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CAPÍTULO III AS TRADIÇÕES CONSTRUTIVAS

4 Os elementos persas

Os sassânidas introduziram algumas novidades na arquitetura iraniana, entre elas as abóbadas monumentais e as cúpulas de pedra e tijolos. Eles também utilizaram materiais tradicionais, como o tijolo de barro cru (adobe) e as técnicas de construção partas. O barro foi o material de construção mais comum nas regiões iranianas, pois estava disponível em todos os locais. Outro elemento muito utilizado, depois do barro, é a brita ou pedrisco, e era usado primariamente nas paredes de fundação, o que chamaríamos hoje de baldrames, no topo dos quais eram construídas as paredes em tijolo (cru, moldado ou cozido). A argamassa de gesso também era muito comum neste período, e a sua rápida solidificação permitia a construção de abóbadas parabólicas, que são características dos sassânidas. Este tipo de abóbada é mais empregado nas salas utilitárias.

Das abóbadas parabólicas deriva os iwāns, que são uma espécie de salão abobadado aberto para um dos lados através de uma grande arcada. Estes dois elementos, o iwān e a câmara com domo são os elementos mais importantes da arquitetura sassânida que sobreviveram no contexto muçulmano.

Fig. III-15 – Elevação do grande arco e da fachada sul do Iwān-e Kesra

Fig. III-16 – Iwān-e Kesra, Ctesiphon, no Iraque em 1932.

São raras as construções utilizando pedras de grandes dimensões, as que foram encontradas, foram realizadas por prisioneiros de guerra ou engenheiros romanos. Os elementos arquitetônicos em pedra, como a base de colunas, os capitéis, os peitoris, as molduras e armações das portas, os nichos das paredes, e outras formas especiais, foram trabalhadas com ferramentas de ferro desde o período aquemênida, talvez sob influência dos pedreiros gregos. O pouco da pedra presente na região induziu a uma utilização freqüente de tijolo cozido. Recoberto de estuque, a parede de tijolo servia de base para as pinturas murais ou para a decoração em relêvo.

A cúpula sobre trompa constitui um grande avanço na arquitetura sassânida. Se a cúpula circular já era conhecida pelos partas e os romanos, a passagem do plano quadrado para o plano circular é dominada pela primeira vez pelos sassânidas. Mais tarde, o elemento de transição introduzido para a mudança de planos, será a base para mais uma inovação, a introdução das muqarnas, que falarei mais adiante.

A madeira, usada como material de construção, ainda hoje é importante como suporte e cobertura na construção do meio rural da arquitetura iraniana. Mas seu predomínio só ocorre onde este material é mais abundante.

Como relação à tipologia dos edifícios, o čahār Ðāq é um dos mais marcantes. Literalmente quer dizer “quatro arcos” e consiste em uma construção quadrada, aberta em cada um dos lados por um grande arco no qual quatro pilares angulares sustentam um cúpula. Este quadrado, com as aberturas laterais sob os arcos ou as abóbodas de tambor constituem em conjunto uma sala de planta cruciforme. Mais tarde esta tipologia evoluirá para vários tipos de edificio, com diversas alternativas : pode ter um corredor sobre três ou quatro lados, os iwans, uma sala perpendicular, e construções adjacentes. O termo se tornou corrente devido a sua presença em muitas ruínas encontradas no Irã. Muitas delas são entretanto uma parte do que sobreviveu de edificios mais complexos.

A origem do čahār Ðāq ainda é desconhecida e objeto de debate. Tem se sugerido que o domo em squinches24, derivado da arquitetura de tijolo de barro do leste do Irã, onde pode ter se desenvolvido a partir do domo simples de tijolo. A evidência arqueológica mais antiga da abóbada em tijolo vem do terceiro ou inicio do segundo milênio a.C. na Mesopotâmia. Alguns estudiosos, como André Godard, sugerem que os núcleos nas ruínas čahār Ðāq, eram templos do fogo, mas não existe nenhuma evidência arqueológica que confirme isto.

Mas não são encontrados sinais de qualquer tipo de construção que se assemelhe ao

čahār Ðāq no Irã antes do período sassânida. A planta cruciforme aparece de maneira

rudimentar nos edificios partas que são influenciados pela arquitetura romana, e o desenvolvimento de estrutura cobertas por domos com pendentes circunscrito no quadrado, foi popular nos séc. II e III na Síria romana, no banhos de Jerash. Se assume que foi no Irã o primeiro a desenvolver o čahār Ðāq, em Fīrūzābād, por volta do século II e III.

