• Nenhum resultado encontrado

OS ELEMENTOS DO TEATRO NATURALISTA EM AVENIDA BRASIL

No Brasil, atualmente, figurar na telenovela das 21h00 da TV Globo é uma alavanca para o reconhecimento da qualidade e talento de atrizes e atores. Todavia, para chegar a esse feito, não existe uma fórmula nem uma formação específica.

Empiricamente, percebe-se que, muitos dos atores das telenovelas iniciaram sua carreira em outras áreas como a comunicação e a moda.

A formação de ator nem sempre ocorre nos cursos de formação em nível superior ou profissionalizante; muitas vezes ocorre diretamente por meio da prática em teatro. Por exemplo: Débora Falabella, que interpretou Nina em Avenida Brasil, iniciou sua carreira de atriz em companhia de teatro amador na cidade mineira de Belo Horizonte; depois cursou a faculdade de publicidade até fazer testes na TV Globo e consolidar-se como atriz. Já Adriana Esteves, que interpretou Carminha, também iniciou seus estudos em teatro, foi modelo e fez também curso de publicidade antes de ingressar na televisão.

A novela Avenida Brasil agradou muito ao público, destacando-se por altos índices de popularidade.

Esta dissertação concentra-se na personagem ‘Carminha’ por ter, juntamente com ‘Nina’, um lugar de protagonismo. Será feita a análise da interpretação da atriz Adriana Esteves à luz da teoria do teatrólogo/dramaturgo russo Constantin Stanislavski.

Para identificar os elementos naturalistas de tal interpretação, optou-se por analisar a referida novela em três momentos da vida da personagem: introdução, clímax e desfecho. Para efetivar a pesquisa, foram escolhidas cenas de capítulos de três semanas, em diferentes períodos da novela, de modo a permitirem um ‘estudo de caso’. Como critério para a definição das semanas, foram utilizados períodos em que Carminha apresentava situação social, caracterização e apelo emocional diferente em cada um, a fim de avaliar se a atriz empregou e manteve os pontos assumidos como as características analíticas do estudo de caso: verdade cênica;

ação interior e circunstâncias dadas; texto e subtexto.(apresentados no capítulo 4) Discorrer-se-á, a seguir, sobre a primeira semana, capítulos 1 ao 6, a primeira fase da novela, quando Carminha ainda é pobre e tenta dar o golpe em Genésio roubando o dinheiro da casa que ele vendeu.

Em sua primeira aparição na novela, no capítulo 1, enquanto Nina ainda é criança e chama-se Rita, Carminha repreende duramente a menina que brinca fazendo barulho de ambulância, o que irrita Carminha que está fazendo preparativos para mudança de domicilio. Carminha tem um momento de fúria quando diz rapidamente: “Para de gritar, peste!” e assim dá a conhecer em texto falado, para Rita e para o público, o subtexto de sua personagem e, dessa maneira, evidenci a e justifica o conflito que permeará toda a trama. Carminha diz este texto impulsivamente e extrapola ao verbalizar seu sentimento. “[...] toda ação deve ter uma justificativa interior, deve ser lógica, coerente e real.” (STANISLAVSKI, 2002, p.76). Após a fala da personagem, a pequena Rita fica em silêncio e ocorre uma

‘pausa dramática’, usada para o público assimilar e compreender o ocorrido; um tempo em que nenhum dos personagens fala. Essa pausa é acompanhada da sonoplastia que cria o clima da cena enquanto há um close na expressão de surpresa de Rita ao ouvir o desabafo da madrasta. A ‘movimentação acelerada’ de Carminha e o ‘olhar inquieto’ contribuem para representar ‘com verdade’ o incômodo que a criança traz à madrasta. Além disso, a atriz usou ‘dicção acelerada’ e ‘volume alto’ para demonstrar que esse texto é dito pela personagem por impulso.

