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A expressão “constitucionalismo tardio”18 está ligada a evolução histórico-

constitucional brasileira, associada diretamente a ideia de cultura constitucional, que corresponde a comportamentos que visam resguardar a vontade da Constituição, buscar a maior efetividade dos princípios e normas constitucionais e propagar o conhecimento da Constituição. (SILVA NETO, 2016, p. 19).

Para o autor, esse fenômeno não se explica tão somente pelo surgimento de constituições recentes, mas pela ausência de uma cultura constitucional que leva à ineficácia social dos textos constitucionais, de forma que o constitucionalismo tardio impede a efetividade dos valores e princípios presentes na Constituição. (SILVA NETO, 2016, p. 20).

Diante dessa afirmação, depreende-se que a inefetividade dos direitos sociais dos trabalhadores decorre justamente da ausência de uma cultura constitucional que não foi desenvolvida na sociedade brasileira em razão do “constitucionalismo tardio decorrente de causas históricas, políticas e jurídicas”. (SILVA NETO, 2016, 19).

Antes de adentrar na abordagem das causas para a compreensão do fenômeno “Constitucionalismo tardio”, torna-se necessário evidenciar a incompletude da constitucionalização do direito, no sentido de que ainda falta um longo caminho a ser percorrido. E um desses caminhos refere-se ao alcance da efetividade dos direitos fundamentais, especialmente dos direitos sociais do trabalhador, a fim de que este seja capaz de realizar suas próprias escolhas para a obtenção de uma vida digna. A efetivação desses direitos leva ao respeito do princípio da dignidade da pessoa humana, princípio fundante e estrutural do ordenamento jurídico constitucional.

Em relação às causas históricas tem-se a ausência de pertencimento das comunidades que aqui se instalaram para o povoamento, em razão do modelo de organização social imposto pelo colonizador. O objetivo do povoamento restringiu-se a exploração dos recursos naturais disponíveis no Brasil para o acúmulo de riquezas dos colonizadores. Nunca houve um projeto de desenvolvimento na colônia. Na realidade, o que ocorreu foi o envio de uma variedade de grupos sociais para realizarem a retirada das riquezas naturais, acarretando a “consolidação de

18 O título do presente tópico refere-se à expressão do doutrinador Manoel Jorge e Silva Neto, que intitula sua

obra, “O constitucionalismo brasileiro tardio”, a qual servirá de base para o desenvolvimento da análise da inefetividade dos direitos sociais. Note-se que a ideia de a constitucionalização do direito ter ocorrido tardiamente pertence a Luiz Roberto Barroso, em seu texto Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito (O triunfo tardio do direito constitucional no Brasil). Barroso, 2006, p. 13-100.

sentimento de repulsa e indignação quanto ao sistema normativo” e a consequente “falta de consciência constitucional”. (SILVA NETO, 2016, p. 35).

A colonização no Brasil estruturou uma sociedade original mercantilista, com a seleção de populações marginalizadas, como indígenas e africanos escravizados, cuja mão de obra fora utilizada na agricultura para o abastecimento do comércio exterior. O processo de colonização mercantilista gera reflexos nos aspectos econômicos e sociais da sociedade brasileira até os dias atuais. (PRADO JÚNIOR, 2006, p. 22-23).

Segue-se como causa histórica a figura do homem cordial19, “avesso aos formalismos e

ritualísticas do âmbito público”. Aquele que mistura os seus interesses sociais com o interesse público. Não tem a distinção da questão familiar e da gestão da coisa pública, o que afasta a sociedade do ideal de constituição, ao afrontar todos os princípios estabelecidos no art. 37 da CF/88. (SILVA NETO, 2016, p. 37).

Finalmente, o personalismo também constitui causa histórica responsável pela ausência de uma cultura constitucional sólida no Brasil, responsável pela fragilidade das estruturas partidárias, uma vez que os representantes políticos passam a ser escolhidos de modo personalista, o que dificulta a renovação partidária. (SILVA NETO, 2016, p. 38).

