CAPÍTULO 1. A DIMENSÃO ESPACIAL DA POBREZA E DA EXCLUSÃO SOCIAL
1.1. Da pobreza à exclusão social: conceitos e causas
1.1.4. Os discursos e atributos da exclusão social
É sobretudo nos anos 90, numa altura em que aumentam as preocupações com os efeitos sociais das mudanças em curso na economia e na sociedade14 (Musterd et al., 1999), e em que aumentam as preocupações com os temas da desigualdade e da desvantagem15, que se vulgariza no contexto da União Europeia o conceito da exclusão social suscitando novas formas de abordagem ao tema da desvantagem socio-económica.
Embora sem suscitar consensos, nem em torno dos benefícios associados à sua emergência no discurso social europeu, nem à sua definição, a interpretação deste conceito viria a oscilar entre duas interpretações e tradições diferentes: a britânica que explica as situações de desvantagem por referência às características morais e comportamentais dos indivíduos (Todman, 2004); e a francesa que, concebendo a sociedade como uma hierarquia de colectividades ligadas por direitos e obrigações mútuos, explica os processos de exclusão social como o resultado de falhas que ocorrem nas esferas da integração social, por exemplo associadas a uma desigual distribuição de poder (Musterd e Ostendorf, 1998; Room, 1999)
Se no primeiro caso a exclusão social é entendida eminentemente como o resultado da não participação no mercado de trabalho, devido à falta de aptidões individuais, colocando deste modo o emprego como um elemento central do processo da inclusão social; já no segundo caso a exclusão social é entendida como uma recusa mais geral em termos dos direitos de cidadania, considerando-se que estes direitos não se referem apenas à participação no mercado de trabalho, mas também aos direitos de acesso à educação, saúde, protecção judicial, participação política, etc. (Somerville, 1998).
No debate sobre os discursos que competem entre si para a explicação dos processos de exclusão social, as tipologias identificadas por Silver e Levitas (o primeiro num esforço de sistematização do debate internacional, o segundo analisando os discursos produzidos apenas
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Associadas ao declínio de actividades económicas tradicionais, aos efeitos da modernização tecnológica no desemprego e na desqualificação profissional de amplos segmentos da população (Blanco, 2005), e também às transformações na sociedade, associadas ao aumento das famílias monoparentais, de divórcios, de consumo de drogas e da fragilização de alguns laços sociais que conferem coesão à sociedade (como os da solidariedade) (Musterd et al., 1998). Todas estas tendências em curso ajudaram a ampliar os riscos de pobreza e de exclusão social (Gaspar et al., 1998).
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A um nível restrito estes temas são objecto de debate pela Direcção-Geral com competências na área do emprego, a um nível mais geral desenvolvem-se esforços no sentido da harmonização das estatísticas sobre estes temas na União Europeia e do lançamento de estudos de investigação científica (enquadrados, por exemplo, no Observatório da Exclusão Social, criado para monitorizar as tendências e as políticas neste campo), bem como na criação de programas para combater a pobreza e a exclusão social (Room, 1999).
no contexto da politica social britânica16) têm vindo a ser particularmente considerados, pela forma como são detectados os valores e as ideologias de quem reflecte sobre estas questões na forma como esses discursos são produzidos (Murie e Musterd, 2004; Watt e Jacobs, 2000).
Silver (1994, referenciado em Todman (2004) sugere que há três perspectivas de enquadramento e de entendimento do conceito de exclusão social que derivam de filosofias diferentes e mesmo opostas, e que servem uma variedade de propósitos políticos. Este autor identifica três paradigmas de entendimento do conceito: o de solidariedade; o de especialização; e o de monopólio. O primeiro liga-se à noção francesa de „solidariedade‟ e enfatiza a noção de colectividade, segundo esta perspectiva a exclusão social é entendida como uma quebra de teias estruturais e é considerada um produto das sociedades pós- modernas, em que as questões essenciais deixam de ser as da hierarquia ou da desigualdade para passarem a ser as da segregação horizontal e de recusa de uma cidadania plena17. O segundo, liga-se ao individualismo liberal anglo-saxónico, de acordo com esta perspectiva, desenvolvida no seio de um paradigma liberal, são enfatizadas as questões da pobreza e da desigualdade, e a desvantagem é explicada como o resultado de comportamentos desviantes de indivíduos. O terceiro baseado nas relações de „poder e de hierarquia‟, é desenvolvido pelas ideologias da social-democracia europeia, segundo esta perspectiva as relações de poder hierárquicas (de desigualdade), bem como as da exploração económica e do monopólio exercido pelos grupos mais poderosos são identificados como as principais causa de exclusão18.
