3.4. Características físicas e ambientais do município de Matias Cardoso
4.3.2. Os elementos simbólicos da paisagem matiense
O próximo passo objetivado, partindo das nossas observações de campo e com base na metodologia de Lynch (1999) - utilizada por ele para se reconhecer os elementos marcantes e simbólicos da cidade - será aqui adaptada buscando-se identificar estes elementos e sua interação na paisagem natural, construída ou modificada no território de Matias Cardoso.
Ghilard & Duarte (2006) comentam que “autores de diversas disciplinas vêm estudando a presença da paisagem natural nas cidades não só do ponto de vista ecológico, mas principalmente através da experiência humana com estes espaços”. Isto vem de encontro com o que Lynch (1999) descreveu em seu livro como paisagem e percepção. Para Lynch (1999), a
Figura 107. “Vazanteiros” em Matias Cardoso plantando junto as margens do Rio São Francisco.
Fonte: Prefeitura de Matias Cardoso, 2015.
Figura 108. Pescador ribeirinho em Matias Cardoso. Fonte: Portal Giro de Notícias. Disponível em : < http://www.girodenoticias.com/userfiles/image/cc_rio
paisagem é algo que está sempre além do que a vista alcança, impregnada de memórias e significações. Ainda segundo o autor, a imagem da cidade – bem como sua legibilidade – é importante, na medida em que a cidade não deve ser tratada como algo em si mesmo, mas sim como objeto da percepção de seus habitantes e base da memória coletiva e da comunicação entre os grupos que nela habitam.
Em sua metodologia, Lynch identificou que os elementos que as pessoas utilizam para estruturar sua imagem da cidade, podem ser agrupados em cinco grandes tipos: caminhos, limites, bairros, pontos nodais e marcos. Estes cinco elementos serão aqui descritos com sua respectiva análise voltada para compreensão do espaço urbano de Matias Cardoso (mapa 14):
“Os caminhos são canais ao longo dos quais o observador costumeiramente, ocasionalmente, ou potencialmente se move”. (LYNCH, 1999, p. 52) Nesta análise, os caminhos são as vias principais que estruturam o fluxo viário na cidade. Em Matias Cardoso corre um eixo perimetral que vem no sentido norte sul, fazendo a ligação rodoviária entre Jaíba e Porto da Balsa e de lá para Manga. Esse eixo, que no trecho urbano recebe o nome de Avenida Udson Chaves, ainda encontra uma bifurcação que dá acesso aos três distritos do município e aos municípios de Gameleiras, Mato Verde, Monte Azul e Espinosa. O outro eixo viário também se desenvolve no sentido norte sul, e é aquele que dá acesso à área central e à orla da cidade. O acesso para quem vem do sentido de Jaíba é pela Avenida Machado de Assis, e de quem vem no sentido de Manga, pela Avenida Getúlio Vargas. Essas duas vias possuem a maior quantidade de usos comerciais e institucionais na cidade. Para se chegar à orla, o trajeto mais comum por quem vem por estas duas vias é passar pela Praça Cônego Maurício e dali descer por uma das vias perpendiculares à esta, para a Avenida Beira Rio.
“Os limites são elementos lineares constituídos pelas bordas de duas regiões distintas, configurando quebras lineares na continuidade”. (LYNCH, 1999, p. 52). Em Matias Cardoso estes limites são a própria margem do Rio São Francisco, o Morro dos Jesuítas, a Lagoa das Piranhas e duas propriedades rurais incrustadas nas bordas do perímetro urbano.