De acordo com as possíveis causas políticas, a pouca compreensão do que a democracia representa para os operadores do direito afeta a consciência constitucional no Brasil, ocasionando o descrédito da população em relação às instituições públicas que estruturam o Estado, no âmbito dos três poderes. E os reflexos dessa cultura antidemocrática podem ser evidenciados na forma de elaboração e na aplicação das leis, especialmente na ausência de consciência do real sentido e valor do texto constitucional. (SILVA NETO, 2016, p. 40).

Como possível causa jurídica do fenômeno Constitucionalismo tardio, tem-se o individualismo jurídico assimilado pela Escola da Exegese originária do direito francês, a qual privilegia o texto legal, devendo esse ser a única preocupação do jurista. No Brasil, os juristas também passaram a seguir os valores individualistas incorporados a essa escola, uma vez que a visão individualista do direito está dissociada dos valores constitucionais relativos aos interesses da coletividade. (SILVA NETO, 2016, p. 46).

A Constituição prevê uma série de valores voltados ao interesse social, comportamental, intervencionista, os quais dirigem a economia e estabelecem regras que visam atingir

19 O “homem cordial” trata-se de expressão cunhada pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, em seu livro

Raízes do Brasil, que retrata como a família patriarcal no Brasil contribuiu para a formação do homem cordial, como sendo o indivíduo que não é capaz de separar o público do privado, que não consegue reconhecer a impessoalidade do Estado. Disponível em: https://fontehistorica.wordpress.com/2011/05/30/o-homem-cordial/. Acesso em: 30 abr. 2019.

determinados fins voltados para o desenvolvimento social, dentre eles: a valorização do trabalho, a solidariedade, a liberdade, a proteção ao meio ambiente dentre outros.

É papel importante do Estado realizar políticas públicas para alcançar o cumprimento desses valores constitucionais, os quais atendem a uma mudança histórica inaugurada com o Estado social, como meio de se resgatar a liberdade e a igualdade tolhidas com o avanço do Estado liberal.

Compreende-se, assim, que o distanciamento dos valores coletivos significa corroborar para a inefetividade dos direitos sociais, configurando um retrocesso na interpretação constitucional, cuja visão individualista não se conforma com os fundamentos e objetivos da República Federativa do Brasil.

Pertinente às consequências jurídicas, tem-se a interpretação constitucional que exige, contemporaneamente, métodos que fogem a ótica do direito comum. Torna-se necessária uma interpretação especializada devido à especificidade e hierarquia do texto constitucional. (SILVA NETO, 2016, p. 50).

A inadequada interpretação constitucional gera a inefetividade dos direitos fundamentais, cuja fragilidade na sua efetivação está ligada a falta de consciência constitucional. Nesse sentido, verifica-se que há uma diminuta importância dada a Constituição de 1988 por parte da comunidade jurídica em geral. (SILVA NETO, 2016, p. 50).

O retardo na interpretação do texto constitucional, contribui para o não alcance do respeito aos direitos fundamentais do trabalhador migrante, uma vez que ao não atingir os valores e princípios dispostos na Constituição Federal, inerentes à valorização do trabalho, a livre iniciativa e a sua existência digna, apontam para a ausência de garantia dos direitos fundamentais desses trabalhadores.

Torna-se necessário buscar a efetivação dos direitos fundamentais dispostos na Constituição Federal, a fim de promover um amplo conhecimento do conteúdo do texto constitucional e a realização de políticas estatais que possam dar cumprimento a um tratamento isonômico, digno e valorativo à pessoa e à atividade laboral desenvolvida pelo migrante, de forma que possa se sentir acolhido e respeitado na sociedade a qual deseja se integrar.

Direitos fundamentais sociais e políticas públicas são duas faces da mesma moeda, uma vez que para se dar efetividade àqueles é imprescindível a intervenção estatal. O Estado deve realizar ações que efetivamente alcancem os objetivos constitucionais, com condutas discursivamente possíveis. Na Constituição brasileira, os direitos fundamentais sociais estão configurados na forma de princípios, devendo ser cumpridos da melhor forma possível, mediante a análise dos outros princípios e regras.

