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Os editores: Monteiro Lobato e Octalles Ferreira

CAPÍTULO 3: A COMPANHIA EDITORA NACIONAL E A LITERATURA

3.2 Os editores: Monteiro Lobato e Octalles Ferreira

A produção literária de Viriato Corrêa dá-se praticamente a partir dos anos 20 do século passado, época de conturbações sociais, políticas e culturais no País. Essas mudanças inseriram-se no contexto de crise da Primeira República (1889-1930), marcada por revoltas armadas, campanhas presidenciais tumultuadas, em meio às reivindicações de novos atores sociais que apareciam na cena política nacional.

A incipiente industrialização, como decorrência dos efeitos da 1ª Guerra Mundial fez surgir uma classe operária e uma burguesia empresarial; as mulheres passaram a reivindicar maior participação na sociedade, através do direito ao voto e do acesso às instâncias de poder;

jovens militares – os tenentes – contestavam o modelo político vigente, que consideravam obsoleto e viciado, sobretudo por ocasião das eleições, com denúncias de fraudes e corrupção; intelectuais modernistas pretendiam uma nova estética cultural genuinamente nacional, cujo ápice se deu no emblemático ano de 192282 – em meio às comemorações do centenário de nossa emancipação política.

Essas manifestações também se fizeram presentes no campo educacional. Em 1924, um grupo de intelectuais publicou, no Anuário do Brasil, um estudo colegiado feito em torno das questões que afligiam a República83. Uma das questões mais críticas foi tratada pelo educador pernambucano Carneiro Leão (1887-1966) no seu ensaio “Os deveres das novas gerações brasileiras”. Dizia ele:

Acredito que, nesta época de civilização de base científica, onde tudo se procura fazer pela cultura, a educação é a maior necessidade do país. [...]

É mister convençam-se todos, no Brasil, de que as questões de educação não são simplesmente pedagógicas, porém, nacionais, na mais alta expressão do termo. Interessam ao futuro do país, ao desenvolvimento de suas forças vivas. [...]

A questão primordial é convencermo-nos de que o nosso problema máximo é a educação integral, desde a formação do individuo físico – sadio, inteligente, capaz – até a organização cívica, política e social, passando pela preparação profissional e técnica, literária e científica (LEÃO, 1990, p. 16; p. 20, grifo nosso).

Assim, Carneiro Leão imputava às novas gerações de brasileiros o dever máximo de cuidar da educação do País, uma vez que, até o presente momento, o governo republicano não fora capaz de melhorar a situação educacional da Nação cujos cidadãos, em sua maioria, não tinham acesso à instrução formal.

Conforme acentua Jorge Nagle (1983), desde as décadas iniciais da República já havia um clima de entusiasmo generalizado em torno da educação, pois muitos intelectuais viam-na como a solução para os graves problemas sociais brasileiros, acentuados, principalmente, pelos

82 O ano de 1922 é bastante emblemático para se entender a crise por que passava o País. Nele ocorreram

importantes fatos históricos: Semana de Arte Moderna; Fundação do Partido Comunista; Revolta Tenentista dos 18 do Forte de Copacabana; Exposição Universal comemorativa do centenário da Independência do Brasil (ver SANDES, Noé Freire. A invenção da nação: entre a monarquia e a república. Goiânia: Editora UFG, 2000).

83

Esse estudo foi resultado de um “inquérito por escritores da geração nascida com a República” (Anuário do Brasil. RJ: 1924), com o título À Margem da História da República, organizado por Vicente Licínio Cardoso. Dele participaram expressivos nomes da intelligentsia nacional: A. Carneiro Leão, Celso Vieira, Gilberto Amado, Jonathas Serrano, José Antonio Nogueira, Nuno Pinheiro, Oliveira Vianna, Pontes de Miranda, Ronald de Carvalho, Tasso da Silveira, Tristão de Athayde e Vicente Licínio Cardoso.

alarmantes índices de analfabetismo, que atingia cerca de 80% da população do País. E, já que a primeira constituição republicana estabelecia o direito de voto apenas aos alfabetizados, isso colocava outro problema para a recente República do Brasil, em que apenas 20% de seus habitantes estavam aptos para exercer o direito de cidadania política (CARVALHO, 2001).

