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3. Os discursos oficiais: legitimação da obra e consagração do autor

3.3. Os discursos do Conselho de Sua Majestade

Os três discursos oficiais que encerram a parte introdutória, com exceção do discurso do rei Carlos II, da taxa e das erratas,57 são firmados por membros do Conselho de Sua Majestade, sendo que dois dos integrantes pertencem à Ordem de Santiago. O primeiro discurso é a aprovação do licenciado Dom Luis de Cerdeño y Monzòn – “Cavallero del Orden de Santiago, del Consejo de su Magestad en el Supremo de Castilla, y de las Indias”; o segundo é a certificação de Diego de Urbina Samaniego – “Criado de su Magestad, su Escrivano, y Oficial mayor en la Escrivania de Camara de su Real, y Supremo Consejo de las Indias”; e o terceiro é a aprovação de Dom Nicolas Antonio – “Cavallero del Orden de Santiago, del Consejo de su Magestad, y Fiscal en el de la Santa Cruzada”.

Os dois primeiros discursos complementam-se, como acontece com a aprovação eclesiástica e a licença, pois Diego de Urbina Samaniego certifica que, após ter visto a aprovação de Dom Luis de Cerdeño y Monzòn e o auto provido para que se imprima o livro de Dom Antonio Solís, assina “la presente en virtud de lo mandado por los dichos ‘Señores’”. Na ordem cronológica dos discursos, a certificação é uma das últimas instâncias de aprovação da obra. Dessa maneira, quando Urbina afirma sobre o “mandado por los dichos ‘Señores’” refere-se a todas as aprovações anteriores, ou seja, as do Conselho, as eclesiásticas e a Censura. No entanto, o único a quem nomeia é Dom Luis de Cerdeño. Provavelmente seja em virtude dessa menção que sua certificação tenha sido inserida e impressa ao lado da aprovação de Cerdeño, que se destaca das demais por sua extrema brevidade e clareza. Em apenas uma página, e em poucas linhas, Dom Luis de Cerdeño trata da obrigação de Solís como cronista, da narração, do estilo, do árduo trabalho que teve em compor a Historia e do objetivo maior da conquista da Nova Espanha que é converter os indígenas à santa fé católica. Assim, aborda os pontos cruciais que tornam a impressão da obra imprescindível, além de elogiá-la, bem como seu autor, sem ostentar erudição.

Em nome do Conselho de Sua Majestade, Dom Luis de Cerdeño y Monzòn confirma que a Historia de Dom Antonio de Solís satisfaz inteiramente a obrigação de seu encargo, assim, une sua voz à do próprio autor, que afirma, na dedicatória ao rei, que paga com sua obra a dívida de sua profissão, ou seja, de seu cargo de cronista.

57 Esses três discursos, que são obrigatórios para a impressão de uma obra, são inseridos no final da edição princeps e

Sobre a narração, atesta que Solís observou as notícias com cuidadosa diligencia para a pontual e sincera verdade. Lembramos, uma vez mais, que essa verdade não se reporta ao conceito iluminista e positivista do gênero histórico a partir do XIX. Para o século XVII, como já observado, o conceito ciceroniano de história como testemunha dos tempos, luz da verdade, vida da memória, mestra da vida e mensageira da antiguidade ainda vigora. Portanto, a História é uma representação do real e não o próprio real, pois não há a preocupação em verificar a narração da verdade de forma empírica e científica, pois ela pertence apenas ao discurso, e, se sua representação for bem executada, garante imortalidade à obra, ao herói, à nação e também ao cronista.