Na sequência da cena, Rita continua a irritar Carminha, que ‘se movimenta muito’ e tem ‘falas em ritmo acelerado’, até o momento em que há uma ruptura na emoção presente e, Carminha, desviando o olhar da menina, apoiada em uma caixa de papelão e nela batendo os dedos impacientemente, sem dirigir o olhar à criança, usa ‘tom mais seco’ e ‘velocidade mais lenta’ na fala: “Vai botar uniforme, está na hora de ir para o colégio.” A frase é dita como se Carminha tentasse recobrar a consciência, perdida na fala anterior. Rita rebate, dizendo que não vai à escola e, novamente, Carminha se irrita e aumenta o tom de voz com entonação de raiva, range os dentes e caminha em direção à criança para segurar seu braço e declamar o texto olhando fixamente para Rita. Aparenta confiança e ‘expressão física enérgica’ utilizada para mover seu corpo, conforme discorre Stanislavski (2004, p.87): “A energia, aquecida pela emoção, carregada de vontade dirigida pelo intelecto, move-se com orgulho e confiança, como um embaixador numa missão importante”. Durante a fala, a atriz diversifica a expressão vocal, repetindo a mesma frase com entonações diferentes; suspira, evidencia a palavra importante, acelera, faz pequena pausa, aumenta o volume. Rita continua provocando a fúria de Carminha e quebra os objetos de decoração da casa que Carminha já tinha

guardado em uma caixa. Carminha olha pra trás em direção a menina, respira, reflete e pergunta se está sendo desafiada, caminha lentamente, pega a boneca de Rita e tira-lhe o pescoço. Rita tenta impedir e é empurrada por Carminha. A menina levanta e joga um pote de mingau no rosto de Carminha. Novamente, há uma pausa dramática, e a interpretação fica por conta da ação que predomina com a respiração e o olhar das duas personagens que parecem refletir sobre as ações anteriores e a reação que terão a seguir, alimentando a raiva uma da outra.

Quando escolherem algum tipo de ação, deixem em paz o sent imento e o conteúdo espiritual. [...] Todos esses sentimentos resultam de alguma coisa que se passou primeiro. Vocês devem pensar com toda força nesta coisa que se passou antes. Quanto ao resultado, virá por si só. ( STANISLAVSKI, 2002, p.71)

Como resposta, Carminha caminha lentamente em direção à Rita, segura o cabelo da menina de maneira abrupta e fala mais uma vez o texto, traiçoeiramente (Figura 1).

FIGURA 1 - CAPÍTULO 1 – CARMINHA AMEAÇA RITA

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

A porta bate e Genésio, o pai de Rita, chega. Imediatamente, Carminha muda sua expressão, abaixa as sobrancelhas e finge estar chorando (Figura 2).

Joga-se no sofá chorando e fala seu texto com voz aguda e pausada. O olhar é

baixo e simula uma falsa decepção com Rita, quando diz que foi ela quem estragou a própria boneca.

FIGURA 2 - CAPÍTULO 1: CARMINHA ESCUTA GENÉSIO CHEGAR

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012.

A expressão facial e corporal revelam mais do que o texto falado. Carminha faz o que Antônio Januzelli (2003, p.15) observa sobre o sistema Stanilavski: “Falar com os olhos, a boca, as orelhas, a ponta do nariz, os dedos, em movimentos quase imperceptíveis.” Na continuidade da cena, Carminha, chacoalhando a cabeça, olha para Rita. Ela força choro e diz que ama a menina. Rita, com raiva, estapeia o rosto de Carminha e sai correndo. Nesse momento, Carminha consegue o ápice de seu fingimento. Ela varia o ritmo de sua fala, procura Rita com olhar de apreensão, temendo que a menina fale mais alguma coisa sobre seu comportamento e coloque por terra sua simulação. Porém, diferente do que a vilã Carminha sente verdadeiramente, no texto ela continua pedindo desculpas e repetindo que ama a menina. A personagem nesse momento, precisa disfarçar, por meio de sua entonação, que está fingindo para o marido e usa a repetição e o ritmo da fala como solução. “Mesmo quando não entendemos o significado das palavras, seus sons nos afetam por meio de seu tempo-ritmos.” (STANISLAVSKI, 2004, p.311)

Após acalmar Carminha, Genésio pergunta se ela está arrumando as coisas da mudança; ela, com expressão de cansaço, leva a mão na cabeça e afirma que está adiantando. Carminha aproveita ‘o gancho’ para confirmar que Genésio assinará a escritura de venda da casa. Faz essa pergunta ainda com a mesma

entonação de cansaço; o olhar interesseiro, contudo, contradiz o texto e transparece o subtexto: Carminha está ludibriando Genésio.

Nessa fase da novela, a expressão corporal de Carminha remete à moça miúda e ingênua, dona de casa, de aparência encurvada e gestos pequenos. Sua caracterização é de pessoa humilde, pobre; de bermuda, chinelo, blusinha pouco decotada e solta, em tom pastel com a alça do sutiã aparecendo; tem os cabelos presos e está sem maquiagem. Essa caracterização contribui para a imagem simplória que a personagem quer aparentar para seu esposo e auxilia a atriz em sua interpretação. O chinelo de tiras promove um andar característico: é necessário puxar o chinelo e dar passos longos quando quer acelerar a caminhada. O sutiã e a blusinha frouxos, e mais a coluna encurvada, conferem à personagem o aspecto de mulher retraída. A bermuda comprida e larga e o cabelo preso fazem com que Carminha aparente uma imagem de dona de casa sem vaidade.

