7 O COTIDIANO ESCOLAR E SUAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
7.2 Os elementos constitutivos da aula e suas relações
Os professores não buscam somente realizar objetivos; eles atuam, também, sobre um objeto. O objeto do trabalho dos professores são seres humanos individualizados e socializados ao mesmo tempo. As relações que eles estabelecem com seu objeto de trabalho são, portanto, relações humanas, relações individuais e sociais ao mesmo tempo.
Nesse sentido, embora os professores trabalhem com grupos sociais, é a
partir do trabalho com os indivíduos e das diferenças existentes entre eles que a
aula vai se delineando, ganhando riqueza e significado. Dessa maneira, o
profissional do ensino constrói o seu próprio espaço pedagógico de trabalho e
resolve de forma cotidiana as situações que lhe são postas, apoiado a partir de uma
visão de mundo, de homem e de sociedade (TARDIF, 2012).
7.2 Os elementos constitutivos da aula e suas relações
A forma pela qual o processo de ensino-aprendizagem é organizado e
sistematizado passa pelo planejamento de uma aula. É por meio dela que o
professor poderá propor e trabalhar com diferentes conteúdos, metodologias e
recursos que promovam a interação e a construção de novos conhecimentos, com
vistas ao protagonismo estudantil e à implementação de uma postura crítica
reflexiva, inerente à formação humana.
Contudo, para que a aula assuma o papel de interação mútua, propício à
construção do pensamento crítico e reflexivo e ao desenvolvimento de novos
saberes e habilidades, é fundamental que sejam proporcionados espaços de
questionamentos, indagações e investigações, cuja proposta principal seja a
constante busca dos alunos enquanto sujeitos ativos, autônomos e pesquisadores.
Nesse contexto, existem alguns elementos constitutivos da aula que são
importantes e devem ser levados em consideração antes de se pensar em
atividades, conteúdos e propostas de trabalho, por estarem relacionados entre si e
contribuírem para uma aprendizagem mais significativa. Entre eles, destacam-se a
ação docente, tendo o professor como mediador, interlocutor e promotor do diálogo;
o aluno como parte integrante do contexto e responsável por buscar novos saberes;
o processo de construção do conhecimento e como se dá a relação entre o ensino e
a aprendizagem; o planejamento da prática, que permite delinear e nortear os
caminhos para se alcançar a aprendizagem que se deseja; os recursos didáticos
que serão utilizados durante todo o andamento do trabalho.
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Para especificar melhor cada um desses itens, é importante pensar que todos
eles, em suas especificidades, trabalham de forma integrada e conjunta, visto que
precisam estar interligados para garantir uma educação que esteja pautada na
formação integral do sujeito. Nesse sentido, para compreender melhor os elementos
constitutivos da aula, vale explicitar a importância de cada um deles no decorrer do
processo educativo, a partir de exemplos que nortearão as discussões acerca dessa
temática.
Quando remetemos o nosso pensamento à escola ou às áreas da educação,
logo vem à nossa mente a ação do professor. Esse sujeito, conforme afirma Alarcão
(1996), sem dúvida desempenha um papel de extrema importância na produção e
estruturação do conhecimento pedagógico, visto que é ele o responsável por
contribuir para a formação de um cidadão mais humano, crítico e consciente.
Vasconcellos (2006) complementa dizendo que a atuação do educador contribui
para provocar, desequilibrar e estimular um grupo, no sentido de que este rompe o
seu estágio cognitivo, tornando-o aberto e sensível aos fatos da realidade que
precisa compreender e na qual deve intervir. Além disso, Freire (1996, p. 42)
ressalta: “[...] a prática docente crítica, implicante do pensar certo, envolve o
movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer”.
O professor, nesse contexto, tem a oportunidade de proporcionar momentos
de reflexão, construção e participação de todos. Ele é um mediador e facilitador do
processo de ensino-aprendizagem, oportunizando a construção de conhecimentos
significativos, preparando os alunos para a vida em sociedade e auxiliando-os a se
tornarem cidadãos conscientes de suas responsabilidades.
Nessa perspectiva, o educador deixa de ser informante do saber e assume
papel de mediador entre o sujeito e o objeto do conhecimento, fazendo com que os
estudantes reflitam e explorem as suas ideias. Reforça-se assim a consciência
crítica em relação a tudo o que é desenvolvido em sala de aula.
Por meio desse trabalho orientado pelo professor mediador, cabe refletir
sobre outro importante elemento constitutivo da aula: o aluno. Toda a ação do
educador, e da escola como um todo, gira em torno desses sujeitos, bem como das
estratégias que serão oportunizadas para se alcançar uma educação de qualidade,
visando a ampliação dos conhecimentos que vão além dos conteúdos escolares.