Em função disso, “os anos de 1920 e 1930 foram marcados por tentativas de reformar a escola primária, em grande medida lideradas por um grupo de educadores e intelectuais pertencentes ao movimento ‘escolanovista’ no Brasil” (OLIVEIRA, 2006, p. 28). Segundo esses intelectuais, a regeneração da Nação se daria pela escola primária universalizada a todos. Era preciso diminuir o analfabetismo e garantir a escolarização a amplas parcelas da população. Só assim, o País ingressaria na tão almejada modernidade (HERSCHANN & PEREIRA, 1994; DE LORENZO & COSTA, 1997).

Nesse sentido, reformas educacionais foram implementadas em alguns estados brasileiros por renomados educadores: em São Paulo (Sampaio Dória, 1920); Ceará (Lourenço Filho, 1922); Bahia (Anísio Teixeira, 1924); Minas Gerais (Francisco Campos, 1926) e Distrito Federal (Fernando de Azevedo, entre 1927 e 1930). Vale destacar também a fundação, em 1924, da Associação Brasileira de Educação (ABE), que desempenhou a função de institucionalizar a discussão dos problemas da escolarização, mediante a realização das Conferências Nacionais de Educação (CARVALHO, 1998).

Na verdade, o País e, principalmente, o ambiente intelectual brasileiro, impregnavam- se, então, de sentimentos nacionalistas e foi assim que os anos 20 do século passado assistiram também à modernização do parque editorial, caracterizado pelas ações empreendedoras do paulista Monteiro Lobato (1882-1948).

A primeira experiência editorial de Lobato deu-se em 1919, quando fundou a empresa “Monteiro Lobato & Cia”. Foi responsável pelo lançamento de autores novos no reduzido mercado editorial nacional, a exemplo de Ribeiro Couto, Paulo Setúbal, Oliveira Viana, entre outros. Ele mesmo se proclama um “editor revolucionário”, que abriu as portas para gente nova, uma vez que os velhos editores só queriam publicar os autores consagrados. Dizia: “Nada de velharias, medalhões, nada de acadêmicos com farda de general de opereta do tempo de Luís XIV, armado daquela espadinha de cortar-papel. Gente nova, de paletó saco, humildade nas suas pretensões, mas gente nova” (LOBATO apud HALLEWELL, 1985, p. 246).

Como editor, Monteiro Lobato preocupava-se com o mercado livreiro e o conseqüente acesso da população ao livro e fazia críticas a uma certa visão romântica oitocentista do livro: objeto sacralizado, cujo acesso estava reservado à elite. Em 1918, montou uma inovadora estratégia de divulgação, ao escrever carta dirigida aos comerciantes de bancas de jornais, papelarias, farmácias e armazéns de todo o território nacional, com o intuito de aumentar os pontos de venda, restritos àquela época às livrarias localizadas geralmente nas capitais. Sua carta dizia:

Vossa Senhoria tem o seu negócio montado, e quanto mais coisa vender, maior será o lucro. Quer vender também uma coisa chamada ‘livros’? Vossa Senhoria não precisa inteirar-se do que essa coisa é. Trata-se de um artigo comercial como qualquer outro: batata, querosene ou bacalhau. É uma mercadoria que não precisa examinar nem saber se é boa nem vir a esta escolher. O conteúdo não interessa a V.S., e sim ao seu cliente, o qual dela tomará conhecimento através de nossas explicações nos catálogos, prefácios, etc. E, como V.S. receberá esse artigo em consignação, não perderá coisa alguma no que propomos. Se vender os tais livros, terá uma comissão de 30 p.c.; se não vendê-los, no-los devolverá pelo Correio, com o porte por nossa conta. Responda se topa ou não topa (LOBATO apud HALLEWELL, 1985, p. 245).

Mas Lobato, apesar dessas inovações, continuava a dar importância ao trabalho do livreiro, pois via nele a figura de um difusor, sobretudo em um país de dimensões continentais como o nosso. Queria que esse produto chegasse às mãos de um maior número de brasileiros.

Entre os mais humildes comércios do mundo está o do livreiro. Embora sua mercadoria seja a base da civilização, pois que é nela que se fixa a experiência humana, o livro não interessa ao nosso estômago nem a nossa vaidade. Não é, portanto, compulsoriamente adquirido. – O pão diz ao homem: ou me compras ou morres de fome; – O batom diz à mulher: ou me compras ou te acharão feia. E ambos são ouvidos. Mas se o livro alega que sem ele a ignorância se perpetua, os ignorantes dão de ombros, porque é próprio da ignorância sentir-se feliz em si mesma, como o porco com a lama. E, pois o livreiro vende o artigo mais difícil de vender-se.

