Jornalismo: um paradigma desafiado
1.2.2 Os elementos e os princípios do Jornalismo
Finalmente, agregamos num último grupo de perspectivas as que de alguma forma perfilham a visão do “modelo normativo”. Esta é, como vimos, um ponto de vista para enunciar o Jornalismo que Zelizer (2005) não identifica enquanto tal, mas pode ser considerada o ponto em comum nos discursos de jornalistas e académicos: traduz a forma de os jornalistas verem o Jornalismo como um “serviço” e pode ser inte- grada na abordagem do Jornalismo como “instituição” que é feita pelos académicos (uma dimensão de análise que também incorpora as pers- pectivas do “modelo alternativo”). Também é aqui que nos colocamos, como tivemos já oportunidade de esclarecer, embora, como veremos, nem todas as perspectivas que aqui se podem enquadrar sejam iguais.
Uma das posições mais assertivas sobre a relação entre Jornalismo e democracia vem de Carey, que já mencionámos antes e retomamos agora, para ilustrar o lado mais “extremo” do continuum:
“O jornalismo e a democracia partilham um destino comum (…). Sem as instituições ou o espírito da democracia, (…) os jornalistas ficam reduzidos a propagandistas ou entertainers (…). (…) Quando os jornalistas medem o seu sucesso comente pelo volume de leitores e tamanho da audiência, pelos lucros das suas companhias ou pelos seus rendimentos, estatuto e visibilidade, caíram na tentação de falsos deuses (…) (Carey, 1999: 16,17).
Sem estabelecerem esta ligação “visceral” entre Jornalismo e democracia, encontramos várias outras posições que, partindo desse pressuposto, enfatizam diversas características dessa relação. Por exemplo, a capacidade do Jornalismo para suscitar comentários e debate: “(…) são os meios que mantêm a existência de uma constelação de factos que não se desvanecem quando são difundidos, mas antes impressionam a audiência, dão que pensar, suscitam comentários e continuam presentes da conversação” (Gomis, 1991: 18). Neste sentido, o jornalista deve agir como um intérprete: “A interpretação da reali- dade como um conglomerado de notícias responde a uma expectativa do público e a necessidades técnicas (…) Cabe, por isso, à actividade
“Os jornalistas são, muitas vezes, descritos como ‘watchdogs’ ou ‘defensores’. Ambas as metáforas sugerem que os jornalistas devem agir ‘em nome do público’, fornecer-lhe a informação necessária para uma tomada de decisão democrática, defender a sociadade da crorrupção, e lidar com assuntos que interessam ao público. Da mesma forma, o discurso jornalístico usa frequentemente a retórica da missão, dever e serviço quand discute a relação entre os jornalistas e as suas audiências” (Tsfati et alii, 2006: 152). “Os meios do jornalismo são os jornalistas: a informação, notí- cias e opinião que eles recolhem e criam; e um processo através do qual o trabalho dos jornalis- tas é partilhado com o público. Mas o fim do jornalismo, o objectivo do jornalismo, é um público informado e um público informado é a pedra angular da democracia (Harris, 2001: 107). “É um lugar-comum a sugestão de que enquanto que o ideal da esfera pública é raramente atingido na prática, o jornalismo democrático deve lutar por oferecer acesso público a um relato completo dos eventos publicamente relevantes, e uma grande amplitude de opiniões sobre assuntos sociais e políticos. É igualmente comum questionar a realização desses ideais, com base no argumento de que os preconceitos dos jornalistas, as pressões políti- cas, os imperativos comerciais ou outros factores enviesam sistematicamente a selecção e enquadramento das notícias (Hackett & Uzelman, 2003: 331).
profissional chamada Jornalismo dar uma versão concentrada, dramatizada e sugestiva da realidade social actual, que escolha o mais interessante entre tudo o que é conhecido, por ter ocorrido” (Gomis, 1991: 18, 19).
Já outros autores aproximam-se da posição de Carey, evidenciando a responsabilidade social dos jornalistas e colo- cando a liberdade como condição necessária para o seu exercício:
“(…) o jornalismo é o ofício democrático por excelência. Argumentamos que ele nasce exclusi- vamente num sistema de direitos que permite a liberdade de expressão, e, mais ainda, argumenta- mos que opera numa cultura de cidadania em que a verdade dos factos verificáveis são bens essenciais. Tomamos a perspectiva de que os jornalistas têm um contrato social com os seus concidadãos para colocarem à vista um mundo real (…). Acreditamos que quanto mais rico for o retrato, mais ricas serão as possibilidades da vida em democracia” (Adam & Clark, 2006: xi).