Libâneo (1994, p. 65) reafirma que “[...] o centro da atividade escolar não é o
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professor nem a matéria, é o aluno ativo e investigador. O professor incentiva,
orienta e organiza situações de aprendizagem, adequando-as às capacidades de
características individuais dos alunos”.
Fonte de: www.novaescola.org.br
Para que tal proposta seja fundamentada, é preciso integrar o aluno nessa
construção, propondo um ensino pautado na autonomia, no diálogo e na criticidade.
A partir dessa relação recíproca entre professor e aluno, muitas possibilidades de
trabalho podem ser fundamentadas, visto que o educando é estimulado e instigado a
refletir sobre as suas ações cotidianas, visando a um pensamento reflexivo acerca
do contexto em que está inserido. Alarcão (1996, p. 181) afirma: “O pensamento
reflexivo é uma capacidade. Como tal, não desabrocha espontaneamente, mas pode
desenvolver-se. Para isso, tem de ser cultivado e requer condições favoráveis para o
seu desabrochar”.
Nesse sentido, é por meio dos conhecimentos construídos no decorrer do
processo escolar que os alunos se tornarão capazes de exercer o seu pensamento
reflexivo e saberão distinguir melhor o seu papel na sociedade, lutando pelos seus
direitos e conquistando diferentes espaços. Freire (1996, p. 35) destaca:
A curiosidade como inquietação indagadora, como inclinação ao desvelamento de algo, como pergunta verbalizada ou não, como procura de esclarecimento, como sinal de atenção que sugere alerta faz parte integrante do fenômeno vital. Não haveria criatividade sem a curiosidade que nos move e que nos põe pacientemente impacientes diante do mundo que não fizemos, acrescentando a ele algo que fazemos.
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Quando a relação recíproca entre professor e aluno está bem fundamentada,
é possível garantir que os conhecimentos sejam construídos, ampliando a relação
entre o ensino e a aprendizagem, elemento que também faz parte da aula e que
caminha ao encontro da proposta da educação de qualidade. É possível afirmar que
os conhecimentos são construídos a partir do momento em que há o diálogo entre
os conteúdos formais e as vivências, histórias e individualidades que cada estudante
possui.
Freire (1996) complementa essa ideia dizendo que os professores devem
respeitar os saberes que os educandos trazem à escola e discutir com eles a razão
de ser de alguns desses saberes em relação com o ensino dos conteúdos.
Cabe lembrar que o ato de ensinar não ocorre de forma mecânica e estanque.
Pelo contrário, ele deve ser constantemente revisto, avaliado, aprofundado e
pensado, como forma de buscar uma aprendizagem efetiva.
Nesse sentido, Libâneo (1994, p. 81) destaca: “[...] ensino e aprendizagem
são duas facetas de um mesmo processo. O professor planeja, dirige e controla o
processo de ensino, tendo em vista estimular e suscitar a atividade própria dos
alunos para a aprendizagem”.
A aprendizagem pode ser desenvolvida a partir de qualquer atividade que
uma pessoa possa estar praticando ou vivendo. Voltando esses saberes ao
ambiente escolar, pode-se afirmar, de acordo com Libâneo (1994, p. 83), que a
aprendizagem:
[...] é um processo de assimilação de determinados conhecimentos e modos de ação física e mental, organizados e orientados no processo de ensino. Os resultados da aprendizagem se manifestam em modificações na atividade externa e interna do sujeito, nas suas relações com o ambiente físico e social.
A aprendizagem escolar, assim, não é algo casual e espontâneo, e sim uma
atividade planejada e dirigida, carregada de intencionalidades. Trata-se de um
processo gradativo em que o conhecimento é construído a partir da mediação da
relação cognitiva entre o aluno, as matérias de estudo e a experiência sociocultural
concreta que os estudantes trazem do seu meio social (LIBÂNEO, 1994).
Freire (1996, p. 98) destaca que “[...] o exercício da curiosidade convoca a
imaginação, a intuição, as emoções, a capacidade de conjecturar, de comparar, na
busca da perfilização do objeto ou do achado de sua razão de ser”.
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Já o ensino, de acordo com Libâneo (1994, p. 89) “[...] é uma combinação
adequada entre a condução do processo de ensino pelo professor e a assimilação
ativa como atividade autônoma e independente do aluno”. Logo, esse autor afirma
que o ensino é uma atividade mediada para que os alunos se tornem sujeitos ativos
na assimilação de conhecimentos, a fim de desenvolver a preparação para a vida
social (LIBÂNEO, 1994).
No entanto, o ensino não pode ser visto como algo estanque. Freire (1996)
parte do termo “inacabamento do ser humano” para expressar que estamos em
constante aprendizado, e que os saberes acontecem em todas as situações nas
quais o sujeito está inserido. O mesmo autor complementa: “É na inconclusão do
ser, que se sabe como tal, que se funda a educação como processo permanente.
