3.1 RESPONSABILIDADE DOS ADMINISTRADORES E SÓCIOS: CONSIDERAÇÕES
3.1.2 Os deveres dos administradores e dos sócios
Em primeiro lugar, cumpre aqui esclarecer que quando se lê deveres dos administradores estão incluídos os sócios-administradores, uma vez que os deveres dos sócios que não possuem qualquer poder de gestão em uma sociedade limitada ou dos acionistas não-controladores em uma sociedade anônima podem ser resumidos ao dever de integralizar as quotas ou ações que houverem subscrito, bem como atuar com lealdade para com a sociedade.
O dever básico e fundamental do sócio em relação à sociedade é o de integralizar suas cotas. [...]. O contrato social poderá estabelecer outros deveres para o sócio, cumprindo lembrar que, independentemente de previsão contratual, há um dever – o dever de lealdade – que, embora difuso, estará tanto mais presente quanto maior for o grau de identificação
do sócio com a vida social. (BORBA, 2003, p. 28-29).
Cabe, também, lembrar da responsabilidade do acionista controlador determinada no art. 117 da LSA, que traduz as hipóteses de responsabilidade direta do acionista controlador pelos danos que este causar por atos praticados com abuso de poder, resumidamente entendidos como aqueles que tenham por fim (i) a orientação da companhia para negócios estranhos ao objeto social ou lesivo ao interesse nacional; (ii) a liquidação de companhia bem sucedida ou realização de operação de reorganização societária para obtenção de vantagem indevida; (iii) alteração estatutária ou adoção de políticas ou estratégias que não tenham por fim o interesse da empresa; (iv) eleição de administrador inapto moral ou tecnicamente; (v) indução de administrador ou fiscal à prática de ilícitos ou a descumprimento de dever; (vi) aprovar contas irregulares para favorecimento pessoal ou deixar de apurar denúncias de irregularidades, dentre outras condutas impróprias enumeradas no referido artigo.
O abuso de direito foi uma teoria desenvolvida para coibição de atos a principio lícitos mas que se tornam contrários ao sistema jurídico por cruzar limite que demarca o início da proteção ao direito alheio.
O exercício de um direito é acompanhado de responsabilidade; ele é abusivo quando constitui uma falta. Não é, de modo algum, necessário que esta falta seja intencional. Uma falta não intencional geral a responsabilidade de seu autor; porque seria diferente se o prejuízo é causado no exercício de um direito? O que se deve verificar é a conduta de um indivíduo prudente, sujeito às mesmas circunstâncias. Teria ele exercido seu direito da mesma maneira? No momento em que se constata uma imprudência ou uma negligência cometida pelo titular de um direito, se configura sua responsabilidade. Simples aplicação das regras gerais que regem o ato ilícito. (MAZEAUD apud ROCHA, 2004, p. 12-13).
Tal responsabilidade do acionista controlador é derivada, em realidade, de um dever contido no artigo anterior, ou seja, no artigo 116, em seu parágrafo único, que determina que o acionista controlador deve usar o poder que tem para que a companhia realize seu objeto social e cumpra sua função social, à luz dos deveres que tem perante a comunidade, trabalhadores e acionistas.
Art. 116. [...]
Parágrafo único. O acionista controlador deve usar o poder com o fim de fazer a companhia realizar o seu objetivo e cumprir sua função social, e tem deveres e responsabilidades para com os demais acionistas da empresa, os que nela trabalham e para com a comunidade em que atua, cujos direitos e interesses deve lealmente respeitar e atender.
Ao ensejo, é importante destacar que na legislação em comento, datada de 1976, ou seja precisos 12 (doze) anos antes da promulgação da Constituição Federal de 1988, já havia uma referência à função social da empresa, que somente ganhou destaque nos últimos anos, mas desde a primeira edição da lei já era uma diretriz estabelecida para o acionista controlador, o que justifica a responsabilização direta acima aludida.
No que tange aos administradores, por força da gestão dos negócios sociais, os mesmos possuem deveres estabelecidos de maneira pormenorizada tanto na LSA quanto no Código Civil, embora este apresente um detalhamento menor do que o apresentado por aquela.
Os principais deveres dos administradores encontram-se listados nos artigos 153 a 157 da LSA e são, com efeito, o dever de diligência (art. 153), o dever de cumprimento das finalidades sociais (art. 154), o dever de lealdade (art. 155), o de evitar situações de conflitos de interesses próprios com os interesses sociais (art. 156) e o dever de informar (art. 157). Além desses há outros que se encontram de maneira esparsa na própria lei, a exemplo do dever de providenciar as demonstrações financeiras (art. 176) e o de convocar assembléia geral (art. 123).
Em seguida, o artigo 158 da LSA determina:
Art. 158. O administrador não é pessoalmente responsável pelas obrigações que contrair em nome da sociedade e em virtude de ato regular de gestão; responde, porém, civilmente, pelos prejuízos que causar, quando proceder: I-dentro de suas atribuições ou poderes, com culpa ou dolo;
II-com violação da lei ou do estatuto
Já o Código Civil, em seu artigo 1.011, dispõe o que se segue:
funções, o cuidado e a diligência que todo homem ativo e probo costuma empregar na administração de seus próprios negócios.
Parágrafo 1º - Não podem ser administradores, além das pessoas impedidas por lei especial, os condenados a pena que vede, ainda que temporariamente, o acesso a cargos públicos; ou por crime falimentar, de prevaricação, peita ou suborno, concussão, peculato; ou contra a economia popular, contra o sistema financeiro nacional, contra as normas de defesa da concorrência, contra as relações de consumo, a fé pública ou a propriedade, enquanto perdurarem os efeitos da condenação.
Embora entre o artigo 158 da Lei das S/A e o artigo 1.011 do Código Civil acima transcritos haja a diferença de que este, diferentemente daquele, é desprovido de sanção, o que - em suma – os dois artigos traduzem é que o administrador deve proceder com prudência e diligência e deve cuidar dos negócios da sociedade como se seus fossem. Deve ainda ser pessoa de idoneidade comprovada, não estando, portanto, impedido de ser administrador, por nenhuma das hipóteses elencadas no §1º artigo 1.011 do NCC, que nada mais são que as hipóteses impeditivas também listadas no §1º do art. 147 da LSA.
Atendidos os requisitos acima, pode-se dizer que os administradores não são pessoalmente responsáveis pelas obrigações que contraírem em nome da sociedade e em virtude de ato regular de gestão. Entretanto, podem vir a responder perante terceiros e perante a própria sociedade, com o patrimônio pessoal, aqueles administradores que venham a agir em desacordo com a lei ou com o contrato social, ou que venham a agir culposamente excedendo seus poderes de gestão.
Considerando a ampla gama de relações e obrigações estabelecidas pela sociedade em sua vida social, será inescapável a análise da responsabilidade dos administradores e sócios nos âmbitos do direito civil, penal, tributário, previdenciário, ambiental, muito embora o foco do trabalho não seja exatamente uma análise pormenorizada de cada um dos aspectos da responsabilidade de sócios e administradores nessas esferas, mas, sim, a correlação da aplicação do instituto da responsabilidade e o desenvolvimento econômico pátrio.
3.2 RESPONSABILIDADE DIRETA DE SÓCIOS E ADMINISTRADORES EM