Em razão dessas considerações, não é fortuito que Dom Luis afirme que a verdade da narração da Historia de Solís logra “dexar cõvencidos los errores, que el descuydo, ò la malicia de algunos Escritores ha querido introducir en los documentos Politicos de la enseñanza, que se pudiera esperar de lo acertado de su Juizio, y Erudicion [de Solís]”. A narração pontual e sincera da verdade na Historia permite evidenciar os erros de outros historiadores que não observaram de forma adequada os preceitos retóricos do gênero nem mesmo seu decoro. Dom Luis repete o juízo sobre os descuidos e a malícia de escritores indecorosos que insistem em manchar a memória das grandes conquistas do império espanhol. A repetição constante desse juízo nos discursos oficiais persuade o leitor de que a narração de outros escritores não é verossímil porque eles não observaram nem empregaram os preceitos convenientes como a brevidade, a clareza e a verossimilhança (ANÔNIMO, 2005, p. 67). A esses preceitos soma-se a qualidade de ser agradável, pois, segundo frei Luis de Granada (1793, p. 210), a narração deve ser breve e agradável porque assim se ouve, ou se lê, com mais deleite, clara porque mais facilmente se entende e verossímil porque mais prontamente se prova.

Ao final de seu breve discurso, Dom Luis de Cerdeño ajuíza que o estilo da Historia é tão puro e casto que não apenas deleita, mas empenha a mais ociosa curiosidade à sua leitura. Assim, decreta que a impressão da obra é útil para que todos possam participar do benefício do trabalho de tanto estudo, e também para que se eternize na memória dos séculos futuros o zelo com que os espanhóis, em razão da propagação da fé e dilatação dos domínios da Majestade Católica, menosprezando o risco de suas vidas, conseguiram a redução de tanta gentilidade. Dessa forma, as gerações futuras devem seguir os gloriosos progressos dessa conquista como exemplo,

devendo imitar suas ações, buscado sua emulação. Como já observado, nessa preocupação constante com a memória que se constrói para o futuro, o conceito ciceroniano de história é, uma vez mais, evidente, pois entendê-la como ‘mestra da vida’ é considerá-la como guia indispensável para agir sabiamente sobre o presente, ajuizando o passado, para, na medida do possível, construir o futuro.

Após o texto de Dom Luis, temos o último discurso oficial de fôlego, que é tão extenso quanto a censura e a aprovação eclesiástica, firmado por Dom Nicolas Antonio, que examina a Historia de Solís com o fim de dar a licença que se pede para imprimi-la por ordem de Vossa Alteza, que quer, ou melhor, exige, ser informado da utilidade da obra. Ainda que seja o último discurso a ser inserido na edição do livro, pela ordem cronológica, essa aprovação foi a terceira instância pela qual passou o manuscrito, tendo sido emitida após a aprovação eclesiástica e a licença do inquisidor. Essa observação é útil para nossa leitura porque Dom Nicolas repete argumentos utilizados por padre Diego Jacinto. Ainda que todos os discursos repitam lugares-comuns, esses dois discursos são os que mais se aproximam no que se refere aos argumentos elogiosos que indicam a utilidade em dar à estampa a Historia de Solís. Dom Nicolas Antonio afirma que ter a vida e os feitos narrados em uma obra de História é uma consagração para os ‘varones heroycos’ que honram suas nações e engrandecem os seus príncipes com suas conquistas. Esses homens de espírito elevado e ilustres virtudes, enamorados pela fama e honra, conseguem o mérito de terem seus feitos gravados na ‘memória laureada’ da posteridade, servindo de exemplo e imitação a outros. Nessa reflexão, Dom Nicolas repete a comparação entre a História e as estátuas romanas, bem como da grandeza do historiador frente às ações do herói:

[...] Bien conocieron este humor de la virtud Politica los antiguos,

Gentiles, Griegos, y Romanos: y por esso dedicaron al merito de sus

Ciudadanos, bienhechores de sus Patrias, este mas apetecido premio del honor en Estatuas, y Medallas, que fue gravarlo en piedras, y bronces, encomendado à aquella eternidad, que pudieron prometerse de las fabricas humanas, cuyo defecto, prorrogando à mas dilatados terminos, tambien suplieron, reduciendo la celebridad destas memorias al deposito de la Historia, y juzgandolas mas bien guardadas en la fragilidad del papel, como sucessivamente fecundó en la perpetua facilidad de los traslados, que en la dureza de marmoles, y metales, que mueren, aunque tarde, sin sucession. Y tanto mejor

consiguieron esta vida de fama los Heroes dignos de ella, quanto

mas se proporcionaron à la grandeza de los hechos la alteza del

estilo, y el ingenio, y prudencia del Historiador: demanera, que los Elogios, las Vidas, los Panegyricos, que en la Prosopopeya, y las