A caracterização, quando acompanhada de uma verdadeira transposição, é uma grande coisa. É como o ator é chamado a criar uma imagem quando está em cena e não simplesmente a se pavonear perante público, ela vem a ser uma necessidade para todos nós. (STANISLAVSKI, 2004, p.60)

Em sua segunda cena, Carminha mantém os traços da primeira. Está sentada à mesa, conversando com Genésio sobre a venda da casa. O figurino ainda é recatado, mas a expressão corporal revela: coluna curvada, olhar baixo e esquivo em alguns momentos; a sobrancelha acompanha o movimento para baixo; o tom de voz é suave, introspectivo; o riso é tímido (Figura 3).

FIGURA 3 - CAPÍTULO 1: CARMINHA CONVERSANDO COM GENÉSIO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Após o término da conversa, Genésio sai e, Carminha, julgando-se sozinha em casa, liga para Max. Rita, que desistiu de ir à escola, volta para casa e ouve toda a conversa. Nessa cena, o tom de voz muda: é mais firme, o sotaque carioca é mais carregado, a sobrancelha é alta, o olhar é fixo; há mais gestos e a expressão corporal é feita com amplitude. Carminha deita na cama com os braços atrás da cabeça e os pés para o alto, aparenta folga, com sorriso largo. As reações de espanto de Rita escondida a escutar a conversa complementam a ação dramática de Carminha. Depois de desligar o telefone, Carminha joga-o em cima da cama de maneira descuidada e agressiva e anda pela casa com passos firmes. O telefone toca novamente, é telemarketing e Carminha recusa o que está sendo oferecido com secura e grosseria; com grito estridente termina a ligação com insultos. Percebe-se que nesta cena há contraponto na personagem Carminha: quando quer se mostrar ingênua perto de Genésio e quando revela sua verdadeira intenção. Muito possivelmente, fica claro para o espectador um subtexto que é revelado pela expressão da personagem que se altera conforme seu propósito.

Rita, nessa e em outras cenas, parece ter a função de complementar o objetivo de Carminha. Elas parecem dependentes uma da outra para que aconteça a ação dramática. Rita reforça as ações de Carminha como se fosse responsável pela contra-ação: “Toda ação tem uma reação que, por sua vez, intensifica a primeira.

Em toda peça encontramos, ao lado da ação principal, sua contra-ação. Trata-se de

um fato positivo, pois o resultado inevitável é uma ação ainda maior.”

(STANISLAVSKI, 1997, p.54)

Uma cena importante desse capítulo está numa sequência de 5 minutos, em que Genésio descobre o plano de Carminha e desmascara a personagem. Ele segue a mulher e revela ao público que fingiu aceitar ser por ela roubado, mas que não caiu no golpe que ela planejou. A cena começa com Genésio indo atrás de Carminha, que anda pelas ruas escuras, com gestos exagerados, olhando para trás de maneira quase teatral e cômica como um clown17; a expressão facial é de uma pessoa ansiosa, bem diferente da mulher que dialoga com o marido em outros momentos. A trilha sonora contribui para o suspense da cena até que, Carminha chega ofegante ao local, uma laje, onde Max a está esperando. Ela fala alto com voz aguda, gesticula muito e, apesar da discussão, parece estar à vontade com o parceiro, diferente do modo que interage na presença de Genésio. Ao fundo, longe, um som de sirene de polícia indica que estão em um local parcialmente escondido.

Carminha vira de costas para Max, respira, passa a mão na cabeça com uma marcação teatral como se tivesse que mostrar para o público o quanto está indignada com o que julga ser o mau trabalho do comparsa (Figura 4).

FIGURA 4 - CAPÍTULO 1: CARMINHA IRRITADA COM MAX

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

17 A tradução de clown é ‘palhaço’; mas a palavra simboliza um estilo de interpretação em que clown significa engraçado, bobo, ridículo.

