2 TRAMAS E NÓS: O PARADOXO DA MEMÓRIA EM REDE
2.3 REDE E “REDES”
2.3.2 Os elos melancólicos da rede – a linha do tempo
A densidade do termo conexões sugere que o homem conectado, em estado permanente de aqui e agora, possa ser capaz de imprimir ao mundo moderno um ritmo diferente. Nesse cenário tratamos da memória edificada na tela, de um conjunto de imagens pessoais que atendem à ordem do monumental, espécie de patrimônio simbólico, que com a ajuda de aplicativos como a “linha do tempo”, lembra a estrutura de um museu. Seriam as redes sociais responsáveis pela construção de um museu de si mesmo? Ou mais um traço do temor da morte e do esquecimento? E quem seria esse construtor ou produtor de lembranças? Um colecionador de imagens? Dos atores da rede Facebook, o que se apreende como informação inicial, no caminho de sua produção memorialista? Supostamente senhor de suas mensagens e construtor de sua linha, cabe ao usuário uma difusão de ideias, a partir de retratos e imagens, que são sucessivamente levados a caminhar pelo site – todo ele erigido sob a lógica da ação de compartilhamento.
Figura 3. Facebook e a linha do tempo (Timeline) Fonte: Google Imagens, 2013.
O aplicativo linha do tempo – que estimula o usuário a narrar a sua “história de vida” – é marco do potencial analítico da rede, corroborando para uma investigação da associação entre memória, identidade e ciberespaço.
A fim de caminhar na direção dessas respostas, vale lembrar as palavras do sociólogo Norbert Elias:
Os homens das sociedades desenvolvidas tendem a considerar como traços naturais inatos as restrições exercidas pelo seu caráter individual, e mediante as quais eles se distinguem em maior ou menor grau de seus semelhantes. No entanto, a maneira como eles mesmos se pautam no curso incansável do tempo dos relógios e dos calendários é um bom exemplo, dentre muitos outros, do papel decisivo que as restrições ligadas à participação numa determinada sociedade desempenham, ao lado das pulsões, geneticamente determinadas, na construção da personalidade de cada um (ELIAS, 1998, p.25).
São inúmeros os meios (mídias) e recursos (ferramentas) adotados pelo homem contemporâneo no propósito de se manter conectado.
A princípio, das ações mais comuns, disponíveis ou ao alcance dos usuários (verbos, também vistos como iniciativas e caminhos para o usuário no trânsito das redes), destacamos: a) Curtir – ação de observar (admirar, examinar) uma página ou uma comunidade do site, comunicando aos “amigos” o objeto (pessoa, coisa ou
tema) observado pelo usuário; b) Compartilhar – ação motriz do site, possibilidade de dividir com os amigos, as imagens, as fotos, as mensagens de cunho pessoal. No cenário em questão, pode-se afirmar que compartilhar é a ação de maior relevância, uma vez que dinamiza a ação comunicativa dos usuários na rede. c) Postar – termo que remete ao envio de mensagens curtas, assim como, links e imagens, meio pelo qual o usuário dialoga com os amigos (membros da mesma rede) e pelo qual lança mão de suas ideias e mensagens; d) Comentar – ação de emitir opinião, interferência direta sobre uma fotografia, imagem ou mensagem, nesse caso, uma mesma foto ou texto, pode ser comentada por vários usuários (amigos) da mesma rede; e) Localizar – ação de rastrear pessoas, amigos ou com potencial de amigos, seguindo as pistas dos que compartilham interesses em comum; f) Criar eventos – ato de começar e nomear um evento, promovendo, convidando e reunindo pessoas em torno de um interesse comum; g) Adicionar – ação de adicionar um amigo-usuário a sua rede8; h) Confirmar – ato de confirmar a adição de mais um amigo a sua rede; i) Outras possibilidades de ação são evidenciadas a partir de: Pergunte algo; Publicar; Classificar (primeiras histórias, mais recentes); Foto-vídeo (enviar foto ou vídeo, usar webcan, criar álbum de fotos).
Objetos, ferramentas e aplicativos também estão ao alcance dos usuários.
Entre eles, destacamos o espaço do Status, onde o usuário da rede descreve o seu momento, respondendo à pergunta: no que você está pensando? Também merecem destaque: o Perfil (espaço em que o usuário se descreve, a partir de um pequeno banco de dados, profissão, instituição em que trabalha, entre outros); a Linha do Tempo (aplicativo dentro da rede, que é própria ao usuário, onde se alojam todas as suas mensagens, tudo o que compartilhou com seus amigos, tudo o que curtiu, todos os convites e solicitações que recebeu, organizados em ordem cronológica);
Jogos (aplicativos ou jogos interativos que podem ser compartilhados com amigos);
Álbuns (arquivo de fotografia e ou imagens que são reunidas e classificadas por um eixo temática); Bate-papo (recurso que permite a troca de mensagens em tempo real, para o qual é possível mostrar-se conectado ou desconectado).
8 Lembramos que a rede, compreendida como um todo, com suas ferramentas e aplicativos, suscita a formação de outras redes, a rede de amigos que se adicionam (própria e comum a um determinado número de usuários) e trafegam mutuamente no universo de suas imagens e mensagens.
Essa leitura apenas aponta para o significado dessas ações, que no traçado subjetivo da interpretação das análises voltarão a aparecer de forma mais aprofundada.
Na soma dessas considerações percebemos a atração que o fenômeno Facebook exerce na sociedade contemporânea, o que nos leva a reconhecer a existência de um mercado de memórias, suscitando o consumo de imagens, a projeção de perfis, o compartilhamento de ideias e a criação de comunidades. Ao longo deste capítulo na junção de tramas e nós procuramos problematizar a existência de uma cultura de memória no site, identificando os objetos de uma possível coleção virtual, bem como a figura de um narrador, ambos permeados de sedução pela imagem (pela dispersão e conforto promovidos por ela), pelo transbordamento melancólico de sentidos, como viajantes e nômades, um movimento social rizomático que aparece sustentado pela ideia de uma ligação permanente – na complexidade do termo conexão.