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2. O MUNDO MODERNO E OS DIREITOS HUMANOS

2.4 Os Direitos Humanos e o Direito ao Desenvolvimento

Apesar de ser o termo “desenvolvimento” um conceito antigo e em constante processo de construção e significação histórica43, este assumiu, a partir da segunda metade do século passado um novo significado no contexto internacional, passou a ser considerado um direito humano, integrante do rol dos direitos de solidariedade de quarta geração (BEDIN, 2003). Sobre esta evolução, Bobbio (1992) afirma que o desenvolvimento ganhou força no contexto jurídico dos direitos humanos, enquanto os direitos humanos ampliaram sua presença, por sua vez, no contexto global.

Com o término da Segunda Guerra Mundial e a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945, o termo desenvolvimento passou a integrar a agenda política internacional, bem como a pauta de trabalho das organizações internacionais. Tal fato reflete- se na própria Carta da ONU, assinada na cidade de São Francisco em 26 de junho de 1945, que, no capítulo IX, artigo 55, dedicado a cooperação econômica e social internacional afirma:

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Com fim de criar a condição de estabilidade e bem-estar, necessárias às relações pacíficas e amistosas entre as Nações, baseada no respeito ao principio de igualdade de direito e de autodeterminação dos povos, as Nações Unidas promoverão: a) a elevação dos níveis de vida, o pleno emprego e condições de progresso e desenvolvimento econômico; b) a solução dos problemas internacionais econômicos, sociais, de saúde e conexos, bem como a cooperação internacional, de caráter cultural e educacional; c) o respeito universal e efetivo dos direitos de homem e das liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião. (ONU, 2011).

Da mesma forma, a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1948, em seu artigo XXVII, como indicam Perrone-Moisés (1999) e Bedin (2003), também está na origem do processo de configuração do direito ao desenvolvimento. De fato, o dispositivo citado afirma que

Todo homem, como membro da sociedade, tem direito a segurança social e à realização pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento de sua personalidade.

Além destas contribuições legais, é importante lembrar que a história do direito ao desenvolvimento está intimamente vinculado, do ponto de vista fático, ao processo de descolonização dos países africanos, na metade do século passado. Isto é claro principalmente no final dos anos cinquenta e início da década de 1960, com a independência de grande parte destas antigas colônias, esta questão se tornou definitivamente um dos pilares da atuação da ONU, pois os grupos do então denominado “Terceiro Mundo” que constituíam nessa época e ainda hoje constituem a maioria na Assembléia Geral reivindicavam a independência de outros Estados ainda sob a dominação colonial, a ampliação da cooperação internacional justa e o desenvolvimento dos seus povos.

Ocorre que na década de 1960, ainda durante a Guerra Fria, além da bipolaridade EUA/URSS, constituiu-se também a polaridade Norte/Sul/ através da diplomacia dos países do chamado “Terceiro Mundo”, que reclamavam seu direito à autodeterminação, fundamento para a descolonização da vários países africanos. Isso trouxe à luz outros direitos de titularidade coletiva, os direitos de quarta geração e dentre eles o direito ao desenvolvimento (PIOVESAN, 2004).

Devido a esta forte pressão dos países de “Terceiro Mundo”, a XV Assembléia Geral da ONU adotou, em 14 de dezembro de 1960, a Resolução n. 1.514, que estabelecia a

76 “Declaração sobre a Concessão de Independência aos Países e Povos Colônias”. Nesta Declaração considerava-se que o: “colonialismo impede o desenvolvimento da cooperação econômica internacional, entrava o desenvolvimento social, cultural e econômico dos povos dependentes e vai de encontro ao ideal de Paz Universal” (CARDIA, 2005, p. 57).

Ainda na mesma linha, foi adotada a resolução n. 1.710 que formula um programa global coordenado a ser adotado em nível mundial para o desenvolvimento dos países do “Terceiro Mundo” nos anos sessenta. Nessa década nasceu, de acordo com Cardia (2005, p. 57) o direito do desenvolvimento como “um programa normativo de cooperação em diversas áreas das relações econômicas, com vistas a superar as profundas diferenças de desenvolvimento existentes entre os povos do mundo”.