Carminha fala mal de Genésio, e especula com Max se ele é culpado dizendo: “E se não foi seu parceiro que armou...” pausa. A trilha sonora de suspense volta, o olhar está firme em Max e completa: “...vai ver é tu que está me dando uma volta”. Max aperta o pescoço de Carminha e ela o olha fixamente nos olhos, parece mais frágil. Max sai e Carminha ocupa o lugar que ele estava no espaço cênico, pedindo para que ele não a deixe sozinha; ele ignora, sai e ela continua chamando por ele. Vira repentinamente o corpo, coloca as mãos na testa e as desliza pelo rosto todo; respira fundo, fica ofegante e demonstra ansiedade e um olhar perdido (Figura 5).

FIGURA 5 - CAPÍTULO 1: CARMINHA PREOCUPADA COM O GOLPE QUE DEU ERRADO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Enquanto isso, Genésio sai de onde estava escondido; fala e dirige-se lentamente em direção à Carminha. Ela assustada, vira-se para ele, tenciona a boca, mantém o olhar fixo no marido segurando choro; fala com raiva, quase não projeta a voz e com nojo pede que ele fique longe dela, chamando-o de velho.

Em meio à discussão, quando associa Rita à perspicácia de Genésio ter descoberto o plano de roubar o dinheiro da venda da casa, Carminha muda a expressão para um riso irônico, respira mais fundo e tenta fugir, mas Genésio, aparentemente, perde a paciência, aumenta o tom de voz e a impede que fuja apertando o braço e implorando uma explicação. Ela faz uma alternância de

tonalidades com expressões nervosas e caretas de nojo que deixam muito claro a que ponto Carminha é capaz de chegar para alcançar seus objetivos (Figura 6).

FIGURA 6 - CAPÍTULO 1: CARMINHA EXPONDO SEUS VERDADEIROS SENTIMENTOS A GENÉSIO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Carminha dá uma pancada no braço de Genésio e foge; ele, porém, corre e consegue, novamente, segurá-la pelo braço. Ela lhe dá uma cotovelada que o faz cair pela escada. De cima, com expressão de superioridade, ela olha para Genésio jogado no chão; desce a escada lentamente, fazendo uma longa pausa dramática, passa por cima dele e sai de cena. Os personagens demonstram um misto de emoções para representar toda a expressão dramática dessa cena: ansiedade, nervosismo, decepção, susto, tensão, alívio e nojo são alguns sentimentos que passam nesses cinco minutos de encenação e, para chegar a esses sentimentos com credibilidade, os atores precisam trabalhar com a memória das emoções.

[...] um artista não constrói seu papel com a primeira coisa que lhe est á a mão. Seleciona com o máximo cuidado dentre suas lembranças e elege das experiências vivas as mais sedutoras. Para tecer a alma da pessoa que vai retratar, utiliza emoções que lhe são mais caras do que suas sensações cotidianas. (STANISLAVSKI, 2002, p.215-216)

A cena temporalmente é longa para televisão, mas bem curta se comparada ao teatro. Mostra textos e expressões importantes para o espectador que, como se

fossem fragmentos, gradativamente vai reunindo as informações da história e dando a perceber a carga dramática do desespero de Carminha ao não conseguir aplicar seu golpe em Genésio e também, por outro lado, sua relação de amor, dependência e parceria com Max.

No mesmo capítulo da novela, Genésio será atropelado por Tufão e morrerá.

Ainda na primeira semana, Carminha conseguirá roubar o dinheiro da venda da casa, Max deixará Rita no lixão e Tufão conhecerá Carminha que estará sempre posando de viúva triste.

Na cena do segundo capítulo, em que Carminha e Tufão entram na antiga casa de Genésio; a marcação assemelha-se muito àquela utilizada em espetáculos teatrais: a câmera está posicionada de forma fixa, como se fosse a plateia de um teatro. Carminha entra pela porta, caminha em direção ao porta-retrato que tem uma foto de Rita e vira-o para baixo, afim de que Tufão não perceba que Genésio tinha uma filha. Ela fala seu texto olhando para um ponto fixo, enquanto Tufão passeia atrás dela, conhecendo a casa. Quando ele chega perto dela, Carminha anda lentamente para seu lado esquerdo, enquanto Tufão anda para a direita, de tal forma que os dois preenchem o espaço cênico, exatamente como se faz em um palco de teatro. Carminha desvia o olhar várias vezes, como se estivesse em um palco, triangulando18 com a plateia. Ela senta no sofá com o olhar no horizonte, ainda como se estivesse fazendo a cena para uma plateia, apesar de a câmera estar posicionada em um plano geral 3/4 e depois, em primeiro plano frontal. Tufão permanece atrás dela e eles não trocam olhares, o que demonstra o desconforto daquela situação para ambos (Figura 7).

