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Os Direitos da Personalidade como Direitos Fundamentais

Capítulo I – DIREITO SUBJETIVO, PERSONALIDADE E DIGNIDADE HUMANA

Capítulo 3 – A DIGNIDADE HUMANA NA CONTEMPORANEIDADE

3.2 Direitos Fundamentais, Direitos da Personalidade e a Dignidade Humana

3.2.2 Os Direitos da Personalidade como Direitos Fundamentais

A teoria dos direitos da personalidade surgiu nos fins do século XIX, sendo contemporânea da própria instauração de regimes jurídicos voltados à garantia dos direitos fundamentais do homem, confundindo-se com os mesmos, tanto em sua ordenação, como em sua finalidade, que é a efetivação da dignidade humana387. Para Adriano de Cupis, todos os direitos, porque estão destinados a dar conteúdo à personalidade, poderiam denominar-se direitos da personalidade. Entretanto, em reverência à técnica jurídica, a expressão seria “reservada aos direitos subjetivos, cuja função, relativamente à personalidade, é especial, constituindo um minimum necessário e imprescindível ao seu conteúdo”388.

A consagração normativa dos direitos fundamentais modificou a própria condição do ser humano no seio da sociedade, alterando o rumo do reconhecimento dos direitos da personalidade, deslocando-os da esfera anteriormente identificada como eminentemente privada, para um ambiente afetado pelos interesses sociais. Nessa perspectiva, os direitos da personalidade passaram à condição de direitos positivados na esfera legal, sobretudo constitucional, marcando, mais uma vez, a transição do regime patrimonialista, próprio do direito privado clássico, para uma visão contemporânea, fundada na preocupação com a pessoa humana, restaurando sua

387 Há quem entenda que os direitos da personalidade surgiram dentro de um contexto de pluralismo de valores

próprio do Estado Democrático de Direito, como reação à tendência de homogeneização e à destruição da individualidade. Assim, teriam por finalidade a supressão das lacunas existentes na formulação dos direitos fundamentais do século XVIII, no que se refere à preservação dos inúmeros bens essenciais à formação e desenvolvimento da personalidade humana. Cf. CUNHA, Alexandre dos Santos. A Normatividade da Pessoa Humana. O Estatuto Jurídico da Personalidade e o Código Civil de 2002, p. 66.

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primazia, em um processo de clara personalização do direito389. Existe, atualmente,

uma clara preocupação referente à tipificação dos direitos da personalidade, que tem sua origem justamente na categorização desses direitos como direitos subjetivos390.

Independentemente desse aspecto, os direitos da personalidade continuaram caracterizados por uma essencialidade que deriva da própria condição humana, atrelados ao reconhecimento da dignidade humana enquanto juízo a priori. Nesse sentido, contemporaneamente é comum afirmar-se que “a última ratio do direito é o homem e os valores que traz encerrados em si”391, sendo os direitos da personalidade a espinha dorsal de toda a proteção do homem e, portanto, do próprio instituto da personalidade392.

Contudo, o tratamento legal dos direitos fundamentais é uma contundente prova de abertura da consciência humana, mediante o reconhecimento de que a humanidade exige toda uma reorganização da vida social, com base no respeito absoluto à pessoa humana393. A par disso, temos o reconhecimento da “necessidade

de tutela dos valores existenciais da pessoa humana, outrora relegados a uma proteção indireta, quando existente”394.

O pluralismo contemporâneo e a pressão social relativa à necessidade de garantia dos direitos da personalidade têm elevado o grau de generalidade com que estes, assim como os próprios direitos fundamentais, têm recebido positividade395. Essa generalidade está fundada em um novo chamamento histórico e social do direito

389 ALMEIDA, Maria Christina de. DNA e Estado de Filiação à Luz da Dignidade Humana, p. 63.

390 CORTIANO JÚNIOR, Eroulths. Alguns Apontamentos sobre os Chamados Direitos da Personalidade, p.

45.

391 CORTIANO JÚNIOR, Eroulths. Alguns Apontamentos sobre os Chamados Direitos da Personalidade, p.

32.

