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GESTÃO DO CONHECIMENTO NAS ORGANIZAÇÕES

3.3.1 OS DOIS TIPOS DE CONHECIMENTO: TÁCITO E EXPLÍCITO

“O conhecimento não é estático, é dinâmico, difícil de ser obtido e ser mantido atualizado e deve ser perseguido como o Santo Graal”.

Nonaka & Takeuchi (1997) ressaltam uma preocupação quanto aos tipos de conhecimentos e às formas de interação necessárias para gerá-los e transmiti-los. Segundo esses autores, há dois tipos distintos de conhecimentos: o tácito e o explícito.

Os autores ressaltam que a distinção entre conhecimento explícito e conhecimento tácito é a chave para a compreensão das abordagens ocidental e japonesa ao conhecimento. O conhecimento explícito pode ser facilmente processado por um computador, transmitido eletronicamente e armazenado em bancos de dados. Entretanto, a natureza subjetiva e intuitiva do conhecimento tácito dificulta o seu processamento ou a sua transmissão por qualquer método sistemático ou lógico. Para que possa ser comunicado e compartilhado dentro da organização, o conhecimento tácito tem que ser convertido em palavras ou números que qualquer um possa compreender. É exatamente durante o tempo em que essa conversão ocorre, de tácito em explícito e, novamente em tácito, que o conhecimento organizacional é criado (Nonaka & Takeuchi, 1997).

Eles entendem que o conhecimento é basicamente tácito, isto é, algo altamente pessoal, está profundamente enraizado nas ações e experiências de um indivíduo, bem como em suas emoções, valores e ideais. É difícil de ser visto, o que dificulta sua transmissão e compartilhamento com os outros. Em outras palavras, podemos saber mais do que podemos dizer. O conhecimento tácito inclui elementos cognitivos e técnicos. Os elementos cognitivos, modelos mentais, modelos do mundo criados pelos seres humanos, estabelecendo e manipulando analogias em suas mentes, e os elementos técnicos incluem know-how concreto, técnicas e habilidades. Já o conhecimento explícito ou codificado, refere-se ao conhecimento transmissível em linguagem formal ou sistemática.

A identificação do conhecimento tácito por muitos autores é baseada no trabalho seminal de Michael Polanyi, The Tatic Dimension, publicado em 1966. Segundo esse autor, o conhecimento tácito pode ser expresso como uma capacidade de podermos saber mais do que podemos dizer.

Polanyi (1966) tende a definir o conhecimento tácito em termos de sua incomunicabilidade, mas esse ponto de vista não é consensual. Há também o ponto de vista que entende que tácito não significa conhecimento que não pode ser codificado, mas é melhor explicado como “conhecimento ainda não explicado” (Spender, 1996) e que, ao

aprofundar o conceito de conhecimento tácito, podemos identificar componentes tradicionalmente relegados na discussão na literatura de administração.

Para Nonaka & Takeuchi (1997):

“Embora os gerentes ocidentais estejam mais acostumados a lidar com o conhecimento explícito, o reconhecimento do conhecimento tácito e sua importância têm diversas implicações de suma relevância (...) dá origem a uma perspectiva totalmente diferente da organização – não a de uma máquina de processamento de informações, mas a de um organismo vivo”. “... começa-se a considerar a inovação de uma forma diferente (...). O compromisso pessoal dos funcionários e sua identificação com a organização e sua missão tornam-se indispensáveis (...). Criar novos conhecimentos significa, quase que literalmente, recriar a organização e todos dentro dela em um processo contínuo de auto-renovação organizacional e pessoal”.

As pesquisas de Nonaka & Takeuchi (1997) abriram novos caminhos para a compreensão da localização do conhecimento nas organizações e, por conseqüência, sobre a dinâmica de criação do conhecimento. Outros estudiosos adotaram abordagens diferentes, e novos termos foram criados para identificar e nomear o patrimônio de conhecimentos das organizações .

Stewart (1998) introduziu o conceito de “Capital Intelectual” como sendo a soma do conhecimento de todos em uma organização, o que lhe proporciona vantagem competitiva. Para ele, gerenciar o Capital Intelectual deve ser a prioridade número um de uma organização. O autor ressalta que o conhecimento sempre foi importante, citando que não é sem motivo que somos homo sapiens (o homem que pensa). Lembramos que Morin & Kern (1995) classificam o homem como homo sapiens demens (homem racional insensato), ser complexo e múltiplo. Para eles as possibilidades cerebrais do ser humano são fantásticas, não somente para o melhor como também para o pior: se temos possibilidade de desenvolver o planeta, temos também a possibilidade de destruí-lo.