Historias, que en la relacion ponen à los ojos de la Posteridad los Varones eminentes en qualquier genero de virtud, y con mas atractiva singularidad en la militar, son otras tantas estatuas levantadas à su

memoria, con mas bien establecida duracion, presentes à todos, y en

toda parte acabadissima, y con entera perfeccion igual, y parecida al

Heroe, que representa, y a los señalados Capitanes en valor, y

fidelidad, que le acompañaron, y le fueron otros tantos brazos en una Conquista, en que pudieron desfallecer los ciento del fabuloso Briareo, es la que agora comparece de nuevo en la plaza del Mundo, con el titulo de los hechos de Fernando Cortés, y de sus Compañeros en lo principal de aquella Conquista, hasta fundar el Imperio Español. (SOLÍS, 1684, s/pág.)

Os destaques evidenciam a repetição da comparação entre as estátuas da antiguidade e a escrita da História, cuja função é gravar na memória futura das nações os grandes feitos heroicos. Uma vez mais, o império espanhol é visto como herdeiro das memoráveis conquistas como também da alta cultura tanto grega quanto romana, como se, imitando-as, tivesse, de fato, alcançado sua emulação. Comparando as estátuas às prosopografias e prosopopeias da Historia, Dom Nicolas ainda afirma que a animada58 descrição que Solís realiza de Cortés, de seus feitos e empresas, é igual em tudo às estátuas que os gregos, pelo testemunho de Plínio, chamaram ‘Icónicas’, porque retratavam os sujeitos não apenas pela semelhança, mas também pela igualdade exterior tanto na estatura quanto na corpulência dos membros, ou seja, eram como ‘vaciadas’ pelo mesmo original. Dom Nicolas sentencia sobre a descrição de Cortés: “[...] parece que la ha vaciado su Autor en aquellos bastos pensamientos, que las idearon, y en aquel invencible, y capacissimo corazon con que se reduxeron à la obra”. Dessa maneira, aproxima os elogios, as vidas e os panegíricos às estátuas levantadas para a memória dos varões eminentes em qualquer gênero de virtude, porque, como estas, alcançam a perfeição. No fragmento, também temos a repetição do lugar-comum de embate entre duas grandezas e duas figuras: a escrita do historiador e as ações do herói.

58 Dotada de alma.

Dom Nicolas afirma que os heróis conseguem uma vida de fama, e glória, se a grandeza de seus feitos forem proporcionados por um estilo alto, bem como pelo engenho e pela prudência do historiador. Ao final, ressalta que Cortés teve ao seu lado singulares capitães em valor e fidelidade, que foram outros tantos braços na conquista, comparando-os ao fabuloso Briareu.59 Assim, amplifica a narração das ações de Cortés e seu exército, bem como sua força, ao equipará-los a uma figura mitológica, cujo sentido se desdobra ao sobrenatural.

A propósito, o conceito de História exposto também evidencia um olhar providencialista, pois consente a sincronia entre o natural e o sobrenatural. Dom Nicolas afirma que os assuntos que se referem à religião e à piedade são tratados com entendimento verdadeiramente cristão, dando lugar ao natural possível e ao sobrenatural superior às forças e aos conselhos humanos, pois a assistência dos céus favoreceu todos os passos da conquista da Nova Espanha. Sobre a utilidade, assim como afirmaram outros discretos e doutos, Dom Nicolas atesta que a Historia de Solís ensina e não apenas deleita. Sua narração é como uma medula da mais depurada política civil e militar e de boa doutrina moral, pois não perdoa nem mesmo o herói, repreendendo-o de forma cristã e modesta quando pede a luz da verdade.60 O estilo é próprio da História, ou seja, puro, elegante e claro; e o gênio que o governa engenhoso, discreto, robusto e prudente. A narração é adornada com sentenças não afetadas, nem sobrepostas, mas sim tiradas ou nascidas dos mesmos sucessos que narra, e com reflexões adequadas ao grande talento e discrição do cronista, pois são realçadas com sentenças de Tácito, Floro e Veleio Patérculo, ou seja, autoridades da historiografia romana.

