismo social – a função procriadora, a função econômica e a função política”. Idem. p. 67.

se o senhoriato, ao encontrar-se com influências do litoral, participa, no terreno abstrato, do jogo das idéias deste, quando reflui à sua base, ao seu habitat, continua a manter os elos tradicionais e orgânicos de sua índole e natureza, para impedir já agora, que o Estado penetre essa população e lhe dê outro sentido social. Ao exercer o papel de classe política, deformando, conforme lhe é próprio, o fenômeno político, o senhor de engenho, o fazendeiro, barão do Império, coronel da República, ao substituir o Estado nesse país rural e agrícola, impediu até agora a aproximação do mesmo dessa população.257

Em outros termos, o senhor ou o chefe rural é o maior responsável pela deformação do Estado e pelo impedimento para sua penetração no meio rural, acarretando uma dupla distância das “massas” em relação a este seu repertório da política utópica da cidadania: uma distância física (o isolamento por conta do vasto território ocupado de forma irregular) e moral (uma cultura privatista, avessa aos ditames do verdadeiramente político).

É essa, de acordo com nosso autor, a dinâmica da organização política nacional ancorada na ordem privada. Com raízes na organização da sociedade colonial, tal dinâmica permanecia viva em 1930 e a emergência do regime Vargas põe em cena mais um capítulo desta história, já que mais uma vez o que avulta é a força não da impessoalidade estatal, mas do governante. A isso se soma, assegura Duarte, a inadequação do modelo de governo proposto, pois o importante seria a criação tanto de um poder verdadeiramente público quanto da necessidade deste no imaginário coletivo das massas. Criar, como dissemos, a dimensão publica, mas também a sua necessidade.

É contra a persistência da ordem privada e do que julga o equívoco do regime instalado em 1930 que Duarte está se insurgindo. É constatando a “atualidade” do problema em 1930-1940 que escreve nosso autor.