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No Dicionário de Análise do discurso, Charaudeau e Maingueneau (2008) informam que o termo “discurso” começou a ser proliferado desde os anos 1980 nas ciências da linguagem, tanto no singular (“o domínio do discurso”) quanto no plural (“os discursos inscrevem-se em contextos...”), independentemente se a referência correspondia à atividade verbal de um modo geral ou a um evento de fala em particular. Segundo os autores, a propagação desse termo resultou de uma transformação no modo de conceber a linguagem. De fato, quando nos referimos ao discurso, temos por base uma determinada concepção de linguagem por nós assumida. Para Charaudeau e Maingueneau (2008), essa transformação resulta da influência de diversas correntes pragmáticas, que sublinharam um grande número de ideias-força, conforme explicitadas no Quadro 1, a seguir.

Quadro 1 – Características do termo discurso em função das correntes pragmáticas e ideias-força representadas

O termo discurso Características

O discurso supõe uma organização transfrástica

O discurso mobiliza estruturas de uma outra ordem, diferentes das da frase.

O discurso é orientado

Ele é orientado não somente porque é concebido em função do propósito do locutor, mas também porque ele se desenvolve no tempo.

O discurso é uma forma de ação

Baseado na ideia de que toda enunciação constitui um ato (prometer, sugerir, afirmar, interrogar...), visando a modificar uma situação.

O discurso é interativo

Toda enunciação, mesmo produzida sem a presença de um destinatário, é de fato assumida em uma interatividade constitutiva. Ela é uma troca, explícita ou implícita, com outros locutores, virtuais ou reais, e supõe sempre a presença de uma outra instância de enunciação à qual o locutor se dirige e em relação à qual ele constrói seu próprio discurso.

O discurso é contextualizado

Não existe discurso que não seja contextualizado: não se pode, de fato, atribuir um sentido a um enunciado fora de contexto. Além disso, o discurso contribui para definir seu contexto e pode modificá-lo durante a enunciação.

O discurso é assumido

O discurso não é discurso a não ser que esteja relacionado a uma instância que, ao mesmo tempo, se põe como fonte dos pontos de referência pessoais, temporais, espaciais, e indica qual atitude adota em relação àquilo que diz e a seu interlocutor.

O discurso é regido por normas

Como todo comportamento social, ele é submetido a normas muito gerais; por outro lado, ele também é regido por normas específicas. Cada ato de linguagem implica, ele mesmo, normas particulares.

O discurso é assumido em um interdiscurso

O discurso não adquire sentido a não ser no interior de um universo de outros discursos, através do qual ele deve abrir um caminho. Para interpretar um enunciado, é preciso colocá-lo em relação com todos os tipos de outros, que se comentam, parodiam, citam... O próprio fato de situar um discurso em um gênero (a conferência, o jornal televisado...) implica que ele é colocado em relação ao conjunto ilimitado de outros. Fonte: Charaudeau e Maingueneau (2008, p. 170-172).

Ao considerarem o discurso dessa maneira, esses autores observam que este não se encontra delimitado por um domínio que possa ser estudado por uma disciplina coerente. É, antes de tudo, uma maneira de apreender a linguagem.

Para Brandão (2008, p. 29), o discurso é visto como “o espaço em que saber e poder se unem, se articulam, pois quem fala, fala de algum lugar, a partir de um direito que lhe é reconhecido socialmente”. Nesse sentido, o discurso é como um jogo estratégico que provoca ação e reação, ou seja, é como uma arena de lutas (verbais, que se dão pela palavra) em que ocorre um jogo de dominação ou aliança, de submissão ou resistência; o discurso é o lugar onde se travam as polêmicas.

Ao apresentar a “língua discursiva” de Ferdinand Saussure, Adam (2011, p. 30) informa que o autor fez uma separação entre os signos, as palavras e a frase, ou seja, para esse linguista, “a frase só existe na fala, na língua discursiva, enquanto a palavra é uma unidade que vive fora do discurso, no tesouro mental”. Assim, ao tratar da língua discursiva de Saussure, Adam (2011) apresenta em “Nota sobre o discurso” que

[...] o discurso consiste, ainda que de forma rudimentar, e por vias que ignoramos, em afirmar um elo entre dois conceitos que se apresentam revestidos de forma linguística, ao passo que a língua apresenta previamente apenas conceitos isolados que esperam ser postos em relação entre eles para que exista significação de pensamento (ADAM, 2011, p. 30).

Quanto à noção de formação discursiva, Adam (2011) apresenta a concepção que foi redefinida por Michel Pêcheux14 e que se tornou um conceito importante da escola francesa de análise do discurso.

[As] formações discursivas [...] determinam o que pode e deve ser dito [articulado sob a forma de um discurso público, de um sermão, de um panfleto, de uma exposição, de um programa etc.] a partir de uma dada posição, em uma determinada conjuntura: o ponto essencial aqui é que não se trata somente da natureza das palavras, mas também (e sobretudo) das construções nas quais essas palavras se combinam, na medida em que elas determinam a significação que assumem essas palavras [...] (ADAM, 2011, p. 44).

Adam (2011, p. 44-45) afirma que “o estabelecimento de uma ligação entre os gêneros e as formações sociodiscursivas é um dos avanços recentes da análise do discurso”, bem como que “é nos gêneros de discurso que localizaremos a ‘estabilização pública e normativa’ que opera no quadro do sistema de gêneros de cada formação discursiva”.

Por sua vez, Marcuschi (2008) explica que ao tratar de categorias como texto e discurso é importante esclarecer com qual noção de língua se trabalha, haja vista que esse

posicionamento depende das posições teóricas adotadas. Em relação ao exposto, o autor afirma:

A tendência é ver o texto no plano das formas linguísticas e de sua organização, ao passo que o discurso seria o plano do funcionamento enunciativo, o plano da enunciação e efeitos de sentido na sua circulação sociointerativa e discursiva envolvendo outros aspectos [...] (MARCUSCHI, 2008, p. 58).

O autor afirma ainda que texto e discurso não distinguem fala e escrita, nem distinguem de maneira dicotômica duas abordagens, pois se trata de duas maneiras complementares de apresentar a produção linguística em funcionamento.

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