CAPÍTULO 2 ASPECTOS TEÓRICOS PARA A EXECUÇÃO DA TRADUÇÃO
2.5 Os Discursos de Acompanhamento
2.5.1 Os Discursos de Acompanhamento em linhas gerais
Uma obra literária raramente compõe-se unicamente do texto enunciado. É comum que esse texto seja acompanhado de produções que o circundam como prefácios, posfácios, ilustrações, notas, glossários, títulos, capa, dentre outras produções verbais ou não-verbais que objetivam, inicialmente, apresentar esse texto, mas que também podem ter outras funções mais específicas como explicar ou esclarecer temas pertinentes à obra. Além disso, essas produções podem reafirmar a presença daquele texto e facilitar sua recepção para um determinado público.
Para uma teorização dos discursos de acompanhamento que serão produzidos para acompanhar as traduções realizadas nesta pesquisa, utilizo as ideias propostas por Gérard Genette em Paratextos Editoriais (2009) e por Marie-Hélène Torres em Traduzir o Brasil Literário: Paratexto e discurso de acompanhamento – Volume 1 (2011).
Em traduções, os textos de acompanhamento podem legitirar o texto que acompanham. É também nesse espaço que a voz do tradutor pode se fazer mais clara e direta, em uma nota do tradutor, por exemplo, podendo conter comentários e observações que diminuam a estranheza de alguns traços da obra traduzida, especialmente para o leitor não especializado. Da mesma forma, o leitor crítico também busca nesses textos fonte para um maior conhecimento e estudo da obra.
A tradução não é apenas uma transferência linguística, ela inclui também aspectos culturais, sociais e históricos do outro, do texto-fonte. Para uma visibilidade completa no sistema literário de chegada, é importante que o leitor disponha de recursos adjacentes que permitam esse conhecimento além do texto principal dos fatores que cercam a essência da obra.
Marie-Hélène Torres (2011) entende discurso de acompanhamento como marca paratextual na qual a ideologia transparece. Se a tradução é percebida na cultura de chegada, existem alguns indicativos de que aquela é uma tradução assumida, assumed translations, segundo Toury (1995). Nas definições de Marie- Hélène Catherine Torres (2011, p.17), temos:
Entendemos por índices morfológicos todas as indicações que figuram nas capas externas – frente e verso – e nas capas internas dos livros (página de rosto, páginas do falso título, etc.) e que trazem detalhes
sobre o estatuto das traduções, ou seja, a maneira pela qual elas são percebidas conforme os elementos informativos que apresentam. E por “discurso de acompanhamento” entendemos que seja qualquer marca paratextual (prefácio, pareceres, etc.), o lugar onde frequentemente a ideologia aparece de forma mais clara.
Para Gérard Genette (2009, p.10-11), o paratexto é formado por duas modalidades paratextuais: peritexto e epitexto. O peritexto refere-se à uma categoria espacial marcada pela continuidade ou unidade da obra. Os elementos peritextuais circundam o texto dentro do próprio espaço da obra, estando em continuidade direta, como o nome do autor, os títulos e intertítulos e toda materialidade daí advinda, como as indicações de coleção, capa, ilustração etc. Bem como os discursos de acompanhamento como prefácios e posfácios. O epitexto, por sua vez, também está situado no entorno do texto, porém a uma distância marcada por uma descontinuidade em relação à obra. Os elementos epitextuais são divididos em públicos, os que tomam forma nos suportes midiáticos, como as entrevistas do autor, debates, resenhas etc., e os privados, como correspondências e diários que, com o tempo, podem passar a integrar a obra. Para o autor, os paratextos são acompanhamentos, propriamente ditos e servirão para apresentar o texto, sejam estes recursos verbais ou não.
Dessa forma, uma pesquisa que considere o sistema não apenas literário, mas também cultural no qual aquela obra está inserida (cultura-fonte) e no qual será inserida (cultura-alvo), o que remete, obviamente, à escolha da análise por meio do sistema de José Lambert e Hendrik van Gorp (1985, p. 208 – 223) conta com o auxílio inclusive de epitextos para a apresentação e propagação de obras. No capítulo 1 desta pesquisa, foram citadas entrevistas sobre a autora e opiniões sobre suas obras. Toda matéria, o que inclui publicações em revistas, entrevistas, resenhas de suas obras etc. que apresenta a obra de Silvina constitui um grupo de epitextos que são paratextos externos à obra, mas que se relacionam com o texto principal de alguma forma e contribuem para sua apresentação e propagação. Afinal, foram publicadas críticas de outros escritores, entrevistas foram concedidas para revistas, dentre outros elementos externos à obra, mas que levam até ela. Assim, os epitextos também compõem o processo de construção desta pesquisa.
Ainda segundo Genette (2009, p.11), os discursos de acompanhamento não possuem uma forma fixa ou uma necessidade obrigatória. Os gêneros textuais, as épocas, a cultura na qual aquela edição será lançada, características dos autores ou
até mesmo dos tradutores dirão sobre a necessidade e as escolhas do tipo de paratexto mais adequado para determinada obra. Os discursos de acompanhamento não são de produção obrigatória, muito menos de leitura obrigatória. E alguns desses discursos, como notas ou glossários, são direcionados a um tipo específico de leitor. Sob o entendimento de que a leitura dos discursos de acompanhamento não é obrigatória, mas que sua presença ilustra e enriquece o conhecimento do texto não apenas para leitores que estão sendo apresentados àquele sistema literário, autor ou gênero, mas também aos leitores que se interessam por informações adicionais, proponho alguns discursos de acompanhamento às minhas traduções dos contos selecionados de Silvina Ocampo. A apresentação da autora ao leitor brasileiro gera uma necessidade de textos que acompanhem suas obras e ofereçam ao leitor a possiblidade de escolher ou não ir além das palavras explicitadas pelo próprio autor e traduzidas pelo tradutor para a língua portuguesa. Alguns elementos paratextuais dirigem-se ao público em geral, como por exemplo uma entrevista. Já um prefácio de um livro é direcionado para o leitor daquele texto.