Num trabalho recente sobre o contexto político britânico, Levitas (1998) identifica três discursos que correspondem a três abordagens do uso do conceito de exclusão social no âmbito da política social daquele país: a abordagem redistributiva; moral; e a integracionista.
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Note-se que o mérito da conceptualização destes autores é o de providenciar um quadro teórico para interpretar o significado política e ideológico dos discursos que têm vindo a ser produzidos sobre os processos de exclusão social, devendo notar-se que eles se diferenciam entre si pelas causas essenciais que identificam como responsáveis por estes processos.
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É no âmbito desta perspectiva de entendimento do conceito, que diversos autores defendem que a situação de exclusão social é uma desvantagem geral em diversos domínios -por exemplo, em termos de trabalho, educação, formação, recursos financeiros e políticos ou contactos sociais-, e que o processo de exclusão constitui, em si mesmo, uma situação de recusa dos direitos de cidadania que viola os valores de justiça e de solidariedade social (Barry, 1998; Van Kempen, 2001).
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A natureza estrutural e histórica dos processos de desigualdade é referida por diversos autores para quem a exclusão social é o produto das desigualdades que atravessam a sociedade, desigualdades nomeadamente no poder de controlo, de articulação e acumulação de bens e serviços, recursos e recompensas na sociedade (Rodrigues et al., 1999; Silva, 2005). Estes autores defendem assim que a explicação dos processos de exclusão social não pode ser reduzida à explicação de fenómenos individuais ou à simples agregação de situações individuais, mas que deve ser encontrada na própria sociedade Rodrigues et al., 1999:65)
O discurso redistributivo coloca a ênfase na pobreza económica considerando-a uma das principais causas da exclusão social (implicando este discurso uma redução radical das desigualdades e uma redistribuição de recursos e poder na sociedade). O discurso da moral relaciona o conceito de exclusão social com o de underclass (usado para referenciar os grupos que se situam na base da estrutura económica e que, por terem desenvolvido o seu próprio estilo de vida, se tendem a separar do resto da sociedade), revelando preocupações com a moralidade e o comportamento destes grupos. À semelhança das ideias defendidas por Charles Murray, este discurso tende a enfatizar as responsabilidades dos indivíduos que são vítimas da exclusão social, esta visão, muito mediatizada, apresenta a underclass ou a população socialmente excluída como culturalmente distinta da maior parte da sociedade, tendendo a enfatizar as tendências criminosas dos mais jovens ou a cultura de irresponsabilidade e da dependência aos subsídios de mães solteiras no Reino Unido. Por fim, o discurso social integracionista coloca a ênfase na importância da integração no mercado de trabalho e do trabalho remunerado como forma de promover laços e responsabilidades sociais19. Focando-se demasiado no trabalho remunerado, este discurso ignora as desigualdades na estrutura de salários e a existência de um grupo significativo de população com trabalho não remunerado.
Procurando agora abordar os vários atributos com que tem sido caracterizada a exclusão social, Room (1999) destaca o da multidimensionalidade, referindo que a introdução do conceito de exclusão social viria a permitir a consideração de indicadores em domínios que não eram considerados até ai, permitindo uma análise entrelaçada das causas e dos processos da desvantagem (Estivill, 2003; Glennerster et al., 1999). Por exemplo, a exclusão social inclui tanto aspectos de distribuição como relacionais: se é verdade que o poder económico é quase sempre um factor que condiciona o acesso a bens e serviços que são críticos para o bem-estar, defendendo a generalidade dos autores que a pobreza seja considerado um indicador chave da exclusão social (Capucha et al., 2005); também é verdade que há no entanto outros factores, que não os financeiros, que condicionam a inclusão social, como, por exemplo, o direito de voto associado ao direito de cidadania.20
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Este discurso enfatiza a importância da participação dos cidadãos no mercado de emprego, devendo o indivíduo demonstrar vontade de participar através de uma procura activa de emprego e do seu envolvimento em esquemas de formação.
