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3.1 O recurso dos diários

3.1.2 Os efeitos do phármakon

Segundo Jacques Derrida, em A farmácia de Platão:

[...] uma só e mesma desconfiança envolve, num mesmo gesto, o livro e a droga, a escritura e a eficácia oculta, ambígua, dada ao empirismo e ao acaso, operando segundo as vias do mágico e não segundo as leis da necessidade. O livro, o saber morto e rígido encerrado nos biblía, as histórias acumuladas, as nomenclaturas, as receitas e as fórmulas aprendidas de cor, tudo isso é tão estranho ao saber vivo e à dialética quanto o phármakon é estranho à ciência médica. (1991, p. 16-17)

A obra é, portanto, essa ambivalência perigosa de um phármakon a que se expõe o escritor e, por conseguinte, os narradores de Campos de Carvalho, também vulneráveis a ele pelos seus escritos, pela obra de suas obsessões, as quais movem e paralisam a narrativa ao mesmo tempo. Como, então, o recurso do diário os libertaria, sendo ele remédio e veneno? Como libertar-se de si mesmo?

No diálogo socrático com Fedro (PLATÃO, 2015), há, para além da ideia do amor sensual, uma conversa debruçada sobre a natureza e os limites da retórica, tangenciando uma crítica ao sofisma. Atrelada à temática retórica, há um contraste entre o verdadeiro filósofo e aquele entendido como sofista, os quais, dentre as destacadas diferenças, também discursam distintamente. Contrariando os preceitos socráticos do primeiro, que se manifesta por meio da

fala, está o segundo, aquele que se expressa por meio da nada confiável escritura, a qual, assim como a pintura, não oferece respostas:

A escrita, Fedro, apresenta esse estranho aspecto, e nisso verdadeiramente muito se assemelha à pintura. De fato, os rebentos da pintura se colocam como se fossem seres vivos, mas se alguém lhes indaga alguma coisa permanecem num solene silêncio. O mesmo ocorre com as palavras escritas: é possível que imaginasses que falam como se possuíssem algum entendimento, mas se tu as interrogares, no anseio de conhecer o que dizem, se limitarão a dizer uma só e mesma coisa. (2015, p. 103)

Em contraste com a fala, na qual se encontram garantias e uma voz que possa prontamente responder às questões, Platão aponta a semelhança da escrita com a pintura, estas duas permeadas de silêncio, como se sem autores por trás, sem alguém que possa se responsabilizar por elas.

O que o incomoda, então, é “[...] o silêncio majestoso, mutismo em si mesmo inumano e que faz passar para a arte o estremecimento das forças sagradas, essas forças que, através do horror e do terror, abrem o homem a regiões estrangeiras” (BLANCHOT, 2011c,p. 56). Ou seja, não é apenas o que fala, mas também o que silencia dentro da fala, que estremece as bases das certezas, porque nada será suficientemente respondido na escrita. Ainda assim, ou talvez por isso mesmo, não é possível, para Astrogildo, cessar de escrever:

Preciso escrever uma infinidade de livros para desintoxicar-me, e as minhas espinhas são os livros que não escrevi até hoje, embora já tenha escrito muitos. A palavra foi dada ao homem para blasfemar contra o seu destino, e a palavra escrita é a verdadeira palavra, como o defunto é o único homem verdadeiro, em sua mudez total (CARVALHO, 2008a, p. 122).

A palavra se torna aí a blasfêmia que não pode deixar de ser dita, o silêncio que não acaba em sua mudez, a verdadeira palavra que, tal qual um defunto, diz ainda mais quando cala, e é nesse estado quando chega mais perto de dizer tudo, embora a verdade desse tudo jamais possa ser integralmente mostrada.

Em uma das histórias que conta, essa a se passar no Egito, Sócrates diz que Thoth — deus egípcio associado à magia, à sabedoria, às palavras faladas e escritas e a muitas invenções — dirigiu-se um dia a Tamos para mostrar suas descobertas. Thoth, então, apresentou as letras (a escrita) ao rei: “Isto, ó, rei, uma vez aprendido, tornará os egípcios mais sábios e aprimorará suas memórias: trata-se de uma poção7 para a memória e a sabedoria por mim descoberta” (PLATÃO, 2015, p. 102). Ao que Tamos rebateu:

7 Tradução de Edson Bini dada à palavra phármakon, que talvez não guarde sua inerente dualidade. Por essa razão,

Sumamente engenhoso, Thoth, uma pessoa é capaz de conceber as artes, mas a capacidade de julgar de sua utilidade ou nocividade aos que farão uso delas cabe a uma outra pessoa. E tu, agora, pai das letras, foste levado pelo afeto a elas a conferir- lhes um poder que corresponde ao oposto do poder que elas realmente possuem. O fato é que essa invenção irá gerar esquecimento nas mentes dos que farão o seu aprendizado, visto que deixarão de praticar com sua memória. A confiança que passarão a depositar na escrita, produzida por esses caracteres externos que não fazem parte deles próprios, os desestimulará quanto ao uso de sua memória, que lhes é interior. (2015, p. 102)

Derrida nos convida, ainda, a lembrar que a contradição de Platão se dá no modo de colocar a escritura como um poder oculto e capaz de enganar, ao mesmo tempo em que “[...] a réplica do rei supõe que a eficácia do phármakon possa inverter-se: agravar o mal ao invés de remediá-lo” (1991, p. 45).

O que Sócrates deseja mostrar é o perigo da escrita, que, ao invés de ajudar os egípcios a se tornarem mais memoriosos, causaria o efeito contrário: o esquecimento. Se tudo que preciso saber está fora de mim, não necessito buscar nada internamente, não necessito me esforçar para lembrar. Aí está a chave do que para Derrida é a palavra escrita, tanto capaz de interferir no fluxo natural de um ser de uma boa forma (remédio) quanto de uma ruim (veneno).

A desconfiança de Platão em relação ao phármakon avança, pois, no sentido de que, mesmo de maneira inofensiva, nenhum é apenas benéfico e, em qualquer uma de suas atuações, ele altera o estado inicial do corpo, o estado natural em que as doenças também devem ser aceitas como vicissitudes da existência, como parte necessária a ela. O phármakon opera, enfim, como desvio de um percurso natural. Seu poder é ao mesmo tempo dúbio, como remédio e veneno, e uno, como desvio.