Acrescente-se, também, que impera na seara internacional a superação da crença de que os direitos sociais, econômicos e culturais não constituem direitos legais. Trata-se de direitos acionáveis por serem autênticos direitos fundamentais, tornando-o exigíveis, além de reclamar a devida observância e respeito. Representam direitos, devendo ser reivindicados como tal, por não estarem associados a ideia de caridade ou generosidade. (PIOVESAN, 2010, p. 101).

Para milhares de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza, os direitos fundamentais sociais lhes devem ser garantidos como condições existenciais mínimas, para que possam desfrutar de uma existência digna, de acordo com o preceituado na Constituição Federal. Por essa razão, esses direitos fundamentais devem ser cada vez mais concretizados pela atuação estatal. Entretanto, para que essa concretização se realize da melhor e mais otimizada forma possível, deve-se dar relevância ao processo democrático, onde todos tenham amplo e irrestrito acesso ao exercício da cidadania reivindicativa, participando como intérpretes da Constituição, como afirma Häberle,

(...) no processo de interpretação constitucional estão potencialmente vinculados todos os órgãos estatais, todas as potências públicas, todos os cidadãos e grupos, não sendo possível estabelecer-se um elenco cerrado ou fixado com numerus clausus de intérpretes da Constituição. (HÄBERLE, 1997).

Dessa forma, a participação ativa do cidadão na reivindicação dos seus direitos fundamentais sociais, pelo processo democrático, buscando a efetividade da interpretação dos valores e princípios constitucionais voltados ao cumprimento dos fundamentos e objetivos da República do Brasil contribui de forma eficaz para o aprimoramento e concretização planejada da atuação estatal de forma a garantir efetivamente os direitos fundamentais sociais.

Importante a inserção do trabalhador migrante no mercado de trabalho em condições dignas, a fim de que seus direitos fundamentais sejam respeitados e possam gozar das mesmas prerrogativas que os demais trabalhadores. Dessa forma, evita-se que sejam submetidos a um tratamento diferenciado em razão da sua origem, cultura, condição econômica, fatores que os colocam em estado de vulnerabilidade e contribui para que sejam alvo fácil para serem submetidos à condição análoga à de escravo.

Percebe-se que os indivíduos externam total indiferença em relação às possibilidades do texto constitucional. O primeiro passo para alterar essa realidade é trazer para discussão as causas e efeitos que contribuem para a falta de consciência constitucional no Brasil. A partir daí, pode-se visualizar uma trajetória a ser perseguida visando o resgate desse sentimento constitucional.

Dessa forma, é possível pensar e apontar caminhos para o enfrentamento da inefetividade dos direitos fundamentais sociais dispostos na Constituição Federal, que contribui para a disseminação de condutas na sociedade, que desembocam na exploração laboral e desrespeito à dignidade da pessoa humana. Um desses caminhos corresponde à promoção de políticas públicas que se conforme com as finalidades sociais e econômicas dispostas na Constituição, as quais serão abordadas em momento posterior.

A intervenção estatal é imprescindível para alcançar a concretização dos direitos fundamentais sociais, com a realização de ações que efetivamente alcancem os objetivos constitucionais mediante um tratamento isonômico, digno e valorativo à pessoa e à atividade laboral.

Os cidadãos devem participar ativamente na reivindicação dos seus direitos fundamentais sociais, contribuindo com a efetividade da interpretação dos valores e princípios constitucionais voltados ao cumprimento dos fundamentos e objetivos da República do Brasil, auxiliando de forma eficiente para o aprimoramento e a concretização da atuação estatal de forma a garantir a efetividade dos direitos fundamentais sociais.

Importante a inserção do trabalhador migrante no mercado de trabalho em condições dignas, a fim de que seus direitos fundamentais sejam respeitados e possam gozar das mesmas prerrogativas que os demais trabalhadores. Dessa forma, evita-se que sejam submetidos a um tratamento diferenciado em razão da sua origem, cultura, condição econômica, fatores que os colocam em situação de vulnerabilidade, transmutando-os em alvo fácil para serem submetidos à condição análoga à de escravo.