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Efectivamente, se no debate da pobreza o foco dominante é a privação económica ou a falta de recursos, no da exclusão social considera-se dominantemente o processo que dificulta a inclusão e que envolve a estigmatização no acesso ao emprego; a resposta das instituições; os preconceitos e a descriminação, constituindo estes factores de ruptura nas relações sociais (Room, 1999).
Também Costa (1998) refere que a exclusão social tem uma natureza multidimensional porque pode ser suscitada por eventos muito distintos, e envolver diferentes instituições e grupos sociais como agentes e objectos de exclusão, podendo ainda ter expressão em múltiplas dimensões ou domínios da vida do indivíduo, grupos sociais ou comunidades. A este respeito importa referir que investigações de vários autores têm vindo a comprovar que a exclusão numa dimensão pode estar positivamente correlacionada com a exclusão noutros domínios, existindo relações de causalidade entre elas21 (Almeida et al., 1992; Costa et al., 1999a). A medição do conceito em vários domínios tem de resto mostrado que podem existir diferentes experiências e graus de exclusão social, daí alguns autores preferirem falar de “exclusões sociais”, em vez de “exclusão (Costa, 1998).
Deste modo, a exclusão social ocorre quando indivíduos ou grupos estão impedidos de participar num ou mais dos sistemas sociais que garantem a integração social (Atkinson, 2000a:1041). É a quebra nas teias sociais que ligam os indivíduos às várias esferas de integração da sociedade (os sistemas do mercado de trabalho, de protecção social do Estado, da comunidade, …) que criam a exclusão social22
, podendo ser identificadas diversas situações e processos que estão na sua origem (decisões de politica urbana, processos de reestruturação económica, processos de estigmatização nas formas de higienização e alocação da população pobre, etc…).
Outros atributos recorrentes em qualquer discussão sobre a exclusão social, são os da relatividade, de agência e de dinâmica (Atkinson, 1998). O de relatividade refere o facto da exclusão social ser um fenómeno que não pode ser analisado de uma forma isolada, mas por referência ao padrão médio de vida da sociedade em que o indivíduo se insere num determinado momento (Atkinson, 1998; Richardson e Le Grand, 2002). Neste sentido e como é referido por Costa (1998), a noção de exclusão implica a existência de um contexto de
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A forma como diversos tipos de desvantagem se podem encadear e correlacionar, de uma forma repetitiva e continua, até desencadearem processos de exclusão social tem vindo a ser objecto de diversos projectos de investigação que procuram explorar a dinâmica associada a esses factores, particularmente dos que são responsáveis por processos de entrada e saída da exclusão .
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Castel (1990) identifica 3 espaços sociais consoante a distribuição dos riscos da exclusão social: um primeiro corresponde a uma "zona de integração, segurança e estabilidade", correspondendo à situação ideal típica da população com trabalho, protecção social e uma relação sólida, familiar e de vizinhança. Embora neste grupo possam existir grandes desigualdades sociais, estas não supõe uma ameaça para a estabilidade social; um segundo corresponde a uma "zona de vulnerabilidade, precariedade ou instabilidade", correspondendo este espaço a uma zona de fragilidade, caracterizado pela insegurança das relações laborais precárias e pela inadequação de suportes familiares e sociais; um último espaço corresponde a uma "zona de exclusão ou de marginalização" caracterizando-se por uma saída do mundo do trabalho, e por ausência de mecanismos de protecção e de solidariedade social. O isolamento vivido (em resultado da falha de todos os mecanismos de inserção - do emprego, das redes de protecção do estado, da família e da vizinhança) é responsável por formas extremas de pobreza, que evidenciam muitas vezes situações de forte irreversibilidade.
referência do qual se é ou se está excluído e é ele que define uma maioria da população incluída e uma minoria de população excluída.