392 DIAS, João Álvaro. Procriação Assistida e Responsabilidade Médica, p. 122.

393 COMPARATO, Fábio Konder. A Humanidade no Século XXI: A Grande Opção, p. 219.

394 CORTIANO JÚNIOR, Eroulths. Alguns Apontamentos sobre os Chamados Direitos da Personalidade, p.

31.

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civil, que não mais pode aquietar-se “na rígida moldura codificada ou no pouso pretensamente seguro da exegese escrita”396.

Enfatize-se que os direitos da personalidade, sob a ótica que temos, não têm sua gênese no momento do nascimento com vida, nem terminam com a morte, mas acompanham a própria humanidade como um todo, transformando a dignidade – irrefutável axioma de natureza jurídico-filosófica – em um comando positivo hierarquicamente superior, que condiciona a atuação do homem individualmente considerado, da sociedade e do próprio Estado397. Daí porque entendemos que os direitos da personalidade não podem ser identificados como simples direitos fundamentais de primeira geração, haja vista serem de interesse não apenas dos homens individualmente considerados, mas de toda a sociedade.

Além de reclamar, como imperativo categórico pressuposto, a proteção à vida, a dignidade humana também impõe, como forma de garantir sua própria concretização, o respeito às chamadas condições mínimas de vida398, tanto morais

como materiais. Emerge, assim, a noção de dignidade humana como uma garantia geral da personalidade, com implicações referentes à tutela da integridade física, moral e psíquica da pessoa humana399, com reflexos em toda a estrutura de direitos e garantias da sociedade, com a finalidade clara de conciliar os interesses dos indivíduos e dos grupos sociais, como a família.

396 FACHIN, Luiz Edson. Transformações do Direito Civil Brasileiro Contemporâneo, p. 44.

397 Nesse ponto, cumpre trazer o posicionamento de Ana Paula de Barcellos: “As pessoas devem ter condições

dignas de existência, aí incluindo-se a liberdade de desenvolverem-se como indivíduos, a possibilidade de participarem das deliberações coletivas, bem como condições materiais que as livre da indignidade, aspecto que mais diretamente interessa a este estudo; não apenas porque isso é desejável, mas porque a Constituição, centro do sistema jurídico, norma fundamental e superior, assim determina. Ao jurisdicizar, através de princípios, valores fundamentais e ações políticas que entende decorrerem de forma direta e imediata de tais valores, a Constituição coloca a seu serviço o instrumental jurídico do direito constitucional, retirando-os do debate meramente político”. In A Eficácia Jurídica dos Princípios Constitucionais – O Princípio da Dignidade Humana, p. 26-27.

398 AZEVEDO, Antônio Junqueira de. Caracterização Jurídica da Dignidade da Pessoa Humana, p. 18.

Nesse sentido, vide também FACHIN, Luiz Edson. Estatuto Jurídico do Patrimônio Mínimo, passim.

399 RUZYK, Carlos Eduardo Pianovski. A Responsabilidade Civil por Danos Produzidos no Curso de

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É comum pensar os direitos da personalidade como direitos subjetivos absolutos, oponíveis erga omnes e de conteúdo estritamente não patrimonial400.

Entretanto, apesar de serem direitos essenciais, indissolúveis e ilimitáveis, não podem ser compreendidos como direitos inatos401. Sempre que modificada a

consciência moral e social sobre a dignidade humana e sua condição, alterando-se a posição do homem enquanto ser social, o âmbito dos direitos da personalidade, correlativamente, será modificado, como forma de adequar-se a essa nova realidade402.

