Capítulo 1: Demografia e Urbe
1.1. Os efectivos populacionais no século XVII:
A macro reconstituição demográfica do Portugal moderno, e em particular no que respeita ao século XVII, assume-se como uma tarefa de difícil concretização e a fiabilidade das conclusões a que possamos chegar apresenta-se frágil. O grande vazio que se regista, do ponto de vista informativo, não permite mais do que meras estimativas dos efectivos1. Ainda assim, e devido à importância de que o assunto se reveste, o mesmo tem constituído objecto de reflexão por parte dos nossos historiadores, ao longo das últimas décadas, o que permitiu avançar alguns dados, não sem que se registem entre as análises produzidas algumas discrepâncias. Assim, enquanto alguns autores situam os efectivos populacionais do reino, no início da década de 40 do século XVII, entre 1.3000.000 e 1.500.000 habitantes, após um declínio populacional que parece ter existido durante o período filipino2, outros defendem que a população do reino, no momento em que eclodiu a Restauração, rondaria os 1.300.000 habitantes3. Ambas as posições apontam, pois, para uma certa estagnação da população portuguesa, uma vez que consideram não se terem registado avanços em termos de efectivos populacionais entre o século XVI - mais precisamente
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As dificuldades sentidas na abordagem deste tema encontram-se bem patentes no capítulo, da autoria de Vicente Serrão, intitulado “O quadro humano”, que integra História de Portugal, dir. José Mattoso, vol. IV, Lisboa, Círculo de Leitores, 1993, pp. 49-69. O Autor dedica vinte páginas à reconstituição demográfica do Portugal moderno, entre 1620 e 1807, mas apenas três se debruçam sobre os efectivos populacionais no século XVII.
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Cf. José Lúcio de Azevedo “A população” in História de Portugal, dirigida por Damião Peres, vol. V, Barcelos, Portucalense Editora, 1933, pp. 301-306.
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Cf. Joaquim Veríssimo Serrão, “Uma estimativa da população portuguesa em 1640”, separata de Memórias da Academia das Ciências, Lisboa, vol. XVI, 1975, pp. 217.
O autor fundamenta a sua opinião a partir da descrição contida numa fonte existente na Biblioteca Nacional de Paris que teve por base uma versão da Población General de España, de Rodrigo Mendez Silva, publicada em Madrid, em 1645. A descrição das terras de Portugal foi composta, ou os seus elementos colhidos, entre 1637-1640, a partir de uma grande diversidade de outras fontes (livros, relações, notícias, etc.). O Autor admite como possível que a elaboração da obra de Mendez Silva e, por conseguinte, o manuscrito de Paris, tivesse tido por base as listas mandadas reunir pela duquesa de Mântua, entre 1636-39, com vista à avaliação dos homens aptos para o serviço militar e reconhece não estarmos perante um censo da população, mas apenas de uma recolha de elementos para um cálculo nesse sentido.
entre a altura em que foi realizado o primeiro numeramento (1527-1532)4 - e o momento em que terminou o domínio filipino.
Contrariando esta posição, embora reconhecendo, para o século XVII, os problemas suscitados pelos cômputos existentes5, é de supor que a população do reino, durante aquele período, tenha, efectivamente, sofrido um aumento. Socorrendo- se dos dados recolhidos na Corografia portugueza e descripçam topografica do
famoso reyno de Portugal... do P.e António Carvalho da Costa, que fornecem informações demográficas detalhadas e cuja elaboração deve datar dos finais do século XVII, António M. Hespanha avançou com um cálculo relativo aos efectivos humanos em finais de Seiscentos apontando, para aquela época, para 1.850.000 habitantes (550.000 mil fogos utilizando um multiplicador habitante/fogo de 3,3). Assim, entre 1527 e 1700 a população portuguesa teria conhecido um acréscimo global de 31%6.
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O numeramento de 1527, que já tinha merecido a atenção de Júlia Galego, foi, mais recentemente, objecto de uma análise aprofundada por parte de João José Alves Dias. Cf. Júlia Galego, O numeramento de 1527-1532: tratamento cartográfico, Lisboa, Centro de Estudos Geográficos, 1986 e João José Alves Dias, Gentes e Espaços (em torno da população portuguesa na primeira metade do século XVI), vol. I, Lisboa, FCG/JNICT, 1996.
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Cf. A. M. Hespanha, As vésperas do Leviathan: Instituições e poder político: Portugal. Séc. XVII, ed. A. M. Hespanha, 1986, p. 92. O Autor aponta como principais problemas desses cômputos os seguintes factores: não se basearem, usualmente, em fontes directas, fundando-se, antes, em extrapolações, apontando como exemplos os arrolamentos militares de 1636 e de 1641; quando recorrem a fontes directas partem de dados em relação aos quais não se encontra garantida a homogeneidade dos padrões de medida nem o processo de cálculo; finalmente, fazem eco da ideia corrente entre certos autores dos séculos XVI e XVII, de que a evolução demográfica durante esse período teria registado uma estagnação, se não mesmo um recuo.