Para concluir sua aprovação, Dom Nicolas repete o juízo de que os feitos de Hernán Cortés não são inferiores aos de Alexandre, César e Belisario, bem como de tantos reis da Espanha que fabricaram e levaram ao ápice sua monarquia. Imitando padre Diego, afirma que somente a Historia de Solís pode satisfazer o espírito do grande herói que foi Cortés:

59 Figura mitológica, filho de Urano e da Terra, com cem braços e cinquenta cabeças. De suas bocas vomitava fogo

na guerra contra os deuses. Apud ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia. Desenhos Sandro Botticelli. Tradução e notas de João Trentino Ziller. Apresentação de João Adolfo Hansen. Notas à Comédia de Botticelli de Henrique P. Xavier. São Paulo: Ateliê Editorial / Editora Unicamp, 2012. Nota 11 do capítulo XXXI do Inferno, p. 223.

60 Como exemplo, temos a repreensão de Solís ao envolvimento de Cortés com Dona Maria, a Malinche, ajuizando

que ele não teve atitudes cristãs nem observou os mandamentos, pois cometeu adultério. No entanto, o cronista justifica a atitude afirmando que Cortés se envolveu com Malinche porque era importante para vencer as batalhas e a guerra contra os astecas. Essa justificativa imita a de Moisés, quando este, capitão do exército egípcio na guerra contra a Etiópia, casa-se com uma princesa etíope como forma de vencer a guerra. Ou seja, a atitude de Moisés na narrativa bíblica prefigura a de Cortés. Quando analisarmos os retratos de Cortés, retornaremos com mais vagar à esta comparação com Moisés e à menção, ou silêncio, ao seu adultério.

[...] Solo desta Historia se podria dar por satisfecho el espiritu de aquel grande Heroe, si la gloria mayor que goza, como debemos creer piadosamente, no obscureciesse esta mundana, aunque tan esclarecida. Servirà a lo menos à nuestro consuelo, à nuestra enseñanza, à nuestro mas honesto divertimiento, y darà renovado à las Naciones

Estrangeras, con ventajosissimos aumentos, este Templo del Honor de España, en que se sacrificó, aquel gran Varon con sus Soldados à

la mas alta Empresa, y al mas util servicio de sus Reyes; quedando excluidos dèl, y de la Fè, que indebidamente hallaron en los faciles oydos de la emulacion, los calumniadores della. Este es mi sentir agora, y lo serà despues el que aprobaren los mas doctos. (SOLÍS, 1684, s/pág.)

Com afetada modéstia, Dom Nicolas conclui seu discurso amplificando a conquista empreendida por Cortés como a mais alta e de maior glória, pois, ao lado de seus capitães e soldados, o conquistador sacrificou-se, ou seja, dedicou-se totalmente, para concretizá-la, tornando-a digna de imitação. Como um dos objetivos da aprovação é informar ao rei sobre a utilidade da obra, Dom Nicolas afirma que esta servirá ‘à nuestro consuelo’, ‘à nuestra enseñanza’, ‘à nuestro mas honesto divertimiento’, como também para calar os caluniadores da Espanha.

A menção às vozes estrangeiras, sempre ‘malignas’, que insistem em caluniar as memoráveis ações espanholas nas Índias Ocidentais repete-se em, praticamente, todos os discursos oficiais, inclusive no proêmio da Historia, que é inserido pelo cronista no início do primeiro capítulo. Dessa forma, a principal utilidade da impressão da obra é calar essas vozes, pois tanto o estilo quanto o engenho da obra tornam as ações da conquista dignas de serem lembradas pela posteridade, alçando Cortés, Solís e a Espanha ao posto máximo que lhes é merecido, pois essas três grandezas emularam os conquistadores, os historiadores e os impérios da antiguidade greco-latina.