Qualquer outro lhe daria maiores lucros; ele o sabe e heroicamente permanece livreiro. E é graças a esta generosa abnegação que a árvore da cultura vai aos poucos aprofundando as suas raízes e dilatando a sua fronde. Suprimam-se o livreiro e estará morto o livro – e com a morte do livro retrocederemos à idade da pedra, transfeitos em tapuias comedores de bichos de pau podre. A civilização vê no livreiro o abnegado zelador da lâmpada em que arde, perpetua, a trêmula chamazinha da cultura.

Porém, apesar de sua disposição, uma série de fatores84 levou Monteiro Lobato a pedir falência em 1925. Mas ele persistiu na sua carreira de editor e, juntamente com o amigo e comerciante Octalles Marcondes Ferreira, fundou a Companhia Editora Nacional – CEN (HALLEWELL, 1985)85. Ao lado da Livraria Francisco Alves e Melhoramentos, editoras já reconhecidas no mercado, a CEN notabilizou-se, principalmente, pela edição de livros escolares e infanto-juvenis.

Para alguns estudiosos (HALLEWELL, 1985; TRAVASSOS, 1964), Monteiro Lobato é considerado o verdadeiro fundador da moderna editoração no Brasil.

Toda essa popularidade e valorização do livro de hoje se deve a Monteiro Lobato, e uma síntese histórica do livro no Brasil pode ser assim enunciada: D. João VI criou a Imprensa Nacional. Monteiro Lobato criou o livro no Brasil. O mais foi Idade Média (TRAVASSOS, 1978, p. 177).

O próprio Viriato Corrêa compartilhou dessa posição acerca do papel pioneiro e empreendedor de Lobato na indústria editorial brasileira, ao ponto de considerá-lo o “bandeirante do livro”:

Monteiro Lobato não realizou apenas uma obra literária que é das mais altas do Brasil. Não foi apenas o contista maravilhoso, o ensaísta fascinante, o homem de luta que toda a vida se bateu pelo aproveitamento das riquezas do país. Não foi apenas o maior dos escritores de crianças que já tivemos em todos os tempos. [...] Mas Monteiro Lobato tem outra obra que, sozinha, lhe daria renome imperecível. Ele foi no Brasil o bandeirante do livro.

[...]

Em cada paulista, já isto foi dito por muita gente, há sempre o potencial de um bandeirante. Não há bandeirante sem largos horizontes; sem visão do futuro não há bandeirismo. O amanhã venturoso sempre valeu mais para o paulista do que a atualidade risonha e tranqüila. A fatalidade de abrir caminhos novos os filhos de São Paulo desde os velhos tempos de Antonio Raposo e de Fernão Dias.

Monteiro Lobato surgiu para fazer o bandeirismo do livro com todas as qualidades dos seus antepassados [...]

84 Entre os fatores que contribuíram para o pedido de falência da Monteiro Lobato & Cia. estão o levante

tenentista de 1924, que parou a cidade de São Paulo por um mês inteiro; a seca que afligiu o estado, comprometendo o fornecimento de energia elétrica, e o fato de Lobato não ter podido honrar seus compromissos financeiros assumidos junto aos bancos para compra de máquinas mais modernas para sua editora (AZEVEDO, CAMARGOS & SACCHETTA, 1997; LAJOLO, 2000).

85

O primeiro livro publicado pela CEN, com uma tiragem inicial de três mil exemplares, foi o relato do náufrago alemão Hans Staden que, em 1550, foi aprisionado pelos índios tupinambás – Meu cativeiro entre os selvagens

do Brasil. Posteriormente, Lobato adaptou essa obra para a série Literatura Infantil da Biblioteca Pedagógica Brasileira, com o título As Aventuras de Hans Staden (vol. 5) (GANDRA, 2005).

