O termo “crise” origina-se da palavra grega krisis, que significa a decisão tomada por um juiz ou um médico, e que advém do verbo krino, que quer dizer “eu decido, separo, julgo”. Sendo assim, o juiz e o médico avaliam as circunstâncias e tomam a decisão pelo tipo de sentença ou pelo tipo de doença, de modo que esse processo decisório é chamado de crise (SÁ, WERLANG, PARANHOS, 2008; PERRETT et al, 2010).
Crise também pode se referir aos momentos de transformações que ocorrem ao longo do curso da vida, no qual as diferenciações de um momento anterior e a emergência de uma nova situação provocam a perda de um equilíbrio já estabelecido, mas, com base na condição do sujeito, a mudança é incorporada e um novo equilíbrio é restabelecido. Desse modo, os indivíduos são constantemente desafiados a estabelecerem, manterem e reorganizarem seus relacionamentos e comportamentos no meio ao qual estão inseridos (PERRETT et al, 2010).
Segundo Sá, Werlang e Paranhos (2008), o fenômeno da crise pode ser diferenciado em crises evolutivas e crises circunstanciais. As crises evolutivas dizem respeito à efetuação não satisfatória das passagens do desenvolvimento do indivíduo, enquanto as crises circunstanciais decorrem de situações encontradas em especial no ambiente, em outras palavras, elas surgem em decorrência de eventos raros e extraordinários, de forma que o indivíduo não consegue prever ou controlar, como enfermidades, o desemprego, os desastres naturais, etc.
As doenças epidêmicas são normalmente percebidas como eventos críticos que fogem dos enquadres cotidianos da sociedade, que ultrapassam a experiência individual e põem em risco as estruturas sociais que cimentam e dão sentido à existência em comum, ou seja, são eventos que afetam a ordem pública, os ritos religiosos, as atividades econômicas e os valores morais, estando associadas à crise devido a rapidez e a intensidade com que impactam na organização da vida social (SILVEIRA, 2010).
A pandemia da COVID-19, que surgiu na China em dezembro de 2019, é um claro exemplo de crise. Devido a sua rápida disseminação, a COVID-19 foi declarada como Pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) no dia 11 de março de 2020, atingindo todos os continentes e resultando em um preocupante cenário de crise socioeconômica, cuja
intensidade não era vivenciada há décadas pela humanidade (SARAIVA, OLIVEIRA, MAREJON, 2020; DINIZ et al, 2020).
Devido à globalização, todos os países foram ou serão afetados pelo COVID-19, seja em pequena ou grande escala, de modo que, a maioria, adotou medidas protetivas, tais como o isolamento social ou a quarentena de seus habitantes, o distanciamento social, o uso obrigatório de máscara e orientações de higiene pessoal (lavagem de mão) e uso do álcool 70%, desinfestação de ambientes internos, cancelamentos de reuniões, eventos e aglomerações, na tentativa de diminuir a velocidade de disseminação do vírus, e assim, não colapsar o sistema de Saúde (DINIZ et al, 2020).
Porém, o avanço e a disseminação do vírus tomaram proporções maiores devido a alta capacidade de transmissão e com isso, o número de óbitos aumentava diariamente (FARIAS, 2020). Inicialmente a COVID-19 afetava mais os adultos do que as crianças, sendo a maioria dos que alimentavam a alta taxa de mortalidade composta por idosos com mais de 80 anos e pessoas que possuem outras enfermidades, especialmente doenças cardiovasculares.
Contudo, no final do ano de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) informou a identificação de uma nova variante genética do SARS-CoV-2. Essa nova cepa vem trazendo maior preocupação à comunidade científica e a toda equipe médica, visto que as pesquisas mostram ser uma variante com maior potencial de transmissão, além de ter o poder de mais facilmente se propagar nos chamados “jovens adultos” entre idade média de 30 a 49 anos.
Alguns países adotaram medidas preventivas, tais como isolamento de casos suspeitos, fechamento de escolas e universidades, distanciamento social e quarentena de toda a população com o objetivo de reduzir os impactos da pandemia, diminuir o pico de incidência e o número de mortes (BROOKS, et al., 2020; FERGUSON, et al., 2020). O progressivo alastramento da doença instaurou uma crise sem precedentes no mundo moderno e impôs mudanças substanciais, notadamente no âmbito do trabalho Inseridos neste cenário, os profissionais técnico administrativos vivenciaram uma reorganização dos processos de trabalho, que culminou na ampla adesão a modalidade do teletrabalho.