Bill Kovach e Tom Rosenstiel tentaram, no âmbito dos trabalhos do Committee of Concerned Journalists (CCJ) (administrado pelo
Project for the Excelence of Journalism), perceber o que é o Jornal-
ismo e para que serve, a partir das percepções de dois grupos: cidadãos e jornalistas35. Daqui resultou o elenco, numa Decla-
ração de Propósito Partilhado (Statement of Shared Purpose), de nove Princípios pelos quais se deve reger o Jornalismo, enca- beçados por uma definição:
“Depois de uma análise alargada, por parte dos próprios jornalistas, sobre o carácter do jornalismo no final do século XX, propomos este entendimento comum sobre o que define o nosso trabalho. O propósito central do jornalismo é o de fornecer os cidadãos a informação precisa e confiável de que necessitam para funcionar numa sociedade livre. Isto engloba muitos papéis – ajudar a definir a comunidade, criar uma linguagem e um conheci- mento comuns, identificar os objectivos, os heróis e os vilões de uma comunidade e levar as pessoas além da complacência. Este propósito também envolve outros requisitos, como entreter, servir de vigilante (watchdog) e dar voz aos que não a têm. Com o tempo, os jornalistas desenvolveram nove princípios essenciais que cumprem essa missão. 35. O projecto teve início em 1997
e consistiu numa pesquisa nacional entre cidadãos e jornalistas, para identificar e clarificar os princípios subjacentes ao jornalismo. Depois de quatro anos de investigação, que implicaram 20 fóruns pelos EUA, uma revisão da literatura sobre a história do jornalismo, uma pesquisa nacional aos jornalistas, entre outras iniciati- vas, o grupo divulgou uma Declaração
de Propósito Partilhado (Statement of
Shared Purpose), que identificada nove
Princípios, que se tornaram na base da obra The Elements of Journalism (Kovach & Rosenstiel, 2003).
“Uma imprensa livre e inde- pendente é essencial para a liberdade humana. Nenhum povo pode manter-se soberano sem uma imprensa vigorosa que difunde as notícias, examina assuntos cruciais e encoraja uma sadia troca de ideias. Em reconhecimento do papel vital da imprensa na sociedade, muitos países atribuem-lhe protecções legais especiais, nas Constituições ou outras leis (…). Onde este estatuto especial foi concedido à imprensa, as organizações noticiosas têm mantido um elevado padrão de serviço público e confiança dos cidadãos. Com o tempo, este ideal tornou-se num alicerce do jornalismo, uma trdaição duradoura através da qual a imprensa livre tem sido uma força poderosa de progresso e da participação na sociedade de cidadãos informados” (Anonymous, 2002: 56). “Sem uma cidadania informada, a democracia fica empobrecida e em risco” (Franklin, 1997).
67 Eles constituem o que poderia ser descrito como uma
teoria do jornalismo.”36
São estes os nove princípios propostos por Kovach e Rosenstiel (2003): a primeira obrigação do jornalismo é para com a verdade; a sua primeira lealdade é para com os cidadãos; a sua essência é uma disci- plina de verificação; os seus praticantes devem manter independência daqueles que cobrem; deve funcionar como uma monitorzação inde- pendente do poder; deve proporcionar um fórum para a crítica pública e para o compromisso; deve lutar para tornar o significativo interessante e relevante; deve manter as notícias abrangentes e proporcionais; e, finalmente, os seus praticantes devem ser autorizados a exercer a sua consciência pessoal.