Sveiby (1998) ressalta os vários significados do termo conhecimento, podendo ser: informação, conscientização, saber, cognição, sapiência, percepção, ciência, experiência, qualificação, discernimento, competência, habilidade prática, capacidade, aprendizado, sabedoria, certeza etc., cada uma destas definições dependendo do contexto em que o termo é aplicado. O autor defende que o conhecimento tem quatro características principais: 1) É em grande parte tácito; isto significa que é algo pessoal, formado dentro de

um contexto social e individual, ou seja, não é propriedade de uma organização ou de uma coletividade. Embora pessoal, o conhecimento é também construído de forma social. O conhecimento transferido socialmente se confunde com a experiência que o indivíduo tem da realidade (Polanyi, 1983).

2) É orientado para a ação; isto significa que estamos constantemente gerando novos conhecimentos por meio da análise das impressões sensoriais que recebemos e perdendo os antigos. Essa qualidade dinâmica do conhecimento é refletida em verbos como aprender, esquecer, lembrar e compreender. A esse processo de aquisição e geração de conhecimento Polanyi (1983) dá o nome de “processo de saber”. A associação de conhecimentos constitui uma habilidade pessoal inalienável e intransferível, cada pessoa devendo construí-la individualmente.

3) É sustentado por regras. O cérebro cria, ao longo do tempo, inúmeros padrões que agem como regras inconscientes de procedimentos para lidar com todo tipo de situação. Essas regras permitem que o ser humano aja com rapidez e eficácia sem ter de parar para pensar no que está fazendo e desempenham um papel vital na aquisição e aperfeiçoamento de habilidades, estando atreladas ao resultado das ações. O conhecimento das regras funciona também como um conhecimento tácito.

4) Está em constante mutação, mas quando explicitado pela linguagem, o conhecimento se torna estático. A linguagem por si só não é suficiente para transformar o conhecimento tácito em explícito. Sempre se sabe mais do que se

consegue expressar, e por isto o resultado é que o que se expressa é menos do que o que se sabe de forma tácita.

Os economistas Brian Arthur e Paul Romer, citados por Sveiby, ressaltam algumas diferenças importantes entre conhecimento e capital, que, segundo eles, serão responsáveis pela transformação da economia mundial nos próximos anos:

1) Conhecimento compartilhado é conhecimento dobrado. O melhor jeito de multiplicar o conhecimento é compartilhá-lo. O conhecimento cresce quando compartilhado e quando usado, ao contrário do capital, que, quando compartilhado é dividido.

2) O conhecimento se deteriora quando não é usado. As habilidades, como por exemplo a fluência em uma determinada língua, se deterioram quando não são usadas. Ao contrário, patrimônios tangíveis, como o carro, desvalorizam-se quando são usados.

De tudo o que acima se expôs, pode-se concluir que vários autores têm se dedicado à análise dos termos informação e conhecimento, sem haverem, no entanto, atingido um conceito único para cada termo.

No presente trabalho, utilizar-se-ão os termos “informação” e “conhecimento” em consonância com as definições propostas por Nonaka & Takeuchi (1997), a saber:

1) A informação é um meio ou um material necessário para extrair e construir o conhecimento.

2) O conhecimento apresenta-se em dois tipos, isto é, o explícito pode ser articulado na linguagem verbal e portanto transmitido facilmente entre os indivíduos. O tácito é o conhecimento pessoal incorporado à experiência individual, difícil de ser articulado na linguagem formal.

O conhecimento existente na organização difere em suas dimensões, e essas diferenças devem refletir-se no valor e na utilidade estratégica desse conhecimento.

Entender os elementos constitutivos do conhecimento é a base para se entender uma classificação do conhecimento da organização. Tentativas de resolver problemas práticos freqüentemente geram relações entre indivíduos que podem proporcionar informação útil. A troca e desenvolvimento de informação dentro dessas comunidades em amadurecimento facilitam a criação de conhecimento, estabelecendo uma relação entre as dimensões rotineiras do trabalho do dia-a-dia e uma aprendizagem e inovação ativas (Nonaka & Takeuchi, 1997). Essas comunidades representam, portanto, um papel-chave do processo de socialização apresentado por Nonaka & Takeuchi (1997), onde conhecimento tácito entre indivíduos é integrado, passo importante para o desenvolvimento de conhecimento.

Nesse sentido, no próximo item faz-se necessário abordar os processos de criação, transformação e circulação do conhecimento nas organizações.