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2 O CONTEXTO GLOBALIZADO E AS TRANSFORMAÇÕES NO MUNDO

3.3 OS DIREITOS HUMANOS DO SER INDIVIDUAL NOS MOVIMENTOS

O conceito de segurança humana é inovador em sua ênfase no cumprimento das leis de defesa dos direitos humanos individuais. Considera-se esta a principal tarefa da ordem internacional, pois, apesar de estar centrada nos indivíduos, a segurança humana não pode ser dissociada dos quadros institucionais, em especial dos Estados sob os quais os direitos humanos são implementados (SORJ, 2005).

O conceito de segurança humana tem as bases para sua formulação presentes no âmbito das Nações Unidas. A Carta da ONU, além de diversos documentos posteriores, menciona a soberania nacional como princípio norteador do sistema internacional, bem como a defesa universal dos direitos humanos a despeito das fronteiras. Em outras palavras, desde sua origem, as Nações Unidas reconhecem duas linhas de valores “absolutos” que o sistema internacional deve proteger: a soberania nacional e os direitos humanos individuais (RIOUX, 2001).

Ao enunciarmos direitos humanos, remonta-nos a ideia de convivência nas comunidades carentes de catadores de lixo urbano, que cresce em proporções concomitantes ao crescimento de produtos desprezados no meio ambiente. Nessa conjuntura, nos reporta a uma reflexão sobre a exclusão social e a inserção profissional desses trabalhadores na atualidade, na qual a sociedade contemporânea, com seu consumo de produtos e serviços, tem gerado resíduos em excesso. Hoje o ser humano costuma ser valorizado pela capacidade de consumo. O sujeito em busca da integração com o espaço social tem se deparado com um mundo onde, desamparado e desabrigado, procura acolhimento para o seu sentimento de conflitos e incertezas. Na ausência ou na impossibilidade desse

acolhimento, o homem costuma considerar intocáveis os ideais estabelecidos pela moral social. Diante da impotência gerada por uma ideologia não condizente com a sua realidade, o sujeito pode tornar-se alienado, sendo incapaz de questionar os valores vigentes e, menos ainda, de reagir, instituindo, dessa forma, uma sociabilidade marginal (VELLOSO, 2005).

Em um quadro geral de grande escassez de oportunidades de inserção profissional, Capucha (1998) identificou um tipo de situação em que o maior obstáculo é a qualidade de vida das pessoas (habitação precária, má alimentação, baixa escolaridade, alta taxa de natalidade, elevada delinqüência, problemas de saúde e o trabalho em locais insalubres). Além de outros fatores, como as fracas qualificações e capacidades, a acomodação a círculos de pobreza instalada e a adoção de modos de vida marginais.

No caso dos segmentos mais pobres da sociedade, que sofrem formas extremas de exclusão social, a sua inserção vai depender da reinvenção de alternativas de produção de estrutura não capitalista, porque é através da reorganização desses indivíduos a partir de suas necessidades e dos modos de produção de trabalho em espaços a serem ocupados, que será valorizado o humano e não somente o capital. A organização de catadores em associações ou cooperativas deve ocorrer, concomitantemente, a um processo integrado de transformação cultural, social e política dos seus membros (VIANA, 2000).

O processo associativo deve contar, em curto prazo, com a vontade do poder público em articular o planejamento da reciclagem com a inserção social. Essa articulação já pode ser observada em algumas cidades brasileiras, nas quais as organizações em associações ou em cooperativas de catadores tiveram o apoio das administrações municipais, que providenciaram o suporte básico. As organizações, criadas para atingir esse objetivo, devem viabilizar a construção de políticas públicas de reciclagem e coleta seletiva do lixo, como alternativa para gerar renda, propiciando a inserção social dos grupos marginalizados. Em médio prazo, devem ser reinventadas novas formas de inserção social para os catadores, que, com a diminuição do consumo de produtos ou da produção de resíduos descartáveis, devem ser incentivados a buscarem novas e melhores alternativas de trabalho e renda, visto que trabalho, renda e qualidade de vida constituem direitos humanos individuais (VELLOSO, 2005).

Nesse foco, buscar repensar o processo de organização dos catadores de materiais recicláveis é imprescindível buscar uma melhor apreensão sobre o catador e seu processo associativo, ou melhor, seu comportamento diante dos restos; sua maneira de imaginar o mundo; sua sensibilidade quanto às atividades criativas; as mudanças relacionadas à sua participação em ações coletivas e a valorização da qualidade de vida, acima de tudo, são fundamentais para a inserção social desses trabalhadores em um novo contexto histórico-cultural (VELLOSO, 2005).

O catador de lixo necessita da percepção real de ser, de fato, um trabalhador incluído no mercado de trabalho, não meramente um local ocupado por ele, por não haver outra possibilidade de “inserção social”. O pertencer a um grupo organizado representa um meio de trocas e crescimento social e, como tal, necessita do reconhecimento da sociedade.

A reflexão sobre a sociedade global, em suas configurações e movimentos sociais, transborda os limites convencionais desta ou daquela ciência social. Ainda que haja ênfases e prioridades, quanto a este ou aquele aspecto da globalização, logo fica evidente que qualquer análise envolve necessariamente várias ciências. A economia da sociedade global envolve, também, aspectos políticos, históricos, geográficos, demográficos, culturais e outros. A cultura da globalização passa pela cultura de massa, indústria cultural, mídia impressa e eletrônica, religiões e línguas, além de outros aspectos que transbordam limites convencionais da antropologia e da sociologia (WALLERSTEIN, 2005).