Já McNair (McNair, 2000), quando aborda a questão do ponto de vista do jornalismo político estabelece essa relação claramente, num contexto em que a forma como os cidadãos experienciam a política contemporânea é em grande parte através dos media: “(…) Que as acções do governo e do estado, e os esforços e interesses das partes que competem para exercer o poder político, deveriam ser sustentadas e legitimadas pelo escrutínio crítico e pelo debate informado proporcio- nado pela instituições dos media é um pressuposto normativo que une todo o espectro político, da esquerda à direita” (1). Ressalva também a dimensão de construção inerente ao trabalho jornalístico: “(…) Os regis- tos da realidade política proporcionados pelos media são construções complexas, que incorporam o trabalho de ambos os grupos, que deveria idealmente cumprir, mas nem sempre cumpre, os padrões da precisão informativa e da objectividade esperadas da comunicação política numa democracia liberal” (1). Destaca ainda uma dimensão que nos é muito cara, também contemplada no trabalho de Kovach e Rosenstiel (2003), que é da participação indispensável dos cidadãos nos debates, sobre o Jornalismo e sobre os assuntos que tocam as suas vidas e as suas decisões, em nome dos quais os jornalistas trabalham:
“Ainda assim, muitas vozes importantes estão ausentes – sobretudo as do próprio público: aquela grande massa de cidadãos normais que constituem a maior parte da audiên- cia do jornalismo político, e para cujo hipotético benefício funciona toda a máquina infernal da comunicação política. O que é que eles pensam dos assuntos debatidos tão intensamente pelos académicos, jornalistas e políticos em seu nome?” (3).
36. www.journalism.org/resources/ principles/
“O declínio do jornalismo de imprensa cria problemas não só para o negócio, mas também para a democracia. Como é que os cidadãos vão conseguir obter a informação de que precisam para fazer o sistema funcionar? Em nome da democracia, se o modelo tradicional de negócio já não funciona, temos de tentar percebê-lo o suficiente para ajudar a repará-lo ou a substitui- -lo” (Meyer, 2004: 66).
Treillard, 2006:
“O cerne do problema está, na verdade, na natureza dual dos media. Eles são a espinha dorsal do processo democrático. Fornecem a informação política em que os votantes baseiam a sua decisão. Identificam os problemas na sociedade. E também desempenham o papel de vigilantes com os quais contamos para nos revelarem os erros dos que detêm o poder. Mas os media também são uma actividade comercial num ambiente tecnológico em rápido movimento.
Por isso, os media desempe- nham um importante papel na construção das características económicas, políticas, sociais e culturais de um país” (3). “Em todos os lugares onde existem, os media um papel vital e definidor para a democracia. Na verdade, a democracia quase nunca floresce sem media eficientes e independentes. O desenvolvimento sem precalços da democracia está ligado ao papel dos media, na criação e difusão de informação, imagens e ideias” (4).
Outras perspectivas mais críticas quanto à relação necessária do Jornalismo com a democracia podem ser encontradas na literatura. Não se trata de negar essa ligação, mas antes de evidenciar as dificuldades e problemas que levanta, principalmente quando colocada como condição necessária. Vejamos os exemplos de James Curran e Michael Schudson.
Curran (2005) argumenta que “a literatura sobre os media e a democracia precisa de um camião de mudanças para carregar os cacos acumulados em dois séculos. O que deveria ser descartado, o que deve- ria ser mantido e como deveria ser reorganizada a mobília intelectual é algo que tem de ser pensado de uma nova forma” (122).
Para este autor, são vários os papéis que cabem ao Jornalismo numa sociedade democrática, tarefas que não estarão a ser cumpridas a favor dos cidadãos, como conviria. Critica este estado de coisas, numa linha de raciocínio muito próxima do “modelo alternativo” anterior- mente referido, e propõe um outro modelo de funcionamento para os media em democracia, no qual a centralidade é dada ao serviço público:
“[Há um] complexo conjunto de requisitos para um sistema mediático democrático. Ele deveria dar mais poder às pessoas, ao permitir-lhes explorar quais são os seus interesses; deveria apoiar identidades de grupo regio- nais e auxiliar o funcionamento das organizações necessá- rias para a representação efectiva de grupos de interesse; deveria manter um escrutínio vigilante do governo e dos centros de poder; deveria proporcionar uma fonte de protecção para os interesses fracos e desorganizados; e deveria criar as condições para um verdadeiro acordo social ou compromisso, baseado na discussão aberta de diferenças em vez de um consenso artificial baseado na dominância das elites. Isto pode ser mais bem conse- guido pelo estabelecimento de um sistema de difusão de serviço público, rodeado por um mercado social, um sector privado e por sectores de media profissionais e cívicos. Estes últimos deveriam reforçar o funcionamento do serviço público como um sistema aberto de diálogo, e deveriam dar ímpeto à tradição de uma sociedade civil colectiva e auto-organizada” (Curran, 2005: 145).