Habitualmente, numa pandemia, a saúde física das pessoas e o combate ao agente patogênico são os focos principais de atenção de gestores e profissionais da saúde, de modo que, as consequências sobre a saúde mental tendem a ser negligenciadas ou subestimadas.
Com isso, criam-se lacunas importantes no enfrentamento dos efeitos negativos associados à doença, o que não é desejável, em especial porque os impactos psicológicos podem ser mais duradouros e prevalentes do que o próprio acometimento pela COVID-19 (SCHMIDT, et al, 2020).
Sintomas como depressão, ansiedade e estresse diante da pandemia foram identificados na população geral e, em particular, nos profissionais da saúde. Além disso, casos de suicídio, possivelmente ligados aos impactos psicológicos da COVID-19, também já foram reportados em alguns países (SCHMIDT, et al., 2020).
No cenário da pandemia, para o sujeito trabalhador, fatores como condições inadequadas, carga excessiva de trabalho, quantidade reduzida de equipamentos de proteção individual e falta de competências específicas podem desencadear sentimentos de medo, angústia e desamparo, levando-os a encarar mudanças mais severas no seu cotidiano, que comprometem seu bem-estar psicológico e sua saúde psíquica, refletindo em esgotamento físico e mental (MOREIRA; SOUSA; NÓBREGA, 2020).
Diante da perspectiva apontada por autores como Faro et.al (2020), as problemáticas que foram relatadas pelos profissionais técnico administrativos, em sua maior parte, não exprimiam uma relação estreita com queixas de cunho físico ou psíquico, mas sim, que estas estavam atreladas uma a outra, sem condições de haver uma dissociação entre estas.
Há inscrita nessa realidade de emergência de ações desenvolvidas no campo da saúde mental para os trabalhadores, uma necessidade de maior investimento do poder público em políticas de ações emergentes, que devem ser empregados em todos os níveis de assistência, o que representa a inevitabilidade da ampliação de recursos e profissionais capacitados para tal.
Pesquisas desenvolvidas no período da pandemia, como as realizadas por Souza (2020) e Losekann e Mourão (2020), apontam que as tensões em relação à produção capitalista foram ampliadas, acentuando as problemáticas referentes às questões trabalhistas, já que são os próprios trabalhadores que se encontram no centro das repercussões da disseminação do vírus.
Esta realidade produziu também o escancaramento em relação a precarização não apenas do trabalho, mas também da saúde do trabalhador, considerando a discrepância entre as medidas de proteção à saúde adotadas especificamente para este sujeito e as condições precarizadas de execução de trabalho (SOUZA, 2020).
Dentre as inúmeras queixas que puderam ser identificadas, pesquisadores como Santos e Reis (2021) e Riberito (2021) sinalizam que a dificuldade de gerenciamento de tempo se destaca, trazendo prejuízo ao convívio familiar, as tarefas domésticas e as atividades escolares.
É sabido que muitos sujeitos foram invadidos pelo sentimento de insuficiência de tempo para conciliar todas as novas demandas apresentadas por este novo “normal" da
pandemia, o que, somado com a flexibilização sem instruções de execução adequadas, muitos comuns na modalidade do teletrabalho, poderia produzir uma ampliação neste sentimento.
Além disso, há de se mencionar também queixas tais como a dificuldade de conciliar as metas de produção com os recursos disponíveis para a execução do trabalho, o que é muitas vezes produzia um sentimento de impotência e insuficiência, corroborando para que muitos trabalhadores relatassem reflexos desta nova modalidade de trabalho em sua saúde mental (LOSEKANN, MOURÃO, 2020).
Autores como Vilarinho, Paschoal e Demo (2021) e Casagrande (2021), assinalam que os trabalhadores apresentam sentimentos relacionados ao medo de adoecer, medo em relação ao novo tanto na progressão do vírus como nas mudanças do trabalho e suas exigências, o medo de perder entes queridos, da insegurança acerca da temática da vacina ou cura, sentimentos de irritabilidade frente a impotência para responder a suas questões e medos, sentimentos de incertezas e a tristeza acarretada e/ou agravada pelo isolamento, pelo enfrentamento e pelo processo de adoecimento ou perda de pessoas queridas.
Como sintomatologia, alguns trabalhadores também destacaram ter vivenciado inapetência, distúrbios de sono e de convívio interpessoal, alterações de humor, inquietação ou apatia (DA SILVA; DE MELO SALLES; DUARTE, 2020). Outros, tiveram crises de ansiedade e de pânico, um aumento tanto nos sentimentos depressivos como nos casos de depressão e prejuízos de comunicação provocados pelo distanciamento (VILARINHO, PASCHOAL, DEMO, 2021).
