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Os elementos metafísico e religioso

No documento renatafredericosilvaaraujo (páginas 72-74)

À primeira vista soam estranhos serem estes os elementos mais importantes de sua obra, uma vez que a linguagem parece mesmo estar em grande destaque. Contudo, como mais à frente poderemos perceber, a linguagem também se deixa ver a partir do elemento metafísico. De início, entretanto, procuraremos compreender a tonalidade religiosa que permeia suas obras. Este elemento religioso não deve ser interpretado, evidentemente, como uma apologia a uma instituição religiosa, uma vez que o escritor era conhecedor de inúmeras religiões, por isso, os temas de suas obras estão notadamente marcados por este vasto conhecimento. Em uma de suas correspondências com o tradutor italiano de sua obra o escritor nos revela os personagens históricos com os quais tem uma afinidade no âmbito da religiosidade bem como o espírito no qual seus livros foram escritos:

Quero ficar com o Tao, com os Vedas e Upanixades, com os Evangelistas e São Paulo, com Platão, com Plotino, com Bérgson, com Berdiaeff – com Cristo, principalmente. Por isto mesmo, como apreço de essência e acentuação, assim gostaria de considerá-los: a) cenário e realidade sertaneja: 1 ponto; b) enredo: 2 pontos; c) poesia: 3 pontos; d) valor metafísico-religioso: 4 pontos.112

Primeiramente poderíamos então dizer que não se trata de uma preocupação em desenvolver conteúdos religiosos, mas da tentativa de vasculhar, rondar e até mesmo destacar um âmbito que ultrapassa o do humano. Franklin de Oliveira ao evidenciar a importância da transcendência do homem na obra de Rosa nos diz assim: “Penso em Hölderlin: ‘Aquele que ama as realidades mais profundas amará também o que há de mais vivo na vida’. Este é o amor pânico de Guimarães Rosa. Por isso há na sua obra constante referência à religião. Mas a religião, para ele não era matéria teológica, sim intuição e sentimento do universo: o mundo e nele, a radiosa aventura humana”.113 Recorrendo agora à própria fala do escritor, percebemos como ele se caracterizava: “Sou só RELIGIÃO – mas impossível de qualquer associação ou organização religiosa: tudo é o quente diálogo (tentativa de) com o ∞”.114 O fato de o escritor ser essencialmente religioso nos destaca, assim, a fonte na qual suas obras estiveram embebidas. A partir dessa confissão do escritor podemos ainda perceber o ponto de partida dos temas de suas obras. Isso porque em se tratando deste tema, o da religião ou da religiosidade, somos levados a compreender a necessidade de uma abertura para o

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BIZZARRI, Edoardo. João Guimarães Rosa: correspondência com seu tradutor italiano Edoardo Bizarri. São Paulo: T. A. Queiroz: Instituto Cultural Ítalo Brasileiro, 1980. p. 90-91.

113 OLIVEIRA, Franklin de. Revolução Roseana. In: ______ . COUTINHO, Eduardo F. (Org.). Fortuna Crítica:

Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S. A., 1991. p. 182-183.

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Depoimento à Revista Manchete, 11 de junho de 1963. In:

aprofundamento destas questões que não se pautam por um pensamento cartesiano. Tal abertura é, para o escritor, o âmbito mesmo da intuição, da revelação e da inspiração, como ele mesmo afirmava. Esta afirmação levava em conta a necessidade de se interpretar as suas obras a partir de um prisma anti-intelectual. Sendo assim, enveredar-se pelo caminho pautado pela “megera cartesiana” (nas palavras do escritor) era estar destituído da possibilidade de um contato com estes âmbitos abertos por sua literatura. Isso porque o escritor nos diz que: “Todos os meus livros são simplesmente tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbadora e rebelde a qualquer lógica, que é chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida”.115

No que diz respeito às suas obras, podemos perceber que muitos dos seus personagens estão numa íntima relação com este âmbito religioso, uma vez que as questões como Deus, transcendência e a própria condição de mistério que envolve a vida, são extremamente recorrentes. Perpassando suas obras nos deparamos com o desenvolvimento destas questões. No conto “Páramo” da obra Estas Estórias, o narrador/personagem tece várias considerações a respeito da morte. Esta se configura, para o personagem, não somente como o findar, ou seja, não mais existir, mas também como uma mudança crucial no trânsito da vida. Esta última o assalta e ele se vê num confronto com uma outra realidade, uma outra paisagem que lhe desperta para o elemento oculto que permeia a vida. A sua fala a respeito disso pode caracterizar melhor: “E, hoje em dia, tenho a certeza: toda liberdade é fictícia, nenhuma escolha é permitida; já então, a mão secreta, a coisa interior que nos movimenta pelos caminhos árduos e certos, foi ela que me obrigou a aceitar”.116 Ora, já no conto “A menina de lá” de Primeiras Estórias percebemos o caráter premonitório de uma criança que prevê inclusive a própria morte. Em “A hora e vez de Augusto Matraga”, o personagem deste conto, o qual este estudo pretende trabalhar, retoma as forças para reconquistar sua existência convertendo-se a uma religião. Contudo, ele percebe que o modo de ser religioso, tal como ele realiza, não é garantia para a conquista de sua hora e vez. Riobaldo, por sua vez, personagem da obra principal Grande sertão: veredas, revela-se essencialmente religioso. Numa de suas falas a respeito da religião ele nos diz: “Por isso é que se carece principalmente de religião: para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que a salvação- da-alma”.117 Mais à frente, em relação a Deus, ele confessa:

115ROSA, João Guimarães. Sagarana. Rio de Janeiro: Nova Fronteira S. A. (Edição Círculo do Livro) 1984. In:

http://blogdopedronelito.blogspot.com/2006/05/as-pessoas-no-morrem-ficam-encantadas.html. Acesso em: 19 mai. 2008, 16:17.39.

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ROSA, João Guimarães. Estas estórias. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001. p. 265.

Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve. Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vai- vem, e a vida é burra. É o aberto perigo das grandes e pequenas horas, não se podendo facilitar – é todos contra os acasos. Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois no fim dá certo.118

Pois bem, as considerações aqui tecidas sobre a importância deste elemento na obra de Rosa não serão nossos guias para a interpretação do conto proposta na segunda parte deste capítulo. Isso porque elegemos o referencial teórico de Heidegger para esta tarefa, o qual se estabelece a partir de um outro horizonte, ou seja, aquele da filosofia. Tais considerações visaram, tão somente, trazer à luz a compreensão que permeia a obra deste escritor além de corroborar a possibilidade de um confronto da literatura roseana com o pensamento de Heidegger. Mas devemos destacar uma outra tonalidade muito importante destes elementos metafísico e religioso, a qual Rosa destaca da seguinte maneira: “a religião é um assunto poético”.119 Ora, a partir desta consideração, somos levados a compreender este âmbito religioso do qual fala o escritor, a partir de um outro prisma. Isso porque agora o abordaremos a partir da poesia que permeia a sua obra. Poesia essa que nasce de um compromisso com a linguagem. Dessa maneira, também somos levados a conduzir nossa compreensão sobre a linguagem para o âmbito que Rosa nomeia de metafísico. Pois bem, este elemento metafísico da linguagem será a próxima questão a ser desenvolvida.

No documento renatafredericosilvaaraujo (páginas 72-74)