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Século XIX. Porto Alegre: Universidade/UFRG, 2001; CHALHOUB, Sidney Trabalho, lar e

2.2 Os embates antidivorcistas e os divorcistas

A revista Cláudia apresentou uma pesquisa de opinião, realizada no ano de 1965335, em quatro capitais brasileiras: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Porto Alegre. A pesquisa esmiuçava o pensamento dos casais a respeito da possibilidade ou não do direito do divórcio naquele momento. A pesquisa limitou-se a pesquisar casais que não estivesse em processo de separação, fugindo das opiniões confusas devido aos ressentimentos de um casamento fracassado. O resultado indicou que 48% das entrevistadas, contra 29% dos homens, achavam que o desquite era mau, pois o casamento era indissolúvel. Apontou também que diante da impossibilidade de se casarem novamente, os brasileiros encontravam algumas saídas, como o casamento no exterior, em países como Uruguai e México, o que significava a pretensão de recomeçar após o fracasso do primeiro vínculo conjugal.336 Naquele momento, através desta pesquisa, percebe-se que um grande número de entrevistados se posicionavam contrários ao novo casamento após o desquite, sendo 34% dos homens e 28% das mulheres, enquanto 54% dos homens e 36% das mulheres aceitavam o novo casamento dos desquitados, mesmo havendo filhos da primeira união. A pesquisa noticiada em Cláudia trouxe ao debate a aceitação do divórcio por homens e mulheres.

É possível perceber um discurso em torno da Lei do Divórcio, que indica que “em certo modo a atitude da sociedade vai sancionando o que a lei ainda não

335 DIVÓRCIO SIM ou não. Cláudia, Ano V, n. 46, São Paulo, jul. 1965, p. 36. 336

sancionou,”337 apontando a sociedade como propulsora de mudanças legislativas. A reportagem de 1965 apresenta o divórcio como uma realidade que não cabia mais ser desconsiderada pela legislação brasileira:

À margem das leis, independente às vezes de qualquer ação judicial temos de reconhecer que o divórcio existe como realidade. Realidade afetiva quando o casal vive lado a lado unido apenas por epidérmicos laços de hábito e resignação, imposições sociais ou mesmo interesses materiais. Realidade física quando os corpos se recusam a prestar cumplicidade à ficção sentimental, à triste paródia de amor que os dois encenam para despistar os filhos, os amigos, a sociedade e até a si próprios. Realidade prática quando um convênio, explícito ou tácito, estabelece entre os cônjuges ou em benefício de um deles, o sistema de liberdade tão completa quanto possível, respeitando as aparências, o que em última estância significa a tentativa de viver um duplo faz-de-conta; faz-de-conta que somos um casal normal; faz-de-conta que apesar de casados continuamos solteiros. Realidade bélica, digamos assim, quando mesmo as aparências foram desdenhadas e o antagonismo recíproco domina o quadro através de queixumes, ferroadas, ressentimentos, disputas, acusações e até ocasionais agressões físicas. E em muitos casos, todos esses aspectos se unem para configurar uma realidade total, uma situação de verdadeiro divórcio no seio de um casamento que legalmente, perdura.338

Assim, trazendo a questão ao debate e mostrando que, apesar de não existir uma lei que possibilitasse o divórcio, os casais permaneciam casados por uma imposição legal, mesmo que em termos de sentimento já não houvesse mais casamento. Independente da lei, novos casais se formavam: mulheres e homens desquitados, que, diante da impossibilidade de se unirem oficialmente após o desquite, enfrentavam inúmeras dificuldades de ordem legal, moral e psicológica.