Dentre os aspectos que tendem a impactar mais intensamente na execução do trabalho e produzir sentimentos de impotência estão aqueles relacionados com a falta de adequação de equipamentos e de uma infraestrutura, a dificuldade na rede de comunicação e ausência de uma definição de rotina de trabalho que considere as novas questões que estão envoltas na forma de fazer labor através do teletrabalho (MULARI, DA SILVA, 2018).
Deve-se levar em conta que grande parte das instituições públicas de ensino superior no âmbito federal, bem como as outras tantas instituições que tiveram que se adequar ao modelo do teletrabalho de forma compulsória, não tinham preparo suficiente para efetivar este modelo de labor de forma satisfatória, não apenas para instituição, mas também para o trabalhador, considerando as mudanças impostas e novas necessidades que emergiram.
Em relação as estratégias que podem ser adotadas como forma de dirimir os aspectos negativos vivenciado pelos trabalhadores na modalidade de teletrabalho, pode-se elencar o estabelecimento de horários flexíveis, ações que propiciem o bem estar psicológico, baixa rotatividade de trabalhadores, melhores estratégia para gestão dos setores, o desenvolvimento
De aspectos como satisfação no trabalho e redução da tensão psicológica, estratégias de engajamento visando a melhoria da produtividade e diminuição do estresse e considerar a importância de haver um equilíbrio entre as funções da vida profissional e pessoal, já que muitos trabalhadores relataram sentir-se atravessados pela rotina do trabalho, onde o seu âmbito familiar não possuía mais diferenciação deste (SANTOS, et. al, 2020).
Muitos trabalhadores também mencionaram o interesse e, em contrapartida, o não fornecimento de atividades como qualificação ou capacitação para a execução das atividades em modalidade remota (TESSARINI JUNIOR, 2020), o que evidencia a alta prevalência de um fator preponderante para alimentar o sentimento de insuficiência perante o trabalho (VILARINHO, PASCHOAL, DEMO, 2021).
Apesar de muitos servidores já lidarem no seu cotidiano com ferramentas tecnológicas, é preciso pensar que esta realidade não se aplica a todos. Assim, é possível antever que sentimentos de inadequação, ineficiência, desanimo e outras tantas e diversas manifestações de mal estar podem assolar alguns trabalhadores justamente por não possuírem maior familiaridade com meios tecnológicos e passaram a ter que executar suas funções exclusivamente por esta via. Uma pesquisa realizada na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), no estado da Bahia, pelo Sindicato dos Servidores Técnicos Administrativos, concluiu que há muitos servidores que não possuem nenhum recurso de tecnologia para a execução de suas funções, indicando a impossibilidade de adequação ao trabalho remoto (SINTEST, 2020).
Considerando os dados obtidos, é possível assinalar que, recorrentemente, houve um aumento significativo nos níveis de ansiedade entre os trabalhadores ao longo da pandemia e, é importante ressaltar, com isso, outras formas de manifestação do sofrimento e adoecimento psíquico podem ganhar força, uma vez que o estresse e a ansiedade são fatores de risco para o desencadeamento de vários outros transtornos mais graves, como é o caso da depressão e da síndrome de burnout.
A pesquisa realizada por Leite e Lemos (2021) fornece dados relacionados a percepção de sensações por parte dos servidores de uma universidade do estado de Santa Catarina e, em relação aos resultados, os autores destacam que houve maior frequência de relatos relacionados a queixas de natureza psíquicas, mas, uma parte dos servidores também relatam o sentimento de dor física. Os sentimentos psíquicos apontados estavam diretamente relacionados com a percepção da insegurança frente a situação econômica no país, já que a taxa de desemprego, por exemplo, sofreu um aumento constante, causando o medo de estar, futuramente, inserido nesta estatística (LEITE, LEMOS, 2021).
Em relação ao atravessamento das atividades laborais no âmbito doméstico, muitos servidores relataram que no período da pandemia passaram a disponibilizar um tempo bem maior para as atividades de trabalho (BARBOSA, 2020), muitas vezes tendo que desempenhar atividades durante três turnos, o que dificultava o equilíbrio de papéis (SANTOS, et.al, 2020).