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Ibidem, p. 92-95, p. 92, n 20 e p. 101-103. Realçando o valor que a Corografia... pode ter para um cálculo desse género, devido ao facto de apresentar um carácter global presumindo-se, assim, que exista uma uniformidade de critérios de contagem, o Autor chama, precisamente, a atenção para o perigo que constitui a utilização da obra de diversos autores numa tentativa de procurar colmatar as lacunas que ora uns ora outros revelam. Isto porque, para além do conceito de “fogo” nem sempre ser o mesmo, o espaço sobre o qual a contagem recai apresenta-se, igualmente, diferenciado. Coloca, deste modo, algumas dúvidas quanto à metodologia utilizada por Joaquim Veríssimo Serrão, “Uma estimativa da população portuguesa em 1640” in Op. cit., p. 213-303, que recorre a outras fontes disponíveis - como é o caso de as Viagens, de Severim de Faria realizadas em 1604, 1609 e 1625, o Livro das Grandezas de Lisboa, de Fr. Nicolau de Oliveira, de 1620, que apresenta uma descrição de Lisboa e seu termo ou o Catálogo e História dos Bispos do Porto, de D. Rodrigo da Cunha, com indicações referentes a 1623 - para colmatar as lacunas da Población General de España, que reconhece deixar de fora muitas terras onde existia comprovada vida regional. Aliás, António de Oliveira já havia chamado a atenção para os problemas que podem advir da utilização desta metodologia na sua recensão crítica ao citado trabalho de Joaquim Veríssimo Serrão, publicada na Revista Portuguesa de História, Coimbra, tomo XV, 1975, pp. 501-505.
Porém, no momento em que se iniciou a dinastia de Bragança é bem possível que a população do reino rondasse os 2.000.000 de habitantes7. A partir desse momento qualquer estimativa sobre os efectivos populacionais é uma tarefa quase impossível8.
Do pouco que, afinal, conhecemos sobre a população do reino neste período talvez possamos concluir que a partir de 1580 e após um crescimento muito intenso, assistiu-se a uma desaceleração. Por volta de 1620 ter-se-á atingido o máximo teórico de 475 mil fogos. Entre esta data e cerca de 1660 a população sofreu uma estagnação, se não mesmo recessão, com o seu ponto mais baixo, precisamente, em 1640 - 466 mil fogos -, registando-se, a partir daí, um crescimento mais modesto9.
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António de Oliveira, na recensão ao já referido trabalho de Joaquim Veríssimo Serrão, pp. 494-505, embora admita ser possível aceitar um aumento da população entre o numeramento joanino e 1640, coloca sérias dúvidas à credibilidade dos dados apresentados por Mendez Silva, questionando-se sobre o eventual acesso deste às referidas listas mandadas elaborar pela duquesa de Mântua. É, ainda, da opinião que o que Mendez da Silva consultou seriam listas de possíveis soldados e, por conseguinte, para obter o total de “vizinhos” que atribui às localidades por ele mencionadas, teria tido que multiplicar o número de soldados por um coeficiente, qualquer que ele fosse. Ora tal coeficiente é por nós desconhecido. António de Oliveira coloca, inclusive, em dúvida que a estimativa da população daqui resultante tivesse tido por base as listas de soldados, tanto mais que uma das referências que aparece com grande frequência – número de paróquias – não podia ser obtida através das referidas listas. Além disso, Mendez Silva não procedeu a uma cobertura total do país e é omisso relativamente ao facto de os números obtidos dizerem respeito, apenas, ao núcleo urbano ou ao seu termo, embora alguns dos números fornecidos apresentem uma ordem de grandeza difícil de atribuir apenas ao núcleo urbano.
António de Oliveira, na já citada recensão e tendo como ponto de partida de análise a mesma fonte utilizada por Joaquim Veríssimo Serrão em “Uma estimativa da população portuguesa em 1640”, aponta para cerca de 2.000.000 habitantes, o que o aproxima dos valores apresentados por Claudio Chaby, Synopse dos decretos remettidos ao extincto Conselho de Guerra, vol. I, Lisboa, [s.l.], 1869, que utiliza os dados mencionados num decreto datado de 10 de Julho de 1642.
Teresa Rodrigues recorre, igualmente, a Claudio Chaby, quando aponta efectivos populacionais para o início da década de quarenta, mas sublinha o facto de os valores mencionados deverem ser entendidos como meras ordens de grandeza. Cf. “As estruturas populacionais” in História de Portugal, dir. José Mattoso, vol. III, p. 202.
Magalhães Godinho aponta para menos de 2 milhões de habitantes em 1640; enquanto Oliveira Marques fixa precisamente este como o número de efectivos populacionais à data da Restauração. Cf. Vitorino Magalhães Godinho, Estrutura da Antiga Sociedade Portuguesa, 3ª ed., Lisboa, Arcádia, 1977, pp. 19-20 e A .H. de Oliveira Marques, História de Portugal, 8ª ed., vol. I, Lisboa, Palas Editores, 1978, p. 371, respectivamente.
Romero Magalhães, porém, ao comparar os efectivos populacionais castelhanos com os portugueses, não deixa de colocar sérias dúvidas relativamente aos 2 milhões apontados neste último caso. Cf. O Algarve Económico (1600-1773), Lisboa, Estampa, 1988, p. 23.
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Como afirmou Romero Magalhães “Depois de 1640 não há dados – nem para habilidades.” [Ibidem, p. 24].
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Cf. José Vicente Serrão, “O quadro humano”, in Op. cit, p. 51.
Teresa Rodrigues aponta, por outro lado, no período entre 1600-1625, para uma estagnação relativa dos efectivos populacionais, independentemente da diversidade regional. Na opinião da Autora, quando o primeiro quartel do século XVII terminou, os efectivos de 1527 haviam sido
Contudo, toda e qualquer estimativa que queiramos levar a cabo, relativamente os efectivos humanos para o século XVII, depara, para além da falta de fontes que a permita alicerçar de forma sólida, com outro problema: a palavra habitante nunca é utilizada recorrendo-se sempre à palavra “fogo”, “morador” ou “vizinho” (expressões equivalentes, em princípio, a agregados) encontrando-se, assim, criadas grandes dificuldades para estabelecer um coeficiente habitantes /fogo10.