As opiniões divergiam quanto à necessidade ou não da instituição do divórcio no Brasil. Os antidivorcistas impunham vários empecilhos à implantação deste direito. Afirmavam que somente iriam atender às camadas médias e altas da sociedade, tendo

337 Idem, p. 36. 338

em vista o alto custo do processo. Contra esta afirmação, Carmem da Silva tece as seguintes considerações:

Já as pessoas com melhor nível cultural e menos deformação emocional não aceitam a frustração, como norma, insurgem-se questionam, tentam métodos – adequados ou não – para chegar a um relacionamento mais satisfatório ou, se vêem que isto é impossível, muitas vezes preferem a separação como o menor dos males, a saída menos lesiva para o próprio equilíbrio. Aliás, é esse o grupo sócio- econômico que predomina nas estatísticas de desquite, o que leva os antidivorcistas a afirmarem que “divórcio é preocupação burguesa”. Sem dúvida: vitaminas e antibióticos também – assim como alimentação sadia , higiene, conforto, cultura e mil outras coisas. Se também o divórcio se transforma em privilégio, o mal não é do divórcio e sim... dos privilégios. 339

Na edição de agosto de 1977, Carmem da Silva trouxe a discussão, na reportagem “Divórcio – um caminho para a maturidade”. Após a implantação do direito ao divórcio, novamente repisa suas considerações contrárias ao discurso dos antidivorcistas, que afirmava ser este direito apenas para os ricos:

E agora que é fato consumado, por favor não nos tornem a martelar os ouvidos com aqueles resmungos sediços, disfarçados de “argumentos objetivos”, que já nos cansaram demais a paciência. “Não interessa aos pobres, divórcio é só para os ricos, o povo quer é feijão”. Ora, vejam quanto impulso humanitário surgiu de repente quanta preocupação social em gente que até então se mostrara insensível!340.

No mês seguinte, Carmem da Silva novamente coloca lado a lado os argumentos de divorcistas e antidivorcistas na reportagem “Divórcio: mais um desafio para a mulher”, Diziam os divorcistas a favor deste direito:

Os divorcistas esgrimiram, sobretudo, a necessidade de preservar a necessidade a dignidade feminina e a imagem social da mulher livrando da pecha de concubina a desquitada que se une a um novo

339 SILVA, Carmem da. Cláudia, A crise do casamento. Ano XVI, n. 190, jul. 1977, p. 141-143.

340 SILVA, Carmem da. Divórcio – um caminho para a maturidade. Cláudia, Ano XVI, n. 191, ago. 1977,

companheiro. [...] Ficou mais uma vez evidenciado que os rótulos e situações que são lesivos a mulher em nada prejudicam o homem.341

Já os antidivorcistas apelavam para aspectos religiosos, visando à proteção das mulheres:

Os antidivorcistas, por sua vez, além das objeções de índole religiosa, que só impressionam os mais crentes (...) batiam na tecla da proteção: garantir a mulher e os filhos contra o abandono, contra o desamparo decorrente de um casamento que se desfaz. Passemos por alto a fantasiosa noção de que sem o divórcio não há casamento desfeitos ou famílias abandonadas: reparemos apenas na insistência em associar a mulher e o menor no mesmo plano de dependência e desvalidez, em reclamar proteção especial para ela numa inequívoca admissão de que a posição feminina dentro do lar, da família, da sociedade, da estrutura econômica, é sempre a mais fraca e também mais vulnerável342.

Buscando perceber a polêmica em torno da Lei do Divórcio na cidade de Florianópolis, Juliana Miranda da Silva, em seu trabalho de conclusão de curso343, analisa os discursos presentes no jornal O Estado, procurando perceber como divorcistas e antidivorcistas procuraram legitimar seus posicionamentos sobre o direito, mostrando que o debate em nível nacional também repercutiu na capital catarinense. Afirma que as opiniões de representantes eclesiásticos e políticos foram retratados pelo periódico não somente nas páginas dos assuntos políticos, mas também através de entrevistas, charges, enquete, cartas, crônicas e até em colunas sociais e humorísticas344. É importante registrar a carta enviada pelo senador Nelson Carneiro ao jornal catarinense, agradecendo a cobertura dada pela imprensa local.345 O que se denota é que

341 SILVA, Carmem da. Divórcio: mais um desafio para a mulher. Cláudia, Ano XVI, n. 192, set. 1977, p.

194.

