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2. O CONCEITO DE JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO E O SEU DESENVOLVIMENTO

2.1 ANÁLISE CRÍTICA DO CONCEITO DE JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO

2.1.4 Os eixos centrais da justiça transicional

Ultrapassada essa análise da justiça de transição de caráter mais histórico e conceitual, é importante tecer considerações acerca dos mecanismos através dos quais se realiza o objetivo de acerto de contas com o passado.

Sobre este assunto, Quinalha (2013) assevera que Teitel foi quem primeiro discorreu sobre a existência de alguns eixos centrais que compõem a base das medidas justransicionais, quais sejam: “punição, investigação histórica, reparações, expurgos e elaboração de nova constituição”34 (TEITEL, 2000, p.5); sendo que “esses traços foram canonizados nos estudos que se seguiram, assumindo inquestionável estatuto de entendimento predominante em meio a essa literatura” (QUINALHA, 2013, p.94).

Enquanto a visão dos primeiros transitólogos era bastante marcada pelo reconhecimento de valores considerados antagônicos, que faziam com que os estudiosos da época adotassem uma postura de optar por determinadas medidas de realização das transições políticas, em detrimento de outras35, o pensamento inaugurado por Teitel rompe com essa

34 Original em inglês: “[...]“punishment, historical inquiry, reparations, purges, and constitution making”. 35 Para ilustrar essa nova postura dos estudiosos, convém mencionar as críticas feitas por Méndez (2011, p.214-

215) à ideia equivocada de os “processos judiciais são inerentemente inimigos da paz e da reconciliação”. Para o autor, “pode-se argumentar fortemente que uma paz duradoura só é possível se o processo pelo qual ela for alcançada for cuidadosa e honestamente dirigido a lidar com os direitos humanos e com as violações do direito

tradição e propõe uma visão holística da justiça de transição, que reconheça a importância de cada um dos pilares acima mencionados para que se torne possível a efetiva consolidação da democracia nos países em processo de transição.

Essa concepção hegemônica da justiça transicional, composta pelos eixos centrais acima mencionados, não se restringiu ao ambiente teórico e acadêmico, alcançando, também, uma dimensão normativa que influenciou decisivamente a compreensão de entidades internacionais e de órgãos nacionais responsáveis pela promoção de políticas públicas de transição acerca dos elementos que devem fazer parte dos processos justransicionais vivenciados pelos países.

Um importante exemplo dessa influência está contido no Relatório do Secretário- Geral da ONU nº S/2004/616, que versou sobre o Estado de Direito e a justiça de transição em sociedades em conflito ou pós-conflito e que define a expressão justiça de transição nos seguintes termos:

A noção de “justiça de transição” discutida no presente relatório compreende o conjunto de processos e mecanismos associados às tentativas da sociedade chegar a um acordo quanto ao grande legado de abusos cometidos no passado, a fim de assegurar que os responsáveis prestem contas de seus atos, que seja feita a justiça e se conquiste a reconciliação. Tais mecanismos podem ser judiciais ou extrajudiciais, com diferentes níveis de envolvimento internacional (ou nenhum), bem como abarcar o juízo de processos individuais, reparações, busca da verdade, reforma institucional, investigação de antecedentes, a destruição de um cargo ou a combinação de todos esses procedimentos. (ANNAN, 2009, p. 325).

Quanto aos eixos propriamente ditos, observa-se nas obras de outros autores que, com exceção da menção à elaboração de uma nova Constituição, aqueles elementos mencionados por Teitel se desdobram em importantes deveres cujo cumprimento é exigido dos Estados e que, por consequência, tornam possível que se fale em verdadeiros “direitos da transição”, como denominam Abrão e Tavares. (2015). A análise individualizada de cada um será apresentada na mesma ordem da sistematização de tais deveres e direitos feita por Méndez36.

Em primeiro lugar, aquele autor menciona o dever do Estado de “investigar, processar e punir os perpetradores”, que resulta no “direito da vítima de ver a justiça sendo efetivada” (MÉNDEZ, 2011, p.200), também denominado simplesmente de “direito à justiça” (QUINALHA, 2013, p.99).

de guerra por ambos os lados”.

36 Cumpre salientar que, neste tópico, serão fornecidas apenas informações gerais sobre cada eixo. Já as medidas

adotadas pelo Estado brasileiro no sentido de atender a cada um dos pilares mencionados serão abordadas nos próximos capítulos.

Tal direito, que abrange a responsabilização civil, penal e administrativa dos violadores dos direitos humanos das vítimas, sofre muitos empecilhos para a sua realização por diversos fatores, dentre os quais se destaca a persistência de uma postura reticente de se manter a impunidade dos algozes do período autoritário em respeito ao “pacto” que possibilitou o retorno da democracia.

