2. ATUAÇÃO DO ESTADO NO VALE DO JEQUITINHONHA NO SÉCULO XX 37
3.4 OS DIVERSOS AGENTES DO PROCESSO CULTURAL 82
Refutando a concepção de Bourdieu (1992), que analisa o campo artístico como autônomo, e adotando a perspectiva de Canclini (1997), que considera o campo da arte e do artesanato em constante diálogo com as outras esferas da vida social, adotamos para efeitos analíticos dos dados coletados em campo a tipologia desenvolvida por Rubim (2007 e 2008) para o entendimento dos diversos momentos que constituem o processo cultural. Esta tipologia nos atende no sentido de buscar entender os diversos agentes que
entrelaçamento destes agentes no processo artístico e cultural do artesanato. Há que salientar que neste trabalho não adotamos a diferenciação entre arte e artesanato, ou entre artesanato e arte popular, uma vez que, como já discutimos, o artesanato e a arte se encontram em um processo de hibridismo, de encontro de fronteiras. Outro fator para levar em consideração são as próprias comunidades nativas que não estabelecem esta diferenciação analítica, ou seja, todo artesão é artista; tanto as peças utilitárias quanto as peças escultóricas são consideradas expoentes de uma atividade artística.
Rubim (2007 e 2008) descreve o processo cultural composto por movimentos ou momentos que devem ter sua presença considerada e articulada em uma concepção de política pública para o setor cultural. São estes os momentos: 1. Criação, invenção e inovação; 2. Divulgação, transmissão e difusão; 3. Troca, intercâmbio e cooperação; 4. Preservação e conservação; 5. Análise, crítica, estudo, investigação, pesquisa e reflexão; 6. Consumo; e 7. Organização. Há que se ressaltar, portanto, que estes momentos ou movimentos dentro do campo cultural podem estar concentrados em um único ator ou instituição e, dependendo da sociedade ou da complexidade da atividade cultural, podem estar diluídos em diversas zonas de competência, instituições e atores com papéis especializados e definidos.
O momento criativo é representado por artistas, cientistas e intelectuais, oriundos do meio acadêmico ou popular, considerados, muitas vezes, como o ponto central do processo cultural, devido à sua capacidade ou genialidade em reconstruir e renovar o sistema cultural. Porém, ressalta Rubim (2008), esse momento não pode ser entendido como desvinculado dos outros momentos, das instituições e dos outros atores que compõem o restante do movimento cultural.
A divulgação, transmissão e difusão são momentos traduzidos especialmente por professores, comunicadores presentes em diversas instituições e ambientes sociais. Esse é um momento, segundo Rubim (2008), importante para o processo de democratização da cultura e para a democracia cultural.
O terceiro momento do processo cultural definido por Rubim (2008), identificado como preservação e conservação, é desempenhado, na concepção
do autor, especialmente pelos museus, que realizam o trabalho de cuidar do patrimônio material e imaterial dos agrupamentos humanos. Há que se considerar a importância fundamental do patrimônio cultural de uma comunidade ou de uma sociedade no processo de constituição de sua identidade.
No entanto, a vitalidade de uma cultura depende não apenas de sua conservação e preservação. Para que ela não se mantenha estagnada, é necessário que interaja com outros tipos de cultura, constituindo o quarto momento do processo cultural, que é a troca, o intercâmbio e a cooperação. Esse momento é marcado pela negociação cultural, podendo haver aí também trocas equânimes ou desiguais, afetando de maneira diversa a cultura, de modo benéfico ou ocasionando graves danos. Porém, independentemente disso, é um processo fundamental para a vitalidade da cultura.
Essa cultura criada, difundida, preservada e intercambiada necessita, por sua vez, passar pelo crivo público de reflexão, crítica e discussão. É neste momento que ideias, práticas, costumes e valores são legitimados, questionados e desqualificados. Também é um momento de aprimoramento da cultura. Para complementar esse circuito cultural, existem os momentos ou movimentos de consumo e organização da cultura.
O consumo tem por especificidade a não-profissionalização, indicando a amplitude e a universalidade do ato de recepção da cultura. Quando a cultura não está sob a égide mercantil que restringe a sua recepção, ou seja, da troca por dinheiro, todos os cidadãos são potenciais consumidores de cultura. Mesmo que em diferentes graus, maneiras e ambientes, todos nós estamos submersos em um universo cultural, o que significa que sem o consumo/recepção a cultura não se completa.
A organização da cultura, além de estar presente em todos os processos anteriores, pois cada momento implica aspectos organizativos, se configura aqui, seja em um aspecto macro, como o caso das políticas públicas, seja no micro, um evento cultural, no sentido de organização do campo cultural.
Ao focalizarmos o artesanato, ou nas palavras de Rubim (2008), os momentos que constituem o processo de desenvolvimento do artesanato, como resultante destas teias de significados, estamos preocupados não com
cultura material. Ou seja, com a dimensão simbólica da coletividade produtora do artesanato materializada nos objetos. A categoria cultura material, que aqui utilizamos, é embasada pelos estudos de Bucaille e Pesez (1989), os quais afirmam que
a cultura material é, antes de mais nada, tal como o seu nome indica, uma cultura. Nessa qualidade, possui dois dos seus aspectos principais: a coletividade (oposta à individualidade) e a repetição (por oposição ao acontecimento) dos fenômenos que a compõem. [...] Além disso, esta aproximação cultural é determinada pela angularidade da materialidade [...]. Esta materialidade revela dois aspectos precisos: o apego aos fenômenos infraestruturais como causalidade heurística e atenção aos objetos concretos que explicam estes fenômenos (BUCAILLE E PESEZ, 1989, p.25).
Tomando como base a tipologia desenvolvida por Rubim (2007 e 2008) para entender o desenvolvimento do campo cultural, procuramos neste trabalho adaptá-lo para o estudo da produção artesanal, considerando os movimentos ou momentos (criação, divulgação, troca, preservação, análise, consumo e organização) utilizados pelo autor. No entanto, é necessário esclarecer ao leitor que vários momentos foram agrupados devido ao modo intrínseco em que estes se revelaram no campo de pesquisa. Esta tipologia foi importante para a orientação das nossas ações em campo, desde a elaboração das entrevistas semiestruturadas até a coleta dos dados, como também na interpretação desses dados, como poderá ser observado no capítulo cinco deste trabalho.
Antes, porém, de adentrarmos a discussão dos dados, faremos um relato do contexto em que a pesquisa foi realizada, que será tratado no capítulo seguinte.
Meu coração bate forte de alegria Quando vai chegando o dia da folia começar
Eu vou pro Vale passar a semana inteira Numa festa brasileira de cultura popular Eu vou de ônibus eu vou de trem , me espera meu bem O Vale é um pouco longe devagar eu chego lá
Viva! o poeta, o artesão cantador, coração portador de alegria e de paz Tem Lira Marques artesã e cantadeira Frei Chico na Viola pra nossa fé não falhar Boi de Janeiro, violeiro é o toureiro Por esse Vale inteiro tem teatro popular (Rubinho do Vale) Figura 27: Cortejo das oficinas no último dia do 27º
Festivale em Grão-Mogol. Pesquisa de campo, julho de 2009. Fonte: Juliana Pereira Ramalho