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CAPÍTULO 1 - FONTES HISTÓRICAS E ENSINO DE HISTÓRIA

1.2 O TRABALHO COM AS FONTES ESCRITAS

1.2.5 Os documentos eclesiásticos

De acordo com Bassanezi, os livros de registro de batismo, casamento e óbito da Igreja são imprescindíveis para o trabalho do historiador que deseja conhecer uma época, principalmente em períodos nos quais não existia o Registro Civil, ou seja, no caso do Brasil, do início da colonização portuguesa à Proclamação da República. (BASSANEZI, 2011, p. 143). Os arquivos eclesiásticos possuíam um caráter religioso com “força de um ato civil”, servindo, inclusive, de base legal para operações seculares, como, por exemplo, os processos de herança.

As fontes eclesiásticas são bastante ricas e variadas, pois, em princípio, “toda a população” pode ser recuperada através destes registros e por isso, são consideradas fontes importantíssimas para o trabalho do historiador. Os livros eclesiásticos são considerados fontes democráticas, pois contemplam registros de homens e mulheres, ricos e pobres, brancos, negros e índios, nacionais e estrangeiros, filhos legítimos e ilegítimos, crianças rejeitadas e também escravos e após 1888, também os libertos (BASSANEZI, 2011, p. 142).

As informações presentes nas fontes eclesiásticas além de vastas e variadas se prestam tanto a análises de caráter quantitativo como qualitativo. As “fontes paroquiais” permitem desvendar o passado brasileiro não só de uma perspectiva demográfica, mas também sociocultural. (BASSANEZI, 2011, p. 142-143). As fontes

paroquiais são fontes nominativas e por isto, possibilitam aos historiadores a

reconstituição de famílias e de redes sociais (BASSANEZI, 2011, p. 143).

Os arquivos eclesiásticos, em geral, possuem uma grande abrangência temporal e portanto, ajudam na compreensão dos processos sociodemográficos, das permanências e mudanças. Segundo Bassanezi, com as fontes paroquiais é possível observar tendências que a sociedade seguiu no decorrer do tempo, ou seja, como evoluíram as taxas de natalidade, nupcialidade e mortalidade. É possível observar também, com estas fontes, a disseminação de doenças, o celibato, as escolhas matrimoniais, a idade ao casar, as migrações e as relações sociais. Devido às várias possibilidades citadas para o estudo das fontes paroquiais, muitos manuais didáticos trazem estas fontes para a análise em sala de aula.

O uso dos registros de batismo, casamento e óbito sempre foi essencial para os genealogistas, mas, a partir da década de 1960, os demógrafos e historiadores passaram a usar tais fontes de maneira bastante intensa alcançando resultados

expressivos na análise dos padrões demográficos de populações do passado. (BACELLAR, 2010, p. 40). Com o passar dos anos e o desenvolvimento das pesquisas históricas que se utilizavam dos registros paroquiais, os estudos que se valiam destas fontes extrapolaram o caráter puramente demográfico. A partir de então, ampliaram-se os temas e multiplicaram-se os estudos de História Social e Cultural, que acabaram por revelar realidades sociais antes pouco ou nada conhecidas pelos estudiosos. Bassanezi cita avanços na pesquisa histórica, ocasionadas pela utilização dos arquivos eclesiásticos:

- a dinâmica demográfica diferenciada por cor/condição social e/ou por atividade econômica constatando a forte presença do controle social na reprodução humana;

- os movimentos sazonais dos nascimentos, casamentos e óbitos, que refletem costumes, tradições, mentalidades religiosas, atividades econômicas, condições climáticas e biológicas;

- a existência da família e de casamentos legalizados de escravos, o que ajudou a ampliar e refinar a visão da historiografia sobre a escravidão no Brasil;

- as escolhas matrimoniais – onde exercem papel importante questões relativas à etnia, à preservação do patrimônio, ao estabelecimento de alianças, à união de capacidades de trabalho;

- vários outros aspectos ligados à instrução, à religião, à moral, às mentalidades. A presença ou ausência de assinaturas nas atas de casamento e sua escrita, por exemplo, podem dar indicações sobre o nível de instrução dos indivíduos ou grupos envolvidos. (BASSANEZI, 2011, p. 145-146, destaques feitos pela pesquisadora).

Os documentos eclesiásticos que podem ser utilizados em sala de aula são três: os registros de batismo, casamento e de óbito. O registro de batismo geralmente está em um livro especial que deveria servir para o assento dos Registros de Batismo da Paróquia. Este livro, de acordo com Bassanezi, é feito com base nas normas estabelecidas pelo Concílio de Trento e na sua ata deveriam constar: data do evento, nome completo do batizado, nome dos pais, filiação legítima ou ilegítima, local da residência dos pais ou responsáveis, o nome de pelo menos um dos padrinhos e assinatura do sacerdote (BASSANEZI, 2011, p. 147).