Já Michael Schudson (Schudson, 2003) faz uma crítica às posi- ções de Carey (1996) a que nos referimos antes: “Não há dúvida sobre a importância do jornalismo numa democracia. Mas o jornalismo, por si próprio, não é democracia e não cria democracia. Têm coexistido, década sobre década, com regimes não democráticos, autoritários e repressivos”
“O processo democrático assume que os cidadãos individuais têm a capacidade de pedir contas aos representantes eleitos. Na prática, a prestação de contas política requer uma variedade de condições insti- tuicionais, incluindo eleições livres e frequentes, a presença de partidos políticos fortes e, particularmente importante, um sistema de media que forneça uma quantidade suficiente de informação sobre as questões públicas, de maneira a chamar a atenção de cidadaõs relativa-
mente desatentos” (Curran et alii, 2009. “A democracia não pode funcio- nar eficientemente sem uma imprensa livre, que desempenha bem o seu papel de vigilante e de fonte de informação. Em outras palavras, a imprensa tem de fazer bem o seu papel oara que a democracia tenha sucesso. Como já referimos, o que bom para a democracia também é bom para a imprensa” (Patterson, 2000: 15).
69 (198). E remata: “Se é só isto que vale como jornalismo, o que é tudo o
resto que dá por esse nome? (…) É jornalismo, também” (199).
Ou seja, sendo um facto indisputável que “as notícias e as insti- tuições noticiosas existem mesmo onde não há democracia” (197), parece evidente que há um conflito entre aquilo que é a prática jorna- lística real e a filosofia normativa que orienta o Jornalismo e o trabalho dos jornalistas, o que obriga a reequacionar o conceito de universalismo democrático associado à produção jornalística: “A notícia é universal- mente democrática apenas no sentido em que é informação publicada, não-exclusiva, potencialmente disponível para qualquer pessoa que queira prestar-lhe atenção. Não promove necessariamente uma cidada- nia activa e habilitada” (197).
Isto não significa, contudo, que, para o autor, perca sentido a relação entre o Jornalismo e a democracia, que deverá funcionar como um objectivo: “Quando uma sociedade desfruta de um governo eleito e de Jornalismo independente, as consequências podem ser fantásticas” (197). E acrescenta um argumento a favor da “relação natural” entre jornalismo e democracia: “(…) a satisfação no trabalho entre repórteres e editores tende a estar directamente relacionada com a quantidade de liberdade que os jornalistas têm para escrever e publicar à sua vontade, sem censura ou constrangimentos ideológicos. Jornalistas de todas as cores políticas gostam da liberdade de expressão; e se não a têm, procuram-na” (200).
Quanto ao Jornalismo, este continua, para Schudson, a ter um papel crucial e condições para o desempenhar:
“Actualmente, a proeminência global do jornalismo pode ainda engendrar um sentido de comunidade mundial, de destino humano partilhado, e de direitos humanos que transcendem nações. A sua cobertura de pequenos dramas pessoais da vida diária, triunfos e tragédias na ciência e na educação, e o conflito ou transcendência na religião ou cultura podem criar uma comunidade, tanto como a sua cobertura da política cria uma agenda pública. Em ambas as formas, as notícias tornam-se parte do repensar e reconstrução diárias de um mundo social comum (212).
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OrnalismODedicamos algumas linhas a uma outra questão, já anteriormente aflorada, que também se torna evidente quando olhamos para o discurso
das “alternativas” ao “modelo normativo”: invariavelmente, arriscamos a dizer, referem-se a ele como se se tratasse de um conceito/modelo simples, que não encerra, também ele, diferentes facetas e pontos de vista e carrega todo um processo de evolução. Para esta achega, vamos centrar-nos no trabalho de Christians et alii (2009), desde logo na perspectiva teórica que oferecem. Considerendo que uma teoria é uma “explicação razoável para o motivo pelo qual determinadas acções levam a certos resultados” (ix), defendem a premmissa de que há dois tipos de teorias do Jornalismo (‘theories of the press’): as que prescrevem as tarefas normativas para os media na sociedade e as que descrevem o real papel dos media na sociedade. Enquanto que a segunda aborda a questão de um ângulo ‘objectivo’ da sociologia dos media, a primeira lida com os valores ‘subjectivos’ e culturalmente associados, sustenta- dos por vários actores acerca da missão dos media. Ou seja, para estes autores, a teoria normativa “tenta explicar por que motivo uma determi- nada organização do discurso público leva a melhores decisões colecti- vas e, eventualmente, a uma melhor qualidade de vida” (ix). Ou seja, a relação media-sociedade pode, assim, ser articulada a dois níveis, um real e descritivo e outro ideal ou normativo, “embora a diferença entre ambos esteja longe de ser clara” (xi).