24 Squinches – uma estrutura como uma seção abobadada ou sistema de empenas em arco, que se colocam

diagonalmente através do ângulo interior entre duas paredes e fornece uma transição de um quadrado a uma base poligonal ou uma base quase circular na qual se constrói uma abóbada. Na arquitetura islâmica, especialmente na Pérsia, onde pode ter sido criado, este elemento leva a forma de uma sucessão de estalactites. No século V os bizantinos e os sassânidas começaram a usar este elemento, uma abóbada arcada ou meio domo, que era colocada através das arestas. Também é conhecido com pendentes (cada uma das superficies triangulares que resolvem o encontro entre a base circular de uma cúpula e um espaço quadrado, ou permite que um domo elíptico seja coloca sobre uma base retangular).

Após o surgimento do Islão, čahār Ðāq foi associado no Irã muçulmano a quatro principais tipos de edifícios: a mesquita, o mausoléu, o palácio e o jardim-pavilhão. Uma leve semelhança com a planta de um čahār Ðāq rodeado por um ambulatório pode ser observada em três mesquitas do tipo nove-cúpulas que sobreviveram do período abássida no Afeganistão e na Ásia Central. A Masjid-e Noh Gonbad25 construída no sudoeste de Balkh26 é um dos exemplos. As mesquitas baseadas na multiplicação das unidades de domo também podem ser vistas como uma variação do tipo de domo central.

Fig. III-17 – Masjid-e Noh Gonbad Vista externa das ruínas da fachada e do canto norte, a partir do ponto leste.

Fig. III-18 – Masjid-e Noh Gonbad: Entalhe no intradorso do arco.

25 Construída na primeira metade do século IX, é um dos monumentos mais antigos do Islão. Seu nome atual –

Noh Gumbad – se refere as nove cúpulas ou domos que cobriram a estrutura original.

Fig. III-19 – Masjid-e Noh Gonbad: Vista interna.

Mesquitas abobadadas parecem ter sido construídas como mesquitas independentes, conhecidas como mesquita quiosque e podem ser encontradas como čahār Ðāq convertidos nas pequenas vilas.

Fig. III-20 – Vista exterior (sudoeste) com a cúpula do santuário e o muro da qibla. Mesquita da Sexta-feira em Golpayegan, Irã. (construída pelo sultão seldjúcida Mu¬ammad Tapar I, 1105-1118). Considerada um exemplo

de « mesquita quiosque ».

Os exemplos de conversão de čahār Ðāqs em mausoléus é menos comum. A planta do mausoléu dos Samanidas27 em Bukhara é frequentemente comparada como a de um čahār

Ðāq.

Fig. III-21 – Fachada principal do mausoléu.

Fora da Pérsia a forma de čahār Ðāq é encontrada em numerosos mausoléus fatimídas em Aswān e no Cairo.

O mausoléu dos califas abássidas no Cairo, construído em 1242-3, é um exemplo de continuação desta forma de čahār Ðāq com variações. O perfil do domo deste mausoléu é liso, e foi introduzido durante o período fatimída, tanto para domos lisos ou nervurados e permaneceu em uso até o período mameluco. Sua abóbada é sustendada por quatro squinches em dois níveis, que na parte superior representa uma etapa mais adiante na evolução das muqarnas nos squinches, que veremos com mais detalhe no capítulo sobre os elementos arquitetônicos.

Fig. III-22 –Mausoléu dos califas abássidas, Cairo, Egito. Construído em 1242-3. Foto: K.A.C. Creswell, do inicio do século XX.

Quanto a decoração arquitetônica, a técnica de estuque sassânida é diferente da técnica greco-romana: os iranianos utilizavam pedriscos para elaborar as peças que eram colocadas em seguida lado a lado, e cobrem sua decoração com uma policromia não-naturalista (cor de fundo azul, motivos geralmente em vermelho).

Um dos temas característicos da decoração são entrecruzamentos de rinceaux geométricos e florais, misturando-se de maneira cada vez mais complexa ao longo do tempo, com uma diversificação dos motivos.

O estuque é uma tradição que prossegue e se desenvolve no mundo islâmico, tanto no Irã (Nizamabad, Chal Takhan) como na Sïria e na Jordânia (Khirbat al-Mafjar), no Iraque, em Sāmarrā’ e no Cairo.

A mesquita de Ibn Æýlýn