CAPÍTULO 2 EVOLUÇÃO DO DIFERENCIAL DE RENDIMENTO POR GÊNERO
4. Resultados e discussão
4.1 Os determinantes das equações quantílicas de rendimento
Apresenta-se nas Tabelas A1, A2 e A3, bem como as Figuras B1 a B6, em anexo, o resultado das estimações das equações de rendimento por quantis para mulheres e homens. Inicialmente, é possível constatar que a inversa de Mills ( ), utilizada para controlar o viés de seletividade, se mostrou significativa para todos os quantis, evidenciando a importância de sua inclusão para que se obtenha análises robustas.
A inversa de Mills, como já explicado, advém da estimação da probabilidade do indivíduo estar no mercado de trabalho. Como não é o foco do presente trabalho, optou-
se por não expor em tabela o resultado da estimação de seleção36, de maneira a realizar uma discussão mais objetiva em relação ao problema de pesquisa. No entanto, ressalta-se que os resultados foram ao encontro dos achados por Cirino (2018), cabendo um rápido comentário sobre as variáveis de exclusão da equação de seleção, ou seja, as que influenciam os indivíduos a estarem na atividade econômica, mas não tem efeito sobre o rendimento que eles usufruem.
Primeiramente, em relação ao salário reserva, o coeficiente apresentou-se negativo e estatisticamente significativo, independente do gênero e do ano analisado. Tal resultado é esperado e consonante com a literatura, dado que, quanto maior a renda oriunda de outras fontes que não o trabalho, menores (BACCHI et al., 2017; REBELLO, 2018 e CIRINO, 2018). Ressalta-se, de maneira complementar, que o salário reserva feminino se mostra superior ao masculino, o que tende a ilustrar a carga de responsabilidade doméstica que ainda recai sobre as mulheres.
Complementar a esse raciocínio, tem-se a variável que capta a presença de filhos menores de 14 anos no domicílio apresentando sinais diferentes para homens e mulheres, nos três anos analisados. Enquanto para os homens ter um filho dependente incentiva sua entrada no mercado de trabalho, para a mulher ocorre o oposto, reforçado a ideia de que, diante de tantas conquistas femininas, o progresso em relação à divisão da responsabilidade do care é lento ((BOHN, 2017), refletindo de forma negativa sobre a igualdade de gênero no trabalho produtivo.
Passando para as variáveis descritas nas Tabelas em anexo, tem-se que, independente do ano analisado, trabalhadores residentes nas regiões metropolitanas usufruíam de maiores rendimentos comparativamente aos não residentes, devido ao maior dinamismo que as primeiras apresentam (REBELLO, 2018; CIRINO, 2018), sendo que, para todos os quantis, as mulheres percebem uma diferença maior relativamente aos homens.
Em relação às outras variáveis locacionais, as regiões se mostram heterogêneas em relação ao Sudeste, de acordo com o quantil e o ano que se analisa. Destaca-se aqui a Região Norte. Os indivíduos pertencentes a esta região, no ano de 2002, de maneira geral, receberam menos do que os empregados na Região Sudeste, salvo o caso dos homens e das mulheres que se encontram na base e no topo da distribuição, respectivamente, que
não demonstraram significância estatística. Quando se faz uma comparação com 2013, percebe-se que, em regra, o rendimento do trabalho na Região Norte se elevou.
Sobressai sobre a região Norte que, as mulheres que se encontram no último quartil da distribuição, em momentos econômicos desfavoráveis, não retratam diferença salarial relativamente aos salários femininos no Sudeste; e, adicionalmente, no contexto de crescimento, passam a lograr de uma diferença positiva comparativamente à base. Tal situação não é percebida pelas mulheres residentes na mesma região, mas pertencentes aos quantis inferiores, podendo se configurar em um caso de elevada desigualdade entre as próprias mulheres nortistas.
No que tange ao setor de atividade, em 2002 o setor de construção apresenta sinais distintos para homens e mulheres. Pormenorizando a situação destas, ao apresentarem sinal positivo e um coeficiente crescente ao longo dos quantis, ilustram o fenômeno amplamente discutido na literatura: a inserção da mulher no meio predominantemente masculino (GARDINER, 1981; BOHN, 2017). Por ser um setor de restrito acesso, as poucas mulheres que conseguem se inserir tendem a ser valorizadas com salários maiores. Seguindo esse raciocínio, se torna plausível que a diferença tenha se ampliado no ano de 2013, dado que manteve-se o percentual de mulheres, mas elevou-se em 3 p.p. (ver Tabela 1) a taxa de homens no setor em questão. Por fim, no ano de 2014, persistiu a relação positiva do setor de construção com o rendimento auferido, contudo, reduziu-se o valor da diferença em relação à indústria. Argumenta-se que essa redução seja um possível reflexo da crise, que entre abril de 2014 e 2015, fez com que o emprego e o nível de atividade do setor de construção recuassem em 13,3 e 12,1 pontos, respectivamente (CNI, 2019).
Os trabalhadores que se encontram na administração pública também tendem a apresentar maiores salários comparativamente aos seus pares que se encontram na indústria, para os três anos analisados. Vale destacar, a título de ilustração, que em 2002, salvo o 10° quantil, as mulheres apresentavam uma diferença de rendimento superior à dos homens, sendo que no 90° quantil as mulheres que exerciam uma função na administração pública exibiam um rendimento cerca de 50% superior às mulheres que se encontram na indústria, reforçando o fato desse ser um setor de proteção e valorização do trabalho feminino ((RUBERY e RAFFERTY, 2013).
