3.1 Os diplomas normativos internacionais de direitos humanos e a diversidade
3.1.1 Os documentos internacionais de direitos humanos
O primeiro desses documentos que garante o gozo de direitos mínimos é a DUDH, de 1948.
A DUDH reconhece a “[...] dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis”, proclama que todas as pessoas “nascem livres e iguais em dignidade e direitos” (art. I) e com capacidade para gozar os direitos e as liberdades da Declaração, “sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou
qualquer outra condição” (art. II). (ONU, 1948, grifo nosso).
A Declaração dispõe, ainda, sobre o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (art. III), com iguais direitos e deveres face à lei, merecendo proteção desta, inclusive contra qualquer incitaento à discriminação contra si (art. VII). Fica assegurada a proteção da lei a não sofrer interferências ou ataques à sua vida privada, na sua família, no seu lar, bem como ataques à sua honra e reputação (art. XII). (ONU, 1948).
A DUDH proclama, por fim, o direito de cada ser humano usufruir os direitos econômicos, sociais e culturais em atenção à sua dignidade e, ainda, o livre desenvolvimento da sua personalidade (art. XXII), de modo que seus direitos e liberdades possam ser realizados em sua plenitude (art. XXVIII). (ONU, 1948).
Dimitri Sales (2010, p. 932) ressalta que a Declaração de 1948 representa uma “nova perspectiva da diferença. [...] É a partir do desigual que se deve assegurar o respeito à sua integralidade. [...] [Trata-se de um] importante legado herdado da imediata experiência do pós-guerra, declarado universalmente: o primado pelo respeito à diversidade humana”.93
O “Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos” (PIDCP) (1966), por sua vez, estabelece que os Estados signatários se comprometem a respeitar e a garantir a todas as
93 O mesmo autor defende que a Declaração foi o passo inicial do processo de “afirmar o sujeito de direitos a
partir de sua concretude social, reconhecendo-o pela sua integralidade, não mais como uma categoria social abstrata, embora possuidora de direitos”. O documento desembocou em diplomas como a “Convenção Internacional sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial” (1969) e “Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra Mulher” (1994) (“Convenção de Belém do Pará”).
pessoas em seu território os direitos reconhecidos no Pacto, sem discriminação de qualquer tipo, seja por motivo de raça, cor, sexo, religião, opinião política ou outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou outra condição (art. 2º) (ONU, 1966). Em caso de violação de direitos e liberdades reconhecidos pelo Pacto, assegura-se que seus titulares possam dispor de recurso efetivo à autoridade judicial, administrativa ou legislativa competente para reparação e punição da mesma, mesmo em caso de a violência ter sido perpetrada por pessoas no exercício de funções oficiais (art. 2º, item 3, alíneas “a”, “b” e “c”). (ONU, 1966).
Em situações excepcionais que ameacem a existência do país, desde que assim sejam oficialmente declaradas, os compromissos do PDICP podem ser suspensos na estrita medida do necessário, respeitadas as demais obrigações impostas pelo Direito Internacional. Não se pode, sob nenhuma forma, tolerar discriminação por motivo de raça, cor, sexo, língua, religião ou origem social (art. 4º) (ONU, 1966). Ressalta-se que, assegurando a liberdade de crença e seu exercício, público ou privado, tal liberdade pode sofrer limitações previstas em lei, “[...] necessárias para proteger a segurança, a ordem, a saúde ou a moral pública ou os direitos e as liberdades das demais pessoas” (arts. 18, item 3, e 19, itens 1, 2 e 3, “a” e “b”). (ONU, 1966).
O PIDCP proíbe “qualquer apologia do ódio nacional, radical, racial ou religioso que constitua incitamento à discriminação, à hostilidade ou à violência” (art. 20) (ONU, 1966). O PIDCP proclama, ainda, o princípio da igualdade e o direito à igual proteção da lei, sem nenhum tipo de discriminação motivada por raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, situação econômica, nascimento ou qualquer outra situação, o que deverá ser vedada por lei (art. 26) (ONU, 1966).
É de se destacar que o Comitê de Direitos Econômicos, Sociais e Culturais editou dois importantes documentos que reforçam a tese aqui defendida: a “Observación General nº. 19-
El derecho a la seguridad social (artículo 9)”, que elenca a orientação sexual como motivo
proibido de discriminação (ONU, 2007, p. 10); e a “Observación General nº. 20 - La no
discriminación y los derechos económicos, sociales y culturales (artículo 2, párrafo 2 del Pacto Internacional de Derechos Económicos, Sociales y Culturales)” (ONU, 2008, p. 11,
tradução nossa), que aduz que a expressão “qualquer outra condição social” (art. 2.2 do PIDCP) abrange a orientação sexual, devendo os Estados partes “garantir que as preferências sexuais de uma pessoa não constituam um obstáculo” para a garantia e gozo dos direitos reconhecidos no Pacto, bem como reconhece ser a identidade de gênero um motivo de discriminação proibido.
