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Os eixos que regulam a atividade esportiva

2. O trato com o conhecimento esporte

2.1 Os eixos que regulam a atividade esportiva

Apresentamos previamente estes três eixos como sendo formados pelas

regras, o instrumento e a organização da atividade esportiva. Longe de querermos

esgotar a discussão, aqui apresentaremos esta questão com o caráter de algo que se inicia e que busca, pelas suas regularidades, apresentar uma possibilidade de intervenção no que diz respeito ao trato com o conhecimento esporte entendendo-o Pedagogia Histórico-Crítica foi produzido e/ou traduzido, materiais estes que não encontravam-se disponíveis nos anos 1980 e 1990. O fato de, em linhas gerais, o alinhamento entre a Abordagem Crítico-Superadora e estas outras teorias ser tão coerente assenta-se em sua unidade filosófica, ou assim como disse Martins (2013, p.270) em relação à Psicologia Histórico-Cultural e a Pedagogia Histórico-Crítica: “posto que ambas assentam-se nos preceitos do materialismo histórico-dialético”.

56 Lidar com os fenômenos pela logica dialética é entender que eles se desenvolvem, se

movimentam, avançam, recuam, influenciam e são influenciados mutuamente. Em outras palavras, pela lógica dialética entendemos os fenômenos como coisas permeadas por múltiplas determinantes e contradições, coisas que tem, ao fim e ao cabo, história. “Para o marxismo, o lógico (movimento do pensamento) é o reflexo do histórico (movimento dos fenômenos da realidade objetiva). Para representar a dialética objetiva de modo pleno e profundo, as formas de pensamento devem, por si mesmas, ser dialéticas – moveis, flexíveis, inter-relacionadas. A dialética estuda a relação entre as formas de pensamento, a subordinação destas no processo de movimento do conhecimento no sentido da verdade.” (KOPNIN, 1978, p.84)

como uma prática social, que portanto, tem interferências (e é interferido por coisas) muito além do “campo de jogo”. Estes três eixos são inter-relacionados, mutuamente dependentes e indissociáveis, portanto, não se resumem a elementos manipuláveis isoladamente, somente para regulamentar a “prática” esportiva (no sentido dicotômico usualmente dado a prática), mas são auxiliares a serem pensados e problematizados na adequação do trato com o conhecimento do fenômeno esporte na suas mais ricas determinações, conforme a concepção aqui apresentada.

Em termos de regras, consideramos o conjunto de convenções que se adotam buscando regular e uniformizar determinada atividade esportiva, restringindo o leque de ações que os sujeitos podem tomar no desempenho de seus papeis e também a interferência de elementos externos por sobre a própria dinâmica do jogo. Isto quer dizer que entendemos como regras elementos que, por vezes, se convencionam por necessidades advindas da própria atividade esportiva, mas há que se considerar que também há elementos determinados por fatores normalmente considerados externos à atividade, como, por exemplo, quando regras são instituídas por interesses econômicos57 ou políticos58. Encontramos em muitos autores da área, a exemplo de Baker (1988) e Elias (1992), discussões acerca da grande importância que as regras tiveram para a expansão do esporte moderno a partir da Inglaterra, especialmente no que diz respeito a possibilidade de universalização de modalidades esportivas.

Referindo-nos aos instrumentos, entendemos estes como os implementos utilizados quando da atividade esportiva, podem ser materializados como bolas, tacos, bastões, pranchas, fitas, cordas, petecas, dardos e mais uma infinidade de objetos. O determinante neste processo é que os instrumentos tanto adaptam quanto são adaptados pela atividade específica para qual são utilizados. Exemplos interessantes são a bola do futsal – que no desenvolvimento da modalidade passou

57 O exemplo mais conhecido aqui é o da alteração na regra da vantagem e da pontuação no voleibol

por questões mais afeitas a comercialização do produto voleibol do que por uma necessidade da modalidade.

58 Podemos dizer que neste campo as regras muitas vezes operam de maneira “implícita”, como no

caso do jogo entre Corinthians x São Paulo pelo campeonato paulista de 2016. A torcida corinthiana levou faixas de protesto contra a Rede Globo, a CBF, a FPF e o deputado Fernando Capez (PSDB), este ultimo envolvido no escândalo dos desvios de recursos para compra de merenda escolar. O arbitro da partida interrompeu e certame e solicitou a retirada das faixas, o que, obviamente interfere no andamento do jogo. A situação gerou constrangimento geral a ponto da FPF precisar vir a publico se declarando “a favor da liberdade de expressão” e afirmando que as faixas não deveriam ter sido retiradas. Ver mais em: https://esporte.uol.com.br/futebol/campeonatos/paulista/ultimas- noticias/2016/02/18/fpf-diz-que-faixas-em-corinthians-x-sao-paulo-nao-deveriam-ter-sido-tiradas.htm, acessado em 04 de nov. de 2017.

por diversos materiais em sua confecção, como cortiça, serragem e até crina vegetal no intuito de que pulasse menos –, a bola de voleibol – nascida de uma câmara de bola de basquete –, os esquis de neve – cujo formato alterou-se radicalmente ao longo dos anos e diversificou-se muito também de acordo com a modalidade de esqui praticada –, os tacos de golfe – cada vez mais específicos de acordo com a distancia, o tipo de terreno e as condições climáticas em que se joga – e a prancha de surfe – que era literalmente uma tábua que chegava a pesar 80kg e tinha 4 metros de comprimento e hoje com materiais mais avançados pode ter pouco mais de 1,5 metro e pesar pouco mais de 2kg, tudo isso dependendo do peso e da altura do surfista, assim como da flutuabilidade desejada para o instrumento e dos tipos de ondas a serem surfadas.

Isto nos leva ao terceiro polo, que diz da organização da atividade esportiva. Em outro texto (OLIVEIRA e SANTOS JÚNIOR, 2017), demos a este polo o nome de “ambiente”, entretanto, pensamos que a nomenclatura não se adequa exatamente ao que queremos dizer, pois não permite identificar aspectos importantes da atividade esportiva no que diz respeito não somente ao espaço, mas também ao tempo. Assim, inspirados pela organização escolar conforme esta aparece no Coletivo de Autores (2012), renomeamos este polo. Desta forma, quando estamos discutindo questões afeitas a organização da atividade esportiva trata-se do ambiente onde se realiza a atividade – se é aquático, terrestre, aéreo ou uma mistura destes –, como se conforma este ambiente em sua componente física – se é rígido, se é maleável, se possui pavimento, se é de areia, se tem grama, neve, ou lama, se possui obstáculos, se é plano, inclinado, profundo, raso, alto, baixo, etc. –, em suas dimensões – se é uma área livre, se possui formatos como quadrados, retângulos, círculos, etc. se a interação ocorre apenas em um plano ou mais – e também em relação ao tempo da atividade – se livre, se regulado por cronômetros ou estações do ano, por tentativas, por séries, etc.

Ao adentrarmos a discussão dos princípios curriculares para o trato com o conhecimento e o ciclos de escolarização, sinalizamos a importância de se atentar para estes três eixos pois estes são elementos importantes na concretização do que será apresentado a seguir, seja na escola ou em qualquer outro lugar onde se aborde pedagogicamente o fenômeno esporte.

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