Bassanezi afirma que em vários registros de batismo podem ser encontradas informações sobre o local do batizado, a condição social dos pais (escravo, forro, crioulo), a naturalidade dos pais e os nomes de avós paternos e maternos. Algumas vezes, ainda segundo a pesquisadora, pode-se encontrar anotações sobre a naturalidade, o estado conjugal, a ocupação dos padrinhos e até o título honorífico ou patente militar se fosse o caso (BASSANEZI, 2011, p. 149). Destaca-se aqui

informações, que com o cruzamento de outras fontes, podem ser utilizadas para se estudar alguns temas em sala de aula como, por exemplo, a existência da família e de casamentos legalizados de escravos, nos quais os seus filhos tinham o direito do batismo.

Outra fonte que pode trazer informações importantes para o trabalho em sala de aula são as que registram os casamentos. De acordo com Bassanezi, pelas normas tridentinas, o registro de casamento deveria conter:

(...) a data do casamento, o nome de cada cônjuge e sua filiação, residência, naturalidade e a assinatura do sacerdote. No caso de casamento de viúvo ou viúva, a declaração de viuvez do cônjuge, com o nome do(a) primeiro(a) esposo(a); era ainda necessário mencionar se os cônjuges estavam incursos nos impedimentos “graves” ou “leves” determinados pelo Código Canônico da Igreja Católica (como, por exemplo, parentescos consanguíneos ou espirituais). (BASSANEZI, 2011, p. 151)

Em muitos registros de casamento pode-se encontrar também: “o local da realização do casamento, a idade dos cônjuges, os nomes das testemunhas acompanhados de alguma de suas características, como por exemplo, o estado civil e o título” (BASSANEZI, 2011, p. 151). Assim como no batizado das crianças escravas, também se tratando de casamento de escravos, sempre era anotado o nome do proprietário. Com relação ao casamento dos imigrantes, os assentos traziam a nacionalidade destes e, muitas vezes, a sua paróquia de origem. No caso de filhos de imigrantes nascidos no Brasil, anotava-se a nacionalidade dos pais. (BASSANEZI, 2011, p. 152).

Os registros de casamento, assim como os de batismo, podem ser utilizados em sala de aula, pois podem permitir o acesso a informações importantes sobre em quais meses às pessoas preferiam se casar, com que idade as pessoas se casavam, se existiam casamentos entre pessoas de camadas sociais diferentes, entre outros elementos. Com a utilização de registros de casamento atuais, o professor pode, por exemplo, comparar as mudanças ocorridas e as continuidades na maneira de se registrar o casamento.

As fontes que trazem o atestado de óbito eram mais simples e não seguiam normas tão rigorosas quanto os registros de batismo e de casamento. No entanto, podem também ser utilizadas em sala de aula. Entre os registros que podem ser encontrados nessas fontes, Bassanezi destaca: a data do falecimento; o nome do morto; o estado civil do morto; caso fosse solteiro, os pais eram nomeados; para os

(as) falecidos(as), casados(as), e viúvos(as) também anotava-se o nome do esposo(a). Segundo a autora, em muitas paróquias assinalavam-se a naturalidade do morto (a nacionalidade, em se tratando de estrangeiro), sua idade, a atividade ocupacional ou profissão exercida, a causa da morte e se o morto havia deixado testamento. (BASSANEZI, 2011, p. 154). No caso de escravos, assim como nas outras fontes eclesiásticas, registrava-se também o nome do proprietário.

Segundo a mesma autora, muitos registros de óbito traziam informações sobre a causa da morte, mas muitas vezes aparecem termos muito difíceis de serem classificados pelos historiadores/professores, pois são imprecisos ou indicam apenas sintomas, tais como “febres” ou “dores”. Para se aprofundar nos termos e compreender melhor os nomes dados às “doenças” e demais “causas de morte”, muitos pesquisadores recorrem a antigos dicionários, dicionários médicos especializados, a teses de Medicina do passado ou a especialistas na área. Com o cruzamento das informações, é possível se obter dados mais precisos sobre as condições de saúde e a mortalidade no período estudado.

Como se pode observar, são muitos os temas que podem ser estudados nas aulas de História com base nas fontes eclesiásticas. Da mesma forma que se ressaltou no caso de outras fontes, aqui também com o cruzamento de fontes o professor pode obter resultados satisfatórios sobre o período estudado.

1.3 PORQUE UTILIZAR FONTES HISTÓRICAS NAS AULAS DE HISTÓRIA: A