“Os bairros são partes razoavelmente grandes da cidade na qual o observador “entra”, e que são percebidas como possuindo alguma característica comum, identificadora”. (LYNCH, 1999, p. 52) Em Matias Cardoso existem cinco bairros e o centro. O centro é a área com a maior diversificação de usos da cidade, onde se encontram a maior parte dos comércios, serviços, pensões e restaurantes. Nele estão também os edifícios de valor cultural no município. No centro tem-se como via predominantemente comercial a Avenida Getúlio Vargas. Na Praça Cônego Maurício tem-se comércios, pensões, bares, restaurantes e edifícios
institucionais e religiosos, e também algumas residências. As demais vias são em sua maioria residenciais, e na orla predominam as casas de veraneio. Os demais bairros são residenciais, sendo o bairro Alto Bonito, na zona sul da cidade, onde se encontram as famílias de maior poder aquisitivo, e no Bairro Eldorado, na zona leste, de padrão mais popular. Os bairros Cidade Nova e Gameleiras, por serem cortados pela Rodovia MG-401, possuem alguns comércios e edifícios institucionais ao longo dessa via.
“Os pontos nodais são pontos estratégicos na cidade, onde o observador pode entrar, e que são importantes focos para onde se vai e de onde se vem”. (LYNCH, 1999, p. 52) Em Matias Cardoso, o principal ponto nodal é a rotatória que liga a Rodovia MG-401 - no sentido de quem chega de Jaíba- ao centro e pela sua continuação até Porto da Balsa. Outro ponto nodal é a rotatória em sentido contrário, ou seja, de quem vem de Porto da Balsa, que se liga ao centro e à continuação da MG-401. Por fim, o outro nó dá-se no acesso aos distritos do município.
“Os marcos são elementos pontuais nos quais o observador não entra. Podem ser de diversas escalas, tais como torres, domos, edifícios, esculturas, etc”. (LYNCH, 1999, p. 53). O principal marco dessa paisagem urbana é o Morro dos Jesuítas. O morro é um elemento natural que se destaca nessa paisagem, que deu a denominação ao antigo arraial e ponto de referência para os que chegavam pelo rio ou pelas estradas boiadeiras. Existem dois acessos ao morro: um por trilha entre as matas e suas pedras afloradas e, outro, por uma pequena estrada construída por uma operadora de telefonia para dar manutenção em sua torre locada no alto do morro. A Igreja de Nossa Senhora da Conceição, a Casa dos Padres e o antigo cemitério são os marcos edificados que se destacam nesta comunidade pela sua importância histórica e pelo seu valor arquitetônico, cultural e religioso para essa sociedade. A seguir está representado um mapa (mapa 15) síntese da análise da paisagem urbana de Matias Cardoso, onde procuramos destacar todos os elementos acima identificados:
Com base na metodologia de Lynch (1999), identificamos os elementos que constituem a paisagem urbana matiense, entendendo as relações espaciais que conformam este ambiente urbano. Esta metodologia nos permite enxergar a cidade de cima, onde os elementos marcantes e simbólicos da paisagem urbana foram revelados e inter-relacionados. Neste espaço urbano, se destacam como elementos naturais o rio São Francisco e o Morro dos Jesuítas, que delimitam e direcionam o crescimento urbano da cidade. A delimitação entre o perímetro urbano e rural também direciona os fluxos de crescimento da malha urbana, pois a cidade delimita-se com algumas áreas rurais irrigadas, que são muito mais valorizadas e lucrativas enquanto área rural do que como área urbana, dado o valor agregado dos produtos agrícolas produzidos. Nesse embate, a cidade tende a crescer ocupando o espaço de áreas agrícolas não irrigadas, cujo valor da terra é muito mais inferior do que essas áreas irrigadas. Os marcos edificados e reconhecidos por sua população se encontram todos na área central da cidade e formam o seu núcleo histórico. A forma urbana apresenta características de crescimento linear, acompanhando a Rodovia MG-401, onde, conforme já dissemos anteriormente, entre Matias Cardoso e Porto da Balsa, já começa a configurar-se um processo de suburbanização dessa área rural.
A metodologia de Lynch, embora tenha sido desenvolvida para uma análise urbana, pode nos ajudar também a compreender os elementos da macro paisagem do município de Matias Cardoso. A grande dificuldade aqui é de se ampliar este estudo para o contexto do município, dada a quantidade de elementos que compõem a paisagem do seu território, onde procuraremos relacionar àqueles que são mais significativos do ponto de vista patrimonial (cultural e ambiental), assim como os que estruturam e delimitam o seu espaço territorial (mapa 16).