(1993), que reafirmou o “compromisso solene de todos os Estados de promover o respeito universal e a observância e proteção de todos os direitos humanos e liberdades fundamentais de todas as pessoas”, além da natureza universal dos direitos humanos, cuja defesa e promoção constituem deveres primordiais dos Estados. (ONU, 1993).
A referida Declaração é incisiva ao determinar o respeito, sem nenhuma distinção, aos direitos humanos e liberdades fundamentais, todos eles universais, indivisíveis, interdependentes e inter-relacionados, devendo ser garantidos de forma justa e equitativa, em pé de igualdade e com mesma ênfase pela comunidade internacional (Capítulo I, item 05) (ONU, 1993). A prioridade da Declaração consiste em promover e proteger tais direitos e liberdades, incluindo-se aí, como tarefa urgente e prioritária, a eliminação ampla de “todas as formas de racismo e discriminação racial, de xenofobia e de intolerância associadas a esses comportamentos”, sem desconsiderar os Estados individualmente (Capítulo I, item 15). (ONU, 1993).
As minorias nacionais ou étnicas, religiosas e linguísticas, diz a Declaração, devem poder gozar, plena e efetivamente, de “todos os direitos humanos e liberdades fundamentais, garantidas a proteção contra discriminações de qualquer tipo e a plena igualdade perante a lei” (Capítulo I, item 19) (ONU, 1993). A expressão “grupos que se tenham tornado vulneráveis”, a exemplo dos trabalhadores migrantes, também pode ser estendida às pessoas LGBTI, que também são merecedoras de salvaguarda de todas as formas de discriminação e, igualmente, de um plus e maior efetividade na aplicação das normas relativas aos direitos humanos. Para tanto, os Estados têm por dever a adoção e manutenção de medidas (educacionais, de saúde, assistência social, dentre outras), assegurando-lhes a oportunidade de empoderamento na busca por uma solução de seus próprios problemas (Capítulo I, item 24). (ONU, 1993).
No capítulo II, subitem B, tópico 2, os dispositivos de 19 a 27 tratam especificamente do fenômeno do racismo, discriminação racial, xenofobia e outras formas de intolerância, onde, além de reforçar a isonomia e igual titularidade de direitos humanos, incumbiu a então Comissão dos Direitos do Homem de analisar os mecanismos de promoção e proteção de tais direitos e liberdades fundamentais das minorias (ONU, 1993). Tal Comissão, caso seja solicitada por algum Estado, deve prestar assistência com fins de prevenir ou resolver conflitos atuais ou potenciais envolvendo as mesmas. Outrossim, a Comissão deve agir de modo a propiciar a máxima participação das pessoas integrantes desses grupos em todos os aspectos da vida política, social, religiosa e cultural da sociedade dos países em que habitam. (ONU, 1993).
Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata”, foi realizada a Conferência de Durban, onde, ante o recrudescimento e persistência do racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância correlata, foram reafirmados os compromissos da Declaração de Viena: incentivo ao respeito aos direitos humanos e às liberdades fundamentais sem distinção de qualquer tipo, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem social e nacional, propriedade, nascimento ou de outra natureza. O racismo e a discriminação racial, assim como, analogamente, a xenofobia e a intolerância correlata, constituem graves violações de todos os direitos humanos e óbices ao pleno gozo desses direitos, representando um obstáculo às relações fraternas e pacíficas entre povos e nações, inclusive no plano interno.
Após ter sido suscitado pela delegação da Suécia na Conferência Mundial de Beijing (1995), o tema da orientação sexual somente foi retomado com a iniciativa do Brasil no processo preparatório para a Conferência de Durban. Apesar de ter contado com ampla participação da sociedade civil organizada, o Brasil conseguiu aprovar a inclusão da orientação sexual na “Declaração de Santiago”, documento da Conferência Regional das Américas (2000), realizada em Santiago, capital do Chile, etapa preparatória para a Conferência de Durban. Todavia, nesta o país, a ação não logrou êxito, pois não foi aprovada a proposta de incluir a orientação sexual no texto final da “Declaração de Plano e Ação da Conferência de Durban”, apesar do apoio de várias delegações, sobretudo as do continente europeu. (BRASIL, 2006, p. 12-13).
Em 2009, foi realizada uma revisão da Conferência de Durban, na qual foram avaliadas as conquistas obtidas e reiterado o compromisso de enfrentar o racismo e a discriminação racial, mas sem qualquer referência à orientação sexual, identidade e expressão de gênero94.