Nesse sentido, é possível perceber que há um descompasso em relação as expectativas e ao que se compreende como sendo o home office e a pratica cotidiana, já que, a principio, o trabalho remoto estaria muito mais relacionado com uma maior autonomia do servidor, entretanto, as pesquisas indicam que o sujeito, na verdade, tende a se perceber inserido em situações incitantes a perda desta (SANTOS, RENIER & STICCA, 2020; SABINO ET. AL, 2020; RIBEIRO, 2021).
Ao longo da pandemia, houve uma intensificação dos riscos potencializadores de mal estar e agravos a saúde em função de demandas produzidas pelo cenário caótico e também pela forma como os processos de trabalho passaram a ser gerenciados e ou as tarefas desempenhadas, afetando diretamente a vida do trabalhador e a qualidade de suas relações em geral. Uma das grandes dificuldades sentidas pelo trabalhador e também pelo empregador está na elaboração e execução de tarefas que levem em conta as condições e a subjetividade do sujeito, visto não apenas em seu coletivo, mas também percebido em suas particularidades e necessidades ímpares (SANTOS, et.al, 2020).
A fragmentação do sujeito trabalhador, visto apenas como aquele que precisa
"entregar" resultados sem considerar como eles foram produzidos (e, no caso do teletrabalho, geralmente em um ambiente precarizado, carente de recursos materiais, sem treinamento, orientação, suporte dos colegas e da chefia), compromete as ações que possam ser desenvolvidas para contornar as dificuldades a serem enfrentadas visando uma melhor gestão do trabalho, independente da modalidade adotada, resultando, muitas vezes, numa ampliação do estresse ocupacional identificado pelos próprios servidores (SAMPAIO JÚNIOR;
SANTOS, et.al, 2020; SILVA; MORAIS, 2021).
Em função dos dados que puderam ser levantados, no que concerne a percepção do trabalhador técnico administrativo que executa suas funções de forma remota no período pandêmico, foi possível identificar algumas queixas recorrentes, elencadas no quadro a seguir:
Quadro 7 – Principais queixas elencadas pelos servidores Técnico-Administrativos em
Ribeiro (2021); Aumento da ansiedade;
Dificuldade de conciliar o tempo mediante as funções;
Vilarinho, Paschoal e Demo
Casagrande (2021); Prejuízos na comunição;
Ansiedade;
Medo de adoecer ou perder entes queridos;
Mulari, da Silva (2018); Falta de adequação de infrainstrutura e escassez de recursos para o trabalho;
Sindicato dos Servidores Técnicos Administrativos da Bahia (SINTEST) (2020);
Falta de acesso aos recursos necessários para a execução do trabalho;
Leite e Lemos (2021); Medo do desemprego;
Ansiedade;
Dor física;
Santos, Renier, Sticca (2020); Atravessamento dos papeis desempenhados pelos trabalhadores;
Barbosa (2020); A não flexibilização dos horários de trabalho;
Ansiedade;
Sabino, et. al., (2020); A defasagem no quantitativo de Técnicos-Administrativos e a sobrecarga das demandas;
Tessani Junior (2020); A relativização da autonomia do servidor impactos do teletrabalho especificamente entre os servidores técnico administrativos de instituições federais de ensino superior. Entretanto, nem todas as investigações consistiram em um trabalho de campo, havendo estudos em que a coleta de dados se deu por meio de revisão de literatura.
Em função dos dados apresentados no quadro acima, foi possível identificar, a partir da análise de conteúdo, algumas queixas recorrentes que sinalizam o impacto do teletrabalho na saúde e bem estar dos servidores, sendo os principais aspectos agrupadas em três grandes categorias elencadas no quadro a seguir:
Quadro 8 - Impactos da adesão ao teletrabalho na saúde e bem estar do trabalhador
Categoria Estudos
Aspectos relacionados às condições, processo de trabalho e impactos no desempenho e produtividade (gestão, recursos, ritmo, sobrecarga, perda da autonomia, indefinição de papéis)
Barbosa (2020); Santos e Reis (2021); Ribeiro (2021); (SINTEST) (2020); Sabino, et. al., (2020); Santos, Renier, Sticca (2020); Tessani Junior (2020)
Aspectos relacionados aos impactos na saúde e bem estar psíquico (ansiedade, estresse, depressão, burnout, sentimentos de inadequação e incompetência
Sousa (2020); Santos e Reis (2021); Ribeiro (2021); Vilarinho, Paschoal e Demo (2021);
Casagrande (2021); Leite e Lemos (2021);
Barbosa (2020); Da Silva; de Melo Salles;
Duarte (2020); Sampaio Júnior; Silva; Morais (2021)
Aspectos relacionados aos impactos na saúde física evidenciados por distúrbios somáticos
Vilarinho, Paschoal e Demo (2021); Leite e Lemos (2021)
Foi possível identificar que a maior parte das queixas apresentadas pelos servidores técnicos administrativos são demandas de foro psíquico, tendo o relato de ansiedade como a queixa mais corriqueira nas falas dos servidores.