Dentre os direitos da personalidade, interessa-nos, mais especificamente, tratar do direito à integridade física, consubstanciado tanto em nossa Constituição Federal, como em nosso Código Civil, por via de que a incolumidade do corpo da pessoa tem sido protegida. Esse direito acompanha o ser humano desde a sua concepção, até após a morte, ultrapassando as próprias barreiras do personalismo jurídico403. Não obstante sua natureza, ao contrário do que sucede com outros direitos

da personalidade, via de regra indisponíveis e irrenunciáveis404, o direito à integridade física é disponível, “sob certos condicionamentos, ditados pelo interesse geral”405. É claro o fundamento da garantia da integridade física das pessoas: evitar- lhes o sofrimento físico, prejuízo à saúde e, também, à perturbação de suas faculdades psíquicas, de modo que a Constituição Federal, ao consagrá-la como

400 Nesse sentido, vide BURDESE, Alberto. Manuale di Diritto Privato Italiano, p. 57-58.

401 Vale trazer, também, o argumento de Maria Celina Bodin de Moraes: “Tampouco há que se falar apenas em

‘direitos’ (subjetivos) da personalidade, mesmo se atípicos, porque a personalidade humana não se realiza somente através de direitos subjetivos, mas sim através de uma complexidade de situações jurídicas subjetivas, que podem se apresentar, como já referido, sob as mais diversas configurações: como poder jurídico, como direito potestativo, como interesse legítimo, pretensão, autoridade parental, faculdade, ônus, estado – enfim, como qualquer circunstância juridicamente relevante”. Danos à Pessoa Humana – Uma Leitura Civil-

Constitucional dos Danos Morais, p. 118.

402 DIAS, João Álvaro. Procriação Assistida e Responsabilidade Médica, p.122-123. 403 BITTAR, Carlos Alberto. Os Direitos da Personalidade, p. 76.

404 Convém trazer a disposição constante do artigo 11, do Código Civil: “Com exceção dos casos previstos em

lei, os direitos da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária”.

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direito fundamental, dispõe, em seu artigo 5°, inciso III: “ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano ou degradante”.

A disponibilidade da integridade física somente pode ocorrer naqueles casos em que haja claro interesse social. Desse modo, por exemplo, está consentida, pelo Código Civil, para fins de transplante de órgãos, onde a finalidade altruística é inegável406, autorizando-se alguém a doar, em vida, órgãos como os rins.

Sobreleva notar, nessa oportunidade, que o direito à integridade física tem sido utilizado como fundamento, ainda que subliminar, do entendimento judicial acerca da impossibilidade de coerção para a realização de exame de DNA nas ações que versem acerca do reconhecimento jurídico da paternidade. Tem-se, desse modo, considerado o direito à integridade física como absoluto e intangível.

Essa linha de raciocínio nos conduz a entender que o direito à integridade física tem sido compreendido enquanto direito fundamental de primeira geração, tocado, portanto, de individualidade e fundado na garantia de liberdade do homem. Como dissemos, a necessidade de superação da idéia de gerações ou dimensões de direitos fundamentais se faz urgente em questões assim, para que se possa ter uma compreensão menos individualista dessa garantia fundamental.

O principal argumento utilizado para defender a impossibilidade de realização coercitiva de exame de DNA nas ações de investigação de paternidade tem por base a idéia de inviolabilidade da pessoa humana, tomada como absoluta. Contudo, caso fosse analisado o direito à integridade física como passível de restrições, em virtude da incidência dos próprios princípios constitucionais, como o da solidariedade e da paternidade responsável, facilmente chegar-se-ia à conclusão de que a simples coleta de material para a realização do exame, o que não acarreta

406 Cf. artigo 13, do Código Civil: “Salvo por exigência médica, é defeso o ato de disposição do próprio corpo,

quando importar diminuição permanente da integridade física, ou contrariar os bons costumes. Parágrafo único. O ato previsto neste artigo será admitido para fins de transplante, na forma estabelecida em lei especial”.

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nenhuma lesão ou risco para a saúde humana407, poderia ser admitida, em razão dos

demais interesses envolvidos em tais questões.

Desse modo, as relações entre os direitos da personalidade e os direitos fundamentais devem ser norteadas por uma perspectiva de otimização de ambos os institutos, com base no princípio da dignidade humana, a fim de garantir sua efetividade e realização dos interesses não apenas individuais, como também sociais.

3.2.3 As Relações entre a Dignidade Humana e os Direitos Fundamentais