Quanto a posição na ocupação, tomando como base os empregados com carteira, chega-se a uma conclusão única para os três anos analisados: apenas os militares e estatutários usufruíam de uma remuneração mais elevada, implicando que empregados
sem carteira e domésticos com e sem carteira, apresentam-se de maneira negativa quando relativizados à base. Enfatizando os trabalhadores informais37, as maiores diferenças encontram-se no quantil inferior, indo ao encontro da discussão realizada por Dalberto e Cirino (2018), que, ao investigarem a diferença de rendimento entre setores formais e informais constataram que, em geral, para os anos de 2002 e 2012, as maiores diferenças estimadas encontram-se na base dos rendimentos.
Ademais, vale destacar a situação dos trabalhadores domésticos. Como os direitos trabalhistas das domésticas foram equiparados aos dos demais trabalhadores formais só recentemente, por meio da PEC 72/2013, possivelmente a análise dos dois anos seguintes ainda não consegue captar seu efeito total. De todo modo, percebe-se o diferencial de rendimento, para o 10° quantil, reduziu expressivamente em 17 p.p. quando se compara 2002 a 2013. Ainda, houve continuidade dessa redução em 2014, quando as domésticas com carteira assinada passam a usufruir um rendimento cerca de 4% inferior a das empregadas formais.
Contudo, o número de trabalhadoras domésticas com carteira assinada, que já era baixo em 2002 e 2013 (cerca de 7% das mulheres), reduziu em 1 p.p. em 2014 (ver Tabela 1). Já a outra vertente de domésticas, as que não tinham seus direitos trabalhistas garantidos, representavam 13% das mulheres em 2014, chegando a receber, aproximadamente, 61% a menos que as empregadas com carteira assinada, quando se analisa o quantil inferior da distribuição. Dessa forma, a conquista feminina no mercado de trabalho é limitada a determinados grupos, sendo mais uma vez reforçado as disparidades que existem entre as mulheres.
Quanto ao tipo de atividade, tanto os dirigentes em geral quanto os profissionais das ciências, das artes e técnicos de nível médio apresentaram rendimentos superiores aos demais tipos de trabalhadores, independente do gênero, ano ou quantil analisado. Contudo, em 2002, quando se faz o recorte, tem-se que nos cargos de direção, a diferença de salário dos homens em relação a base é maior do que a do rendimento entre as mulheres. O mesmo ocorre para os profissionais das ciências, das artes e técnicos de nível médio, com exceção do quantil inferior. Conjuntamente, essa situação pode se caracterizar como indício do fenômeno de glass ceiling.
37 Dalberto e Cirino (2018) relatam que pode-se considerar como informais dois grupos: (i) os empregados;
(ii) os autônomos e empregadores. Sedo que, para o primeiro grupo o critério utilizado para sua definição é a carteira de trabalho, enquanto que para o segundo grupo é a contribuição previdenciária. Nesse sentido, no presente trabalho, adota-se a primeira definição, de forma que os informais incluem os empregados e domésticos sem carteira.
A inserção nas carreiras de direção e de prestígio, que tendem a retornar maiores salários, exigem qualificação, que pode ser mensurada pelo nível de instrução e experiência do indivíduo. Dessa forma, analisando primeiramente os níveis de instrução dos trabalhadores, toma-se como base os indivíduos com até 3 anos de estudo. Os trabalhadores que apresentam de 4 a 7 anos podem usufruir de um ganho salarial, em relação à base, variando de 3% a 18%; enquanto os de 8 a 10, 11 e 12 anos ou mais de estudo podem perceber um rendimento mais elevado em cerca de 10% a 50%, 20% a 90% e 40% a 150%, respectivamente, dependendo do ano, quantil ou gênero analisado.
Nesse sentido, quando se verifica o gênero, tem-se que os menores retornos verificados em cada nível de instrução correspondem à análise da distribuição de rendimentos feminina, em algum dos anos analisados. Tais resultados não são compatíveis com a vantagem das mulheres em relação a formação educacional, já discutida e demonstrada na Tabela 1.
Ainda, no que concerne ao nível educacional, salvo o caso dos trabalhadores com 4 a 7 anos de estudo, os demais grupos apresentaram redução do retorno à qualificação ao passar dos anos. Ou seja, apesar de se manter o fato de que mais anos de estudos implicam em maiores rendimentos, em 2002 tais retornos eram superiores aos dos anos de 2013 e 2014.
Em relação à variável experiência, de maneira geral, o retorno é inferior ao da educação, variando entre 1% e 4%. No entanto, as constatações são similares: o retorno da experiência reduziu para ambos os sexos com o passar dos anos e as mulheres usufruem, ao longo de todos os quantis, de ganhos inferiores ao masculino, contrastando, mais uma vez, com o achado sobre a equiparação entre a média de gênero no tocante à experiência. Cirino (2018) discute esse paradoxo ao argumentar que a variável experiência - tal como definida não só no presente trabalho, mas na literatura sobre capital humano - não seria sensível ao ciclo de vida feminino, ou seja, superestimaria a experiência feminina por não contabilizar a ausência desta no mercado de trabalho, em virtude do trabalho reprodutivo. Dessa forma, apesar da experiência ainda possivelmente se constituir em uma fonte de discriminação, há, adicionalmente, a explicação de que, na verdade, as mulheres apresentariam um atributo produtivo relativamente menor do que o captado pela variável em questão.