Os limites territoriais aqui identificados são aqueles que demarcam fortemente a paisagem em suas fronteiras com outros municípios. O principal limite deste território é o rio São Francisco, que faz a demarcação entre os municípios de Matias Cardoso e Manga à Noroeste, e São João das Missões e Itacarambi à Sudoeste. O Rio Verde Grande é o elemento limítrofe desse município com os municípios de Malhada e Iuiú, no Estado da Bahia, e Gameleiras, em Minas Gerais. Os demais limites identificados estão incrustados no interior do território municipal, e são os que delimitam os parques estaduais - áreas de preservação ambiental e reserva legal - que restringem, limitam ou direcionam o crescimento urbano e a expansão da agricultura e pecuária no município.
Os caminhos - que no contexto do território são as estradas rurais de Matias Cardoso - conectam os principais pontos de interesse patrimonial no município e se desenvolvem no
sentido sul / norte, margeando o rio São Francisco em direção à sede do município, o principal ponto nodal deste território. Da sede municipal, se articula uma outra via em sentido à leste, na direção dos outros três distritos, dos parques estaduais e áreas de preservação ambiental.
Os principais marcos desta abordagem municipal são o Quilombo da Lapinha (figura 119), a Ilha da Ressaca (figura 110) e a Lagoa do Cajueiro (figura 111), esta última dentro do parque estadual do mesmo nome, que se encontram na região sul do município. Em sentido norte, os marcos identificados foram a Ilha do Curimatá, que é próxima ao Quilombo de Praia (figura 112) e a área do Rio Verde Grande que forma um alagadiço, conhecida como "Pantanal de Minas", de grande beleza cênica e importância ambiental (figura 113). Da sede do município em direção à leste, os marcos identificados nessa paisagem foram o conjunto arquitetônico do povoado de Lajedão (figura 114), as Grunas (figura 115) e o conjunto formado pelo rio Verde Grande de Minas e suas praias ribeirinhas (figura 116).
Finalizando esta análise, como a metodologia de Lynch é aplicada ao estudo urbano, e como não temos a divisão de "bairros" no contexto do município, e sim regiões, que no caso de Matias Cardoso só são duas regiões territoriais, a do distrito sede e a do distrito de Rio Verde de Minas, optamos por analisar os usos do solo - que são mais diversificados- e que melhor caracterizam as porções deste território. No território matiense foram identificados os usos do solo municipal a partir dos dados levantados pela "Leitura Técnica" da revisão do novo Plano Diretor do município (Consórcio ACADIS Logus / Agrar, 2015, p.67).
Na porção mais a leste, e limitando-se com o Rio Verde, encontram-se os usos mais ligados à agricultura e pecuária, e, nas margens dos dois rios Verde e São Francisco, as atividades extrativistas, a pesca e as plantações nas vazantes dos rios. Os usos ligados às áreas de preservação ambiental possuem grande relevância, pois consistem em quase 49% do município (36% só em áreas de parques estaduais e APA's). Há ainda duas áreas federais destinadas ao assentamento de trabalhadores sem terra. Os assentamentos humanos estão distribuídos de forma bastante dispersa no município, em grandes latifúndios de criação de gado, em áreas de fruticultura, em pequenas aglomerações rurais, em povoados remanescentes quilombolas e em povoados próximos às margens dos rios onde vivem os vazanteiros. As principais aglomerações urbanas, sendo a sede e os três distritos se distribuem na direção leste / oeste do território. No mapa a seguir (mapa 16), podemos compreender melhor como se articulam no território os elementos simbólicos componentes da paisagem municipal matiense que conseguimos identificar.
Com base nas análises aqui empregadas, foi possível identificarmos os elementos que compõem a paisagem urbana, cultural e natural do município de Matias Cardoso. Além da observação do patrimônio material e da paisagem natural, construída ou modificada pelo homem nesse território, é também, de extrema riqueza as manifestações culturais do povo matiense. Por isso, atemo-nos agora na percepção dos atores que constroem a realidade cultural deste município.