4. ANÁLISE DO PROCESSO DE CONTROLE DO IMOBILIZADO
4.5 COMO OS ELEMENTOS INDIVIDUAIS E INSTITUCIONAIS INFLUENCIAM O
4.5.2 Os elementos presentes na tomada de decisão
A tomada de decisão dos contadores envolve a definição em relação ao desfecho das tarefas pertinentes a cada uma das etapas que fazem parte do processo
de controle do imobilizado. A decisão final em relação a três delas é dicotômica: registra como imobilizado ou registra como despesa; faz provisão de perda ou não faz provisão de perda por impairment; faz a baixa ou mantém no ativo.
Na mensuração e no cálculo da depreciação, a decisão resulta nos valores a serem registrados. Em função disso, durante as entrevistas, os contadores dispendiam maior atenção à descrição do processo e às variáveis utilizadas no julgamento do que em relação à decisão final tomada. Até porque, o julgamento ocorre de forma idêntica, porém, cada situação resulta em uma decisão diferente.
Por exemplo, E01 inicialmente elenca as variáveis analisadas (julgamento): “Então o que se avalia: se o valor é relevante; se o item é um item de imobilizado; se ele não é um item só de substituição; que tem vida útil e que acrescentar valor da máquina, ou se não é o item meramente de manutenção normal embora o valor possa ser elevado ele pode ser de uma manutenção comum.” Depois, exemplifica e deixa claro qual a decisão tomada no exemplo dado: “Como uma correia dentada de um equipamento, embora faça parte da máquina é uma peça de substituição que de três em três meses é trocada, isso é uma manutenção normal.” Nesse caso, é possível identificar claramente como foi conduzido o processo de julgamento e qual foi a decisão tomada, considerando o contexto.
Porém, em outros casos, o contador se restringiu a explicar como ocorre o levantamento das alternativas: “Bom, primeiro, avaliação da vida útil do bem, se ele tem uma vida útil maior que um ano. Avaliação pelo valor do bem, se ele tem um valor considerável, dependendo do tipo do bem. E se ele vai trazer um retorno financeiro pra empresa, se ele tem capacidade de gerar caixa. Basicamente essa é a análise.” Nesse caso, o contador não fornece informações adicionais que permitam identificar qual seria sua decisão em uma situação específica. Esta explanação é importante para explicar por que não há uma decisão associada a cada julgamento anteriormente analisado, além de explicitar o critério de codificação (como decisão somente em casos idênticos ao de E01).
A análise mostra que as decisões dos contadores são influenciadas principalmente pelo uso de facilitadores de decisão, pela legislação e pelas entidades regulamentadoras, como pode ser visto na Tabela 8.
Tabela 8 - Elementos presentes na decisão dos contadores
Categorias Elementos Ocor. Nº cont. Ocor.
Média % Cont. Limitações cognitivas Facilitadores de Decisão 12 8 1,5 29% Limitações informacionais Informação indisponível 1 1 1,0 4% Custo-benefício 10 6 1,7 21% Pressões coercitivas Legislação 16 11 1,5 39% Auditoria 7 6 1,2 21% Detentores de capital 2 2 1,0 7% Gestores 16 9 1,8 32%
Pressões normativas Cons. de contabilidade 1 1 1,0 4%
Pressões miméticas Consultoria 3 2 1,5 7%
Fonte: Elaborado pela autora.
A média de ocorrências de cada elemento é similar, sendo que o elemento da Racionalidade Limitada mais citado foi a limitação cognitiva (facilitador de decisão), por 29% dos contadores. Os facilitadores de decisão incluem o uso de critérios fiscais também para a contabilidade societária e o uso de pré-classificações. E27 simplifica sua decisão em relação às taxas de depreciação ao aplicar as taxas fiscais à parte do imobilizado: “você tem uma parte que é fiscal, que é a parte dos itens menores”.