Uma definição de exclusão social que pega claramente nas ideias de relatividade é a de Burchardt et al. (1999:29) que, no âmbito de investigações desenvolvidas no Center for the
Analysis of Social Exclusion que desde 1996 analisa a problemática na London School of Economics, afirmam que uma pessoa é socialmente excluída quando, por razões que estão
fora do seu controlo, está impedida de participar nas „actividades normais‟ da área geográfica em que reside. Estes autores definem uma tipologia de „actividades normais‟ que abrange: i)
as do consumo -a capacidade aquisitiva de produtos e serviços em quantidade e qualidade suficiente, por exemplo, alimentares, de saúde, educação, …-; ii)
as da produção ou da participação em actividades económica e socialmente valorizadas (por oposição à situação que corresponde a estar fora do mercado de emprego, ou estar numa situação de precariedade no emprego, com menos direitos e piores remunerações) (Capucha et al., 2005); iii) e as do envolvimento político (por exemplo em processos de decisão à escala local ou nacional) e da interacção social (com a família, amigos e comunidade). Estes autores defendem que é possível identificar para cada uma destas actividades um limiar mínimo de participação. Esta é uma definição que seria mais tarde confrontada com as visões pessoais de indivíduos directamente ligados à experiência da exclusão social, mediante estudos de Richardson e Le Grand (2002) que viriam a concluir a validade deste conceito na perspectiva das pessoas afectadas pelo fenómeno.
Sendo a exclusão social uma recusa de participação nas actividades normais da sociedade (de consumo, poupança, produção, política e social) por factores que escapam ao controlo do excluído (Case, 2001), fica então em evidência nesta definição um outro atributo do conceito de exclusão social, o de agência. Nesta concepção afirma-se que a exclusão social implica um agente ou agentes, sublinhando-se o facto dos processos de exclusão social não actuarem no vácuo, mas em contextos que podem estar para lá do controle do indivíduo (Todman, 2004; Turok et al., 1999). Veja-se por exemplo, as politicas de recrutamento de entidades empregadoras no domínio do mercado de trabalho (Turok et al., 1999).
A este propósito Turok et al. (1999) defende a necessidade de no campo das políticas públicas e do planeamento em particular se proceder à identificação de quem são esses agente(s) e dos domínios em que estes operam a exclusão. Mesmo no caso das situações habitualmente
descritas como de exclusão voluntária ou de „auto exclusão‟, é preciso a avaliar o que é verdadeiramente voluntário ou o que é produto de um número limitado de opções individuais (Le Grand, 2003). A este propósito Rodrigues et al. (1999a) afirmam que o excluído, por se encontrar fora dos universos materiais e simbólicos, sofre a acção de uma espiral crescente de rejeição que culmina na incorporação de um sentimento de auto-exclusão.
Uma outra característica que tem vindo a ser associada ao conceito de exclusão social é o do carácter dinâmico e intergeracional destes processos. A este propósito tem vindo a afirmar-se que a exclusão não é uma circunstância, é um processo dinâmico que pode reproduzir-se de geração em geração, por influência de valores, representações e modos de agir e de pensar que se vão reproduzindo de pais para filhos, afirmando-se que as trajectórias de vida e as circunstâncias que ocorrem nas esferas individual ou familiar afectam as expectativas de desenvolvimento e as próprias capacidades do indivíduo: de produção, poupança, moral, auto- estima, relacionamento ou nas suas possíveis atitudes face a comunidade (Turok et al., 1999)23.
A questão da multidimensionalidade associada à da dinâmica tem vindo a sublinhar os efeitos cumulativos da acção conjugada de diferentes situações e processos de desvantagem ao longo do tempo, referindo-se os impactos desses efeitos cumulativos na criação de ciclos viciosos de desvantagem, em que os processos e os efeitos da exclusão social são, eles próprios, vistos como um factor adicional explicativo da exclusão social24 (Gallie et al., 2003).
23 A este propósito a Social Exclusion Unit enfatiza o modo como as oportunidades das crianças são fortemente afectadas
pelas circunstâncias de vida dos seus pais, nomeadamente pelo seu rendimento e local onde vivem (ODPM, 2004), falando a este propósito de uma “exclusão social hereditária”. Por sua vez, numa investigação recente acerca dos sem-abrigo de Lisboa e das causas da falta de domicílio fixo desses indivíduos, Pereira e Silva (1999) identificam um conjunto de experiências, acontecimentos ou trajectórias de vida que, em comum, têm o facto de conferirem fragilidade e promoverem itinerários evolutivos de ruptura e marginalização social.
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Deste modo defende-se que a natureza relacionada ou interconectada dos processos de desvantagem requerem soluções igualmente multidimensionais, para reverter os ciclos viciosos de declínio instalados.