Mulheres e homens se tornaram educáveis na medida em que se reconhecem
inacabados” (FREIRE, 1996, p. 64).
Nesse contexto, se pensarmos de que forma é possível impulsionar o
processo de ensino e aprendizagem dos alunos, voltamos para o próximo elemento
constitutivo da aula: o planejamento. O planejamento diário é necessário para a
prática de um educador, pois é por meio da sua organização, juntamente com
combinações preestabelecidas com os alunos, que a aprendizagem se tornará
significativa. O professor deve fazer uma avaliação contínua de sua prática,
reestruturando sempre que necessário o seu planejamento, atendendo as falas dos
alunos e suprindo as suas necessidades.
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O educador precisa adequar a prática pedagógica às possibilidades de
aprendizagem e desenvolvimento dos alunos, visando promover espaços de
socialização do conhecimento e ampliação de novos saberes, derivados não
somente das experiências cotidianas, mas de outras áreas do conhecimento.
Para isso, é preciso pensar no currículo, integrado e flexível, como um
instrumento de formação humana, em que o professor, por meio de situações que
problematizem conhecimentos, possa planejar, propor e coordenar atividades
significativas e desafiadoras. É importante, contudo, que haja objetivos claros do que
se deseja alcançar com o trabalho, a fim de ampliar as experiências e práticas
sociais, culturais e pedagógicas.
[...] os currículos não são conteúdos prontos a serem passados aos alunos. São uma construção e seleção de conhecimentos e práticas produzidas em contextos concretos e em dinâmicas sociais, políticas e culturais, intelectuais e pedagógicas. Conhecimentos e práticas expostos às novas dinâmicas e reinterpretadas em cada contexto histórico. As indagações revelam que há entendimento de que os currículos são orientados pela dinâmica da Sociedade. Cabe a nós, como profissionais da Educação, encontrar respostas (LIMA, 2007, p. 9, documento on-line).
Desse modo, os professores deixam de lado exercícios repetitivos e adotam
métodos diversificados, que farão com que o aluno sinta interesse em permanecer
na escola. Gandin e Cruz (1995, p. 64) destacam que “[...] quem compreender o
conceito de necessidade e puder trabalhar eficientemente com ele descobriu a
essência do planejamento”. Fusari (1988, p. 9) complementa:
O planejamento da educação escolar pode ser concebido como processo que envolve a prática docente no cotidiano escolar, durante todo o ano letivo, onde o trabalho de formação do aluno, através do currículo escolar, será priorizado. Assim, o planejamento envolve a fase anterior ao início das aulas, o durante e o depois, significando o exercício contínuo da ação-reflexão-ação, o que caracteriza o ser educador.
No entanto, o termo planejamento não se restringe unicamente àquele
elaborado pelo professor para o trabalho em sala de aula. É importante destacar o
Projeto Político-Pedagógico (PPP) da instituição, cuja intenção é organizar o
trabalho da escola e considerar as necessidades e os anseios da comunidade
escolar. É um processo de planejamento participativo, em que se aperfeiçoa e se
define em qual tipo de ação educativa se quer realizar, a partir de um
posicionamento diante da leitura da realidade e do embasamento estrutural e legal.
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Todavia, somente terá significado se construído por todos os integrantes da
instituição, de maneira a valorizar as opiniões e buscar respostas às indagações da
comunidade.
Caldieraro (2006, p. 18) destaca:
A construção do Projeto Pedagógico é uma oportunidade para a tomada de consciência dos principais problemas da escola e das possibilidades de solução. É também oportunidade para definição das responsabilidades coletivas e pessoais, na eliminação ou abrandamento dos problemas detectados.
Para isso, ele deve apresentar alguns pressupostos fundamentais, que
caracterizam a sua elaboração, como prever condições para o seu desenvolvimento
a partir das problemáticas e da realidade da instituição; articular as ações com todos
os segmentos envolvidos, respeitando as diversidades; ser construído coletivamente
e de forma integrada; buscar a democratização da escola.
Assim, os recursos didáticos completam os elementos essenciais para uma
boa aula. São eles que farão com que o planejamento do professor seja posto em
prática, de maneira que haja uma maior compreensão dos conteúdos escolares.
Nesse sentido, haverá a relação, apropriação e construção do processo de ensino e
aprendizagem, a partir da interação entre educador, educando e objeto de
conhecimento.
A utilização de materiais, ferramentas e recursos diversificados é de extrema
importância para a vida escolar do educando, pois a aula se torna mais prazerosa
quando o aluno possui variedades e recursos a seu favor, auxiliando na
compreensão dos exercícios propostos e facilitando a aprendizagem.
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