As pré-classificações definem a decisão dos contadores em alguns casos, como o de E21, que decidiu não registrar nenhuma provisão por perda com base em laudos de outros profissionais: “a gente teve lá em 2011 e aí todo ano a gente solicita para as áreas de engenharia nossa, [...] para os engenheiros se manifestarem se tem alguma coisa que ou o bem perdeu o valor, porque daí a justificaria um impairment, ou enfim, e até então eles nos dizem que não.” A indicação de que não existe a necessidade de provisão por perda envolve aspectos operacionais, porém a avaliação sob o enfoque contábil não pode ser ignorada. Ao aceitar a indicação de terceiros em relação ao resultado do teste de impairment, o contador pode não estar observando aspectos técnicos inerentes à contabilidade, desconhecidos de outros profissionais.
As limitações informacionais decorrem principalmente da análise da relação custo-benefício feita pelos contadores. Por exemplo, E20 realiza um teste de impairment simplificado, em que não são necessárias informações detalhadas em relação ao ativo. Segundo este entrevistado: “A gente faz um teste dividido em duas etapas, primeiro uma etapa simplificada, a gente pega o caixa de cada unidade,
imagina que esse caixa vai se repetir por dez anos, traz o valor presente, um teste duro e simples, se o valor presente do fluxo de caixa dos próximos dez anos foi maior que o ativo imobilizado, passou no teste.” O contador afirma que o teste é aprofundado, caso a primeira etapa indique uma possível perda. A presença da racionalidade fica evidenciada pela aceitação, por parte do contador, de um teste satisfatório, que poderia, eventualmente, não indicar uma perda evidenciada somente com a realização do teste de impairment completo.
Das pressões institucionais, a legislação é a que tem maior influência, em 11 contadores (39%). Expressões como “na Lei 4.320 que tem lá, diz que nós somos obrigados a fazer inventário anual e aí a gente faz inventário anual” (E21) e “optou porque foi obrigado” (E05), evidenciam que o poder de coerção da legislação é determinante na decisão dos contadores, já que deixam claro que só decidiram pela adoção de determinados controles porque a legislação exige. A adoção das IFRS no Brasil ocorreu por imposição das normas que regem a contabilidade; logo, era esperado que essa variável tivesse influência importante nas decisões dos contadores.
A auditoria também é determinante na decisão dos contadores em algumas situações. Ao explicar como determina o valor residual do ativo imobilizado, E 07 afirma: “mas é lógico que a auditoria tem alguma influência. Se eu fizer o meu teste de impairment com o valor diferente da tabela FIPE por exemplo, a auditoria vai dizer que não pode ou vai pedir explicação.”
A pressão por parte dos detentores de capital (neste caso, proprietários) foi identificada nas decisões de apenas 2 contadores. Em ambos os casos, os contadores justificam sua decisão de não realizar o teste de impairment anualmente, por recomendação dos proprietários das organizações. E08 e E05 afirmam, respectivamente: “fizeram uma projeção de fluxo de caixa descontado para 10 anos. Eu entendo, e também os proprietários da empresa, que esse cálculo ainda é válido”; “A empresa é deles, então eles que tem que saber o que é melhor”.
Foi identificada apenas uma ocorrência de pressão normativa e uma de pressão mimética no julgamento dos contadores. A normativa vem do conselho de contabilidade e mostra que o contador toma decisões que não coloquem em risco o seu registro profissional (E22: “responsabilidade técnica é de quem assina né? Então mesmo que a gente não chegue num consenso, quem vai definir ou não, sou eu”). Já a mimética pode ser identificada pelo uso do laudo da consultoria para definição da
vida útil do imobilizado (E27: “Os ativos fixos como prédios, terrenos, esses aí a gente tem uma avaliação do perito, que faz a avaliação, a gente usa o laudo do perito. Ele vai dizer o tempo de vida útil desse bem, desse imóvel”).
A próxima seção compara a influência dos elementos no perfil dos contadores e das organizações em que eles atuam.
4.5.3 Influência dos elementos conforme o perfil do contador e características