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3. Preparação dos adeptos e desempenho nos rituais

4.3. Sobre o Angical de Avalciara

4.3.2. Os desejos do espírito

O Angical apresenta-nos uma história fragmentada que deve ser reconstruída para a melhor compreensão dos personagens, de suas expectativas em relação a cada qual e da reação dos participantes a certos discursos. Conforme foi relatado pelos participantes, um espírito foi pago através de alguns produtos de seu interesse para retirar do Vale do Amanhecer a doutrinadora que trabalhou no Angical. Este era o seu serviço. Para atingir tal objetivo, ele permanecia próximo à família de Avalciara. Este espírito é um ex-integrante da doutrina, mas não tinha os padrões emocionais e morais adequados referentes a um médium da instituição, o que o deixou vulnerável a ser escravizado por outros espíritos. Assim que a médium iniciou o ritual, o Preto Velho percebeu que aquele espírito estava atuando sobre a adepta/paciente e conseguiu levá-lo até o ritual, por intermédio das entidades que a protegem. No Angical, então, a função da médium era convencê-lo a seguir para as casas transitórias adequadas, locais aonde o espírito receberia seus primeiros cuidados, para em seguida, ser enviado para o mundo espiritual a fim de se preparar para atender como uma entidade, caso tivesse alcançado sua evolução. Caso contrário, reencarnaria para superar seus carmas obtidos em outras vidas. Conforme nós vimos, a doutrinadora convenceu-o e ele aceitou sua elevação.

Aqui, abordaremos a evolução do desejo do espírito. Inicialmente, nós não conhecemos as ansiedades do espírito incorporado, mas soubemos aquilo que ele definitivamente não queria: estar ali no Vale do Amanhecer. A primeira coisa que o espírito falou foi: “não quero estar aqui” e mais a frente, formulou diversas frases que demonstravam a sua vontade por estar longe daquele lugar.

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Avalciara: “(...) Mas a minha intenção é fazer com que você acredite que eu estou aqui para te ajudar.”

Entidade: “Não...Quem me mandou aqui, disse que não era pra vir aqui. Disse que não ia vir aqui não. não... era... era... era só fazer o serviço.” (...)

Entidade: “...mandaram vir, me deram, pagaram ... eu vim, pronto... mas não falaram que eu ia vir aqui não. Disseram que ia ser rápido.”

Por outro lado, uma das poucas vezes em que o espírito demonstrou querer fazer alguma coisa, foi quando disse que queria vingar-se contra os seus mandantes, por terem sido os responsáveis indiretos por ele estar ali.

“Entidade: eu vou voltar lá. Ele falou que não ia ter nada aqui. Que eu não ia vir aqui. Eu vou voltar lá. Vou voltar, ele vai ver, deixa ele. Ele achou que isso aqui ia ficar de graça. (risos com ironia). Você é que tinha que mandar eu ir lá. Ele mandou eu fazer coisas contigo.”

Finalmente, já no final, expressou o seu desejo, quando se submeteu ao argumento da doutrinadora de ser conduzido para as casas transitórias e pediu enfaticamente: “Me tira daqui, por favor”.

Contudo, o que de fato encontramos é um espírito que está muito mais submisso aos outros personagens do ritual, conforme observamos os enunciados apresentados. De acordo com o que dissemos acima, considerando a reconstrução da história do Angical, o rito foi realizado porque o espírito foi levado até o local pelas entidades da doutrinadora, contra a sua própria vontade.

“Entidade: não... não... não... não quero ... não quero... estar... aqui... eu não queria estar aqui... não. (...)”

“Avalciara: As entidades que me acompanham, também querem o seu bem... Entidade: Foram eles que me trouxeram aqui.”

Outro aspecto importante e central no diálogo era a sua característica de fazer apenas o que lhe mandavam, através da troca de algo que lhe interessava. Isto demonstrava que ele era conduzido por outros espíritos, pelo que eles podiam oferecer-lhe.

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“Entidade: só faço o que mandaram.

Avalciara: você gosta de só fazer o que mandam, você não tem vontade de fazer as coisas que você deseja?