Dentre os 15 estudos incluídos na Revisão Intergrativa empreendida, observa-se a prevalência de impactos no âmbito da saúde psíquica. Em oito deles, a palavra ansiedade foi identificada como uma queixa recorrente entre os servidores. Em segundo lugar, como
principal queixa relatada, destaca-se os sentimentos de insegurança perante o futuro, medo do desemprego e medo de adoecer e/ou morrer ou que isto viesse a ocorrer com um ente próximo. A percepção de problemáticas somáticas também foram relatadas, como os distúrbios de sono, perda de apetite e dores físicas associadas aos sentimentos listados acima.
Por outro lado, os aspectos relacionados às condições e a forma como o trabalho se processa (gestão, recursos, ritmo, sobrecarga, perda da autonomia, indefinição de papeis, etc.) e as demandas relacionadas como a dificuldade de conciliar as tarefas do trabalho, de casa e as demais funções (já que muitos dos servidores indicaram que, pela flexibilização dos horários, passaram a trabalhar mais e em mais de dois turnos), bem como a escassez de recursos e a ausência de treinamento e suporte para o trabalho remoto, também se destacam, indicando que o teletrabalho, de modo geral, configurou-se para uma parcela significativa de servidores como uma forma de precarização do trabalho.
Por meio dos dados fornecidos, foi possível identificar que, em algumas pesquisas, os servidores já apontam possíveis caminhos a serem trilhados diante das dificuldades percebidas a partir da implantação do trabalho remoto como regra. As sugestões que mais se destacam são: o desenvolvimento de capacitações/qualificações para a execução do teletrabalho, o equilíbrio na jornada de trabalho do servidor e a valorização da categoria, já que muitos se percebem desvalorizados pelos gestores e responsáveis pelos setores onde trabalham.
Diante dos dados coletados e analisados, faz-se necessário que as instituições percorram uma trajetória contígua aos servidores, com metas mais atingíveis, com tempo para que os servidores adaptem a rotina de trabaho à rotina doméstica, além de adotar medidas institucionais que visem a promoção de saúde no trabalho.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os dados coletados permitiram identificar que há, ainda, muito a se fazer para que o teletrabalho possa se configurar como uma modalidade que venha a impactar positivamente nas organizações, sobretudo quando se trata de instituição pública de ensino superior. Dentre as maiores dificuldades, está a ausência de previsões legais que assegurem, de fato, uma normativa, garantindo aos servidores o exercício de seu trabalho de forma consistente, como ocorre no exercício da modalidade presencial.
Considerando o período pândemico, as atividades desenvolvidas por intermédio desta modalidade se ampliaram, incorporando um grande contigente de servidores técnico administrativos, visto que o teletrabalho foi a solução possível e imediata que permitiu a continuidade dos processos levando-se em conta a necessidade de medidas de contenção em relação a progressão do contágio da COVID-19.
Apesar de se reconhecer os benefícios do modelo de home office, sem dúvida, a implantação do teletrabalho, da forma como se deu no âmbito das IES públicas, se mostrou uma alternativa que trouxe a tona antigos problemas e fomentou novas dificuldades. As instituições de ensino superior precisaram se adaptar e modificar as suas práticas de prestação de serviço e, com isto, alterou as funções executadas pelos servidores técnico administrativos e a relação destes com o seu trabalho. Na medida em que o trabalho passou a ocupar também os espaços da vida privada, mudam-se aspectos frente ao trabalhador e os sentidos atribuídos por este ao seu ofício.
Grande parte dos servidores administrativos avaliam os efeitos da implementação da modalidade de teletrabalho no período pândemico como negativo, principalmente devido ao fato de que, devido as contingências, a adesão se deu de forma repentina e sem o suporte necessário, de modo a assegurar as condições mínimas para a execução do trabalho, considerando que boa parte dos servidores não dispunha de recursos mínimos para tal
Grande parte dos servidores administrativos avaliam os efeitos da implementação da modalidade de teletrabalho no período pândemico como negativo, principalmente devido ao fato de que, devido as contingências, a adesão se deu de forma repentina e sem o suporte necessário, de modo a assegurar as condições mínimas para a execução do trabalho, considerando que boa parte dos servidores não dispunha de recursos mínimos para tal