Quanto à matéria específica que nos interessa, a formação em Jornalismo, os autores consideram que sempre foi operada uma sepa- ração entre estes dois níveis, colocando a abordagem sociológica da categoria de “estudos científicos” e ensinando a abordagem normativa juntamente com do “direito da comunicação” e com a “ética”, como algo que é vinculado a valores e uma parte da prática profissional. Já os jornalistas assumem a perspectiva normativa como garantida sem questionar os seus fundamentos.
Numa tentativa de “promover a consciência profissional” no mundo dos media, incluindo o da formação, Christians et alii propõem que as teorias normativas não servem apenas como um argumento a favor da determinadas filosofias políticas, mas podem servir também para sensibilizar quem desenvolve políticas para os media e os jorna- listas a assumirem as suas premissas. Ou seja, as teorias normativas justificam-se não como instrumentos afirmativos destinados a forta- lecer uma ideologia vigente, mas como instrumentos de emancipação, apoiando, deste modo, a autonomia e auto-regulação dos media.
71 Há, como vimos, uma característica nesta argumentação que fica
clara desde o início: esta é uma abordagem que se limita àquilo que se poderia chamar de “teorias democráticas”. Contudo, os autores reco- nhecem um aspecto fundamental, cuja orientação partilhamos, que é o de que há “muitas maneiras de organizar a democracia e nenhuma sociedade em particular pode reclamar-se como representante do ideal democrático” (x). E, indo ainda mais longe, defendem, e bem, que “ancorar o normativo a sistemas políticos e culturas democráticas evita o problema do relativismo moral” (17), mas reconhecem que “tem havido e pode haver muitas combinações de instituições democráticas em diferentes contextos históricos e culturais que proporcionam garan- tias de liberdade e igualdade e o respeito pela existência humana que este enquadramento exige” (17) e, por isso, os autores propõem uma tipologia de “expressões democráticas”, ”mas não identificam nenhum tipo com qualquer sistema político histórico” (17). Ainda, construir um enquadramento normativo a partir dos modelos de democracia, em vez de o fazer a partir dos modelos de comunicação, tem uma vantagem: ajuda a evitar o “síndroma do jornalismo fortaleza” (fortress journalism
syndrom), ou seja pensar a partir dos media e não a partir das pessoas.
Desta maneira, também se favorece uma abordagem mais dinâmica, já que cada sistema de media não é colocado apenas numa categoria, mas cada sistema nacional de media e cada meio (ou mesmo cada jornalista) partilha mais do que uma tradição intelectual, servindo as tipologias apenas o propósito de proceder a distinções analíticas e não como “etiquetas totalizantes”.
Para isso, propõem um “novo começo” (16), com um modelo37
assente na separação de três níveis de análise: o filosófico (tradições normativas: corporativista, libertária, responsabilidade social e parti- cipação dos cidadãos); o político (modelos de democracia: adminis- trativo, pluralista, cívico e directo); e o dos media (papéis dos media: monitorial, facilitador, radical e colaborativo) (16). Cada nível tem a sua própria lógica e não há correspondência entre os modelos dos diferentes níveis. Este “novo começo” reconhece, assim, a complexi- dade das teorias normativas dos media, as profundas raízes culturais e históricas dos assuntos abordados e a multiplicidade de níveis a que as questões normativas devem ser confrontadas (17)38. Mais ainda, os
autores afirmam ver os princípios normativos “abertos em contínuo desenvolvimento numa era de globalização, localização e interacção de
37. Os autores tomam como ‘ponto