Assim, os países do “Terceiro Mundo” na busca de uma cooperação econômica internacional humanista, se solidarizam entre si constituindo um grupo de pressão na arena internacional com vista a instauração de uma Nova Ordem Econômica Internacional (NOEI), ordem esta alicerçada na solidariedade entre povos desenvolvidos e em desenvolvimento através de uma cooperação internacional mais equitativa (CARDIA, 2005, p. 61). Nessa perspectiva foram organizados encontros importantes na matéria de desenvolvimento durante as décadas de 60 e 70.

Desta forma, não há dúvida que o direito ao desenvolvimento adquire maior consistência e status de princípio do direito internacional a partir da ação conjunta e das reivindicações dos países em desenvolvimento, no que Flavia Piovesan (2004) define como

um empenho do Terceiro Mundo em elaborar uma identidade cultural própria, propondo

direitos de identidade cultural coletiva, como o direito ao desenvolvimento. Em um primeiro

momento, como pressuposto para a independência e autodeterminação dos territórios recém- colonizados; e em momento posterior, como base para a construção de uma nova ordem econômica internacional traduzida em relações mais justas e harmoniosas entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento (2004).

Neste mesmo processo, o direito ao desenvolvimento acaba por assumir, em sua fase inicial, uma conotação puramente econômica, seguindo as tendências históricas de interpretação do desenvolvimento como sinônimo de crescimento econômico, aliando: o

77 direito à autodeterminação econômica, à soberania permanente sobre a riqueza e recursos naturais, o tratamento não recíproco e preferencial aos países em desenvolvimento, e, a noção de igualdade de participação aos países em desenvolvimento nas relações econômicas internacionais e nos benefícios da ciência e tecnologia.

Quanto à expressão “direito ao desenvolvimento” propriamente dita, conforme nos lembra Bedin (2003), a mesma foi utilizada pela primeira vez em 1971 na conferência inaugural do Instituto de Direitos Humanos de Strasbourg por Keba M’ Baye. A partir dessa data, “a Assembléia Geral, assim como a Comissão de Direitos Humanos, vêm enfatizando que o direito ao desenvolvimento constitui um direito humano e a igualdade de oportunidades para o desenvolvimento, uma prerrogativa das nações, assim como dos indivíduos”. (PERRONE MOISÉS, 1999 p. 194).

Neste sentido, a adoção de um novo olhar do direito internacional do desenvolvimento a partir da década de 1980 está associada à inserção do desenvolvimento no discurso dos direitos humanos elevando-o ao patamar dos direitos fundamentais. Sobre a construção do direito ao desenvolvimento e o momento da sua inclusão nos discursos dos direitos humanos, Claudia Perrone-Moisés nos ensina que:

Um enfoque jurídico da construção do direito ao desenvolvimento nos leva a indagar como se processou a passagem da questão do desenvolvimento para o campo jurídico dos direitos humanos. Enquanto a questão do desenvolvimento vai perdendo força nos anos 80, com esvaecimento das discussões interestatais, em torno dos conflitos Norte-Sul, o trabalho em torno de sua concretização se desenvolve no foro dos direitos humanos, onde a questão do desenvolvimento já havia sido inserida como herança da Nova Ordem Econômica Internacional. Somos conduzidos, assim, à hipótese de que a questão do desenvolvimento sofre as conseqüências das transformações do próprio direito internacional. (1999, p. 62).

A partir de então, o conceito de desenvolvimento evoluiu até a sua consagração como um direito humano na Resolução nº 41/128 da Assembléia Geral das Nações Unidas, em 4 de Dezembro de 1986, que adotou a denominada Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento44. De acordo com o artigo 1º da Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento de 1986:

O direito ao desenvolvimento é um direito inalienável do homem em virtude do qual todo ser humano e todos os povos têm o direito de participar e contribuir para o desenvolvimento econômico, social, cultural e político, no qual todos os direitos do

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homem e todas as liberdades fundamentais possam ser plenamente realizadas, e beneficiarem-se deste desenvolvimento.

O artigo 2º da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento consagra que: “A pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento e deve ser ativa participante e beneficiária do direito ao desenvolvimento”. Acrescenta o artigo 4º da Declaração que os Estados têm o dever de adotar medidas, individual ou coletivamente, voltadas à formulação de políticas de desenvolvimento internacional, com vistas a facilitar a plena realização de direitos, acrescentando que a efetiva cooperação internacional é essencial para prover aos países em desenvolvimento meios que incentivem o direito ao desenvolvimento.