Essa circunstância, aliás, foi uma das que fez com que Quinalha (2013) propusesse a substituição do termo justiça de transição por “justiça de consolidação”, de modo a deixar claro que, encerrado o período transicional, as excepcionalidades e a instabilidade que justificaram um tratamento diferenciado dos perpetradores de violações de direitos humanos por questões políticas deixam de fazer sentido, devendo passar a haver um tratamento judicial normalizado dos casos em questão.

O segundo pilar da justiça transicional mencionado por Méndez corresponde ao que ele denominou de “direito a conhecer a verdade”, que advém do dever do Estado de “revelar para vítimas, familiares e sociedade tudo o que pode ser confiavelmente estabelecido a respeito dos fatos ocorridos” (2011, p.200).

Busca-se, então, informações sobre as violências perpetradas no período e esclarecimentos sobre o paradeiro e o destino das vítimas do regime, através, não só, da abertura e recuperação dos arquivos oficiais, mas também da obtenção de informações oriundas das mais diversas fontes da sociedade civil.

Por outro lado, embora Méndez não o mencione expressamente, os teóricos da justiça transicional costumam apontar um direito correlato ao direito à verdade. Trata-se do “direito à memória” (ABRÃO; TORELLY, 2011a, p.512), que pretende impedir que a memória das atrocidades praticadas no regime autoritário sejam apagadas ou esquecidas, através de medidas como, por exemplo, homenagens às vítimas e publicações de obras que contenham informações relativas ao período em questão.

Dentre as medidas usualmente utilizadas para garantir o direito à verdade e à memória, destacam-se as comissões da verdade, cujos objetivos são descritos por Quinalha:

[...] Seus objetivos básicos seriam: estabelecer uma lembrança autorizada e historicamente acurada do passado; superar a negação oficial e comunitária das atrocidades, violências ou abusos e lograr o conhecimento público deles; identificar vítimas das violações de direitos humanos e abusos para promover políticas de reparação efetivas; conhecer as circunstâncias em que ocorreram; identificar os artífices das violências e envergonhar socialmente os perpetradores pelos atos praticados (se possível, colhendo elementos que permitam o processamento penal); criar uma memória coletiva ou uma história comum, para um novo futuro; restaurar a dignidade das vítimas, encerrar os abusos, legitimar e promover a estabilidade do novo regime, promover a reconciliação sobre as divisões do passado, educar a população sobre o ocorrido, recomendar caminhos para coibir a repetição dessas práticas. (2013, p.98)

O terceiro eixo da justiça transicional diz respeito ao dever do Estado de “oferecer às vítimas reparação adequada”, que implica no “direito à indenização e também a formas não monetárias de restituição” (MÉNDEZ, 2011, p.2000).

O conceito de reparação, como se pode observar, é bastante abrangente, podendo o Estado efetivá-la de diversas formas, como “a ajuda material (p.ex. pagamentos compensatórios, pensões, bolsas de estudos), assistência psicológica (p.ex. aconselhamento para lidar com o trauma) e medidas simbólicas (p.ex. monumentos, memoriais e dias de comemoração nacionais)” (VAN ZYL, 2011, p.52).

Por último, tem-se a quarta dimensão da justiça de transição relativa ao dever mencionado por Méndez de “afastar reconhecidos perpetradores de órgãos policiais e de outras posições de autoridade”, cujo direito justransicional correspondente seria o de “o direito a novas instituições, reformadas e responsáveis” (2011, p.200).

Enquanto os direitos à justiça, à reparação, à verdade e à memória lidam mais diretamente com os interesses das vítimas e de seus familiares, embora envolvam medidas que repercutem nos interesses da sociedade como um todo (a exemplo do trabalho desempenhado pelas comissões da verdade), o direito relativo ao quarto eixo, como afirma Méndez, tem como titular “a sociedade em geral, e não a vítima” (2011, p.200).

Para concluir o presente tópico, convém chamar atenção para um elemento da teoria tradicional da justiça de transição que diz respeito ao fato de Teitel (2000) e os demais autores que desenvolveram tal teoria centrarem suas análises apenas nas medidas institucionais e jurídicas de tratamento do legado deixado pelo regime autoritário, como se o arranjo normativo-institucional de um determinado Estado fosse suficiente para assegurar o “acerto de contas” almejado. Além do que, também se percebe uma seletividade nas violações aos direitos humanos que são objeto das medidas relacionadas à justiça de transição, privilegiando-se as violações a direitos civis e políticos, enquanto as violações a direitos econômicos, sociais e culturais perpetradas no período autoritário são negligenciadas.

A partir dessa constatação, pertinentes críticas a esse modelo tradicional vêm sendo apresentadas e debatidas no campo acadêmico e político, sendo interessante estudá-las em tópico próprio haja vista a sua importância para a compreensão dos obstáculos relativos ao cumprimento da sentença proferida pela Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Gomes Lund e outros Vs. Brasil, que serão abordados no último capítulo.

2.1.5 As críticas à abordagem normativo-institucional da justiça de transição e às limitações