Entidade: eu tive o que eu quero...”

Entretanto, embora demonstrasse satisfação, mais adiante, o espírito disse que, na realidade, não gostava de permanecer no Vale Negro porque lhe mandavam realizar muitas coisas que ele não queria.

“Entidade: quando eu estava aqui, me disseram que seria tudo melhor lá. Aí eu fui.”

Avalciara: tá sendo melhor?

Entidade: Eles me obrigam a fazer um monte de coisas.

Avalciara: será que você merece isso? Entidade: Claro que não.(...).”

Conforme explicação do Preto Velho, o espírito demonstrou ter um grande receio em voltar para o local anterior, em virtude de sua relação com os outros espíritos.

“Pai João: (esse filho) foi levado, minha filha, escravizado. Pois sua mente

foi mais uma vez “amedoada” pelos espíritos, né, minha filha?”.

Outro comentário interessante, foi o realizado pela doutrinadora, quando ela justificou a presença daquele espírito no Angical.

“Avalciara: (...) se você está aqui é por vontade de Deus”.

Não podemos deixar de colocar que o espírito atribuiu, inicialmente, a sua presença no ritual em razão da própria doutrinadora.

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“Entidade: não... não... não... não quero ... não quero... estar... aqui... eu

não queria estar aqui... não. Tu me trouxe aqui.”

Além do mais, não podemos deixar de observar que à doutrinadora é atribuído o conceito de quem o enganou, ou seja, de quem conduziu o espírito a realizar algo contra a sua vontade.

“Entidade:(você) já me enganou.

Avalciara: eu quero conversar com você.

Entidade: não, você me enganou. Tu acha que tu me engana de novo... Tu já me enganou. Não, tu me enganou outras vezes...”

Temos aqui, portanto, um personagem que tem uma relação de submissão a todos os outros citados no ritual. A doutrinadora foi considerada como uma das que o conduziu até o ritual, como também quem o enganou em outros momentos, ou seja, conduziu-o conforme o seu bel prazer; os espíritos com os quais se relacionava, coagiam-no a realizar funções indesejáveis, através da oferta de presentes ou por ameaças; já as entidades de luz conduziram-no, forçadamente, até o Vale do Amanhecer; ademais, a figura de Deus é associada pela doutrinadora como sendo um dos responsáveis por sua presença no Angical.

Considerando, portanto, este contraste entre os desejos não realizados do espírito, o seu esforço para se afastar do ritual e suas diferentes condições de submissão, podemos dizer que uma possibilidade de leitura deste Angical está no percurso da tentativa de submeter o espírito à instituição cosmológica do Vale do Amanhecer. Observemos que, apesar de o espírito não querer estar ali, ele foi mantido no rito e coagido pela doutrinadora a abandonar o seu antigo local de permanência e seguir para a casa transitória de Mayante. A sua hostilidade foi transformada e ele foi englobado. Turner falava que mecanismos ritualísticos poderiam ser aplicados para que houvesse a reintegração do elemento em distúrbio (1996:122). Aqui, o ritual prevê estes mesmos objetivos. No entanto, podemos entender que o espírito resistia à reintegração, pois esta era uma forma de submissão à doutrinadora ou ao sistema. A adepta conseguiu que o espírito desabafasse sobre suas condições no mundo espiritual e ela soube que ele sentia-se decepcionado pela maneira como o seu trabalho era explorado. Deste modo, ela pôde atraí-lo para um discurso de mudança, que implicava na sua inserção ao argumento da doutrinadora e ao novo conteúdo espiritual que era apresentado, onde a submissão seria a entidades de luz e as obrigações estariam no contexto da ajuda, como a oferecida pela adepta. Neste novo parâmetro, o trabalho do espírito não deixaria de ser explorado, no entanto, esta exploração contribuiria para sua evolução. Deste modo, a frase final do espírito, dita em prantos, “Me tira daqui, por

93 favor”, parece significar que, apesar de toda recusa, agora ele está mudando de ideia e se submetendo à doutrinadora, e também será a força de trabalho de um novo sistema.