Desta forma, quanto ao seu conteúdo, para Allan Rosas (1995, pp. 254-5), deve ser considerados três aspectos essenciais, sendo eles o fato de a Declaração de 1986 endossar a importância da participação, a necessidade de ser concebida no contexto das necessidades básicas de justiça social e, finalmente, desta enfatizar tanto a necessidade de adoção de programas e políticas nacionais, como da cooperação internacional.

A Declaração salienta assim a necessidade de se atribuir igual e urgente atenção à implementação dos direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais, dada sua indivisibilidade e interdependência, e enfatiza que a observância de determinados direitos humanos não justifica a denegação de outros. A Declaração explica ainda, que todos os aspectos do direito ao desenvolvimento são indivisíveis e interdependentes e cada um deles há de ser considerado no contexto dos direitos humanos como um todo.

Da mesma forma, com a adoção da Declaração rompeu-se com o antigo paradigma que via no desenvolvimento o elemento essencialmente econômico, passando o desenvolvimento a abranger outros aspectos ou dimensões (PERRONE MOISES, 1999). Logo, quando hoje se fala de desenvolvimento deve-se pensar não somente no econômico, mas em seus demais aspectos ou dimensões que são: o social, o civil, o cultural, o científico- tecnológico, o ambiental, o espiritual e o político, intrinsecamente conectados à paz, à equidade, à democracia e à cidadania.

Neste diapasão, o direito ao desenvolvimento trata-se de um direito da pessoa humana isoladamente e da coletividade, assim como dos Estados. Por isso, todos os seus aspectos ou

79 dimensões do direito ao desenvolvimento, “são indivisíveis e interdependentes, e cada um deles deve ser considerado no contexto do todo”.(artigo 9 da Declaração).

Conforme resulta de seu texto, a pessoa humana é o sujeito central do desenvolvimento e, portanto deve ser o beneficente direto do processo de desenvolvimento, sendo que em última instância compreende os Estados e o próprio mundo como um todo. Por isso, todo o processo, tanto em nível local, regional e nacional, como em nível internacional, deve conformar-se com os padrões internacionais dos direitos humanos. Dessa forma, os direitos humanos reconhecidos internacionalmente não devem ser preteridos ou fragmentados em nome de desenvolvimento e nem podem ser cerceados por falta de acesso do ser humano e dos Estados a condições equitativas em todos os níveis.

Embora institucionalizado de forma positiva por meio da Declaração, Bedin (2003) afirma que o direito ao desenvolvimento não teve seu processo de elaboração concluído neste momento. Ao contrário, para o autor, ele adquiriu contornos mais precisos e contemporâneos e um alcance muito mais amplo nos documentos posteriores da ONU.

Principalmente quanto ao seu alcance, o reconhecimento definitivo do direito ao desenvolvimento como um do direito humano inquestionável foi consagrado definitivamente na Conferência de Viena de 1993 sobre Direitos Humanos no capítulo I, ponto10, nos seguintes termos:

A Conferência Mundial sobre Direitos do Homem reafirma o direito ao desenvolvimento, conforme estabelecido na Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento, enquanto direito universal e inalienável e parte integrante dos Direitos do homem fundamentais.

Assim sendo, no período posterior à queda do Muro de Berlim e a partir da Conferência de Viena, o tema do desenvolvimento passa a ser, de modo definitivo, parte integrante do sistema de promoção e proteção dos direitos humanos da ONU, visto que a pessoa humana é sujeito central de desenvolvimento. Nos seus ensinamentos Cançado Trindade afirma igualmente que:

[...] a Declaração das Nações Unidas sobre o Direito ao Desenvolvimento de 1986, corretamente situa o ser humano como sujeito central do processo de desenvolvimento. Reclamando um maior fortalecimento na interrelação entre democracia, desenvolvimento e direitos humanos em todo o mundo, a Declaração de Viena, ao endossar com firmeza os termos daquela Declaração, contribui para dissipar dúvidas porventura persistentes e inserir o direito ao desenvolvimento

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definitivamente no universo do Direito Internacional dos Diretos Humanos. (CANÇADO TRINDADE, 1994, p. 172).

O documento final da Conferência de Viena enfatizou a inter-relação entre democracia, desenvolvimento e respeito aos direitos humanos, considerando-os interdependentes e promotores de reforço mútuo. A Declaração de Viena endossou as disposições-chave da Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento de 1986. Porém, advertiu também que a falta de desenvolvimento não pode ser invocada para justificar a redução dos direitos humanos internacionalmente reconhecidos, e que o “direito ao desenvolvimento deve ser realizado de modo a atender equitativamente as necessidades desenvolvimentistas e ambientais das gerações presentes e futuras”.