O bandeirante de outrora desvendou terras novas, rincões longínquos de que ninguém tinha notícia. Lobato descobria mercados novos, em lugares remotos, que todo mundo imaginava infrutíferos [...] [Ele] havia alargado as fronteiras de nossa cultura como o bandeirante antigo alargava as nossas fronteiras geográficas (CORRÊA, 1948, p. 369-71, grifo nosso)86.

Merece registro, também, o fato de que, numa época em que não havia legislação consolidada que garantisse os direitos autorais dos escritores, Lobato manteve com eles relação cordial, através do pagamento correto dos exemplares vendidos. Ao lado disso, esmerou-se no trabalho gráfico-editorial, produzindo obras bem acabadas, com capas ilustradas em cores mais vibrantes, clareza de impressão e inovação nos formatos dos livros87.

Há, no entanto, quem conteste o pioneirismo e a importância de Lobato na mudança do aspecto gráfico-visual do livro brasileiro:

[...] a atuação de Monteiro Lobato foi decisiva sim na adoção da capa ilustrada como prática comercial corrente e, por conseguinte, na sofisticação da programação visual dos livros brasileiros. Porém, não obstante sua grande importância como um dos principais modernizadores do meio editorial no Brasil, é um erro atribuir tais mudanças apenas à sua iniciativa e, pior ainda, ignorar o que foi feito à mesma época por outras editoras (CARDOSO, 2005, p. 168).

Aníbal Bragança também relativiza a atuação de Monteiro Lobato no contexto da indústria editorial brasileira, ao mostrar o papel pioneiro de Francisco Alves na edição de livros escolares, desde 1854. Ele considera que há

certo ufanismo paulista, que encontrou em Monteiro Lobato um suposto “ponto zero” da nossa indústria editorial. Grande escritor, rica personalidade, editor arrojado e inovador, Monteiro Lobato a isso aliou grande habilidade para promover suas idéias, seus produtos e a si próprio, contribuindo assim para ofuscar o trabalho dos que o precederam no campo editorial (BRAGANÇA, 1999, p. 455).

86

CORRÊA, Viriato. Fala de Viriato Corrêa, na sessão póstuma em homenagem a Monteiro Lobato. In: Revista

da Academia Brasileira de Letras. Anais de 1948 (julho a dezembro). Rio de Janeiro: Edições ABL, Ano 47,

vol. 76.

87

Segundo Hallewell (1985), Lobato adotou, em algumas edições na Monteiro Lobato & Cia, um formato menor, semelhante a um folheto de literatura de cordel (16,5X12,0cm), com o objetivo de reduzir o preço de capa do livro.

Para Bragança88, o enaltecimento de Lobato como fundador da indústria editorial brasileira insere-se em um contexto social de luta de São Paulo pela hegemonia cultural do País, cujo marco histórico foi a Semana de Arte Moderna (1922). São Paulo pretendia, também, impor-se ao Rio de Janeiro, então capital do Brasil, no plano econômico e social.

Mesmo levando-se em consideração tais aspectos, não se pode esquecer que Lobato teve também um papel destacado na luta pela nacionalização da indústria editorial brasileira: lutou pela isenção das taxas alfandegárias para a importação de papel para livro (KOSHIYAMA, 2006) e foi, também, responsável pelo lançamento de autores novos no reduzido mercado editorial brasileiro, entre eles Viriato Corrêa. É o próprio Viriato que assim se reporta: “Sou cria da casa, desde os tempos de Monteiro Lobato, que foi quem me levou para lá, editando ‘Histórias da nossa História’, em 1921.”89 (O JORNAL, 1960).

No que se refere à literatura infanto-juvenil, ainda pesava uma crítica quanto à qualidade dos livros. Viriato Corrêa, ao relembrar os tempos de escola no interior do Maranhão, fez a seguinte denúncia:

O primeiro livro que, menino no curso primário, li fora das minhas lições, foi ‘Desastre de Sofia’, da Condessa de Ségur. Li-o tantas e tantas vezes que quase o decorei. E tomei paixão pela leitura. Devorei contos de fadas, tudo quanto era história que me caia nas mãos. E desordenada e gulosamente pus-me a devorar livros. E o pior é que eram livros ruins (CONDE, 1961).

