CAPÍTULO 1 – CAPITALISMO, TÉCNICA, DOMINAÇÃO E CULTURA
1.3 OS DESLOCAMENTOS E IMPLICAÇÕES DA RACIONALIDADE
Herbert Marcuse, numa conferência de 1964 sobre “Industrialização e capitalismo na obra de Max Weber”, critica a noção de racionalidade de Weber quando diz que a visão sobre o destino do ocidente capitalista se mostrou equivocada tanto por causa dos níveis de racionalidade das experiências socialistas do leste, quanto na presunção de que a razão era necessária para a eliminação das concepções valorativas e para assegurar a manutenção das instituições do Estado Nação. No entanto, Marcuse se utilizará da noção de racionalidade de Weber para servir-lhe de base para muitas análises posteriores. Assim resume Marcuse a racionalidade apontada por Weber : “(...) a razão se realiza em um sistema de cultura material e intelectual (economia, técnica, “modo de vida”, ciência, arte) que tem seu pleno desenvolvimento no capitalismo industrial; e este sistema tende a um tipo específico de dominação que se converte no destino do período atual: a burocracia total”43. Mais do que isso, Marcuse mostra a evolução do conceito de razão e a trilha que Weber percorre para distinguir os tipos de aplicação dos conceitos. Weber coloca a matematização dos saberes e conhecimentos, a supremacia do cálculo racional sobre as outras disciplinas científicas e para a validação das experiências e o aumento da quantificação suplantando a qualificação. Como conseqüência destes processos de contabilidade, resultado, precisão e controle, a sociedade cria organizações e especializações encarregadas das fórmulas de operações exatas e racionais que determinam historicamente o “modo de vida” da racionalidade, dando a ela seu caráter prático.
Essa razão prática é de utilidade para o empresário moderno e que, segundo Marcuse, “se converte em razão econômica do Capitalismo. (...) A razão abstrata se faz concreta na dominação calculável e calculada sobre a natureza e sobre o homem. Assim, (...) aparece como razão técnica: produção e transformação de material (objetivo e humano) mediante o aparato metodológico-científico
construído na medida da capacidade de produção calculável, cuja a racionalidade organiza e controla coisas e homens, fábricas e burocracias, trabalho e tempo livre”44. Marcuse demonstra como para Weber, a partir de seu método de análise, a racionalidade construída torna-se uma necessidade tecnológica do desenvolvimento do moderno capitalismo. Seja na relação de homens com a natureza, seja na de homens com homens. Marcuse aponta que há uma relação de dominação intrínseca ao conceito de racionalidade. Existe uma inevitabilidade que nos leva a pensar tanto no sentido (fins e valores) da adoção desta forma quanto na posição de dominação econômica que se estabelece no seio do cálculo racional. A transformação do modelo de sociedade, do início do século XX para o início da década de 60, nos faz compreender que a trajetória da racionalidade (formal, prática, técnica) realiza uma realocação do agir e pensar racional no sentido de uma dominação material e subjetiva, enquanto ideologia e como aponta Habermas analisando a perspectiva de Marcuse: “forma inconfessada de dominação política”45
Em sua concepção de sociedade industrial, Marcuse indica uma mudança na relação e no papel histórico das classes sociais por conseqüência de um realocamento nos conflitos que a sociedade capitalista engendra. Em função, dentre outras coisas, da personificação da razão exercida pelos meios de comunicação de massa, esta “estrutura de defesa e perpetuação do perigo”, atuando com maturidade técnica, faz com que se revele um maior domínio da sociedade sobre o indivíduo, que se sente mais subordinado pela tecnologia que pela coesão: “os indivíduos se identificam com a existência que lhes é imposta e têm nela seu próprio desenvolvimento e satisfação”46. Esse movimento da sociedade industrial, através de seu aparato, promove uma contenção das transformações possíveis a partir do desenvolvimento técnico e transforma os conflitos num campo de dominação que ora rejeita racionalmente, ora reconcilia as lutas pela liberdade. As classes subalternas desta sociedade, portanto,
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45 Habermas, Jurgen, Técnica e Ciência enquanto Ideologia (Coleção Os Pensadores), São Paulo, Abril Cultural, 1980. 46 Marcuse, Herbert, A ideologia da sociedade industrial, Rio de Janeiro, Zahar, 1967.
são moldadas pelo aparato e levadas a requerer a preservação travestida de avanço, a dominação travestida de bem estar, a recepção travestida de lazer.
Estes novos sistemas de controle desenvolvem um novo tipo de sujeição aliando razão e tecnologias de conforto “a tal ponto que toda contradição parece irracional e toda ação contrária parece impossível.”47 A condição de conforto material se reflete em introjeção da dominação como fruto de uma “gerência e organização complicadas e científicas” que elevam um padrão de vida administrado “montado como um poder separado e acima do indivíduo”48. Neste sentido, a razão instrumental, operando enquanto ideologia fecha os espaços do pensamento crítico e cede ao controle tecnológico “a própria personificação da razão”, e seus produtos e consumo impõem um estilo de vida que está permanentemente mobilizado para a defesa do próprio universo construído: “Validado pelas conquistas da ciência e da tecnologia, justificado por sua crescente produtividade, (...) o operacionalismo se torna, na teoria e na prática, a teoria e a prática da contenção.”49 Marcuse pergunta-se, então, como podem os homens desta sociedade “se libertarem deles mesmos e de seus senhores”50.
É neste sentido que Jurgen Habermas analisa o pensamento de Marcuse e discute o poder de institucionalização da legitimidade que o “agir racional com respeito a fins” exerce sobre a sociedade e como este se “torna irreconhecível enquanto política”. O desenvolvimento das forças produtivas aliando técnica e ciência aparece como forma necessária da organização social e subtraem o poder da crítica, atuando enquanto modelo único gerenciador da sociedade capitalista.
Habermas apresenta sua contribuição ao pensamento de Marcuse ao demonstrar como este último encara a junção da dominação e da técnica como um projeto de mundo entendido e aplicado politicamente enquanto ideologia. Não obstante, Habermas faz ressalvas à alternativa apresentada pelo
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diagnóstico de Marcuse. Este afirma que somente a construção de uma nova ciência e de um novo projeto de dominação “libertadora” da natureza indicaria novos rumos para a técnica e para o aparato e isso geraria uma outra relação entre homem e natureza e, conseqüentemente, entre homem e homem. Habermas considera que isso não se realizaria por não haver historicamente alternativa ao projeto científico e nem mesmo a realização desta alternativa poderia ultrapassar a história, devendo ser construída por um projeto da espécie humana como um todo, partindo dos dispositivos disponíveis dentro de sua condição e potências.
Quanto mais a conexão entre a técnica e o agir-racional com respeito a fins se aguça, mais são as esferas humanas e relações sociais que estão sendo atingidas e modeladas por esta idéia da técnica enquanto progresso necessário, unidimensional e irreversível. Para Habermas, o agir racional com respeito a fins é uma estrutura à qual uma lógica do desenvolvimento técnico obedece. E diferencia seu postulado de análise daquele aplicado por Marcuse no seguinte sentido: “Em vez de tratar a natureza como objeto passível de uma possível manipulação técnica, podemos dirigir-nos a ela como a um parceiro numa possível interação. (...) podemos atribuir a subjetividade aos animais, às plantas (...) e comunicar-nos com a natureza, em vez de nos limitarmos a trabalha-la, quebrando a comunicação. (...) refere-se a uma estrutura alternativa do agir: a interação simbolicamente mediatizada, em oposição ao agir-racional com respeito a fins”51.