Como afirma Piovesan (2004, p. 26) “a Declaração de Viena de 1993 estende, renova e amplia o consenso sobre a universalidade e a indivisibilidade dos direitos humanos, e afirma a interdependência entre os valores dos direitos humanos, da democracia e do

desenvolvimento”. Esta mesma Declaração, ao mesmo tempo em que reconhece o direito ao

desenvolvimento como um direito humano universal e inalienável, também pede que a comunidade internacional considere prioridade eliminar a pobreza extrema e a exclusão social uma vez que são,

[...] uma violação da dignidade humana e uma denegação dos direitos econômicos, sociais e culturais. Refere-se significativamente aos direitos de todos a um padrão de vida adequado para a saúde e bem-estar (inclusive alimentação, cuidados médicos, moradia e serviços sociais necessários). (CANÇADO TRINDADE, 1996, p. 87).

Na esteira da cristalização do direito ao desenvolvimento como um direito humano, outras conferências adquiriram relevância: a Conferência do Rio de Janeiro de 1992; a Conferência do Cairo de 1994; a Conferência de Copenhague e de Beijing de 1995; e a Conferência de Istambul de 1996.

A multiplicidade desses instrumentos, adotados ao longo dos anos como resposta às necessidades de proteção, seja na base convencional ou extra convencional, afigurou-se antes como um reflexo à forma como se desenvolveu o processo histórico de generalização da proteção internacional dos direitos da pessoa humana, no cenário de uma sociedade internacional descentralizada em que deviam operar. Neste sentido, Ignacy Sachs (...) sabiamente assevera que

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Tanto quanto os direitos humanos, a noção de desenvolvimento ocupa posição central nas preocupações das Nações Unidas. No decorrer deste meio século, ela se enriqueceu consideravelmente. A idéia simplista de que o crescimento econômico bastaria por si só para garantir o desenvolvimento foi rapidamente abandonada e o conceito ganhou complexidade, com sucessivos acréscimos de epítetos: desenvolvimento econômico, social, cultural, certamente, político, em seguida

sustentável (sustainabl), por fim, como última adição, humano para significar que

o desenvolvimento tinha por objetivo a plena realização dos homens e das mulheres em vez da multiplicação dos bens. (SACHS....)

Neste sentido, cabe constatarmos que a inter-relação entre os direitos humanos e o direito ao desenvolvimento, sem dúvida, tem evoluído muito nos últimos anos, passando a ocupar espaço cada vez maior no âmbito normativo internacional dos direitos humanos. Martin (2006, p. 91) chega a afirmar que a integração dos direitos humanos “aumentará a eficácia dos projetos de desenvolvimento”.

A tríade democracia, desenvolvimento e direitos humanos demonstrou muita força no processo preparatório e na realização da II Conferência Mundial dos Direitos Humanos, em que foi consagrado o principal documento a ser adotado, a Declaração de Viena de 1993. No entanto, também é imperioso lembrar que apesar do reconhecimento da relação entre desenvolvimento e direitos humanos, o conteúdo do direito ao desenvolvimento continua a ser um dos direitos mais controversos, frequentemente alterado, e foco de disputa ao longo das divergências Norte-Sul, ainda permanentes no mundo.

Segundo Fernando Antônio Amaral Cárdia,

[...] o direito ao desenvolvimento implica a existência de um dever de cooperar para a concretização de um desenvolvimento humano, levando-se em conta o exercício efetivo das liberdades fundamentais, direitos civis e políticos, direitos sociais, econômicos e culturais. Sem preferências, sem exclusão, com base na complementaridade e indivisibilidade dos direitos humanos. (CARDIA, 2005, p. 64).

Neste sentido, Martin (2006) afirma que algumas das dimensões mais debatidas na relação Norte-Sul são as questões éticas45. Tais questões se refletem nos constantes questionamentos sobre a existência ou não de responsabilidade legal ou moral de ajudar os

45 A ética assume um importante papel nos processos de desenvolvimento também para Amartya Sen. Para ele,

as questões econômicas não são apenas questões de praticidade e eficiência, mas também de moralidade e justiça, e as questões éticas não são apenas de valor e intenções generosas, mas também de lógica fria e exeqüibilidade. Se a economia desligada da ética é cega, a ética desligada da economia é vazia, de modo que o surpreendente não é que a teoria econômica e a reflexão ética voltem a caminhar juntas, mas que tenham permanecido divorciadas e incomunicáveis entre si por tanto tempo. (SEN, 1999).