Monteiro Lobato fez questão de imprimir um novo formato e concepção na publicação de livros infantis e de leitura90, rompendo com a edição de livros que, segundo ele, não interessavam à criança brasileira pelo seu conteúdo, abordagem e apresentação gráfica. Neste sentido, Lobato aproximou-se do ideário escolanovista, ao retratar o universo infantil de

88 Outro erro em relação à história editorial do País é colocar Francisco Alves como editor estrangeiro ao lado de

Garnier e Laemmert. Embora tenha nascido em Portugal, Alves instalou-se no Rio de Janeiro e obteve cidadania

brasileira. Aqui desenvolveu seu trabalho de livreiro e editor, tendo sido responsável pela edição de importantes livros didáticos. Ao morrer, deixou em testamento sua fortuna para a ABL, o que bem demonstra sua dedicação e amor às coisas do Brasil (BRAGANÇA, 2006).

89

Viriato Corrêa passou a limpo a História do Brasil: fórmula simples. “O Jornal”, Rio de Janeiro, 17.12.1960.

90

Para reforçar o papel de inovação da literatura infanto-juvenil brasileira atribuído a Monteiro Lobato, sua data natalícia – 18 de abril – é consagrada ao “Dia Nacional do Livro Infantil”, através da Lei nº 10.402, de 8 de janeiro de 2002 (ORIÁ, 2007).

forma diferenciada e colocar os interesses da criança como objeto de preocupação dos educadores.

Figura 26 - Divulgação dos livros infantis de Monteiro

Lobato e Viriato Corrêa, na contracapa de outros livros escolares.

Fonte: Acervo CEN.

No período em que esteve à frente da editora Monteiro Lobato & Cia. e, posteriormente, da Companhia Editora Nacional, Lobato foi responsável pelo lançamento de, no mínimo, cinqüenta novos escritores, até então desconhecidos do público. Esse fato, por si só, já o consagra como um grande editor, se não pioneiro, pelo menos moderno e sintonizado com as questões de seu tempo.

A reunião de Monteiro Lobato e Octalles Ferreira91 em um mesmo projeto editorial foi assim retratada pela historiadora Eliana Dutra:

91

Enquanto Monteiro Lobato era o idealizador, Octalles Ferreira era quem, de fato, realizava as tarefas editoriais e comerciais: “Possuindo um cérebro privilegiado, aliado a uma extraordinária capacidade executiva, tornou a sua empresa na maior organização editorial do país, sendo ele o editor de melhor visão que o Brasil produziu até esta data [...]. O nome de Octalles Marcondes Ferreira não aparece aqui incidentalmente, mas sim, porque foi ele a alma executora, não só da Companhia Monteiro Lobato como da Companhia Editora Nacional.” (TRAVASSOS, 1964, p. 99-100).

A criação da Companhia Editora Nacional não apenas vai se beneficiar dessa inovadora experiência acumulada pelos dois sócios no empreendimento anterior, como vai ser herdeira de um projeto, de inspiração iluminista, acalentado por setores da intelectualidade republicana brasileira dos anos 10 e 20, dos quais Lobato foi parte integrante, e que convencidos de que o país além de pouco alfabetizado era “alérgico aos livros”, contavam em civilizar a nação através de um poder pedagógico e transformador dos livros.

Para “inundar o país de livros” como queria Monteiro Lobato, a Companhia Editora Nacional vai se valer de uma fórmula editorial e grande sucesso que marcou a paisagem oitocentista francesa, expandindo-se da França para o mundo: as coleções (DUTRA, 2004, p. 6).

Entre as coleções da Companhia Editora Nacional avulta, pelas suas características e abrangência das obras publicadas, a Biblioteca Pedagógica Brasileira, dirigida por Fernando de Azevedo. E, a fim de atender segmentos específicos da população, a Companhia Editora Nacional publicou outras importantes coleções, tais como: Biblioteca das Moças, considerado um sucesso absoluto de vendagem e leitura da geração de mulheres até os anos 1960 e a Coleção Paratodos:

Na coleção Paratodos, a Nacional editava traduções de romances, romances históricos, policiais e de ficção científica, trazendo para os leitores muitos autores consagrados da literatura universal e traduzidos por importantes brasileiros. Indicados para o leitor como ‘literatura sã’, as obras da coleção Paratodos ganhavam capas coloridas e modernas para a época, inovando na apresentação dos livros [...] (GANDRA, 2005, p. 75).

Figura 27 – Exemplares do Boletim NOVIDADES da CEN. Fonte: Acervo CEN.