Os movimentos antissistêmicos vêm intensificando-se cada vez mais nos tempos atuais. As contradições, conflitos e tensões, frutos da hegemonia do capital, permitiram uma ressignificação dos movimentos sociais, visando articular novas lutas numa perspectiva mundial, ou seja, a globalização do capital possibilitou a globalização dos movimentos antissistêmicos. No momento em que os movimentos antissistêmicos são vistos como principal referência para a incessante luta contra o capital, questiona-se o que vem a ser um movimento antissistêmico. Em tempos contemporâneos, a noção de movimento antissistêmico é defendida sob uma constante articulação com os conceitos de sistema-mundo e capitalismo sistêmico. Tal perspectiva teórica é tomada como ponto de partida para compreender as atuais configurações desses movimentos antissistêmicos (WALLERSTEIN, 2005).

Segundo Wallerstein:

Vivemos numa era de manifestações antissistêmicas. A consequência resultante dessa expansão das tensões e aprofundamento das contradições tem sido o crescimento dos movimentos antissistêmicos em escala mundial. “Movimentos de libertação nacional, insurgências proletárias, resistências e desafios civilizacionais, contraculturas, revigoramento de religiosidades” são alguns exemplos lembrados pelo autor (1988, p.587).

Dessa forma, é possível constatar que os movimentos antissistêmicos englobam, atualmente, uma série de manifestações anti-hegemônicas, numa luta incessante contra o capital e o modelo neoliberal, visando a busca de alternativas para a construção de uma nova estrutura social e uma redefinição na arena econômica e política.

Segundo Wallerstein (2005), desde a década de 1960 os movimentos antissistêmicos são, historicamente, divididos em dois tipos diferentes: os chamados movimentos sociais e os movimentos nacionais. O termo “movimentos sociais” refere-se às organizações sindicais e aos partidos socialistas, tendo como objetivo impulsionar a luta de classes contra a burguesia e contra os empresários. Os movimentos nacionais buscavam a criação de um Estado nacional, pelo agrupamento de unidades políticas pertencentes à nação e independência de Estados que eram considerados impérios opressores da nacionalidade. Nesse sentido, evidencia-se que a situação mundial desses movimentos na década de 1960 se caracterizou primeiro pelo aspecto das semelhanças entre os movimentos. Segundo, pelo fato desses movimentos chegarem ao poder e, terceiro, por não conseguirem transformar o mundo, levando a uma conclusão negativa desses movimentos.

No entanto, desde 1968, tem havido uma busca persistente por um novo e melhor modelo de movimento antissistêmico. Houve quatro tipos de tentativas de movimentos antissistêmicos, alguns ainda em curso: (1) surgimento dos múltiplos maoísmos, inspirados na Revolução Cultural Chinesa, movimentos que não existem mais; (2) o surgimento, da nova esquerda, os Verdes e outros movimentos ecológicos, os movimentos feministas, os movimentos de minorias raciais/étnicas, com destaque maior a partir de 1970; (3) emergência de movimentos de

(4) movimentos antiglobalização, com maior força a partir de 1990. Sendo assim, os movimentos antissistêmicos, na atualidade, se apresentam de uma forma muito diferente dos movimentos dos séculos XIX e XX. Estamos passando por um período de transição sistêmica que permeia a própria idéia de estratégia antissistêmica. Portanto, destaca-se a urgente necessidade de um debate sobre o período de transição sistêmica (WALLERSTEIN, 2005).

Fazendo um resgate histórico dos movimentos sociais, se reconhece o surgimento de um novo modelo de movimento. O movimento operário foi um paradigma fundador dos movimentos sociais historicamente estabelecidos até meados da década de 1960. No entanto, com a desestruturação do movimento operário, um outro modelo de movimento social entrou em cena ao longo das décadas de 1970 e 1980. Novos movimentos sociais trouxeram à tona novas contestações no seio da sociedade, e que encontravam ênfase na subjetividade dos atores pessoais e coletivos, assumindo uma perspectiva antissistêmica. Dessa forma, pode-se perceber, historicamente, uma ressignificação dos movimentos sociais A abordagem desses movimentos, numa perspectiva histórica, também requer que olhemos para os principais dilemas contemporâneos, tanto empíricos quanto teóricos(WALLERSTEIN, 2005).

Torna-se importante identificar, na entrada deste novo século, a problemática política das ações coletivas em dois eixos conflitantes: de um lado, a luta por reconhecimento das diferenças de grupos mobilizados sob as bandeiras da nacionalidade, etnicidade, raça, gênero, e sexualidade; de outro lado, a clássica luta por redistribuição econômica que visem combater a desigualdade material na renda, na posse de propriedades, no acesso ao trabalho e na luta por direitos universais. Em parte, significa descobrir como manter o reconhecimento cultural e a igualdade social de forma que ambos se sustentam e não enfraqueçam um ao outro. Por trás dos desejos de derrubada da hegemonia capitalista, seja através das lutas dos trabalhadores, seja numa perspectiva contemporânea das lutas dos atores sociais coletivos, ainda se constata uma carência de reflexões sobre como serão as outras formas alternativas e se a humanidade está ou não preparada para enfrentar os novos modelos que permitem realizar os “sonhos” de uma sociedade justa e igualitária. E desmistificar o grande legado de alienação do ser humano, do fetiche da mercadoria e dos processos de coisificação dos sujeitos.

4 A SAÚDE BIO-PSICO-SOCIAL DO CATADOR NO CONTEXTO DO TRABALHO