82 países pobres. Este debate não é recente, tendo surgido durante as negociações que culminaram na aprovação da Declaração do Direito ao Desenvolvimento e, recentemente, voltaram à tona quando economistas da área de desenvolvimento propuseram um acordo impondo obrigações tanto às nações doadoras quanto às beneficiárias (SENGUPTA)46. Na prática, sentencia Martin, as nações mais ricas resistem e continuarão a resistir a toda e qualquer obrigação de contribuir neste processo.

Por fim, na sequencia, cabe mencionar que em 2000 foi lançada a Declaração do Milênio das Nações Unidas de 2000, que conduziu à elaboração e adoção dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio - ODMs (NAÇÕES UNIDAS, 2000), adotados pelos 191 estados membros no dia 8 de setembro de 2000 após uma década de conferências e acordos da ONU.

Esta declaração representa um esforço de sintetizar acordos internacionais alcançados em várias cúpulas mundiais ao longo dos anos 90 (sobre meio-ambiente e desenvolvimento, direitos das mulheres, desenvolvimento social, racismo, etc.). Traz uma série de compromissos concretos para reduzir pobreza extrema, estabelecendo metas com prazo limite para 2015, e representa uma parceria global. Concretas e mensuráveis, as 8 Metas47 – com seus 18 objetivos e 48 indicadores – podem ser acompanhadas por todos em cada país. Os avanços podem ser comparados e avaliados em escalas nacional, regional e global e deverão melhorar o destino da humanidade neste século.

As Metas do Milênio servem de exemplo e alavanca para a elaboração de formas complementares, mais amplas e até sistêmicas, para a busca de soluções adaptadas às condições e potencialidades de cada sociedade. Estão sendo discutidas, elaboradas e expandidas globalmente e dentro de muitos países. Entidades governamentais, empresariais e da sociedade civil estão procurando inserir a busca por essas Metas em suas próprias estratégias e nas agendas internacionais, nacionais e locais de Direitos Humanos. São assim

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Trata-se do Pacto de Desenvolvimento proposto pelo Grupo de Trabalho instituído pela ONU e comandado pelo Especialista Independente para o Direito ao Desenvolvimento, professor Arjun Sengupta, incumbido de encontrar uma forma de operacionalizar o direito ao desenvolvimento. Para uma análise mais aprofundada sobre esta temática, interessante a leitura do artigo Implementação do Direito ao Desenvolvimento, escrito por E. S. Nwauche e J. C. Nwobike, disponível em: http://www.surjournal.org/index2.php.

47 As Metas são as seguintes: Erradicar a extrema pobreza e a fome; atingir o ensino básico universal; promover

a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde materna; combater o HIV/AIDS, a malária e outras doenças; garantir a sustentabilidade ambiental; estabelecer uma Parceria Mundial para o Desenvolvimento.

83 um grande esforço de integração entre direitos humanos e desenvolvimento, e de efetivação do direito humano ao desenvolvimento.

De acordo com Kofi Annan, Ex-secretário Geral da ONU, a particularidade dos ODMs está em torno de quatro pontos. Em primeiro lugar, por serem centrados nas pessoas. Em seguida, por serem baseadas em uma parceria global, enfatizando as responsabilidades dos países em desenvolvimento em colocar sua nação em ordem, e dos países desenvolvidos, em dar suporte aos primeiros. O terceiro ponto diz respeito a um suporte político jamais visto, levado aos níveis mais altos tanto pelos países desenvolvidos quanto pelos em desenvolvimento, além da sociedade civil. Por fim, o quarto ponto, afirma que os ODMs são alcançáveis48 (UNITED NATIONS, 2005).

Com relação à estes esforços com relação à promoção dos direitos humanos, bem como ao papel desempenhado pela ONU (bem como todos os seus agentes internacionais), Perry Anderson apresenta uma interessante conclusão. Afirma o autor que o principal êxito da ONU foi algo não previsto por seus fundadores: “el impulso que dio su Asamblea General em diciembre de 1960 a la descolonización, el mayor progreso de la emancipación política en la