342 Idem, p. 194.

343 SILVA, Juliana Miranda da. A aprovação da lei do divórcio sob a ótica do jornal O Estado (1975-

1979). 57 f. Monografia (Trabalho de Conclusão de Curso em História), Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2006.

344 SILVA, J. M. da.Op. Cit., p. 14.

345 “Abraço os ilustres jornalistas que integram a equipe de O Estado, felicitando-os pela valiosa

colaboração na luta em favor de melhor e mais justa solução para os desajustados conjugais irremediáveis..” Idem, p. 14.

as discussões na imprensa brasileira como um todo auxiliaram na tramitação da lei que concedeu o divórcio.

Apesar de todos os discursos em torno dos dogmas religiosos utilizados pelos antidivorcistas, uma pesquisa na época revelou que a maioria dos católicos se mostraram favoráveis à instituição do divórcio, mostrando que tais argumentos eram desconsiderados até mesmo pelos católicos:

Entretanto, pesquisas realizadas pelo Instituto Brasileiro de Opinião Publica (IBOPE) revelaram tendências pró-divorcistas; tomando por critério a religião, a pesquisa revelou que 65% das pessoas católicas mostraram-se favoráveis ao divorcio, e mesmo índice entre os espíritas, sendo contrários no índice os umbandistas (60%) e os protestantes (59%) – um duro golpe nos conservadores e católicos, sem duvida.346

A historiadora Marlene de Fáveri, ao discutir o tema, afirma que os divorcistas também se utilizavam de discursos conservadores, que tinham como objetivo a manutenção da família, já que as mulheres desquitadas estavam à margem da sociedade, pois não poderiam se casar novamente. Conforme esta autora, apesar do discurso divorcista de Nelson Carneiro, este jurista legislava em favor da família e não propriamente em favor das mulheres, pois, segundo ele, as desquitadas estariam desamparadas socialmente, pois não tinham ao seu lado uma figura masculina. Além disso, sem o divórcio as mulheres sozinhas acabariam por unir-se a outros homens sem, contudo, possuírem a proteção da instituição do casamento:

[...] “sozinha no mundo, afeiçoa-se a outro homem. A lei não lhe permite união legal. Encontra-se furtivamente com aquele que acredita ser o seu derradeiro [...]”, e, vêm outros, porque aquele que se vai já não esta preso (pelo casamento legal), e então “o desquite a empurra para o desfiladeiro”, perdida e sem voltar. Já “No divorcio”, diz ele, “a

346

mulher divorciada pode recasar-se legalmente. Será esposa. Não se lhe imporá a cruz dos pecados do marido. E terá a proteção que a lei assegura a esposa, na hora do desamparo e da viuvez. E se não a impede de passar voluntariamente de mão em mão, também não a empurra para essa desventura”. 347

Com a lei do divórcio em vigor, acreditavam (juízes e advogados) que houvesse uma grande procura dos casais desquitados pelo divórcio, em busca do rompimento definitivo com seus antigos cônjuges. A revista Cláudia mostrou, na nota “Divórcio em Baixa,” que a procura por este direito não foi como se esperava nas principais cidades do país:

A lei do divórcio não foi, pelo menos em São Paulo e Rio, o sucesso que muita gente esperasse que fosse: até agora quase cinco meses após sua instituição no país, os pedidos em cada uma das varas da família no foro paulista e carioca não chegaram mesmo a um por dia (média), para a surpresa de juízes e advogados que esperavam que nessas alturas 30 por cento dos 200.000 desquitados já tivessem entrado com pedido de divórcio. As causas apontadas são muitas, mas a principal seria mesmo o alto custo dos serviços profissionais dos advogados. Para se ter uma idéia como preço alto corre por conta dos advogados mesmo, o fórum só cobra taxas, que não chegam a Cr$ 250,00. Além disso, outro fator seria o artigo 14 que reza que qualquer pessoa só pode se divorciar uma vez. Tudo isso dificulta a decisão. E já há quem afirme que esse artigo deve cair logo, logo, uma vez que o seu Ibope não anda lá muito alto. Daí quem sabe a coisa mude...348