18 Diz-se ‘triangular’ quando o ator contracena com seu companheiro e com a plateia.

FIGURA 7 - CAPÍTULO 2: CARMINHA E TUFÃO NA CASA DE GENÉSIO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Ainda no segundo capítulo, Carminha contracena com seu comparsa, Max.

Para ele, a personagem revela sua verdadeira personalidade. O sentimento é de felicidade, satisfação e empolgação, o que surpreende o companheiro. A expressão disso extrapola por todos os sentidos da atriz: voz alta, gestos amplos, rosto bastante expressivo. “Para reforçar e explicar nosso sentimento e pensamento, os gestos e os movimentos contribuem com uma viva ilustração.” (STANISLAVSKI, 1972, p.98) Carminha fala aceleradamente e novamente deixa mais evidente seu sotaque carioca (Figura 8).

FIGURA 8 - CAPÍTULO 2: CARMINHA CONVERSANDO COM MAX E IMAGINANDO COMO APROVEITAR-SE DA FRAGILIDADE DE TUFÃO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Enquanto Max está falando, Carminha rói unhas e olha fixamente para o lado, ação que sugere que ela está refletindo sobre algo, sem dar importância para a fala dele. Nesses momentos, Carminha também está se expressando e criando um

‘gancho’ para suas próximas falas, apresentando sua ação interior. Carminha faz pausas psicológicas, principalmente nas quebras de texto na conversa com o companheiro e imagina que pode, finalmente, ter a condição financeira que almejava quando roubou Genésio. Para convencer Max a fazer o que ela quer, usa frases em que separa as sílabas das palavras em sua fala, a fim de dar ênfase em seu argumento. A personagem, claramente, demonstra muitos elementos que diferem de sua cena anterior com Tufão. Essa também é a cena que encerra o capítulo e cria o

‘gancho’ para o que será exibido no dia seguinte. O gancho, em Avenida Brasil, é feito com o congelamento da última imagem e, nesse capítulo, apresentou-se após o momento em que Carminha atesta que quem atropelou Genésio foi Tufão.

No terceiro capítulo, na continuação da cena do capítulo anterior, Carminha continua falando sobre sua constatação e faz uso de pausas psicológicas; essas indicam as conexões que Carminha faz para afirmar que Tufão é o culpado pelo atropelamento de Genésio. Ela fala de maneira firme e segura: “Tufão tem um quatro por quatro!” referindo-se ao carro que foi visto pelos médicos da ambulância que atenderam Genésio. Durante a pausa da personagem, Max aparece em close, com expressão de cumplicidade e curiosidade, completando o ‘clima de pasmo’ da

cena. Carminha abre os braços energicamente e continua falando, aceleradamente e com respiração entrecortada, sobre sua sorte que se deve ao fato de Genésio não tê-la denunciado a polícia e ainda de Tufão sentir-se culpado pelo atropelamento e oferecer ajuda (Figura 9). A expressão dessa situação aparenta que a empolgação de Carminha está crescente e sua gargalhada comprova, para o espectador e para Max, a satisfação pelo ocorrido; assim a cena termina.

FIGURA 9 - CAPÍTULO 3: CARMINHA PERCEBE QUE TUFÃO ATROPELOU GENÉSIO

FONTE: TV GLOBO, AVENIDA BRASIL, 2012

Na próxima cena, Carminha apresenta-se com pouca maquiagem, roupa preta discreta e chinelo nos pés. Ela tem a intenção de apresentar-se como ‘viúva triste’, forma que é comentada na cena por Max com quem ela contracena. Ela se arruma para encontrar Tufão e conversa com Max. Enquanto está colocando um anel, escuta de Max que Tufão ganha cem mil reais e arregala os olhos demonstrando impressão de surpresa. Fica claro que o golpe em Genésio foi muito menos rentável, e que ela não esperava que Tufão fosse tão rico.

Em outra sequência, já com Tufão, Carminha volta à expressão cabisbaixa;

conversa sofregamente, os olhos se enchem de lágrimas, desviam dos olhos de Tufão e a voz é trêmula como se estivesse engasgada, segurando choro. Tufão insiste que quer levá-la à churrascaria e, chorando abundantemente, ela cede e

conversa sofregamente, os olhos se enchem de lágrimas, desviam dos olhos de Tufão e a voz é trêmula como se estivesse engasgada, segurando choro. Tufão insiste que quer levá-la à churrascaria e, chorando abundantemente, ela cede e