6. A profissão de tradutor
6.2 Os dez requisitos do tradutor profissional
A empresa de tradução Schreiber Translations, Inc., publicou na sua página da Internet um excerto do livro The Translator's Handbook, onde estão identificados os dez principais requisitos do tradutor profissional.27 Dado o interesse deste excerto para o trabalho em causa, apresentamos em seguida um resumo em português deste excerto.
O primeiro requisito do tradutor é um profundo conhecimento tanto da língua de origem como da língua de destino. Não vale a pena considerar-se um tradutor se não estiver perfeitamente familiarizado com ambas as línguas, ou se não possuir um vocabulário equivalente ao de um falante dessas línguas com formação universitária.
O segundo, um profundo conhecimento de ambas as culturas. Uma língua é um fenómeno vivo. Não existe de forma independente da cultura em que é que falada ou escrita. Comunica não apenas nomes de objectos e diferentes tipos de acções, mas também sentimentos, atitudes, crenças e por aí adiante. Para estar perfeitamente familiarizado com a língua, o tradutor tem de estar familiarizado com a cultura na qual a língua é utilizada, com as pessoas que a utilizam, os seus hábitos, crenças e tudo o que existe em torno de uma cultura.
27
Schreiber Translations, Inc. “Ten Requisites for Professional Translators”.
A profissão de tradutor
Terceiro, o tradutor tem de acompanhar o crescimento e a mudança da língua e estar actualizado em todas as suas variações e neologismos. As línguas estão em constante mutação e as palavras adquirem significados diferentes de ano para ano. Há trinta anos a palavra inglesa gay significava simplesmente “alegre”. Agora é utilizada para definir um segmento da sociedade.
Quarto, tem que se distinguir a língua da qual se traduz da língua para a qual se traduz. De um modo geral, traduz-se de outra língua para a língua nativa. Isso deve-se ao facto de estarmos mais familiarizados com a nossa própria língua do que com a outra, apesar dos anos de estudo e experiência que possamos ter da língua adquirida. As excepções à regra são as pessoas que tenham vivido em mais do que uma cultura e falado regularmente mais do que uma língua. Essas pessoas podem traduzir para ambos os lados.
Porém, são raros os casos de indivíduos dotados que adquiriram o nível linguístico da outra língua que lhes permite traduzir também para essa língua. Perante isto, devemos aceitar o facto de que a capacidade do tradutor de escrever e falar de forma fluída na língua de destino (ou seja, a língua nativa) não implica necessariamente a capacidade de escrever prosa excelente ou de grandes discursos na língua de partida (ou seja, a língua da qual se traduz). Não é preciso saber falar e escrever bem na língua da qual se traduz, no entanto, espera-se de um bom tradutor que escreva e fale bem na língua nativa.
Quinto, o tradutor profissional tem de ser capaz de traduzir em mais do que uma área do conhecimento. A maioria dos tradutores profissionais é solicitada para traduzir em diversas áreas. Não é difícil encontrar tradutores que incluam nos seus serviços cerca de vinte áreas de conhecimento, áreas como política, economia, direito, medicina, comunicações, por aí adiante. É óbvio que seria difícil encontrar um tradutor que fosse também um economista, um advogado, um
A profissão de tradutor
médico e um engenheiro. Uma pessoa assim provavelmente nem existe. Um tradutor não tem que ser um advogado para traduzir documentos jurídicos.
O tradutor profissional pode ser capaz de adquirir conhecimentos e vocabulário suficientes para realizar uma tradução exacta e bem redigida nessas áreas específicas. Isso não é tarefa difícil, uma vez que a maioria dos campos técnicos utiliza um conjunto de termos bem definidos, que se repetem, e com os quais o tradutor se familiariza facilmente à medida que traduz. A curiosidade natural do tradutor e o seu interesse por aumentar o seu vocabulário em diversos campos técnicos pode constituir uma vantagem.
Sexto, o tradutor deve ter facilidade no registo escrito e no oral (dependendo de utilizar o método de redacção, fala ou ditado) e facilidade de articulação rápida e exacta tanto na oralidade como na escrita. Tal como um repórter, um tradutor tem de ser capaz de transmitir ideias em tempo real de forma bastante perceptível.
Sétimo, o tradutor profissional tem de desenvolver uma boa velocidade de tradução. Existem duas razões para tal: a primeira, a maioria dos clientes espera até ao último minuto para adjudicar uma tradução. Como resultado, colocam ao tradutor ou agência de tradução questões típicas como "Qual é o melhor prazo que nos pode dar para esta tradução?”. O tradutor profissional tem de estar preparado para aceitar trabalhos com prazos apertados, sob risco de não receber mais trabalhos desse cliente. A segunda razão é que normalmente a tradução é paga à palavra. Quanto mais palavras traduzir por hora, maior será o rendimento do tradutor. Traduzir apenas 50 palavras por hora não garante a subsistência do tradutor. Um ritmo bom de tradução é a partir de 250 palavras por hora, podendo chegar a mil palavras por hora, no caso de utilizar um processador de texto, e cerca de 3000 palavras por hora utilizando o método de ditado. Os tradutores de grandes volumes serão os mais bem-sucedidos.
A profissão de tradutor
Oitavo, o tradutor tem de desenvolver aptidões de pesquisa e ser capaz de obter fontes de referência que são essenciais para realizar tradução de alta qualidade. Sem essas fontes, nem o melhor dos tradutores é capaz de lidar com muitos assuntos em campos não relacionados. Os tradutores dedicados são aqueles que estão constantemente a pesquisar novas fontes de referência, desenvolvendo ao longo do tempo uma base de dados que pode ser utilizada no seu trabalho.
Nono, o tradutor actual tem de conhecer o hardware, software, fax, modem, a Internet e os últimos desenvolvimentos na área da multimédia. A tradução tornou-se totalmente dependente das ferramentas electrónicas. Já lá vão os dias da escrita à mão, da máquina de escrever e de todos os outros meios de comunicação “pré-históricos”. Quanto mais uma pessoa se envolve na tradução, mais contactos tem com os mais recentes desenvolvimentos tecnológicos.
Décimo, o tradutor que pretenda estar ocupado numa base regular com trabalhos da tradução tem de ter consciência que existe maior procura nalgumas línguas do que noutras. Por exemplo, existe uma grande procura de línguas como japonês, alemão, espanhol, francês, chinês, árabe, russo e italiano mas já não existe tanta procura para línguas como búlgaro, checo ou farsi. Se a língua nativa do tradutor for uma destas últimas é aconselhável que também se especialize numa língua do primeiro grupo ou que pondere seriamente se existe procura suficiente para a sua língua que justifique o esforço.