OS DOCUMENTÁRIOS: ASPECTOS TEÓRICOS E METODOLÓGICOS The knowledge processes require instead that teachers reflect purposefully on
2.1 Os documentários como gêneros textuais: elementos constitutivos
Os documentários são gêneros multimodais da área do cinema, portanto a revisão bibliográfica feita para esta pesquisa recorreu a autores como Bill Nichols, Guy Gauthier e Alan Rosenthal, produtores e críticos cinematográficos, com o apoio do trabalho
interpretativo de Sérgio Puccini4,que enfoca a produção de roteiros para documentários. Com
base nas leituras realizadas, propomos a definição de documentário como produção artística em vídeo, elaborada na forma de relato não-ficcional, que busca representar a realidade.
No livro “Introdução ao Documentário”, Nichols (2016) lança questões
importantes para o trabalho com documentários no contexto escolar. Destacamos os quatro capítulos iniciais que tratam da definição de documentário, abordam questões éticas na sua produção e discorrem sobre elementos que tornam os documentários envolventes e persuasivos. Para Nichols, há diferença entre representar e reproduzir o real, o que nos leva a expectativas diferentes na interpretação de documentários (representações) e documentos (reproduções). Segundo esse autor, “o documentário representa uma determinada visão do mundo, uma visão com a qual talvez nunca tenhamos nos deparado antes, mesmo que os aspectos factuais desse mundo nos sejam familiares” (2016, p. 36). Ao apresentar uma “visão do mundo”, o documentário é construído de forma que a representação do real possa ser entendida como “história verdadeira”. Nas palavras de Nichols:
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Professor adjunto do Bacharelado em Cinema e Audiovisual e do Programa de Pós-Graduação em Artes, Cultura e Linguagens do Instituto de Artes e Design da UFJF.
a crença é encorajada nos documentários, já que eles frequentemente visam exercer um impacto no mundo histórico e, para isso, precisam nos persuadir ou convencer de que um ponto de vista ou enfoque é preferível a outros. A ficção talvez se contente em suspender a incredulidade (aceitar o mundo do filme como plausível), mas a não ficção com frequência quer instilar crença (aceitar o mundo do filme como real). É isso o que alinha o documentário com a tradição retórica, na qual a eloquência tem um propósito estético e social. Do documentário, não tiramos apenas prazer, mas uma direção também. (2016, p. 26)
Quando, como espectadores, aceitamos o mundo do filme como mundo real, o fazemos pelo envolvimento e adesão à proposta do documentário. No entanto, a recepção favorável nem sempre acontece, e os documentários são, por vezes, alvo de controvérsias. Nichols apresenta esse jogo discursivo defendendo que o documentário trata dos problemas do mundo histórico por meio da “voz”, de um orador que assume uma posição ou apresenta uma proposta. Assim, a tradição retórica propicia uma base para o entendimento da linguagem dos documentários, uma vez que “consegue abarcar razão e narrativa, evocação e poesia, mas faz isso com o objetivo de inspirar confiança ou instilar convicção no mérito de um determinado ponto de vista sobre uma questão controversa” (NICHOLS, 2016, p. 94). Podemos concluir, então, que o documentário deve ser analisado tanto pela construção estética da sua narrativa quanto pelo viés da argumentação, elementos fundamentais da sua identidade textual.
Outros elementos constitutivos dos documentários podem ser identificados na comparação com os textos ficcionais. Por meio de referências a produções existentes, Nichols comprova que o documentário trata da realidade, de pessoas e acontecimentos reais de forma distinta da narrativa de ficção. Em contraposição com a narrativa ficcional cinematográfica, não há atores representando personagens, mas “os documentários tratam de pessoas reais que não desempenham papéis, em vez disso, elas representam ou apresentam a si mesmas”
(NICHOLS, 2016, p. 31). Mesmo oferecendo um “tratamento criativo da realidade5”, os
documentários “falam de situações ou acontecimentos reais e honram fatos conhecidos; não introduzem fatos novos, não comprováveis. Falam sobre o mundo histórico diretamente, não alegoricamente” (p. 31).
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Tratamento criativo da realidade – expressão cunhada por Griegson (1936) citado pelos autores da revisão bibliográfica
Nichols também lembra que narrativas fictícias são fundamentalmente alegorias criadas para substituir o mundo histórico; já os documentários referem-se diretamente ao tempo e contexto históricos (p. 31). Assim, para manter-se coerente com sua proposta, o documentário busca mostrar-se fidedigno ao real e comprometido com a visão de mundo que o produtor intenciona oferecer por meio de sua obra.
Buscamos a contribuição de Gauthier (2011) para o entendimento do “tempo” no documentário, especialmente o tempo passado, a abordagem de memórias, tendo em vista a pesquisa proposta em nosso trabalho. No livro “O documentário: um outro cinema”, Gauthier descreve o tempo histórico apresentado em um documentário como o tempo presente no momento de sua produção, com os recursos e pessoas que permitiram a captação do acontecimento. Para abordar o passado, o documentarista lança mão dos “vestígios e das testemunhas para contarem o que viveram” (p. 14). Gauthier complementa dizendo que o filme “não é transparente ao real” e alerta que o espectador enfrenta uma tela que reconstitui, segundo seus próprios códigos, um universo de formas e cores em movimento (p. 21).
Em sua linguagem própria, o documentário faz a abordagem do tempo presente – ou a referência ao tempo passado a partir do tempo presente – por meio do relato e do contato direto com a realidade a ser representada. Por esse motivo, Gauthier (2011, p. 38) afirma que “a câmera tornou-se móvel, o som acompanha a imagem, mas o cerne do dispositivo documental pouco variou desde então: é a vida que fornece a matéria do filme”. O autor explica que a investigação da vida a partir da memória da seguinte forma:
Quando o documentarista observa no presente, ele tenta comunicar sua íntima convicção, fundando-se sobre fatos observados: ele se torna investigador. Quando ele se interessa pelo passado, ele faz a mesma coisa sobre os fatos relatados. O filme-investigação, nesse caso, explora o passado com indícios no presente. (GAUTHIER, 2011, p.260)
Se associarmos a posição de Gauthier à proposta bakhtiniana na qual um gênero textual possui tema, forma composicional e estilo (unidades linguísticas que o representam), grosso modo podemos dizer que o tema é o real, a realidade – ainda que em representação parcial e subjetiva –; a forma composicional é o texto multimodal organizado por um roteiro escrito, podendo conter entrevistas, depoimentos, imagens fotográficas, vídeos, trilha sonora; e uma variedade de textos, seu estilo linguístico com o foco narrativo no tempo presente, linguagem objetiva estruturada em sequências narrativo-argumentativas.
Assim, todo documentário parte de uma proposta retórica de convencimento ainda que o viés argumentativo seja dissimulado pela apresentação de fatos, dados empíricos, depoimentos que intencionam conferir veracidade e constroem a sequência lógico- argumentativa do texto. Dessa forma, observar com os alunos os elementos do gênero textual torna-se uma oportunidade de trabalho com textos narrativo-argumentativos.